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Delito de Opinião

Podia ser pior

José Meireles Graça, 09.04.20

Nas minhas bolhas nas redes sociais há um bordão recorrente: ouçam os especialistas! E estes, puxando dos galões, não se fazem rogados – falam pelos cotovelos.

Desgraçadamente, dizem coisas diferentes, quer o assunto seja o aquecimento global, o euro e o futuro da União Europeia, o combate aos incêndios de Verão, o consumo de carnes vermelhas, a escolha de animais de companhia, o melhor tratamento para a calvície… ou a Covid19. Isto é, especialistas que dizem coisas diferentes, mas em Portugal tendem ou a dizer as mesmas coisas ou a repartirem-se pelas igrejas partidárias quando os assuntos tenham óbvias implicações políticas.

A comunicação social, que vive do número de leitores ou espectadores, teria interesse em ouvir uns e outros, talvez mais os que se afastam das correntes principais de pensamento porque excitam a curiosidade, desde que, evidentemente, tivessem sólidas credenciais académicas.

Mas não, há em Portugal algumas peculiaridades: tanto os canais de televisão como a maioria dos jornais se dizem “independentes” mas essa independência, na prática, consiste quase sempre numa atitude reverencial perante o poder, ou na crítica alinhada e reconhecível por advir das oposições. Não muito do PCP, cujo palavreado anacrónico enjoa e repele a maioria dos espectadores, e por isso aparece mais sob a forma de reivindicações sortidas de grupos profissionais ou de interesses, mas sobretudo do PSD e do Bloco, o primeiro propondo-se gerir a coisa pública exactissimamente com os mesmos propósitos de quem lá está mas com mais rigor, seriedade e competência, e o outro cavalgando a causa do dia em direcção a um regime em que toda a gente é perfeitamente livre de ser o que quiser, desde que o que queira seja aceitável para os bonzos do pensamento moderno de esquerda, e o Fisco lhe impossibilite ser mais rico do que o vizinho.

Jornais, ou canais de TV, generalistas perfeitamente reconhecíveis como tendo uma marca identitária de direita, não há, salvo talvez o Observador, que todavia, imagino que pela necessidade de alargar o leque de leitores, acolhe também gente que poderia perfeitamente, e decerto gostaria, fazer parte de um qualquer governo do PS, ou do PSD de Rio ꟷ que não seria substancialmente diferente.

Nesta altura, haveria que separar esta salada entre especialistas em ciências exactas e sociais ou humanas – os de ciências exactas, em princípio, não teriam de ter divergências, por o método científico obrigar ao teste de hipóteses que têm de ser confirmadas, medidas, reprodutíveis e de resultado previsível.

O chato é que a medicina assenta em ciências exactas (química, física, p. ex.) mas não é ela própria uma ciência exacta; e a economia pesca em ciências exactas (matemática, estatística) mas também história, sociologia, etc. E hoje não poucos historiadores incorporam análises económicas na sua interpretação histórica (história é interpretação de factos passados, e portanto não há dimensões desprezáveis) e não poucos economistas deduzem orientações para as crises económicas do presente nas soluções que para problemas parecidos foram seguidas, com ou sem sucesso, no passado. 

Uma grande baralhada, em suma. E a demonstração de que a excessiva importância que se dá aos especialistas é perigosa: há prémios nobéis de economia que, para um mesmo problema económico, recomendam soluções diferentes e até opostas; e sob a forma de lidar com a Covid há, mesmo que silenciadas pela tal comunicação social respeitadora, veneradora e obrigada, e neste momento também por uma opinião pública aterrorizada e pronta a encarar vozes desalinhadas como inimigos da comunidade, virologistas experientes que acham que o caminho que se está a seguir é errado – não vai impedir que o vírus infecte quem tiver de infectar, não vai substancialmente modificar o ritmo dessa infecção, nem parece que, salvo para algumas categorias particulares de cidadãos (das quais, incidentalmente, faço parte) se revista de especial perigosidade.

De modo que essas generosas vozes que dizem aos amadores para fecharem a matraca e falam com superioridade dos tudólogos fariam bem em pôr uma surdina nas delas, porque alguém tem de escolher, sobretudo quando a escolha é entre dois males. E, em matéria de escolhas, podemos achar que aqueles que elegemos para governar têm alguma espécie de lucidez sobrenatural que os faz, ouvidos os entendidos de que, e bem, se rodeiam, decidir pelo melhor. Mas também podemos entender que quem decide por ter legitimidade para impor caminhos não escolhe necessariamente bem nem está mais bem servido de cabeça do que a que calhou a quem não seguiu a carreira política; e que, portanto, ouvindo o mesmo vozear desencontrado de especialistas, os de cá e os lá de fora, num caso em que o percurso que está a ser seguido é o de uma hecatombe económica prometida, seria bom que as orelhas governamentais estivessem bem arrebitadas e os olhos bem arregalados – há que sair desta emboscada com urgência e começar a colar os cacos, remendar fissuras, arrumar destroços, antes que o país se transforme numa Dresden económica.

Vivêssemos em autarcia e só dependeria de nós. Mas a nossa economia está ligada às outras: os hotéis não vão reabrir para turistas que não vêm, nem os exportadores produzir para clientes que não há, donde só podemos limitar estragos e esperar que uma vaga de senso e realismo se sobreponha à do tsunami paniquento que varre o mundo.

Uma nota final: o homem do leme nestes tempos, Costa, tem uma meia dúzia de ideias sobre a boa governança e o país. Meia dúzia chegaria perfeitamente se as ideias fossem boas, o que não é o caso. Mas tem a inegável habilidade política e o instinto necessários para ser um vencedor: a maioria do eleitorado acredita no sucesso do país quando este foi ultrapassado por vários que estavam abaixo na hierarquia do produto por cabeça; meteu no bolso o PCP dando-lhe umas migalhas de poder e o Bloco cedendo numas tretas sociais gramscianas; deitou fora o desrespeito pelas finanças públicas, esvaziando o PSD; quebrou a tradição do PS ao mesmo tempo que mantém um oficial respeito pelo seu pai fundador; e, dentro e fora do país, joga com mestria as cartas para se manter no poder, com a mistura necessária de bonomia, agressividade e ronha.

Ronha, uma forma de esperteza. O homem nem português sabe falar, e de inteligência tem a suficiente para se lhe imaginar um módico de cultura. Mas neste passo já deve ter percebido que um país, ou o mundo, governado a partir da OMS e das unidades de cuidados intensivos é uma receita para o desastre, e já deve ter dito para os seus botões, ouvindo os técnicos: ora ide para a puta que vos pariu, que até pareceis economistas a falar de receitas para o crescimento. Portanto, mal a opinião pública comece a mudar, o homem procurará a porta de saída, e apresentará o desastre económico como um dano inevitável da Covide, e o alívio das medidas como uma generosidade da munificência governamental.

Podia ser pior: se fosse um desses que têm excessivo respeito pelos especialistas.

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