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Políticas de identidade: supremacismo ignorante

por Tiago Mota Saraiva, em 29.07.19

imagem via facebook de Ricardo M. Santos

Fernanda Câncio pode-se enganar? Claro que sim.
O que se sublinha são dois erros de facto. Ninguém, à excepção de Câncio, atribui a Lénine uma das mais emblemáticas frases do Manifesto do Partido Comunista - "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" - e poucos serão os que confundem uma categoria de classe social - proletário - com identidade.
O problema destes erros é que Câncio tem escrito frequentemente sobre o comunismo e comunistas a partir de uma posição de superioridade intelectual que não lhe permite errar naquilo que são as mais básicas noções sobre o tema.

Ora, a sua resposta ao coro de críticas coloca a questão noutro plano.
Câncio não entende que deva pedir desculpas públicas mas sim atacar quem se indignou com os seus erros boçais. Tal como outros que vão ocupando os vários "lugares da fala", Câncio pensa que a medida do seu sucesso é o número de partilhas e "followers". Os que a criticam devem ser tratados como autoritários, burros ou machistas de modo a obter a solidariedade militante - quanto mais não seja pelo silêncio - das várias "identidades" em que Câncio diz estar inscrita. Na ansia de visibilidade o que importa é publicar textos sensacionalistas e estridentes na certeza que o erro será esquecido assim que conseguir espoletar nova polémica com muitas visualizações.
Noutros tempos, Câncio estaria protegida por bons revisores de texto que não deixariam passar estes erros gritantes mas nesta época de consumo rápido rareiam proletários para esconder a ignorância das elites.


24 comentários

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De Vento a 29.07.2019 às 11:56

O problema do moderno feminismo é precisamente querer identificar situações que possam tornar suas supostas causas em causas verdadeiramente identitárias.
O feminismo não se bate por um ideal de mulher ou pela mulher e com as mulheres, mas, muitas vezes contra as mulheres, ainda que em nome destas, por qualquer coisa e com qualquer coisa que transforme esse não sei quê em algo que se pareça com ideal.
Nos fenómenos atípicos é comum confundir-se identidade procurando identidade com o que claramente se identifica. Ao pretender criar-se uma identidade a partir do que é comum revela-se que o problema de fundo é uma questão de identidade.
Isto é matéria de psicanálise.

Por outro lado, o feminismo é um conceito de poder que assume por qualquer preço o valor da posse. Não se estranhe, portanto, que em nome desse sentimento de posse se leve a efeito um crime contra a Vida e contra um ser indefeso. Leva isto por nome aborto.
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De Anónimo a 29.07.2019 às 12:02

Fernanda Câncio é fruto do seu próprio tempo, nada mais. E o seu tempo é marcado pela desvalorização do conhecimento livresco, da cultura dita geral, trocados por um linguarejar pejado de jargões económicos e sociológicos mais um punhado de citações à la carte adaptáveis a qualquer circunstância, sendo que se realmente não o forem, então adapta-se a circunstância à citação e pronto. Uma espécie de Admirável Mundo Novo ao som dos concertos para violino de Chopin.

As Câncios desta vida (e os Câncios também que não quero ser acusado de sexismo e, realmente, a imbecilidade não escolhe géneros) gostam de exibir a roupagem de uma certa mundividência recheada de viagens e experiências e coisas adquiridas transmutadas em cultura pela gloriosa alquimia do estalar de dedos e, claro está, muitas leituras. O problema está no singelo facto de o rei ir nu. Então vai a ver-se e a leitura não foi de um livro mas de uma frase acima ou abaixo de não sei que busto embigodado. E apesar de sermos todos muito liberais e defensores das praias do meco desta vida, o nudismo revela sempre umas quantas misérias que se preferem escondidas.
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De Luís Lavoura a 29.07.2019 às 15:33

O problema está no singelo facto de o rei ir nu.

Se a Fernanda Cêncio fôr nua, eu quero ver, ...

o nudismo revela sempre umas quantas misérias que se preferem escondidas

... nem que seja só para ver as misérias que ela prefere escondidas.
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De rui alberto a 29.07.2019 às 17:24

Bravo! Muito bem dito.
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De PNFerreira a 29.07.2019 às 12:05

Por aselhice publiquei o comentário anterior sem ler nem me identificar.

PNFerreira
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De Cristina M. a 29.07.2019 às 12:16

é uma arrogante despropositada, a Câncio; colada para sempre ao amado Sócrates (pelo menos para quem não fuma brocas só no Lux).
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De Anónimo a 29.07.2019 às 12:25

‘Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.’

Já vi a frase atribuída a Lenine, e já vi alguém muito afoito a corrigir, dizendo que era de Engels.

Ao que parece é de Bertolt Brecht.

Isabel
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De Cristina Torrão a 30.07.2019 às 12:22

Também acho que qualquer um pode dar um erro destes, Isabel, com frases tão conhecidas e que todos sabem repetir.

Sobre a frase que despoletou toda esta polémica, apenas sei que era o mote da antiga RDA: "Proletarier aller Länder, vereinigt Euch!"
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De J. a 30.07.2019 às 14:35

" despoletou". Esta palavra confunde-me. No meu tempo de tropa se depoletasse (isto é, tirasse a espoleta) a uma bomba, ela ficava morta e sem qualquer actividade ou possibilidade de explodir. Agora parece que significa o contrário!!!! Como as coisas mudam!
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De Cristina Torrão a 30.07.2019 às 18:23

Caro J., de facto a palavra é polémica, mas está registada nos dicionários também com o significado de "fazer surgir ou desencadear" (ex.: despoletar comportamentos preventivos). Pode tratar-se de um caso que se institucionalizou por hábito.

Aqui vai o que o dicionário online Priberam diz sobre o assunto:

«despoletar [Definição]

Que palavra deve substituir despoletar no sentido de "no encadeamento de uma acção, surge uma outra sequência". Basicamente, uma tradução capaz para o termo trigger em inglês no domínio da informática.
Nuno Ferreira (Portugal)

A palavra despoletar encontra-se registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e noutros dicionários de português, como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa / Editorial Verbo, 2001), o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (Lisboa: Círculo de Leitores, 2002) ou o Grande Dicionário Língua Portuguesa (Porto: Porto Editora, 2004), com os significados i) "tirar a espoleta, impossibilitando a explosão" (ex.: despoletar uma granada), ii) "anular, travar" (ex.: despoletar um movimento de contestação) e iii) "fazer surgir ou desencadear" (ex.: despoletar comportamentos preventivos).

Este último uso é bastante generalizado, mas contestado por alguns autores, que alegam tratar-se de um emprego contrário ao sentido original da palavra. Uma vez que a espoleta é peça que desencadeia a explosão, removê-la implica impossibilitar a explosão, como indicam os sentidos i) e ii) de despoletar acima.

Poderá tratar-se de uma acepção em que o prefixo des- tem um valor protético, isto é, não acrescenta nenhum valor semântico à palavra a que se apõe, como acontece nalgumas outras palavras, como destrocar.

A função de um dicionário passa por uma descrição dos usos da língua, devendo basear-se essencialmente em factos linguísticos, apresentando-os o mais objectivamente possível. Em relação às definições da palavra despoletar, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) veicula os significados que ela apresenta na língua.

Se preferir contornar a controvérsia, pode utilizar neste caso, e com o mesmo sentido de iii), os verbos deflagrar ou desencadear.

Ver também: prefixos protéticos»

https://www.flip.pt/Duvidas-Linguisticas/Duvida-Linguistica/DID/959

Resumindo: apesar de, em princípio, significar o contrário, aceita-se usar esta palavra (não é erro) com o significado que usei.

Pedro Mendes, 01/06/2005
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De Cristina Torrão a 30.07.2019 às 18:27

Peço desculpa, algo correu mal com o meu comentário. Pedro Mendes é o autor do texto sobre a dúvida linguística no dicionário Priberam.

A frase: "Resumindo: apesar de, em princípio, significar o contrário, aceita-se usar esta palavra (não é erro) com o significado que usei" é de minha autoria.

Clicando no link que dei, pode ler o texto de Pedro Mendes na versão original.
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De Anónimo a 30.07.2019 às 19:06

A Cristina tramou-me.

Há meses, quando alertada para a questão, depois do périplo pelos dicionários achei que tinha resolvido a coisa, aceitando tratar-se de erro e substituindo 'despoletar' por 'detonar' (de significado exacto do que pretendia), agora veio-me criar minhoquinhas. ;)

Isabel




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De Maia Otelo a 30.07.2019 às 21:40

Não existe minhoquice nenhuma.
Espoletar=detonar a espoleta, desencadear
Despoletar=impedir a espoleta de funcionar, impedir o desencadeamento.
Socorrro-me de Assis Pacheco:
«Mas. Sobrevinha o sono.
E porém. Último
entre todos adormecia
porque. Aqui entra
uma explicação. Ao
fundo do quarto
comum estava posta
poisada. Isto é. Dentro
da bota uma granada
ESPOLETADA
Ou seja.
Pronta a mandar hein?
tudo para as malvas»

Não fala, o poema, em granada "despoletada"... obviamente.
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De Cristina Torrão a 31.07.2019 às 12:20

Isabel, pode continuar a usar 'detonar', ou pode optar por 'espoletar'.
'Despoletar', neste sentido, é uma palavra polémica, embora os dicionários não a considerem erro. Mas quem não se sentir bem, tem alternativa :-)
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De J. a 30.07.2019 às 23:04

Cristina:
Sinto-me esmagado com o seu saber.
Acho que tem razão pois toda a gente usa despoletar nesse sentido (eu é que apanhei cá uns traumatismos na tropa...). A língua não é lógica e há muitos exemplos em que se devia dizer ao contrário do que se diz. Eu detesto o Acordo Ortográfico mas, ao contrário de muitos que o criticam, não é pelas suas incoerências. Porque a língua é incoerente e há inúmeros exemplos de incoerências na actual forma de escrever (sem o tal acordo). Tenho lido artigos exibindo piadas devido às incoerências do Acordo mas é fácil escrever piadas com dislates sem o Acordo. As línguas não funcionam como a Matemática.
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De Cristina Torrão a 31.07.2019 às 12:25

Não se sinta esmagado, caro J. Neste caso, a sabedoria não é minha, limitei-me a citar o dicionário.

Sabia da polémica à volta desta palavra, já tinha participado numa discussão do género no facebook. Mas confesso que, quando a escrevi no comentário acima, não me lembrei disso. É a força do hábito. E de não saber nada de armas ;-)
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De J. a 31.07.2019 às 14:19

" E de não saber nada de armas ;-)" Ainda bem.
E já agora, que acha do que eu digo sobre o Acordo Ortográfico? Gostava de saber a opinião dos entendidos.
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De Cristina Torrão a 31.07.2019 às 18:59

Caro J., também dispensava o AO, mas não o detesto nem combato.

Não queria ir mais longe, porque este blogue é contra o AO, posição que muito respeito. Além disso, sinto-me grata por ter o privilégio de aqui poder escrever.

Mas, para usar as suas palavras, "as línguas não funcionam como a Matemática". Tem de haver regras, claro, mas as línguas não são algo natural, são inventadas por nós, são um instrumento que usamos para comunicar, são, no fundo, códigos. E dizer que isto ou aquilo é erro, é apenas uma convenção.

Enfim, digamos que sou bastante flexível, no que respeita a línguas.
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De J. a 31.07.2019 às 19:23

Agradeço a sua opinião.
Se calhar "detesto o Acordo" é demasiado forte. Talvez seja preferível "não lhe ligo nenhuma e acho uma tolice".
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De Anónimo a 30.07.2019 às 18:48

É verdade. Todos usámos o termo erradamente. Todos, ou quase todos. Não passei pela tropa, por isso usei-o até perceber o real significado. Descobri há relativamente pouco tempo, creio que ao ler o 'Por Amor à Língua', de Manuel Monteiro. Aliás, recomendo. O autor, além de ter muito a ensinar, tem óptimo sentido de humor.

Vivendo e aprendendo. :)

Isabel



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De Carlos Brandão a 29.07.2019 às 12:46

Que F. Câncio atribua a frase "Proletários de todo o mundo, uni-vos!" a Lenine, custa-me a acreditar.
Erros toda a gente dá, é certo. Este denota falta de leitura. Hoje tende-se a escrever muito e a ler pouquíssimo. É assim no mundo académico: interessa mais o número de publicações (o que eles chamam papers) do que a sua qualidade. Aliás avaliar a qualidade custa porque é preciso lê-los e percebê-los. Por isso usam-se índices que têm a ver com o número de publicações e (pretensamente) com a qualidade da revista em que saiu. É como na escola secundária: ler coisas difíceis não, bastam os resumos. Os índices servem para resumir o que é difícil de apreender. A nossa época caracteriza-se, nestas actividades, por dar prioridade à quantidade em vez de ser à qualidade. Muito do que se escreve (os papers) serve para acumular pó nas estantes. Há quem assuma (em júris de promoção, por exemplo): se está no revista de qualidade, é bom.
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De Anónimo a 29.07.2019 às 16:32

câncio : jornalixo "lumpen" ( premeditada redundância ).
O triunfante, oficialmente aplaudido e subsidiado analfabetismo funcional no "torrâozinho de açúcar"...
Ao lado deste espécime, Palma Cavalão e/ou Melchior seriam candidatos ao "Pulitzer".


JSP
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De Anónimo a 29.07.2019 às 17:07

O que acho de mais notável é a resposta dela. Se tem de pagar uma multa? Não, fica só de ignorante entre quem lê isto e tinha dúvidas sobre a autora.
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De Anonimus a 29.07.2019 às 18:53

Melhor que a ignorância (que se corrige) é a estupidez. Para essa não há remédio.

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