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Delito de Opinião

Penso rápido (19)

Pedro Correia, 08.07.14

Certos leitores que pretendem fazer ironia com as orthographias antigas da língua portuguesa -- às vezes referindo-se a autores que publicaram há pouco mais de cem anos -- estão, no fundo, a produzir argumentos contra o "acordo ortográfico" e não a favor. Ao contrário do que supunham.
É incompreensível que um inglês leia Walter Scott ou Oscar Wilde na grafia original, o mesmo sucedendo a um francês em relação a Balzac ou Zola, um espanhol em relação a Pérez Galdós e um norte-americano em relação a Mark Twain, enquanto as obras de um Camilo ou um Eça de Queirós já foram impressas em quatro diferentes grafias do nosso idioma.
As sucessivas reformas da ortografia portuguesa -- já lá vão quatro no último século -- são um péssimo exemplo de intromissão do poder político numa área que devia ser reservada à comunidade científica. Cada mudança de regime produziu uma "reforma ortográfica" em Portugal. Para efeitos que nada tinham a ver com o amor à língua portuguesa, antes pelo contrário.
Cada "reforma" foi-nos afastando da raiz original da palavra, ao contrário do que sucedeu com a esmagadora maioria das línguas europeias -- como o inglês, o francês, o alemão e em certa medida o espanhol. A pior de todas essas reformas foi a de 1990 que separa famílias lexicais produzindo aberrações como "os egiptólogos que trabalham no Egito[sic] são quase todos egípcios" ou "a principal característica dos portugueses é terem um forte caráter[sic]".
Esta ruptura com a etimologia ocorre, convém sublinhar, num momento em que nunca foi tão generalizada a aprendizagem de línguas estrangeiras entre nós. Assim, enquanto os políticos de turno pretendem impor a grafia "ator"[sic] à palavra actor, os portugueses continuarão a aprender "actor" em inglês, "acteur" em francês, "actor" em castelhano e "akteur" em alemão.
Não adianta deitar fora a etimologia pela porta: ela regressa sempre pela janela. Através de idiomas nunca sujeitos aos tratos de polé de "acordos ortográficos" destinados a produzir legiões de analfabetos funcionais.

5 comentários

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    M. S. 08.07.2014

    Caro Luís Lavoura:
    Se encontra racionalidade no AO é porque nunca leu o que escreveram pessoas tão diferentes mas tão informadas e conhecedoras da Língua Portuguesa como são (eram): Vasco Graça Moura, António Emiliano ou, e porque não dizê-lo, embora se não deva elogiar o próprio na sua presença (no caso em sua própria casa) Pedro Correia.
    Todos eles froram suficientemente eloquentes nas críticas que fizeram ao AO (que também se poderá ler Aborto Ortográfico, uma das vantagens dos acrónimos e das siglas).
    Antes de opinar por opinar (tão típico do «achismo» português) leia, por favor, o que eles escreveram, os aberrantes exemplos que nos mostraram, em que o acordo unificador desunificou ainda mais as duas grafoias (a brasileira e a de Portugal).
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    gtyu 09.07.2014

    MS, a questão ortográfica é, em Portugal (e no Brasil) um tema querido da religião que é a maçonaria. O acordismo é, por isso, em grande parte, uma questão de fé - e, como toda as fés, tem os seus fanáticos.

    Temos de lembrar a quem tenta impor o acordo que o Estado Português é laico e que o laicismo se aplica a todas as crenças.

    Entretanto, grandes áreas da Cultura Portuguesa e questões relacionadas com a sua preservação e divulgação são completamente negligenciadas pelo governo, universidades, etc. e estão ao deus-dará.
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    M. S. 09.07.2014

    gtyu:
    Mas podiam ter feito a coisa com um bocado mais de competência.
    Aquilo não tem pés nem cabeça.
    Uma pessoa que leia, por exemplo, o que desmontou com profundidade o António Emiliano do AO ou o eloquente livro do Pedro Correia nem quer acreditar em tamanha incompetência (ou contorcionismo perante os interesses em jogo).
    Aquilo é mau demais para ser verdadeiro: mas infelizmente é verdadeiro.
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    gtyu 09.07.2014

    M.S.,
    Mas "aquilo" não é para ir para a frente. É um crime perpetrado por fanáticos ignorantes, usando métodos que põem em crise os fundamentos do estado de direito e da democracia.
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