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Penso rápido (75)

por Pedro Correia, em 19.10.15

Há quem persista em debater ideias com a subtileza de um sargento na parada, recorrendo a todo o tempo ao estribilho "esquerda, direita".

Estas etiquetas explicam muito pouco ou quase nada da política contemporânea.

 

Vejamos: o Syriza é da "esquerda" assumida e consequente? E o partido Gregos Independentes é da "direita" sem disfarces? Então o que faz uma força da "verdadeira esquerda" coligada com a "verdadeira direita" no executivo de Atenas? Isso mesmo: ambas são forças radicais nas respectivas expressões políticas. E porque será Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, uma fervorosa apoiante do Syriza? Pelo mesmo motivo.

Esta é a clivagem política do século XXI - entre forças radicais e forças moderadas. Dizer "direita", sem mais nada, é juntar no mesmo saco Passos Coelho e o Pinto Coelho do PNR. Dizer "esquerda", sem mais nada, é juntar no mesmo saco António Costa e o Garcia Pereira do MRPP. Isto explica e descreve e justifica alguma coisa? Evidentemente que não.

 

Há hoje fracturas de matriz diferente no xadrez europeu a respeito dos mais diversos temas: gestão das finanças públicas, reestruturação da dívida, crise dos refugiados, política de alianças geoestratégicas, soberania identitária versus federalismo. Temas que distinguem moderados, por um lado, e radicais pelo outro. Daí o PNR e o MRPP, em sintonia evidente, reivindicarem a saída de Portugal da NATO e exigirem o regresso imediato ao escudo.

Existem muito mais semelhanças do que diferenças entre os extremos do que entre o centro e os extremos.

 

Quem não perceber isto e continuar a usar as muletas retóricas e os ultrapassados conceitos do século XIX não percebe nada de essencial do mundo onde vivemos.

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44 comentários

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De lucklucky a 19.10.2015 às 21:22

O problema é que as forças moderadas são radicais noutras coisas. O PS de Sócrates "moderado" por exemplo levou o país à bancarrota.

Parece-me algo muito radical.


A questão é que há uma dissonância no PS entre o seu programa e o seu discurso mediático.
No seu discurso é Esquerda contra Direita, mas o programa está muito mais próximo do PSD do que do PCP/BE.
Desde a Defesa passando pela Propriedade Privada a uma coisa como a Moeda o PS e PCP/BE discordam.
E nem sequer entramos no PCP/BE acabarem com as eleições e as substituirem por uma democracia popular.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 09:57

O programa do PS está muito mais próximo do programa do PSD do que das teses da "verdadeira esquerda", sim. Diga agora Costa o que disser. O meu ponto é (também) esse.
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De M. S. a 20.10.2015 às 13:15

lucklucky (o homem que pensa mais rapidamente que o seu próprio cérebro):
Para lá dos radicais e dos moderados há ainda os tolos, que acreditam em histórias da carochinha.
«O PS de Sócrates "moderado" por exemplo levou o país à bancarrota».
Foi, então, o Sócrates que levou o país à bancarrota.
Crescíamos à bruta desde 1995, em especial desde que entrámos no euro, não era?
E em 1991 não houve os acordos comerciais com a China, pois não?
E a UE não se alagou de 15 para 28?
E a partir de 2007 não houve nenhuma crise financeira mundial só comparável à de 1929?
E durante todos estes anos a globalização não produziu efeitos?
O seu a seu dono, o pulha do Sócrates não merece tal importância.
Não seja tolo, você que se quer fazer passar pelo único vidente no mundo ao afirmar: o socialismo é o culpado de tudo.

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De William Wallace a 19.10.2015 às 22:03

Dou-lhe razão no texto mas não nos sujeitos que classifica de radicais, radicais são os que pretendem continuar a fazer tudo o que você defende.

Eu sou pelo mercado e livre iniciativa mas não aceito que empresas privadas sejam donas de monopólios naturais, coisa que se fosse tentada em França ou na Alemanha como nos obrigaram a fazer em Portugal (a PT por exemplo) seria considerado crime e cito a PT para o Pedro Correia não vir com a história que foi a Troika que obrigou como nos casos dos CTT, EDP, ANA, Portos (e outras) é um argumento colado com cuspo de quem defende o establishment que lucra com esses negócios.
Defendo uma Saúde Universal e Publica mas nada tenho contra quem queira abrir hospitais e entrar no negócio desde que não recorra á amputação do SNS para ganhar dinheiro, assim como na Educação desde que a mesma não seja estragada porque os privados são subsidiados pelo impostos para fazerem negócio.
Sou contra a subsidiação de negócios privados pelo Estado e o salvamento de empresas privadas que fizeram maus negócios, se falharam e faliram devem desaparecer e dar lugar a outras com melhor governance ".
Segurança Social idem.
Nos restantes sectores e interesses da Nação deve haver regras claras e com o mínimo de excepções devidamente justificadas e transparentes.
Sou soberanista e anti-federalista pois cada país tem a sua cultura e especificidades e entendo que é da divergência que resultam avanços e não da harmonização forçada que só serve o interesse dos mais poderosos como aliás se verifica todos os dias, aliás a crise de CEE começa quando passa a UE e se esquecem os referencias básicos que presidiram á sua formação que assentavam em grande parte no respeito pela identidade e especificidades de cada Nação que a compunha já para não falar as adesões de novos membros feitas á pressa para que se formassem blocos internos de poder dentro da UE e o respeito individual por cada um dos seus membros fosse posto de lado, razão pela qual o Reino Unido quer e vai sair, embora este membro sempre tenha adoptado uma postura muito dúbia e nunca tenha estado verdadeiramente dentro.
Por exemplo o caso Grego que o Pedro Correia tanto gosta de citar acho perfeitamente natural que dois partidos antagónicos se coliguem para defender os superiores interesses dos Gregos e da Grécia.

" A Nação não se confunde com um partido, um partido não se identifica com um Estado. "
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:00

Sendo você "soberanista" e citando quem gosta de citar, nada mais natural do que abraçar com júbilo uma coligação entre a esquerda e a direita eurofóbicas, imitando o exemplo de Madame Le Pen.
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De William Wallace a 20.10.2015 às 12:50

Eu faço-lhe a vontade Pedro Correia, sou Nacionalista mas o meu Nacionalismo acaba na fronteira do meu País e não pretendo arrogar-me de impor agendas a países terceiros para que isso favoreça o meu País.
Sou contra o Neo-Comunismo reinante da TINA e de todas as politicas que lhe estão adjacentes.
Que o Pedro Correia queira tapar o sol com a peneira é um problema seu, que defenda contra todos os factos que houve paz na Europa ignorando a guerra dos Balcãs onde a Alemanha apoiou tacitamente a Croácia e a França apoiou a Sérvia, onde a costumeira passividade e ineficácia dessa Europa "forte" foi bem visível como o é agora na crise humanitária dos refugiados que deixou a Itália e a Grécia sozinhas até ao ultimo instante, que apoiou o nascimento de mais um estado falhado (a Líbia ) com as consequências que se vêem todos os dias. Que acicatou uma revolta de na Ucrânia e apoia um governo fantoche que metade do país não reconhece.
Se os moderados Europeus são estes então eu sou radical tal como os radicais suíços que percebendo o caminho votaram para eleger um partido Nacionalista com 30% dos votos este fim de semana. Se o ser Europeu é perfilhar as ideias de Durão Barroso, Junkcer ou Schauble então eu SOU ANTI-EUROPEU .
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De lucklucky a 20.10.2015 às 15:28

Então foi mau o apoio da Alemanha e França e dos EUA aos democratas portugueses contra quer a ditadura autoritária quer contra os totalitários de extrema esquerda.


"Que acicatou uma revolta de na Ucrânia e apoia um governo fantoche que metade do país não reconhece."

"Essa é fantástica. A revolta é culpa da UE e não da intervenção no local Russa muito mais perto logistica e militarmente mais da divisão na sociedade ucrâniana."
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De William Wallace a 20.10.2015 às 18:44

O esquema inicial resvalou mais depressa que o pretendido e eles (França, Alemanha e EUA) tiveram de inverter a mão em Portugal mas mesmo assim perderam pois o que queriam era acesso indisputado ás riquezas das provincias ultramarinas tendo então de fomentar e dar apoio a uma guerrilha contra os pesudo vencedores nessas provincias criando guerras civis em Angola e Moçambique com os resultados que se conhecem

Quanto á Ucrânia o Luck só tem de ir pesquisar as pérolas ditas pela Merkel e o companheiro manso Hollande, quem diz aquilo em on imagino o que não terá feito em off, já os EUA igual. Felizmente Puttin não se atemorizou e respondeu na mesma moeda e agora na Siria está a provar a muitos que é um lider que representa uma nação solidária fazendo mais em 2 semanas que a coligação contra o terror em 1 ano.

Eles pensavam e pensam (.................) que ia ser sempre a destruir mas ainda há resistentes.
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De Pedro Correia a 26.10.2015 às 22:47

Putin, não Puttin.
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De Tiro ao Alvo a 19.10.2015 às 22:22

Se calhar já conhece, mas se não, leia o que o Jorge Almeida Fernandes, sobre este tema, escreveu hoje no Público: http://www.publico.pt/mundo/noticia/os-socialistas-e-a-esquerda-da-esquerda-1711490.
Eu apreciei bastante.
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De queima beatas a 19.10.2015 às 23:31

Sou do tempo em que para ser de esquerda bastava ostentar um autocolante na lapela. Agora para tanto, um pequeno rectângulo menos queimado na banda do caso no lugar vazio é suficiente.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:06

Banda do Casaco? Essa é do meu tempo.
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De CÉU a 19.10.2015 às 23:39

Olá, estimado Pedro!

Está bem?

Li e reli o seu inteligente e lúcido texto, e há muito que cheguei à conclusão de que os extremos se tocam e até se sentem atraídos uns pelos outros.
Até em questões afetivas, isso sucede. Ele há coisas!
Aqui só pra nós, digo-lhe que por vezes, não percebo lá muito bem o mundo, ou melhor, as atitudes de alguns seres humanos.

Abraço-o!
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:08

Viva, Céu. Obrigado pelas suas palavras. Sim, os extremos tocam-se: nunca isso se percebeu tanto como nos dias que correm.
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De Orlando a 20.10.2015 às 01:49

Essa afinidade tácita entre movimentos de extrema esquerda, tipo MRPP e extrema direita, não é de agora. Já vem do século passado. Os dois extremos alimentam-se um ao outro. Basta verficar o papel desestabilizador que o MRPP teve por exemplo no período pós 25 de Abril, , no qual fez claramente ainda que (talvez) de forma tácita, o jogo da direita, nomeadamente o da direita mais radical. Mas que o Mundo continua dividido entre aqueles que querem perpetuar o sistema capitalista com roupagens moderadas ou mais radicais, e aqueles que lutam por uma transformação profunda da nossa sociedade que leve à construção de um novo sistema politico/social e económico, também aqui com correntes mais moderadas e outras mais radicalizadas, é uma verdade insofismável e inquestionável. Só por mera ingenuidade ou grande incapacidade de analisar a evolução das sociedades humanas, é que os ideólogos e defensores do sistema capitalista poderão acreditar que o capitalismo será a última bolacha do pacote. O capitalismo terá a sua agonia e morte tal qual tiveram os sistemas que o precederam. É da natureza das coisas. Claro que vai resistir e muito, nem que para isso tenha que recorrer a operações de cosmética e cirurgias estéticas. Mas não há pele que estique eternamente. Quando se utiliza o termo moderado, é necessário explicitar o que se entende por esse termo, porque diversas vezes confunde-se com uma pretensa neutralidade no plano social. como se fosse possivel ser neutral numa sociedade onde existe uma classe dominante priveligiada, que impõe os seus valores a sua ideologia e o seu poder económico à generalidade da sociedade, e a grande maioria das pessoas, particularmente os mais desfavorecidos. Rejeito em igual medida tanto os radicalismos perigosos e ineficazes que não conduzem a nada de construtivo, bem como várias correntes ditas moderadas, que mais não fazem do que tentar perpetuar o sistema em que vivemos, ainda que o façam com recurso às referidas cirurgias estéticas. Em contrapartida, defendo uma politica firme anticapitalista, mas que tenha a inteligência e jogo de cintura para adotar as estratégias politicas e de luta, adaptadas a cada momento e a cada etapa, tendo em conta as diferentes conjunturas e respetivas correlação de forças, de molde a conseguir atingir gradualmente e no momento certo os objetivos a que se propõem. Em suma, nem posturas radicais/voluntaristas que tentam articialmente antecipar situações ou acontecimentos levando à sua frustração, nem posturas ditas moderadas, que no mínimo vão adiando eternamente transformações necessárias para que possa existir uma mudança de paradigma, e em última instância vão perpetuando voluntária ou involuntáriamente este sistema injusto e desequilibrador em que vivemos. É de salientar que os mass media contribuem e muito para esta situação, porque com a sua aparente neutralidade, de forma invariável acabam por favorecer e proteger os interesses da classe dominante. Afinal, este facto nem é surpreendente. Basta constatarmos que os donos dos principais meios de comunicação são os grandes grupos económicos, para percebermos quais os interesses que aqueles defendem de forma mais explícita ou implícita. Só os incautos e ingénuos poderão acreditar na neutralidade das suas linhas editoriais. Enfim, vivemos num mundo de opressão, desigualdade, discriminação, de falsas verdades, de clichés, sendo necessário para lhe resistir e opôr, uma forte personalidade e um imenso amor pela vida, pela existência, porque é precisamente isto que nos ajuda a manter a fé, otimismo e convicção de conseguirmos contruir um mundo melhor, mais justo, mais solidário, e com mais sentido, que no fundo corresponda a uma verdadeira evolução do ser humano, em todos os sentidos e não apenas em termos materiais.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:14

"O Mundo continua dividido entre aqueles que querem perpetuar o sistema capitalista com roupagens moderadas ou mais radicais, e aqueles que lutam por uma transformação profunda da nossa sociedade que leve à construção de um novo sistema politico/social e económico, também aqui com correntes mais moderadas e outras mais radicalizadas, é uma verdade insofismável e inquestionável."
O problema, Orlando, é que todas essas "lutas" conduziram até hoje a regimes despóticos. A uma China maoísta, a um Pol Pot, a um Ceausescu, à dinastia Kim na Coreia do Norte.
A democracia liberal, garantindo direitos generalizados aos seus cidadãos, é inseparável de uma sociedade em que vigore o livre comércio. O "Estado forte" (tão venerado pela direita musculada e pela esquerda radical) tem sido sempre fonte de opressão.
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De Orlando a 20.10.2015 às 19:28

Em certa medida poderá ter alguma razão. Mas é errando que se aprende. Na minha ótica, as tentativas fracassadas de construção de novos sistemas económicos e sociais, não se deve própriamente à ideologia, mas sim à sua má aplicação na prática. Muitos marxistas dos finais do seculo XIX e primeira metade do seculo XX, motivados por um voluntarismo algo ingénuo, acreditaram piamente que o mundo já se encontrava preparado para uma mudança de paradigma, acreditando que pelo facto do capitalismo ter entrado na sua fase suprema de desenvolvimento, a fase imperialista, estaria à beira da decadência, e por isso teríamos entrada na época da passagem do capitalismo ao socialismo. Foi um erro grave de análise, porque não tiveram em conta com a imensa capacidade de regeneração do sistema capitalista, o que faria com que o mundo em geral não estivesse preparado para uma mudança de sistema. Esse facto, levou à criação de regimes que na sua génese criaram a esperança no surgimento de um mundo novo, mas que na prática, por não estarem criadas as necessárias condições objetivas e subjetivas para tal, degenerararm em verdadeiros capitalismos de estado, que muito pouco tinham a ver com o socialismo e os ideiais marxistas. Convém no entanto não esquecer alguns contributos positivos que os referidos sistemas apesar de tudo, deram ao mundo, por terem contribuido para uma alteração da correlação de forças a nível mundial, que permitiram e estimularam a libertação de diversos povos do colonialismo, contribuindo também para o reforço das lutas operárias nos países capitalistas ocidentais, que levaram entre outras coisas à construção dos estados providência, com um alargamento do âmbito do estado social. No fundo, o sistema capitalista foi obrigado a reformar-se para fazer face à ameaça do " comunismo". Posteriormente, com o desagregar do bloco "socialista" e todas as alterações politicas/económicas/sociais subjacentes, o sistema capitalista, sentindo-se de mãos livres, iniciou uma ofensiva com base em politicas neo liberais, dirigidas por uma casta de tecnocratas completamente obsecados com a a macro economia, e pouco preocupada com os direitos adquiridos das pessoas, visando a destruição do estado social. É nessa medida que estamos assistir a um verdadeiro retrocesso histórico um pouco por todo o mundo e em particular na velha Europa.
Só queria acrescentar que também eu defendo uma UE e um federalismo europeu, porque não tenho um conceito fundamentalista de independência ou soberania. Estes conceitos na minha ótica devem ser apenas defendidos de forma conjuntural, para protegermos o país em relação às grandes potências e dos grandes interesses económicos internacionais que tudo sugam. Por essa razão defendo uma verdadeira UE e um federalismo dos povos europeus ao serviço destes, e não esta UE com um poder centralizado, dominada por uma casta de burocratas e tecnocratas completamente afastados dos povos europeus,ao serviço dos grandes interesses económicos, não sendo por acaso que os referidos povos demonstram em geral um evidente distanciamento e alheamento relativamente às instituições europeias, como se pode constatar no elevadíssimo grau de abstenção nas eleições europeias. Em face disto, todos aqueles que preconizam a construção de um sistema novo e alternativo, não poderão nunca abandonar os seus ideiais filosóficos e ideológicos numa perspetiva dialética,tendo em linha de conta a evolução do mundo e das sociedades humanas, aprendendo com as experiências frustradas do passado, sem esquecer porém as experiências positivas. Esses ideais se encarados de forma dialética e não dogmática, não são velhos, mas sim inovadores, contráriamente à ideologia capitalista que esta sim está velha, apesar dos retoques cosméticos e estéticos que lhe queiram dar.
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De Pedro Correia a 21.10.2015 às 00:11

"Só queria acrescentar que também eu defendo uma UE e um federalismo europeu, porque não tenho um conceito fundamentalista de independência ou soberania." Sublinho esta sua frase, que subscrevo.
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De da Maia a 20.10.2015 às 01:57

Muito bem, caro Pedro, e permita que coloque aqui um "Penso Lento".

Já tivémos aqui discussões deste tipo, sobre a Europa, entre o mais federalismo e o mais nacionalismo. É opinião de muitos que este federalismo europeu exibe sinais de Imperialismo, e não seria preciso o desbocado Hollande falar num directório de 6 países fundadores, para se perceber que entrámos no modo alfacinha: "a Europa é o centro Alemanha-França e o resto é paisagem".

Portanto, quando se fala em "radicalismo", à esquerda e direita, é por oposição a um "unanimismo" europeu, de contornos neo-comunistas, ao estilo de uma grande China europeia.
O comunismo latente é exibido pelo directório de política única, economia sem alternativas, definindo produções centralizadas, e esmagando zonas periféricas.

Sempre que há imposição de doutrina única, as outras são inicialmente vistas como espasmos radicais.

Este centrão que agora não admite alternativa, migrou para aí vindo de extremos.
Fez o caminho por liberalismo à esquerda, contra ortodoxia socialista, abrindo 3ª vias, e fez caminho pela direita contra o conservadorismo tradicional.
Consolidou-se num certo centrão liberal, definido pela estabilidade dos mercados financeiros - no capitalismo estaria aí o fiel da balança da dinâmica social.

Só que... de boas intenções está o inferno cheio. E como é bem claro, de capitalismo não tem este sistema nada, porque no capitalismo não é suposto estar capturado o poder regulador. O estado tem que ser mais forte que os grupos intervenientes, para os poder regular, e não o contrário.
Caso contrário, não falamos de capitalismo, falamos de máfia, ou mais literalmente de selva, em que as leis são as que bem convir.

Portanto, como costuma acontecer nas centralizações de poder "sem alternativa" - do fascismo ao comunismo, e que agora vemos neste sistema de chantagem económica que raptou a soberania estatal do regulador, migra-se do "valor moral" ao "cerco mural".

No "cerco mural", é a lei que impera, independente do seu "valor moral". Leis sem conteúdo moral, tanto tiveram os regimes comunistas, como os fascistas, como tem agora a UE.
São leis que não visam equilíbrios morais, visam levantar murais, para colocar uns de um lado do muro, e outros fora dele.
Houve leis para o défice de 3%, mas depois a França não cumpriu, e a lei esfumou-se. Daí o "mural dos fundadores" que mostrou como Hollande, ou os outros, desprezariam qualquer moral, desde que estivessem do lado certo do muro.

De facto aquilo que temos é o radicalismo do centrão, que permitiu formar um centro comum nos radicais.

Não haja ilusões, se o nacionalismo triunfasse, esse aspecto comum quebrar-se-ia, e cada um ficaria nos antípodas da sua visão social... mas enquanto vemos o implantar do imperialismo, pois é natural que haja alianças contra esse imperialismo do unanimismo pós-soviético, encarnado agora pelos burocratas bruxelenses, e pelos seus mercenários da economia única e global.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:18

Meu caro, os eurofóbicos persistem em ignorar esta verdade elementar: com todos os seus defeitos, a União Europeia tem sido fonte de progresso e prosperidade ao longo de 60 anos. Não por acaso, os 60 anos mais pacíficos de toda a história do continente.
Convém não confundir árvores - por mais frondosas que sejam - com florestas.
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De da Maia a 20.10.2015 às 11:04

Sim, Pedro, 60 anos de paz, mais ou menos - se esquecermos a Guerra-fria, a Guerra dos Balcãs, e agora a Ucrânia.
Para essa paz relativa uns fizeram o favor esquecer dívidas e pagar a reconstrução dos outros... Mas não foi certamente para voltar a alimentar as velhas manias de grandeza. É que à conta de apontar o dedo aos outros nacionalismos, estamos a esquecer o nacionalismo alemão que se confunde agora com o próprio imperalismo europeu. Schauble dá ordens a governos pela Europa, como Hitler não conseguiu.

Invocar a paz, e ignorar as perdas de soberania, faz lembrar a atitude passiva de Chamberlain face a Hitler. Contra isso, Churchill foi bem "radical". Pois foi... teve que ser nacionalista, para terminar com o imperialismo alheio.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 11:15

Caro daMaia: Churchill (como De Gaulle) era nacionalista, mas europeísta também. Não por acaso, partiu dele a ideia da edificação daquilo que hoje chamamos União Europeia. Não partiu de Chamberlain. A insinuação de que esta UE é uma espécie de herdeira espiritual de Chamberlain e não de Churchill, seu obreiro, não resiste ao menor confronto com a realidade histórica.
Pelo contrário, a UE é um dos mais visionários e arrojados projectos da história política mundial. Basta o argumento, irrebatível, de que num continente sempre atravessado pelas mais sangrentas guerras este projecto apresenta já este notável saldo: produziu seis décadas contínuas de paz.
A Ucrânia, como não ignora, está fora das fronteiras comunitárias - tal como estavam os países balcânicos na década de 90. Esses exemplos só abonam, portanto, a favor da minha tese.
Quanto à Guerra Fria, foi essencialmente um confronto ideológico entre a União Soviética e os Estados Unidos.
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De da Maia a 20.10.2015 às 11:37

Meu caro, eu disse "Schauble dá ordens a governos pela Europa, como Hitler não conseguia", e mesmo sem Churchill, já falta pouco para o referendo sobre o fim da UE... no Reino Unido.

Se a tese do Pedro é que a UE foi bem sucedida, no passado, estamos de acordo até à entrada do Euro em vigor.
Se a tese do Pedro, é que a UE continuou a ser um sucesso, então essa tese não está apenas mal pela evidência dos defeitos, mas sim porque esses defeitos são feitios. São feitios impostos, e mal dispostos a qualquer mudança. Como qualquer inflexibilidade, será essa rigidez que conduz à quebra.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 16:10

Meu caro, devemos reformar e corrigir os erros. Nunca devemos deitar fora o bebé com a água do banho. Ouvindo certo discurso dominante no espaço comunicacional, dir-se-ia que "desconstruir" a União Europeia faz parte da solução.
Não faz: esse seria o maior dos problemas. Uma Europa balcanizada, tribalizada, fazendo ressuscitar todos os fantasmas adormecidos, seria o pior cenário para este continente. Há erupções desse fenómeno, ainda embrionárias, aqui e ali. São todas assustadoras.
Aqueles que suspiram por lideranças "carismáticas" esquecem muitas vezes que foram essas lideranças que mergulharam a Europa na paz dos cemitérios.
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De Anónimo a 20.10.2015 às 02:02

O mundo em que vivemos, esquece-se rapidamente do passado e como o esquecimento, domina o ser humano, surgem mal esperamos, as vozes do antes que tanto nos massacraram. Hoje interessa manter as pessoas estúpidas, dando-lhes programas de televisão que as mantêm adormecidas, enquanto isso, eles vão minando. Interessa que as pessoas não pensem e se mantenham adormecidas e entorpecidas, para não pensarem nem se aperceberem que as suas vidas vão sendo minadas. Estas políticas não fazem nada pelas pessoas, em vez disso, explora-as. Rob Riemen escritor holandês explica bem no seu livro que o fascismo está bem latente. A classe política actual e dominante, não vai resolver a crise, sendo ela a construtora dessa mesma crise porque a sua mentalidade, está limitada, a uma única coisa: os seus interesses. Os políticos em acção neste momento, existem para resolver os seus próprios interesses e não o país, utilizam o país para adquirem os seus fins. Os média são o espelho da sociedade, existem não para informar, mas para venderem, o que os políticos querem. É por isso que a mensagem e a táctica é sempre a mesma, os outros emprestam-nos dinheiro e temos de pagar a dívida, esquecem de nos dizer como se pagam dívidas, quando não há como pagá-las e assim sendo, vamos pedindo cada vez mais, até cairmos num circulo donde nunca mais sairemos. Por trás de tudo isto move-se o Bidelberg que maneja, arquitecta, põem e dispõem de tudo e mandam nesta Europa decadente que teima em não aprender nada, com a História que tão bem nos relata que tudo isto, acaba sempre de forma trágica.


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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:20

Já se esgotou o seu cardápio de clichês, anónimo? Tem a certeza de que não encontra mais nenhum no fundo do baú?
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De Orlando a 21.10.2015 às 01:00

Boa reflexão na generalidade.
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De l.rodrigues a 20.10.2015 às 09:57

Isso tudo que diz tem uma resposta muito simples, que é uma pergunta.
"E o povo, pá?"

As elites com o seu poder económico e os seus partidos de estimação fizeram merda e continuam a fazer, para falar bem e depressa. Quem é que responde à pergunta supracitada? Os demonizados "populismos". E não nos enganemos, há populismos de direita e de esquerda.

Não se confundam partidos de raíz xenófoba com outros fundamentalmente solidários, mesmo que pontualmente e em situações extraordinárias (e se a da Grécia não for qual será?) se unam para derrubar aquilo que entendem ser o inimigo comum.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 10:37

Se bem entendi a sua original tese, o "populismo de esquerda" não deve abraçar "partidos de raiz xenófoba", excepto na "situação extraordinária" da Grécia.
Vou pedir-lhe emprestado esse detergente que usa. O seu lava mais branco.
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De l.rodrigues a 20.10.2015 às 11:12

Não devem ser confundidos. Meter tudo no mesmo saco não é honesto. E em boa verdade não se exactamente o que defendem os conservadores gregos que estão no governo.
Mas ainda sei que a Frente Nacional não tem nada que ver com o BE, por exemplo. Ou vai dizer que são a mesma coisa?
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 13:36

Ao fim de nove meses ainda não teve curiosidade em indagar com que partido o Syriza entendeu coligar-se?
É um partido hipernacionalista e xenófobo, abertamente contra a imigração e o multiculturalismo, um partido que defende abertamente o proselitismo pró-religioso:
http://www.independent.co.uk/news/world/europe/independent-greeks-who-are-syrizas-right-wing-coalition-partners-and-what-do-they-want-10003224.html
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De l.rodrigues a 20.10.2015 às 11:14

De qualquer modo, a sua observação chuta para canto a questão central:

"E o povo, pá?"
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 13:12

O povo o quê, pá?
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De l.rodrigues a 20.10.2015 às 15:23

Veja estas declarações de uma Comissária Europeia e comente-as se estiver para isso.

"Yet when I asked the trade commissioner how she could continue her persistent promotion of the deal in the face of such massive public opposition, her response came back icy cold:
“I do not take my mandate from the European people.”"

http://www.independent.co.uk/voices/i-didn-t-think-ttip-could-get-any-scarier-but-then-i-spoke-to-the-eu-official-in-charge-of-it-a6690591.html?cmpid=facebook-post

Depois venha-me falar das democracias liberais. Eu também sou a favor delas, e é por isso que contesto o caminho que a Europa leva.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 16:16

Fale-me você das alternativas viáveis às democracias liberais. Onde as encontra? Em Moscovo? Em Teerão? Em Pequim? Em Riade? Em Havana?
Em várias dessas capitais não é sequer possível travarmos um diálogo destes, trocando palavras através da internet de acesso livre.
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De l.rodrigues a 20.10.2015 às 17:57

Eu não quero uma alternativa às democracias liberais, eu contesto é que estejamos a construir uma na Europa. Vejo que decidiu ignorar o link que lhe sugeri.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 18:56

Não ignorei o 'link' que me indica, aliás não é meu hábito fazê-lo. Só não me apetece desviar excessivamente do tema de partida.
A questão das alternativas nunca pode estar ausente destes debates. Muito menos num ano como este, em que vemos centenas de milhares de pessoas oriundas do espaço extra-europeu rumarem em desespero à União Europeia, sabendo que aqui encontram guarida e refúgio.
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De Povinho a 20.10.2015 às 20:37

Nem tem resposta porque não interessa responder. O povo que se lixe porque o governo governa para os interesses dos todo poderosos e não para os cidadãos. Está visto, provado e comprovado.
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De Pedro Correia a 21.10.2015 às 00:10

"O povo que se lixe" é uma frase original. Parabéns.
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De jo a 20.10.2015 às 11:51

"Radical" ou "moderado", são rótulos tal como "esquerda" e "direita".

Quem se pela por rótulos, quando acha que estão a ficar gastos troca-os e diz-se moderno.

Não se pode chamar moderado a gente
que diz que o país está melhor estando os portugueses piores,
que diz que os salários dos portugueses andam altos e eles têm de comer menos, para garantir lucros a patrões,
que diz que há portugueses que têm de emigrar porque estão a mais,
que chama piegas aos pobres porque se queixam,
que vende a distribuição de eletricidade do país ao PC chinês,
que vende todos os aeroportos do país a empresas francesas,
que pretende privatizar a distribuição de água,
que exige um rigor extremo nas contas a quem recebe prestações sociais mas declara que o segredo bancário das grandes fortunas é inviolável,
que não tem dinheiro para hospitais e médicos porque o tem gasto a salvar bancos falidos.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 16:18

Fala você no Partido Comunista chinês.
É de esquerda ou de direita?
Pois...

Basta isto para se perceber como tais rótulos estão totalmente gastos e vazios de conteúdo.
Deixemo-los no local onde pertencem: os manuais de história. Já chega de século XIX. E de século XX.
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De William Wallace a 20.10.2015 às 18:33

Não despreze a História Pedro Correia, não embarque na fantasia muito teen que tudo o que é novo é que é bom.
É por existir muita gente que despreza a história que nem sequer param para pensar nas asneiras que fizeram há um par de anos e voltam a repeti-las.
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De Pedro Correia a 20.10.2015 às 19:01

Jamais desprezo a História. Mas também não desprezo o calendário. Bem-vindo ao século XXI.

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