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Penso rápido (89)

por Pedro Correia, em 13.03.18

Até que ponto os textos se tornam impessoais ao perdermos o rasto da sua carpintaria?
O que seria do nosso entendimento da obra de um Eça ou de um Pessoa, por exemplo, sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente às cartas que escreveram?
Li há tempos que as crianças finlandesas deixaram de ter noções elementares de caligrafia. Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa - ou de computador. A moda vai pegar, não tenho dúvida.

Acontece que a nossa capacidade de interpretar textos antigos diminui drasticamente com estas novas tendências pedagógicas, de duvidoso mérito. E também a possibilidade de desvendarmos personalidades alheias, na medida em que a caligrafia diz muito do que somos. Ou do que éramos.

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38 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 13.03.2018 às 14:56

Pedro, a capacidade de aprendizagem dos miúdos de hoje é muito superior à nossa, quando na mesma idade.

Estão desde muito novos habituados a líder com variadíssimos tipos de informação, simultaneamente, muito por "culpa"dos computadores/informática/jogos .

Aliás essa interface mão - cérebro pode estar a ser intensificada pela complexidade crescente dos jogos informáticos/PS4/XBOX... ( por vezes são mais de 10 as teclas/comandos usados pelos miúdos, num único jogo; como na música )....bem sei que o motivo deste incremento não é tão poético (escrita /música ), mas na prática os resultados podem ser da mesma natureza, em termos neurológicos.

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De Pedro Correia a 13.03.2018 às 15:26

Vlad, a incapacidade para interpretar textos de pequena e média dificuldade é crescente por parte de jovens que vivem mergulhados desde muito pequenos nas tecnologias, que decidem tudo por eles.

O mesmo para as contas.
O cálculo mental é inexistente: qualquer máquina faz operações aritméticas. Ao entregar uma nota de cinco para pagar uma despesa de 3,6, a jovem que me atende na papelaria tem de deitar mão à calculadora para saber quanto me terá de dar de toco. Digo-lhe de imediato: um euro e quarenta. Ela faz a operação, à mesma. E depois diz-me: "Ah! Acertou."

Hoje não é preciso memorizar uma data: lá vêm, no FB, todas as datas que precisamos saber.
Hoje não é preciso memorizar coordenadas geográficas nem sequer treinar a nossa memória visual: o GPS toma conta de nós, como se fôssemos ceguinhos.

No dia em que houver um apagão tecnológico à escala universal, voltamos às cavernas.
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De Vlad, o Emborcador a 13.03.2018 às 16:06

Talvez...mas essa incapacidade vejo-a também nos da minha geração (77)...as máquinas de cálculo já são velhinhas.

Penso que a questão, da interpretação, não está na tecnologia mas no conteúdo dos programas de ensino - a interpretação só é possível com alguma "bagagem" Cultural, que não lhes é ensinada.
Os miúdos são ensinados a recitar e não a pensar - a criarem mecanismos de pensamento; deveria ser ensinada uma disciplina como a Teoria Crítica....pensar o pensamento.

Uma sugestão :

Os exames deveriam servir para avaliar não a resposta correcta, mas a pergunta acertada à resposta dada.



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De Pedro Correia a 13.03.2018 às 22:53

Boa sugestão, essa que aí deixa.
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De Luís Lavoura a 14.03.2018 às 09:13

a questão, da interpretação, está no conteúdo dos programas de ensino - a interpretação só é possível com alguma "bagagem" Cultural, que não lhes é ensinada

Exatamente. Eu diria que muitos dos textos que hoje na escola se força as crianças a ler não fazem qualquer sentido no mundo atual e por isso não são compreensíveis.

Hoje continua a pretender forçar-se os alunos do secundário a lerem Os Maias de Eça de Queiroz, uma obra que já eu tive dificuldade em compreender há 30 anos, quanto mais uma criança hoje. Conceitos como "adultério" ou "espanholas" não fazem puto de sentido para um jovem atual.

O nosso ensino, tal como os nossos intelectuais em geral, continuam a ser extremamente conservadores e antiquados.
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De Vlad a 13.03.2018 às 16:35

Pedro qualquer dia é uma máquina que nos opera. Deixam de haver cirurgiões.
Será bom, mau? A mão treme. As máquinas lida mal com o imprevisto....sei lá, desde que o vinho não fique sintético, quero lá saber

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1356187/

The da Vinci Integrated Robotic Surgery Suite at Swedish

https://www.youtube.com/watch?v=WhDQqRDOA4k
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De Pedro Correia a 13.03.2018 às 16:41

Qualquer dia passamos a "beber" vinho por cápsulas liofilizadas, Vlad.
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De Maria Araújo a 25.03.2018 às 16:50

O exemplo da funcionária da padaria, faz-me lembrar a senhora a quem compro os legumes, no mercado.
Quando ela pega na máquina e vai adicionando cada valor do produto que levo, estou a dizer-lhe o total.
Ela ri-se e diz que sou muito rápida.
Comento que a máquina de calcular que uso está na minha cabeça.
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De V. a 14.03.2018 às 11:45

Sabes uma coisa, Vlad? Já não tenho a certeza disso. O facto de já não ser preciso saber (classificação) mas apenas de saber onde está (acessibilidade) desliga os miúdos da conceptualização e do conhecimento abstracto, tornando-se criaturas mais empíricas e mais literais.

Como os millennials formados na escola pública ou até mesmo o Lavoura (estou a brincar: o Lavoura é um caso muito mais grave).
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De Vlad, o Emborcador a 14.03.2018 às 17:52

V. sabes o que te digo? Estamos a ficar velhotes. Este tempo já não é nosso.

Além de que grande parte da merda feita, ao longo da nossa História , foi da responsabilidade de Homens de Altíssima Coltura.... a Cultura, numa má natureza, apenas refina a maldade, não a melhora.
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De Anónimo a 14.03.2018 às 19:51

"(estou a brincar: o Lavoura é um caso muito mais grave)." Lavoura é dos poucos comentadores que mijam fora do penico (como se na minha terra) por isso é objecto de ditos deste género.
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De Vlad, o Emborcador a 14.03.2018 às 20:12

Lavoura?
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De Pedro Correia a 01.04.2018 às 22:09

Sempre atrás do arado.

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