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Penso rápido (94)

por Pedro Correia, em 13.08.19

Os sintomas são iniludíveis: rumores transformados em factos, diz-que-disse alastrando como vírus ou bactéria, a lenda impressa em vez do facto. Traições, facadas nas costas, hipocrisia a rodos - um estendal de miséria humana. Sempre os melhores fins a justificar os piores meios.

Punir antes de condenar, condenar antes de julgar, julgar antes de acusar, ouvir apenas uma das partes: a negação do que deve ser a justiça. É quanto basta para erguer novos pelourinhos em nome de excelentes causas pervertidas até aos limites da abjecção.

Quem aplaude a caça às bruxas contra Woody Allen, por exemplo, é marioneta pronta a servir de pasto a qualquer totalitarismo.

Hoje, em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90. Estamos cercados de novos tabus e proibições de todo o género em nome de dogmas identitários. Como o recente caso da interdição total de cartoons no New York Times - que costumava ser um dos faróis mundiais da liberdade de imprensa - bem demonstra.

Todos de bico calado, para evitar anátemas dos diáconos da correcção política que policiam palavras, gestos e comportamentos. Chamem-lhe o que quiserem para disfarçar, mas isto não é mais do que a ressurreição dos velhos censores. Com a agravante de estes agora nem terem a frontalidade de se assumirem como tal.


38 comentários

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De Anónimo a 13.08.2019 às 07:31

Os "liberais democratas" criaram os problemas e agora querem vender-nos as soluções, velha técnica, mas quem está esclarecido não se deixa enganar.
Os factos registados nos últimos 20 anos falam por si e as provas são concludentes e inequívocas, nem os "liberais democratas" as ousam omitir e nalguns casos servem-se das mesmas de modo insidioso e pérfido para fazer surgir novos medos nos pobres de espírito.

WW
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 10:37

"Liberal democrata" é pleonasmo.
O seu ódio aos liberais mal disfarça o seu ódio à democracia.
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De Bea a 13.08.2019 às 08:22

As pessoas deixaram de pensar pela própria cabeça. Seguem as massas e "indignam-se" tanta vez de forma cobarde e imoral a coberto do mundo virtual que proporciona o conforto de estar sentado, anónimo ou não, a destruir alguém sem pruridos.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 10:39

As redes sociais potenciam o comportamento de rebanho. Tudo serve para engrossar o caldo, num ou noutro sentido.
E o próprio poder judicial se vê crescentemente acossado pela "fúria justiceira" daqueles que, por berrarem mais alto, se imaginam possuidores da razão absoluta a favor da sua tribo.
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De Justiniano a 15.08.2019 às 10:41

Sim, caro Pedro Correia, a lógica da turba é, sobremaneira, perigosa!
E pior ainda quando os poderes públicos se poem em bicos de pés para enternecer e aplacar a putativa revolta da turba!! Quando compram todas as causas e causinhas para ajudar à grande marcha da humanidade rumo ao progresso, a martelo e por decreto!
Este Governo e este PR (Não sei qual dos dois o pior. Foi preclaro, Passos Coelho, quando, dizem, apelidou Marcelo de Cata-vento) terão uma única virtude histórica!! Redimir D. Maria II! Os seus efeitos trágicos e nefastos far-se-ão sentir por largos anos!!
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De V. a 13.08.2019 às 09:04

em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90.

= pensamento único da escola pública + universidades públicas que são verdadeiras madrassas (por cá é a FSCH e o ISCTE, por exemplo) + pensamento étnico e racializado + a enorme falácia do multiculturalismo + ideologias de esquerda como "moeda" e elevador social + vulgarização do espaço mediático (= pensar que pessoas suburbanas sem cultura têm a mesma capacidade de julgar que alguém que estuda a genealogia da leis) + usar falácias intelectuais como unidades representativas (i.e. suposições jornalísticas como "os portugueses acham" e "os populares" e um infindável número de "vontades colectivas" que não passam de artimanhas de linguagem de determinados agentes políticos) — e há muito mais.

Isto dá nisto — e vai piorar.

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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 11:52

Veio para ficar a moda de derrubar estátuas (até do Gandhi!) e mudar o nome a ruas, praças e estabelecimentos universitários, em nome de uma leitura contemporânea, unidimensional e politicamente correcta de acontecimentos pertencentes a um passado já secular, dando honras de panteão ao anacronismo e ao revisionismo histórico, fomentando a ignorância.
Tudo quanto não cabe nos novos cânones é como se nunca tivesse existido. Como escreveu o outro, «quem controla o passado controla o futuro».
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De Justiniano a 15.08.2019 às 11:36

E o paradoxo mais interessante será, caro Pedro Correia, ou será impressão minha, a atribuição, não sei se por magnanimidade, complacência ou por sagração, aos derrotados ideológicos do obséquio de escreverem a história!!
O exemplo mais evidente e expressivo mora aqui ao lado, em terras de nuestros hermanos!! Ainda, hoje, andam a reescrever a história, os legatários da mítica II República!
E note-se, a título de exemplo surpreendente, que se revelam, trabalho de jovens historiadores nascidos nos idos de 80 e 90, coisas surpreendentes sobre os idos de 60 e 70 a personagens que viveram os idos de 60 e 70.
Com estupor, e alguma paciência, confessam que desconheciam ter vivido tamanha coisa! Uma delas, Peres Reverte, ficou a saber que tinha, no seu tempo de escola, de cantar o cara ao sol. Contudo, confessa entre dentes Peres Reverte para não incomodar muito jovem historiador, não tem qualquer memória de o ter feito!!
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De Anónimo a 19.08.2019 às 16:12

Pode ter vindo, mas não pode ficar!
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 11:47

Domingo afinal não era plácido?
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De V. a 13.08.2019 às 12:14

Nem flácido, aparentemente... Mas escusamos de ir por aí porque de grafismos já está o mundo cheio.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 22:48

Como o Pavarotti. Que não era "parvatori" nenhum.
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De sampy a 13.08.2019 às 10:50

Penso que alguém já referiu aqui no blogue o caso mais recente: a colocação na prateleira por tempo indefinido do filme "The Hunt".
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 11:47

Vai acontecer cada vez mais vezes. Com outros filmes. E com peças e com livros e com séries (veja-se o que sucedeu em 'House of Cards', série miseravelmente abortada, desvirtuando todo o espírito original, como se fosse a mais rasteira das 'soap operas').
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De V. a 13.08.2019 às 12:15

Qual é? Vou já ver.
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De V. a 13.08.2019 às 12:17

Deixe-me adivinhar, aquele do Mads Mikkelsen? ah pois... mostra bem como as coisas funcionam.
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De Anónimo a 13.08.2019 às 14:46

Não, acabou de ser rodado recentemente. O director é Craig Zobel.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 15:09

O mais recente alvo dos novos censores é Tarantino.
O aviso aqui está, no Guardian:
https://www.theguardian.com/film/2019/jul/23/cancel-quentin-tarantino-once-upon-a-time-in-hollywood

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De Miguel a 13.08.2019 às 20:21

Menos Tarantino?!... Mas isso é um efeito colateral positivo !... .
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De Miguel a 13.08.2019 às 20:25

PS - mas os censores andam moles: então e o ´chien andalou' ?

Outro efeito colateral positivo: voltou a ser fácil fazer uma escandaleira, vamos desenterrar o Breton e seus amigos.
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De João Sousa a 13.08.2019 às 21:21

"The Kill Bill films were a cinematic orgy of onscreen violence, most of it directed at Thurman: her character is severely beaten throughout and buried alive."

Vamos fazer de conta que nos esquecemos de que, numa só cena, Thurman decapitou, degolou, desmembrou e dividiu dezenas de personagens masculinos (os Crazy 88). E vamos também fazer de conta que nos esquecemos de que, por muita violência que a personagem de Uma Thurman tenha sofrido, quem lha causava ficou sempre em muito pior estado. Vamos igualmente fazer de conta que não reparámos que a personagem foi enterrada vida e safou-se pelos seus próprios recursos - e que, neste filme do tal misógino Tarantino, as mulheres eram tão ou mais capazes e perigosas do que os homens. Etc, etc...

Já disse antes e estou convencido de que vou ter cada vez mais oportunidades para o repetir: estes militantes que apenas têm um martelo como ferramenta olham para tudo como se fosse um prego.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 22:39

Cambada de imbecis.
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De Justiniano a 15.08.2019 às 11:48

Teremos brevemente, na edição do Guardian em Portugal, o P, pérolas da mesma natureza!
Esta gente é para lá de tonta!!
Afogar-se-ão nas suas trágicas fantasias!
E só espero que não me obriguem a viver nesse seu maravilhoso mundo!!
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De Ssssstress a 13.08.2019 às 15:38

Ocorre-me a muitas vezes repetida "máxima": os jornais vão acabar!
Talvez acabem, em papel (e sobretudo no seu papel) mas não será por serem jornais e sim porque os seus Jornalistas escrevem o que pensam.
E quem manda, quem é dono de jornais e/ou neles têm poder, não podendo matar os jornalistas (todos) "mata" o jornal.
Mas como não percebo nada disto se calhar estou enganado; eu limito-me a ler jornais...
Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 22:39

Aproveite enquanto existem.
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De Anónimo a 13.08.2019 às 18:25

Margarida Palma


É verdade, tem muita razão, até faz medo.
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 22:40

Cada vez pior. Com muitos "líderes de opinião" a bater palminhas.
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De Maria Dulce Fernandes a 13.08.2019 às 22:10

No tempo da Inquisição, havia apenas a religião como medida de todas as coisas.
Todo aquele que se atrvesse a pensar fora da caixa era considerado hereje e queimado na praça pública em odiosos e repulsivos autos de fé, sem apelo nem agravo. Isso era na Idade das Trevas em que o conhecimento era previlégio de um punhado de mentes brilhantes.
Presentemente, numa altura em que existe demasiada luz e conhecimentos desmedidos, não é compreensível nem admissível que esta "religião" do correcto , este fanatismo da denúncia, do enxovalho, do alvejar e disparar de imediato, se tenha apoderado da civilização.
E porque consentimos e calamos seremos tão maus ou piores do que os Torquemadas deste mundo ?
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De Pedro Correia a 13.08.2019 às 22:40

O próximo a ser incinerado será o Tarantino. Já lhe andam a fazer o cerco.
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De Anónimo a 14.08.2019 às 00:25

Já começam a perceber porque Trump foi eleito? porque Bolsonaro foi eleito?

Foram sintomas.

São eles os que por causa da sua fala desbocada preservam por essa a razão a liberdade.da linguagem.

Liberdade da linguagem que os Marxistas querem destruir para terem o poder totalitário de instituir newspeak - uma linguagem única - para controlar o pensamento.


lucklucky
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De Pedro Correia a 22.08.2019 às 07:19

Tanto chavão, caramba.
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De JAB a 14.08.2019 às 15:48

Já nos meus tempos de Conservatório ouvia dizer que muitas carreiras de cantor, mas não só, nomeadamente femininas, se construíam na cama e falava-se de nomes em concreto. E muitas meninas até se ufanavam de o ter conseguido. Insinuavam-se descaradamente aos professores... Era quase um triunfo... Agora estas vêm queixar-se de abuso. Ouvir na TV aquela senhora a acusar o PD é confrangedor. Parece mesmo um discurso encomendado, genérico... E quase de certeza que é. Muitas coisas constroem-se e destroem-se deste modo. Dar um beijo numa menina ou senhora é assédio? Ora porra!... Até já temos gente com medo de dar o abraço da paz na Missa.
E não é por causa da Inquisição, minha gente que para aqui a chamou... E os hereges não iam para a fogueira. Lutero, Calvino e outros... A fogueira era para aqueles de quem o Estado, o poder, e uma certa sociedade ou cultura se queriam livrar... Muito raramente por questões de religião, e isto quando havia outras implicações. Mas isso ninguém quer saber. Não interessa. E agora assustam-se com estas delações, denúncias, falsas acusações, suspeitas, etc. próprias de um "puritanismo" que foi condenado como heresia, mas que anda por aí impune, made in USA. Também já sofri isso e tive que resistir... E nem oportunidade me deram de me defender. Não era conveniente. Eu era incómodo e basta!...
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De Pedro Correia a 16.08.2019 às 08:10

Ter tocado há 25 anos num braço de uma colega, numa reunião de professores, neste momento já é considerado "assédio" nos meios universitários norte-americanos - com punição retroactiva.
Como em tantas coisas, também aqui os EUA lideram no disparate, em que vão largamente destacados.
E são cada vez mais raras as vozes que lá ousam levantar-se contra esta histeria.

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