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Delito de Opinião

"Populares", repórteres e teleteóricos

Pedro Correia, 22.08.25

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Meio Portugal continua a arder: cerca de 275 mil hectares calcinados, correspondentes a quase 3% do território nacional.

Vejo imagens do incêndio na Gardunha com um nó na garganta. Imagens que me são familiares desde a infância: Alpedrinha, Castelo Novo, Alcongosta, Souto da Casa, São Vicente da Beira. Dez aldeias do concelho do Fundão ameaçadas. A impotência das pessoas (que alguns repórteres improvisados designam "populares", com indisfarçável desdém classista) perante o macabro anel de fogo que a todo o momento ameaça destruir-lhes os parcos haveres reunidos em décadas de esforço ininterrupto.

No conforto dos estúdios climatizados, legiões de teleteóricos debitam soluções mágicas para este terror que nos assombra Verão após Verão: de repente, os tudólogos tornam-se também especialistas no combate aos incêndios agrícolas e florestais. Enquanto o vedetismo mais desbragado floresce graças ao drama: há os "enviados especiais aos fogos" com direito a apelido em caixa alta, ao encontro dos "populares" que falam português com cerrada pronúncia beirã, levando alguns editores televisivos a legendar o que dizem.

Sinal, entre tantos outros, de que existem dois países dentro do País.

 

Oiço com atenção os repórteres em diferentes canais. Há uma enorme diferença entre os que aterram lá de pára-quedas sem nada saberem e aqueles que têm ligação à terra, à província e à escassa gente que ainda lá mora. Os primeiros nunca ouviram falar num aceiro, numa cumeada, em corta-fogos, em máquinas de arrasto. Não distinguem giesta de tojo nem carvalho de castanheiro. Os segundos sabem tudo isto. E valorizam a intervenção dos aviões Fire Boss no combate ao inferno das chamas no mato deixado ao abandono - anfíbios e versáteis, aterram em pistas curtas, são mais úteis nestas operações do que os Canadairs de que tanto se fala a propósito ou despropósito.

Se há jornalistas que merecem Prémio Gazeta são estes profissionais da reportagem pura e dura que trabalham com conhecimento e sensibilidade, sem horários e quase sem descanso. Tantas vezes esquecidos nas promoções internas das empresas onde trabalham. Eles são a "malta da ferrugem", operários do ofício de relatar notícias.

Nenhum deles se imagina vedeta: vedetas são os que aproveitam estas tragédias para exibições de obsceno narcisismo defronte das câmaras. Nenhum deles se imagina herói: heróis são aqueles portugueses em desespero a quem eles dão nome e voz.

 

Leitura complementar:

O pesadelo (17 de Setembro de 2024)

"La culpa es del eucalipto". Bulos y medias verdades que avivan la tragedia de los incendios. (Maria Guerrero, El Confidencial)

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