Podecastando
Conversas e pensamentos em viagem no banco de trás de um TVDE

Com a inflação galopante, priorizar o dia a dia é fundamental. Nesta conjuntura de ideias, decidi compartilhar as viagens em TVDE de casa para o trabalho com os mais necessitados que como eu têm dores pavorosas nas pernas e horror a transportes públicos, e com o público em geral que responde aos anúncios pessoais nas páginas de classificados. É genial poder entrar na onda do carpooling dos tesos não condutores e ao mesmo tempo alargar os horizontes do conhecimento do meu próximo, porque tal como diz o único livro que todas as crianças deveriam ler (por não conter qualquer tipo de pornografia), conhece o teu próximo como a ti mesmo. E eu, que pretendo ter um conhecimento enciclopédico da minha pessoa e da existência humana, podecastarei as minhas viagens, compartilhadas com qualquer próximo de boas linhagens, ou com quem me quiser acompanhar até Belém, pagando obviamente pela excelência da companhia.
Numa altura em que toda a gente que é alguém ou assim o crê, podcasta, e que isto devia ser coisa banal e simples de entender, a verdade é que alguns vêm ao engano, como aconteceu com o grupo de 19 turistas japoneses amantes de fotografia, que aguardavam o Grand Tourer à esquina da Estrada do Seminário, e para os quais Belém é sinónimo de selfies e eggotarts. A disciplina com que se arrumaram nos assentos foi totalmente yamato damashi, o novo e altamente eficaz bushido. Interagimos maravilhosamente durante uns fantásticos quinze minutos de viagem. Chegados ao Largo dos Jerónimos, indiquei-lhes o Padrão dos Descobrimentos, expliquei-lhes mais ou menos que representava a aventura da grandiosidade portuguesa e que cada figura era uma espécie de Pokemon, sendo que na proa estava representado o treinador que veio apanhá-los todos. Anuiram e arrepiaram caminho de stick em riste, não sem antes me entregarem dezanove cêntimos cada, que traziam contados e embrulhados num toalhete desinfectante, com álcool a 70%.
Desta viagem tenho muito pouco a podcastar, porque foi um daqueles percursos perfeitos em que apenas eu me fartei de falar, ninguém entendeu, mas todos concordaram com acenos de cabeça e enormes sorrisos rasgados, que não consegui vislumbrar por detrás das máscaras com o sete a amarelo e as cores da camisola da selecção nacional, todas made in China, com que os meus companheiros de viagem se acreditam resguardados dos males que se propagam pelo éter, ilustrados por este meu podecaste.

