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Todos conhecemos restaurantes que têm, de uma forma persistente, longas filas (às vezes todos os dias da semana). Esse fenómeno traduz um excesso de procura face à oferta e implica, à partida, que o restaurante esteja a perder lucro, pois poderia servir o mesmo número de clientes a um preço mais alto, ou, alternativamente, servir um maior número de clientes (sem alterar o preço) se optasse por expandir. Há, no entanto, alguns restaurantes que claramente escolheram não pôr em prática nenhuma dessas opções, e que têm há vários anos longas filas. Trata-se de uma peculiaridade curiosa deste tipo de negócio. Repare-se que seria o mesmo do que termos persistentemente dificuldade em comprar um determinado bem de consumo, sem que a empresa que o produz optasse por aumentar o preço ou a quantidade produzida.

 

Mas poderá este comportamento ser racional? Talvez, se o restaurante retirar algum benefício deste excesso de procura ou, alternativamente, se o aumento do preço ou a expansão do espaço puderem provocar uma queda abrupta na procura.

 

Uma possibilidade é que os clientes “fixem” a sua noção de preço-justo ao preço inicial que lhes é apresentado, o que poderia gerar um êxodo de clientes se os preços fossem aumentados, mesmo que gradualmente.

 

Outra hipótese é que o nível de procura esteja dependente do nível original de oferta, isto é, da dimensão inicial do restaurante. Este fenómeno pode ocorrer por vários motivos, seja porque um restaurante que opte por aumentar a lotação pode perder a sua aura de autenticidade, e até qualidade (criando a percepção de um serviço indiferenciado), seja porque a frequência de um restaurante pequeno, e portanto de serventia limitada, confere uma sensação de exclusividade a clientes preocupados com a diferenciação face aos demais.

 

Um outro conjunto de soluções é aventado por Gary Becker (prémio o Nobel em Economia em 1992), que põe a hipótese de que “a procura individual seja positivamente relacionada com a procura de outros consumidores”, uma vez que a subida desta faz aumentar a percepção do valor do restaurante em questão, seja por torná-lo popular, seja por atestar a sua qualidade (ou ainda, acrescentaria, por fazer aumentar a probabilidade de os alimentos serem frescos). Becker vai mais longe e sugere uma hipótese ainda mais heterodoxa: que a procura possa estar positivamente relacionada com o próprio excesso de procura (neste caso: a dimensão da fila), designadamente com a utilidade que a permanência na fila possa conferir. Por um lado, a espera em fila pode ser útil por aumentar o benefício da exclusividade, seja pela possibilidade extra para os clientes de se mostrarem em determinado restaurante, seja pelo facto de a necessidade de esperar ajudar a conferir uma aura de exclusividade que está normalmente associada a preços elevados. Por outro lado, a mesma espera em fila possibilita a camaradagem entre quem espera, o que pode ser agradável, por exemplo, para clientes do mesmo extracto social ou com outro tipo de afinidades pré-definidas. Uma outra possibilidade ainda é que o excesso de procura seja directamente benéfica para o restaurante, na medida em que ajuda a alimentar a publicidade (“boca-a-boca”) e, consequentemente, a aumentar a procura agregada.

 

Qualquer destas explicações – ou mesmo o conjunto delas – é provavelmente curta. Mas isso, acho, só torna o fenómeno mais curioso.


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