Portugal e a Europa
Nos anos 70 e 80, ninguém poderia antecipar a grande transformação que se aproximava. A derrocada do bloco comunista alterou o mundo de ontem e as tecnologias digitais produziram uma ruptura económica cujas consequências não são ainda totalmente compreensíveis. Portugal viveu ainda mais intensamente este período, pois ele coincidiu com o colapso do império português.
Passaram quatro décadas e Portugal soube reinventar-se. Hoje, o País é membro da maior parceria política do mundo, a União Europeia, por sua vez ancorada numa firme aliança com a hiperpotência americana. Os países europeus (e, por extensão, Portugal) não enfrentam qualquer ameaça existencial visível, sendo esta uma situação inédita. Há crises nas fronteiras: o fracasso das primaveras árabes acentuou a instabilidade no Médio Oriente e agravou um onda de refugiados que está a criar situações humanitárias difíceis de resolver; milhares de pessoas tentam atravessar o Mediterrâneo em frágeis embarcações que podem virar-se ao mínimo movimento de pânico a bordo, outros milhares chegam por terra; entretanto, a guerra civil numa região separatista da Ucrânia ameaça criar um Estado falhado ou desencadear perigosas paixões nacionalistas.
A recente crise financeira atingiu duramente a UE, Portugal foi um dos países mais afectados, e, no entanto, os efeitos políticos não se comparam ao que aconteceu, por exemplo, na década de 30 do século passado. Alimentados pelo descontentamento, há movimentos populistas de extrema-direita ou de extrema-esquerda em vários países, mas à excepção do Syriza, na Grécia, nenhum deles ultrapassa um quinto do eleitorado. O êxito político da União Europeia é negado por muitos observadores, mas a tese da irrelevância europeia não resiste ao confronto com os factos. Como é que pode ser um fracasso uma união sem inimigos externos ou ameaças visíveis? Sendo uma zona de paz e de prosperidade sem ambições imperiais, a Europa de hoje encontra-se de novo num período de mudança rápida e a opinião pública precisa de perceber que os próximos 40 anos de Portugal dependem da forma como vamos participar nessa mudança.


