Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Podia ser um forcado

Paulo Sousa, 08.12.23

Há longos anos, durante um daqueles serões estivais em que depois de jantar se ia para a rua jogar às escondidas, encontrei-me com um amigo que junto à estrema de uma vinha que ficava por trás do conjunto de casas onde morávamos. Como é sabido, a escuridão ajuda quem se esconde e complica a vida ao que procura. Podíamos ali ficar várias horas que nunca nos iriam encontrar. O jogo só acabaria quando perdêssemos a paciência e nos aproximássemos do poste do candeeiro onde nos podíamos “salvar”. Aquela ronda tinha começado há pouco tempo e ficamos ali numa conversa sussurrada. Onde estávamos havia um réstia de claridade que só se extinguia junto ao chão. A estrema da vinha era a fronteira do nosso relativo conforto e estávamos tão bem camuflados que não me passava pela cabeça avançar para o seu interior, naquele breu absoluto.

De repente, ouvíamos um ruído irregular e mal disfarçado no interior da vinha. Ficamos imóveis. Provavelmente trocamos um olhar para avaliar a reacção do outro, mas a escuridão não nos permitiu chegar a nenhuma conclusão. Após uns instantes em que regressamos ao silêncio anterior, ouvimos um novo rastolhar vindo da mesma direcção. Não podia ser nenhum dos nossos companheiros. Ninguém a jogar às escondidas escolheria tais trevas para se esconder, e se fosse para se esconder não arrastaria os pés daquela maneira.

O sangue gelou-me nas veias. Que raio de ideia fora aquela de ir para ali àquela hora!

- Quem é que tá ai? – Perguntou o meu companheiro, num tom de voz em que o desafio conseguia disfarçar o temor.

Não houve resposta. Pensei para mim que àquela hora devia estar a dar uma qualquer treta aborrecida na televisão, mas que certamente era preferível de assistir a estar ali, com o sangue gelado e o coração a mil.

Uns segundos mais tarde, o ruído que nos tinha interrompido a conversa, repetiu-se. Ele levantou-se e eu segui-lhe o exemplo. De pé, a ténue claridade vinda da civilização iluminou-nos as costas. Pensei que que íamos sair dali. Olhamos um para o outro e desta vez consegui ver-lhe uma expressão que já lhe conhecia de outros momentos decisivos. Era com aquela cara que ele corria para marcar um penalty ou acelerava de bicicleta nas descidas. Dobrava a língua, trincando-a com força enquanto engelhava o nariz. Aquela era a cara com que este meu amigo se apresentava nos combates.

- Quem é que tá aí, caralho?

Como resposta, o ruído repetiu-se. No instante seguinte, e perante a minha estupefacção, este o meu amigo desatou a correu na última direcção que eu escolheria. Com a cara de combate, investiu com tudo. A sua corrida por entre as carreiras da vinha, desencadeou um novo agitar na zona de onde vinha aquela atentação. Ouviu-se um embate surdo entre corpos, seguido do assustado barrego de uma ovelha que ali ceava.

O mistério ficou logo esclarecido, assim como a confirmação daquilo que eu já sabia. Aquele tipo era de têmpera rija. Pouco macio, como se dizia. Mesmo sem saber ao que ia, ia de cabeça. Merecia a nossa admiração, respeito e até o nosso temor.

O tempo mostrou que esta sua característica lhe foi trazendo alguns dissabores. Associamos a idade à ponderação, e isso também se vai aplicando a ele, mas há uma maneira de estar, a que podemos descrever como a natureza das coisas, que acabam sempre por vir ao de cima e lutar contra elas tem tudo para se tornar num acto inglório.

Lembrei-me deste episódio depois de ouvir este podcast. Algures pelo minuto 13:30, Paulo Ferreira, referindo-se a Pedro Nuno Santos, diz que “ele não sabe o que quer fazer, mas vai fazer na mesma”. De facto, aquilo que já fomos vendo sobre a forma de PNS fazer política, lembra-me este meu amigo. É a trincar a língua dobrada e com o nariz franzido, que ele ameaça os banqueiros alemães e é também com a mesma atitude decide incinerar 3,2 mil milhões de euros na TAP ou a construir um aeroporto no Montijo, o mesmo exacto local que foi liminarmente chumbado pela Comissão Técnica Independente. É assim que ele funciona. Não sabe o que quer, mas avança com convicção. Depois de cada esbardalhanço, levanta-se, cada vez com mais dores e menos dentes, exibe as nódoas negras como se fossem medalhas e sacode o pó das vestes safadas. Os palermas, sádicos, ou masoquistas, sem o saberem, aplaudem. No fim do espectáculo, passa o tipo das finanças com o boné na mão.

27 comentários

Comentar post