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Penso rápido (43)

por Pedro Correia, em 25.08.14

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.


2 comentários

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De William Wallace a 25.08.2014 às 19:41

Sim concordo em absoluto !

Nada é perene hoje em dia, tudo é volátil, falta substrato e tudo se move sem direcção ou pelo menos sem rumo definido, tudo é espuma, tudo acontece de forma demasiado rápida.

Parar para pensar/reflectir e depois agir é hoje visto como andar para trás, é estar quase que parado e é esse modo de vida que está disseminado por todo lado e ainda por cima é incentivado.

Concordo poucas vezes consigo Pedro Correia mas devo dizer-lhe que disse em poucas palavras o que muita gente sente mesmo não conseguindo explicar.

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De Pedro Correia a 25.08.2014 às 22:54

Sim, meu caro, estamos poucas vezes de acordo - o que não significa menosprezo pela opinião alheia. Certamente não no meu caso: sempre entendi que a blogosfera só ganha com opiniões divergentes e o confronto mesmo acalorado de teses antagónicas.
Até por ser a excepção, e não a regra, registo com agrado a nossa sintonia nesta matéria. Confesso-lhe que são temas que andam a preocupar-me cada vez mais. Que sociedade egocêntrica, idolátrica e narcísica estamos a legar aos nossos filhos? Que noção da hierarquia de valores e prioridades? Como resgatar a noção de colectivo que parece tão fora de moda em contraponto a esta passarela de egos exacerbados fomentada pela cultura dominante?

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