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De todas as discussões possíveis, política, futebol, costumes, há uma e uma só de que qualquer tipo sensato foge como Jorge Jesus das regras gramaticais elementares. Trata-se, já adivinharam, de qualquer tentativa de estabelecer critérios que permitam decidir se determinada produção ou objecto é ou não uma obra de arte. Mas há momentos em que é preciso arriscar. E não é todos os dias que um objecto de discussão deste calado dá à costa. Costa, o presidente da edilidade lisboeta, como Gepeto dentro da barriga da baleia, já teve oportunidade de se pronunciar afirmando que esta é uma oportunidade única de viajar dentro de uma obra de arte. Aconselha todavia a prudência que avancemos um pouco mais devagar, que os cacilheiros não se fizeram para grandes velocidades. Ora vejamos. Um cacilheiro, este cacilheiro, dificilmente poderia ser considerado uma obra de arte no sentido clássico. Mas as coisas evoluem e devemos a nós próprios a obrigação de não nos tornarmos uns completos botas de elástico. Arejemos pois mesmo os cantos mais recônditos das nossas mentes. E admitamos o passo seguinte.  O de saber se este cacilheiro tem os requisitos mínimos que parece serem exigidos às obras de arte nos nossos dias (notaram por certo a elegância com que evito os termos moderna ou contemporânea e outras designações do mesmo calibre). Este cacilheiro cumpre, isso é certo, a regra da transversalidade dos suportes: qualquer coisa serve para fazer arte, desde atacadores de sapatos até cafeteiras. Por outro lado, responde também ao imperativo da diluição dos significados inteligíveis. Na verdade, caríssimos, hoje em dia um bom indício de que estamos perante uma obra de arte resulta de existir um catálogo, um guia, uma tabuleta, um jornalista, um Presidente de Câmara vá, que nos diga que aquilo é de facto uma obra de arte, conclusão a que não chegaríamos simplesmente olhando para ela. Em decorrência, verifica-se também a tendência nihilista que toda a produção artística contemp... (raios, quase que caía) deve apresentar: é desejável que o objecto não se possa enquadrar em nenhuma referência sólida ou padrão estético. Da mesma maneira, este cacilheiro cumpre integralmente o desígnio da obliteração da busca do belo que contaminava a arte clássica. Ainda assim, e apesar de todos estes indicadores apontarem para estarmos perante uma obra de arte no sentido modern... (irra, que foi quase), o certo é que lhe falta ainda qualquer coisa. Falta-lhe, como poderei dizer, o sentido do efémero que por estes dias é absolutamente indispensável. Isto é, este cacilheiro não é ainda uma obra de arte, mas pode bem vir a sê-lo. Basta torná-lo perecível. Para que este cacilheiro possa ser considerado um objecto inquestionavelmente artístico é preciso afundá-lo.


16 comentários

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De significante diluído a 26.04.2014 às 20:18

Aguardemos a decisão do surreal Barreto,tudo se esclarecerá.
Talvez um leilão.
A propósito,Cargaleiro voltou.
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De Rui Rocha a 26.04.2014 às 21:43

Com tanto regresso, temo bem que o autor do Ressurrection se tenha inspirado em Portugal: http://www.imdb.com/title/tt2647586/
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De Helena Sacadura Cabral a 26.04.2014 às 20:27

Rui
Neste ainda mês de Abril conseguiste arrancar-me uma gargalhada sonora com este teu "elaborado" post.
Com efeito eu pensava que uma tal obra de arte teria a vantagem de ser perecível. Depois de te ler cheguei à conclusão de que afinal a "vantagem" era o que o tornava "mesmo" obra de arte. Simplesmente, delicioso!
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De Rui Rocha a 26.04.2014 às 21:44

E o bom disto é que quanto mais depressa o afundarmos mais depressa adquire o estatuto de obra de arte de pleno direito, Helena.
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De Rui Rocha a 27.04.2014 às 10:18

Ah, bem, bem. Nesse caso estaremos já perante um statement. Arte, sem nenhuma dúvida. O Otelo estará disponível para o trabalhinho?
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De José Meireles Graça a 27.04.2014 às 18:16

Creio que sim. Além do mais, Joana tem a reputação de pertencer à direita reaccionária e fássista, pelo que o afundamento violento teria uma forte carga simbólica.
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De jonas river a 27.04.2014 às 01:34

Portugueses; vamos ter mais um submarino!!!!!!!!!!!.
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De Rui Rocha a 27.04.2014 às 10:19

Desta vez sem aborrecimentos de comissões e intermediários.
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De Liberato a 27.04.2014 às 08:17

Há Naus que são arte.
http://ovelhaperdida.wordpress.com/2008/08/21/para-uma-leitura-da-nau-catrineta-de-garrett/
http://www.releaselyrics.com/d02a/fausto-a-nau-catrineta-(vers%C3%A3o-de-lisboa)/
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De Rui Rocha a 27.04.2014 às 10:22

É como dizia o Elvis: it's nau por never.
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De lucklucky a 27.04.2014 às 14:18

Falando de verdadeira arte:

Um Rembrant para o Domingo

http://www.youtube.com/watch?v=a6W2ZMpsxhg
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De Passo Trocado a 29.04.2014 às 09:31

Logo à partida, o objecto foi extremamente mal escolhido, digo eu. Ex-cacilheiros como aquele foram comprados em segundíssima mão à Alemanha, nos idos de 1977.
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De Passo Trocado (adenda) a 29.04.2014 às 09:54

Fui confirmar e corrijo: embora de construção praticamente contemporânea dos adquiridos em 1977, o Trafaria Praia (tal como o S. Paulus) foi comprado à Alemanha em 1996.

http://www.transportes-xxi.net/tmaritimo/frotatranstejo/classemarvila
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De Miguel a 02.05.2014 às 13:15

Lixo medíocre, como quase tudo o que presume ser arte contemporânea ou moderna, ainda que seja risível chamar moderno e contemporâneo a algo quando não são mais do que variações de um urinol que foi virado ao avesso há cem anos atrás.

Fui à exposição da Vasconcelos no Palácio da Ajuda, que aberração, jogos de luzes que davam a parecer que estávamos numa discoteca, estátuas centenárias colocadas dentro de faianças, estátuas modernas feitas de objectos quotidianos, faziam-me lembrar aquelas 'estátuas' que não são mais do que pilhas de rebuçados reunidas em cantos de museus. Que coisa mais chinfrim. Fiquei mais impressionado com o recheio original do palácio do que com as contribuições desnecessárias da Vasconcelos, o equivalente intelectual de grafitos nas paredes de monumentos. A senhora devia ter sido multada por andar a sujar património nacional e ser obrigada a cumprir serviço comunitário a limpar fachadas de prédios.

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