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Pinhas e pinhões

por Maria Dulce Fernandes, em 01.12.19

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“Olha a pinha!”, gritava ele com o proverbial duplo sentido antes do bombardeamento.  

Eu nem olhava, apenas me encolhia e procurava refúgio fora do raio de acção, enquanto ele lançava lá do alto da copa verdejante uma pinha atrás da outra, que caiam pesadamente na terra molhada. Era necessária toda a atenção, porque a seguir às pinhas saiam disparadas as laranjas podres que recolhera na estrumeira antes da subida. Não doíam tanto, mas sujavam o triplo e cheiravam ainda mais, por isso convinha não facilitar. Ele era assim. Porque era rapaz. E os rapazes podiam fazer todos os disparates exactamente porque sim. Havia sempre aquele sorriso condescendente que acompanhava a “valente rabecada”, que bem vistas as coisas era apenas para inglês ver ou ouvir. 

A verdade é que havia pinhas suficientes para lhes catar o fruto. Braseiro com elas uns minutos, duas pedras e aquele som leve, como que de casca de noz a quebrar por entre dedos pétreos. Depois era passar agulha e linha e fazer nascer colares de pérolas oblongas de requintado e doce sabor a seiva. 

Em bolos, saladas, molhos e doces, não havia para mim – e ainda não há - nada que se comparasse ao ouro branco. “O melhor do Mundo”, dizia o meu pai com toda a justiça. Apenas com o conhecimento relativamente recente do pinhão chinês e do pinhão paquistanês, entendo sem sombra de dúvida a dimensão  e a excelência da qualidade nacional. 

Possuo um quilo inteirinho! Não sei se me trará reconhecimento nas redes, mas acredito ser um excelente indicador de estatuto social. 

“112, qual é a sua emergência?” Bom dia! Preciso de uma escolta para movimentar um quilo de pinhões.” “PSP ou forças especiais?” "Os GOE estão disponíveis? Óptimo! Obrigada.” 

Distópico? Talvez, mas de exagerado tem muito pouco. 


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