Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Penso rápido (43)

por Pedro Correia, em 25.08.14

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.


34 comentários

Sem imagem de perfil

De Liberato a 26.08.2014 às 14:19

O menosprezado romance de José Saramago, a Caverna, acaba com a referência a um cartaz que na fachada de um centro comercial que dizia assim: BREVEMENTE, ABERTURA AO PÚBLICO DA CAVERNA DE PLATÃO, ATRACÇÃO EXCLUSIVA, ÚNICA NO MUNDO, COMPRE JÁ A SUA ENTRADA.
Pelo teor do seu post a lotação esgotou, o espectáculo já começou e vai continuar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.08.2014 às 23:36

Não cheguei a essa parte do romance de Saramago. Deixei o livro a meio, como já dei testemunho aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5743379.html
Sem imagem de perfil

De A a 26.08.2014 às 19:23

Olá, Pedro. Há muito tempo que não "conversava" consigo - culpa minha, claro - mas tenho conseguido vir aqui de vez em quando agora nas férias, com mais disponibilidade. Já havia lido este seu texto em outros 2 blogues, que bem o destacaram, mas seria insensibilidade não vir aqui dar dizer ao seu autor - dele, do texto :) - que concordo na íntegra e que se trata de uma excelente abordagem destes tempos modernos bem loucos e áridos de humanidade. Boas férias (se ainda for caso disso).
Cumprimentos
Sem imagem de perfil

De AEfetivamente a 26.08.2014 às 23:22

Fátima, do AEfetivamente. O Efetivamente foi levado, ficou só o A :)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 26.08.2014 às 23:32

Obrigado, Fátima. Gostei muito das suas palavras. E de voltar a vê-la por cá.
Imagem de perfil

De Mário Pereira a 30.08.2014 às 12:42

Há aqui duas questões importantes, mas distintas, ou talvez não. Uma, a forma como nos impingem as notícias, a granel, apenas com a preocupação de provocar em nós sensações, alegria, tristeza, de preferência pouca e logo abafada por escândalo, curiosidade, calhandrice, inveja, ódio, admiração e por aí fora. Entretenimento, numa palavra. Outra questão é a do "eu", do egoísmo, individualismo, sucesso individual medido em fama e principalmente dinheiro. Colectivo é palavra em desuso, camarada é palavra proscrita, há muito tempo abandonada para uso exclusivo dos comunistas e (será ainda?) dos militares.
Entretêm-nos para não pensarmos e mentem-nos que podemos ser/ter o mesmo que os nossos ídolos. Eis o capitalismo triunfante. Entretanto, vai aumentando o fosso entre os muito ricos e os outros.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 01.09.2014 às 16:08

Para já vai aumentando o fosso entre o 'eu' narcísico e tudo o resto à volta. A distância que mais se anula é a mais próxima.
Sem imagem de perfil

De Julio mota a 30.08.2014 às 21:26

A obsessão narcisista é ridícula, tal como o afunilamento do mundo em redor de meia dúzia de egos todos eles iguais e sem substancia vivida, mas por outro lado, as pessoas não podem viver a vida assimilando todo e qualquer conflito distante, todo o pequeno ou grande drama ou tragédia local, regional ou mundial, que é basicamente o que passa nos média ditos sérios, interessantes e profundos...ou será que podem viver?
O Pedro Correia desculpe-me mas o que sente também poderá vir da sua própria experiência pessoal, talvez sempre ligado à ficha...
Estive 1 mês sem entrar na internet e o mundo pareceu-me outro...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 01.09.2014 às 16:07

Pareceu-lhe melhor? Espero sinceramente que sim.

Comentar post


Pág. 2/2



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D