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Penso rápido (19)

por Pedro Correia, em 08.07.14

Certos leitores que pretendem fazer ironia com as orthographias antigas da língua portuguesa -- às vezes referindo-se a autores que publicaram há pouco mais de cem anos -- estão, no fundo, a produzir argumentos contra o "acordo ortográfico" e não a favor. Ao contrário do que supunham.
É incompreensível que um inglês leia Walter Scott ou Oscar Wilde na grafia original, o mesmo sucedendo a um francês em relação a Balzac ou Zola, um espanhol em relação a Pérez Galdós e um norte-americano em relação a Mark Twain, enquanto as obras de um Camilo ou um Eça de Queirós já foram impressas em quatro diferentes grafias do nosso idioma.
As sucessivas reformas da ortografia portuguesa -- já lá vão quatro no último século -- são um péssimo exemplo de intromissão do poder político numa área que devia ser reservada à comunidade científica. Cada mudança de regime produziu uma "reforma ortográfica" em Portugal. Para efeitos que nada tinham a ver com o amor à língua portuguesa, antes pelo contrário.
Cada "reforma" foi-nos afastando da raiz original da palavra, ao contrário do que sucedeu com a esmagadora maioria das línguas europeias -- como o inglês, o francês, o alemão e em certa medida o espanhol. A pior de todas essas reformas foi a de 1990 que separa famílias lexicais produzindo aberrações como "os egiptólogos que trabalham no Egito[sic] são quase todos egípcios" ou "a principal característica dos portugueses é terem um forte caráter[sic]".
Esta ruptura com a etimologia ocorre, convém sublinhar, num momento em que nunca foi tão generalizada a aprendizagem de línguas estrangeiras entre nós. Assim, enquanto os políticos de turno pretendem impor a grafia "ator"[sic] à palavra actor, os portugueses continuarão a aprender "actor" em inglês, "acteur" em francês, "actor" em castelhano e "akteur" em alemão.
Não adianta deitar fora a etimologia pela porta: ela regressa sempre pela janela. Através de idiomas nunca sujeitos aos tratos de polé de "acordos ortográficos" destinados a produzir legiões de analfabetos funcionais.


48 comentários

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De Luís Lavoura a 08.07.2014 às 12:41

a grafia "ator"[sic] à palavra actor, os portugueses continuarão a aprender "actor" em inglês, "acteur" em francês, "actor" em castelhano e "akteur" em alemão

Pois, e os espanhóis e os italianos impõem a grafia "Federico" mas aprendem que o nome alemão é "Friedrich" e o português é "Frederico". É evidente que os espanhóis e os italianos também deveriam escrever "Frederico" e omitir o "r" na leitura. Parvos que eles são!!!
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De Bic Laranja a 26.07.2014 às 12:22

Estúpido exemplo porquanto Fradique é a forma portuguesa por via popular e Frederico é derivação paralela por via erudita. Assim se justificam inúmeros vocábulos portugueses.
As formas espanhola e italiana são de derivação popular e obedecem ao génio dessas línguas, tal como Fradique obedece ao da nossa.
Mas, como havia lá vossemecê de saber coisa assim se só valoriza o modernaço?
Cumpts.
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De Luís Lavoura a 08.07.2014 às 12:44

separa famílias lexicais produzindo aberrações como "os egiptólogos que trabalham no Egito[sic] são quase todos egípcios" ou "a principal característica dos portugueses é terem um forte caráter[sic]"

Também se pode escrever que "os habitantes da Guarda são quase todos egitanienses".

A palavra "caraterística" escreve-se sem "c", porque o "c" não se lê.
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De M. S. a 08.07.2014 às 14:17

Caro Luís Lavoura:
Se encontra racionalidade no AO é porque nunca leu o que escreveram pessoas tão diferentes mas tão informadas e conhecedoras da Língua Portuguesa como são (eram): Vasco Graça Moura, António Emiliano ou, e porque não dizê-lo, embora se não deva elogiar o próprio na sua presença (no caso em sua própria casa) Pedro Correia.
Todos eles froram suficientemente eloquentes nas críticas que fizeram ao AO (que também se poderá ler Aborto Ortográfico, uma das vantagens dos acrónimos e das siglas).
Antes de opinar por opinar (tão típico do «achismo» português) leia, por favor, o que eles escreveram, os aberrantes exemplos que nos mostraram, em que o acordo unificador desunificou ainda mais as duas grafoias (a brasileira e a de Portugal).
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De Luís Lavoura a 08.07.2014 às 16:16

Tenho lido o que aqui escreve Pedro Correia sobre o assunto, e para todos os exemplos que ele tem dado facilmente encontro contra-exemplos. Mesmo aqui no meu comentário anterior apresentei alguns.

Faz tanto sentido defender que em português se deveria escrever "actor" quando se lê "ator", como faria sentido defender que os espanhóis deveriam escrever "Frederico" apesar de lerem "Federico". Ou seja: não faz sentido nenhum. Apesar de o étimo do nome ser "Friedrich" - que origina em "Frieden" = paz e que quer dizer "pacífico" - em espanhol escreve-se como se lê, "Federico", ser "r". E é assim mesmo que deve ser.

Quanto ao "egípcio" que vive no "Egito", é como o "viticastrense" que vive em "Castelo de Vide" ou como o "florentino" que vive nas "Flores". Nada mais que isso. As pessoas aprendem que um habitante da Guarda se designa por "egitaniense" e depois escrevem isso mesmo. Da mesma forma que aprendem que um habitante do Egito se designa "egípcio".
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De M. S. a 08.07.2014 às 19:01

Caro Luís Lavoura:
O ponto principal é este: a justificação do AO foi que servia para unificar as duas grafias. Então porque desunificou ainda MUITO mais do que estavam? Se me explicar isto convincentemente eu rendo-me ao AO.
Além de que certas soluções técnicas são verdadeiramente absurdas, pelo que é muito propriamente conhecido por Aborto Ortográfico.
Penso que o Pedro Correia, que é um profundo conhecedor destes meandros do Aborto Ortográfico, não se importará de o esclarecer muito melhor do que eu, que sou apenas um mero utente da Língua Portuguesa e um atento leitor destas polémicas.
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De Luís Lavoura a 09.07.2014 às 09:39

a justificação do AO foi que servia para unificar as duas grafias</i>

Estou-me nas tintas para essa justificação. Estou-me nas tintas para a forma como os brasileiros escrevem. A mim o que me interessa é que a grafia atual é melhor - porque é mais rcional - do que a anterior. Se é melhor, deve ser praticada.

Registo, além disso, que, quando eu rebato os argumentos que Pedro Correia apresentou neste post, Você muda para outro registo de argumentos. Não é capaz de se ater aos argumentos apresentados pelo Pedro Correia e confessar que eles não fazem sentido?
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De Miguel a 10.07.2014 às 01:59

Uma língua não é um programa de computador que pode receber updates novos livre de bugs antigos. É um organismo vivo - ou pelo menos é isso que se diz, ainda que tais acordos autoritários me façam pensar que está vivo somente no mesquinho sentido em que as culturas de bactérias estão vivas nas placas de petri - e como tal vai acumulando cicatrizes, rugas, artroses, ossos partidos mal sarados, doenças congénitas e afins ao longo dos tempos. Aceite-se isso.

Também há muito para dizer sobre o conceito de racionalidade. Para começar, em que se baseia? Para o Lavoura é racional uma ortografia baseado na facilidade dos sons; para mim, que gosto de complexidade e informação, uma ortografia baseada em etimologia é mais racional.

Quanto à própria racionalidade, acho que convém lembrar que a racionalidade é próprio das crianças. Para uma criança é racional dizer que a terra é plana porque é isso que os sentidos lhe dizem; que o Sol gira à volta da Terra porque é isso que os olhos julgam ver, ludibriados pelos sentidos. Ora, como Barradas de Carvalho demonstra no seu livro "Da História-Crónica à História-Ciência," as ciências atingem a sua maturidade quando se tornam irracionais, isto é, quando deixam de se ater aos simples sentidos e começam a pensar em termos mais abstractos e metafísicos. Ptolemeu era racional; Copérnico era irracional. Euclides era racional; Lobachevsky era irracional. Newton era racional; Einstein era irracional. Para não falar da maior das ciências, a matemática, que nunca teria passado de mera aritmética de ciclo primário se não se tivesse inventado o irracional número que é o zero, um número puramente abstracto, sem qualquer relação com a realidade, mas que levou a incontáveis revoluções científicas até aos nossos dias, como atesta o livro de Charles Seife. Por isso o Lavoura, se quer racionalidade vá para o ATL, e deixe assuntos sérios para os adultos que estão confortáveis com a complexidade do dia-a-dia.

O Lavoura é um dos mais fascinantes visitantes deste blogue. No dele anuncia-se como um Liberal, mas nunca o vi a tomar uma posição minimamente consistente com a ideologia liberal. Para um homem que professa defender o indivíduo contra o estado (pelos vistos nem conhece o famoso dito do maior dos nossos liberais, Alexandre Herculano: "Que a tirania de dez milhões se exerça sobre o indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões, é sempre tirania, é sempre uma coisa abominável"), é extraordinário como ele está sempre a favor da interferência do estado em tudo, inclusive no caso da ortografia, ao jeito das ditaduras soviéticas que ele deveria detestar mas que pelos vistos quer para o nosso país (curiosamente, também os comuistas muitas vezes invocavam a razão, o progresso e a pseudo-ciência que praticavam como motivos fulcrais que tudo justificavam). A única vez que o vi defender a liberdade de um indivíduo foi... a de um déspota chamado Obiang, isto é, o tipo de tirano contra o qual o Liberalismo, formado nos tempos das monarquias absolutas, foi inventado para derrubar e travar em prol dos valores que criaram o mundo moderno livre. O Lavoura é aquele tipo de pessoa que descobriu uma palavra nova e decidu aplicá-la a ele próprio sem grande estudo ou compreensão do que ela comporta, da sua história (mas para um homem que quer destruir a etimologia, também não se pode esperar que o passado e a História signifique coisa alguma para ele); ele é como o adolescente que se torna comunista para poder usar t-shirts do Che sem alguma vez saber quem ele foi, sem alguma vez ler Marx ou Lenin; o adolescente que se torna anarquista porque parece uma coisa fixe, sem jamais ler Emma Goldman, Bakunin ou Kropotkin. O Lavoura um dia descobriu a palavra Liberalismo e soou-lhe bem ao ouvido; para mais permite-lhe colocar frases do Pessoa na página do Blog (o que lhe confere um certo de cachet de cultura para iludir parvos), ainda que Pessoa, como o verdadeiro liberal que foi, que certamente leu Locke e Herculano e que era coerente, fosse oposto à interferência do estado na língua e à existência de homens como Obiang. E é esta criatura incongruente que prega racionalidade.

A sério, Lavoura, vai para o ATL.
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De dontfakebuckme a 19.07.2014 às 00:52

Só 2 nuances:
História não quer dizer passado. Foi assim racionalizada, digamos. De verdade, a história significa 'pesquisa' e nasceu para explicar o presente (Tucídides, Xenofonte, ...). Que lhes sejam dados outros usos mais 'convenientes' serão outras histórias e estórias (aqui aproveitando o espírito do NAO) que aqui não cabem.
Pessoa liberal ? Não sou pessoano, e sempre fugi às especialidades, mas nem na sua fase pró-republicana me pareceu, muito menos no seu percurso pelos anos da Grande Guerra, anos 20, Ditadura Militar, onde foi assumidamente não democrático, elitista, integralista, não e anti liberal, antes de acordar para o perigo pessoalista de Salazar. Liberal, mesmo hoje, implica liberdade. Para um liberal, esse valor implica responsabilidade. Na base o mérito, a igualdade. cada um usa esses valores consoante pode. E se não pode, não quer, fracassa, etc culpe-se a si mesmo, não aqueles que usam esses valores e tem sucesso. Por outras elitismo e liberalismo não são incompatíveis, a lógica liberal leva mesmo a esse estádio social em que maiorias aceitam minorias. Mas um liberal sabe de onde vem e mesmo que, para outros ouvirem e o aceitarem na mó de cima, a igualdade (de oportunidades). muito havia a dizer, mas fico por aqui: por mais que nos possa fazer impressão, tanta foi a dogmatologia sobre isso, o melhor par de liberalismo foi e é capitalismo. por isso o estado orgânico, integralista, corporativo que Pessoa defendeu e a sua sobreposição aos interesses individuais. O estado, paradoxalmente ou não, formado como muitos o entendem hoje, pelo marxismo, sobretudo o leninista, e pelo espírito socializante e fascizante do pós I Guerra, não é compatível com o liberalismo. O neo con e o neo liberalismo apenas o vieram reafirmar, mas sem que disso façam grande questão teórica.
Sobre o AO ou NAO apenas não digo sublinho aqui a desregulação dos usos da língua a que dá cobertura. Ver espampanado na TVI, por exemplo, 'o relator Gabriel Alves' dá nervuras na espinha, ver programas e exames de português daria para pensar que, de certeza quase absurda, Pessoa hoje, não teria 100 % nos exames do 4º, do 6º e do 9º, nem se aprochegava dos 20 no 12º.
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De Lígia Oliveira a 09.07.2014 às 21:17

"em português se deveria escrever "actor" quando se lê "ator" " O PROBLEMA começa logo aqui: desde quando se fala português com a mesma acentuação de norte a sul do país???? Esta regra idiota saiu de onde???? É que em vários pontos do país as tais consoantes ditas mudas, não são mudas coisíssima nenhuma, são bem verbalizadas, bem audíveis... já para nem sublinhar o facto de elas exercerem uma função na palavra: a de abrirem a vogal imediatamente anterior. Por exemplo "tecto" só se lê obrigatoriamente com "é" porque está lá o "c". há falta do mesmo e para se manter o som da palavra de modo inequívoco, o "é" teria de ser acentuado. Como não o é, nada impede que a palavra possa ser lida como "têto", o que convenhamos, identifica outra coisa qualquer!!!!
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De Luís Lavoura a 10.07.2014 às 09:32

"tecto" só se lê obrigatoriamente com "é" porque está lá o "c". há falta do mesmo e para se manter o som da palavra de modo inequívoco, o "é" teria de ser acentuado

Não. Não precisa de ser acentuado porque é a penúltima sílaba, que em português é, por princípio, a tónica. Da mesma forma que "feto" e "seta" nunca tiveram, nem precisam de ter, "c" nenhum. Nem "alfabeto", nem "abeto", etc. Não é preciso "c" nenhum.
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De Filipe C. a 10.07.2014 às 17:16

O problema com "Egipto" é que mais de metade da população ainda não entrou na moda do "Egito" (ou Egitso, como cada vez mais se ouve... Qualquer dia fazem outro AO para se escrever assim...). Se me vem defender que quem diz o "pê" do Egipto não fala o "padrão" ou a risível "forma culta"*, como muitos afirmam, tenho a dizer-lhe que nem em Lisboa se tem o sotaque padrão nem é a forma culta, apenas é a que passa nos meios audio-visuais em peso por ser o sotaque da capital, o dito pelos habitantes da mesma "sotaque lesboeta". Em também dizem "mèstrado", "gèração" (será dum verbo gèrar, não sei), "menistro",..., enfim, um monte de coisas "esquesitas"; mas isso é aprofundarmo-nos em águas mais profundas. ;)
*A pronúncia que hoje alguns defendem ser a norma culta vai em contra do que era há cento-e-tal↔duzentos anos a foram culta, onde os pês e os cês se liam e quem não dizia falava à idiota. Quando eu oiço "excepto" como "cheto" até parece que me dá uma síncope... Primeiro porque o que começa por ex+consoante tem que começar como "êsh", segundo porque parecem bebés a dizer "certo". Não nos esqueçamos que ao contrário do Brasil, onde não existem alguns sons fechados do Português Europeu/Africano/Asiático. Como apenas temos 5 vogais e 14 vogais fonéticas é necessário haver um conjunto de regras que "liguem a fonética à escrita" para para fazer da língua escrita uma código com sentido. O que antes se podia justificar com uma inocente e curiosa questão de "professora, porque é que aqui se lê assim?" é agora respondido com um "é assim porque sim" (a regra que não é regra nenhuma...); isto ou então começa-se a ensinar como era antes e depois do acordo para se explicar que "rectângulo" tem um "è" (não sei se devia de por sem acento mas depois torna-se i... lá está outra pérola que não tem sentido e que ficou na grafia) que se lê aberto porque tinha antes um cê e não se deve ler re*-'TAN-gu-lu- *(a letra E como em SErá).

Com a bacorada do AO90 agora a palavra ótico passa a não ser só referente aos ouvidos e ao que é auditivo mas também ao óptico, que tem a ver com os olhos, tudo porque gente desinformada foi deixando um erro tornar-se regra. É tão errado dizer ótico para óptico como dizer "treuze" em vez de "treze" (mas este último é considerado erro mesmo que a maioria de população diga mal. Não obstante este último erro é proferido muitas vezes por gente que tem cursos superiores e cargos importantes).
Eu defendo não só um português bem escrito como bem falado (não falo em sotaques regionais onde se dizem bês por vês, por exemplo, que faz parte do não conseguir dizer as coisas; quando digo bem falado refiro-me a não ler coisas que não estão lá e por outras no seu lugar ou tirar sons que não se devem tirar.

__________________________
Nota: O motivo pelo qual se mantiveram nos dois AOs anteriores ao de 1990 os pês e cês que algumas pessoas consideram ser mudas é o seguinte: estas letras são letras que têm um valor pelo menos diacrítico (que altera o som doutra letra, neste caso das vogais anteriores).


Não tornemos a nossa língua num farrapo mal cosido, por favor. Sejamos inteligentes como quem é estudioso da língua e ama a língua portuguesa.
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De Pedro Correia a 10.07.2014 às 18:40

O valor diacrítico das consoantes supostamente mudas é inegável. E reconhecido como tal por alguns dos próprios defensores do "acordo", designadamente o linguista brasileiro Antonio Houaiss, já falecido.
Sublinho estas suas palavras, que merecem o meu aplauso: «Não nos esqueçamos que ao contrário do Brasil, onde não existem alguns sons fechados do Português Europeu/Africano/Asiático. Como apenas temos 5 vogais e 14 vogais fonéticas é necessário haver um conjunto de regras que "liguem a fonética à escrita" para para fazer da língua escrita uma código com sentido.»
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De Filipe C. a 11.07.2014 às 22:31

Agora reparei que ia escrever uma coisa nessa mesma frase e a deixei a meio e depois alterei tudo e ficou mal. Ainda assim acho que se entende. O que queria dizer era "Não nos esqueçamos que ao contrário do Brasil, onde não existem alguns sons fechados do Português Europeu/Africano/Asiático não existe uma grande necesidade de criar regras para justificar a ortografia (apenas uma ou outra palavra fogem às regras deles, como "polícia", onde lêem com as mesmas regras - aproximadamente - que as do Português Padrão. Como (nós - Portugueses) apenas temos 5 vogais e 14 vogais fonéticas é necessário haver um conjunto de regras que "liguem a fonética à escrita" para para fazer da língua escrita uma código com sentido."

Era isto. Agora está de acordo com o que ia escrever sem faltas. Um aluno da Faculdade de Letras não pode evitar corrigir-se constantemente em detalhes por vezes ínfimos.
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De Pedro Correia a 11.07.2014 às 22:54

está muito bem.
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De gtyu a 09.07.2014 às 01:43

MS, a questão ortográfica é, em Portugal (e no Brasil) um tema querido da religião que é a maçonaria. O acordismo é, por isso, em grande parte, uma questão de fé - e, como toda as fés, tem os seus fanáticos.

Temos de lembrar a quem tenta impor o acordo que o Estado Português é laico e que o laicismo se aplica a todas as crenças.

Entretanto, grandes áreas da Cultura Portuguesa e questões relacionadas com a sua preservação e divulgação são completamente negligenciadas pelo governo, universidades, etc. e estão ao deus-dará.
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De M. S. a 09.07.2014 às 06:18

gtyu:
Mas podiam ter feito a coisa com um bocado mais de competência.
Aquilo não tem pés nem cabeça.
Uma pessoa que leia, por exemplo, o que desmontou com profundidade o António Emiliano do AO ou o eloquente livro do Pedro Correia nem quer acreditar em tamanha incompetência (ou contorcionismo perante os interesses em jogo).
Aquilo é mau demais para ser verdadeiro: mas infelizmente é verdadeiro.
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De gtyu a 09.07.2014 às 13:37

M.S.,
Mas "aquilo" não é para ir para a frente. É um crime perpetrado por fanáticos ignorantes, usando métodos que põem em crise os fundamentos do estado de direito e da democracia.
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De gtui a 09.07.2014 às 14:42

Egiptólogo, Egipto, egípcios são palavras cognatas e o pt, presente em todas elas ajuda ao reconhecimento (em todas as línguas do mundo, salvo na ortografia brasileira. Em Italiano Egitto tem o doppio que se mantém em egittologo.
Egitanienes não é, como uma criança pequena verifica de imediato, palavra cognata de Guarda, mas um gentílico que Egitânia, o nome romano de Idanha.
O gentílico derivado de Guarda é guardense, pelo que o seu exemplo constitui um ilogismo.
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De Luís Lavoura a 09.07.2014 às 14:54

Egiptólogo, Egipto, egípcios são palavras cognatas

Pois são, e depois? Por que raio é que "Egito" tem que também estar nesse mesmo grupo de palavras? Da mesma forma que "Guarda" e "egitaniense" não são palavras cognatas, assim "Egito" e "egípcio" também não o são.

o pt, presente em todas elas ajuda ao reconhecimento (em todas as línguas do mundo, salvo na ortografia brasileira

Na ortografia brasileira e na portuguesa. Se a ortografia brasileira é assim, porque é que a portuguesa não há de ser também?

o seu exemplo constitui um ilogismo

Ilógica é a ortografia antiga, em que "feto " se escreve sem "c" mas "tecto" com "c", "recta" se escrevia com "c" mas "seta" não o tinha, "há-de" se escreve com um hífen mas não é tempo verbal reflexivo, tanto se podia escrever "assímptota" como "assíntota", e outras asneiras sem sentido. Isso é que era um ilogismo total!
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De gtui a 10.07.2014 às 00:03

"Da mesma forma que "Guarda" e "egitaniense" não são palavras cognatas, assim "Egito" e "egípcio" também não o são."

É uma refutação brilhante, mas vamos lá:

Egipto - mesmo sem um p é uma palavra cognata de "egípcio" ou egiptologia, porque são da mesma família próxima, pertencem ao mesmo conjunto. O parentesco fica mais disfarçado já que aquele p transmite informação ao leitor. Aquele "p" são alguns bits e estamos na sociedade da informação.

Guarda e egitaniense não são da mesma família, embora a segunda seja um gentílico para os habitantes da cidade da Guarda.

Há alguma coisa que não tenha percebido?

Estas afinidades são modificáveis e não podem ser decididas em lojas e reuniões à porta fechada. Já agora, se encontrar aí as actas das reuniões preparatórias do acordo avise. Até hoje ninguém encontrou.


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De M. S. a 10.07.2014 às 10:39

Caro Luís Lavoura:
Lamento só agora lhe poder responder, correndo o risco de o assunto estar já um bocado esquecido, o post já tem vários dias.
O senhor é daquelas pessoas que conhece mal os fundamentos mas tem sempre razão mesmo contra os factos.
O senhor disse:
a) - «… o que me interessa é que a grafia atual é melhor - porque é mais racional - do que a anterior. Se é melhor, deve ser praticada.».
b) - «Se a ortografia brasileira é assim, porque é que a portuguesa não há de ser também?»
Deixo-lhe alguns exemplos, quer da melhoria que refere em a), quer da uniformização gráfica que defende em b).
Com 4 grafias correctas:
confeccionámos - confecionámos – confeccionamos – confecionamos;
decepcionámos – dececionámos – decepcionamos – dececionamos;
fraccionámos – fracionámos – fraccionamos – fracionamos;
tectónico, -a – tectônico, -a – tetónico, -a – tetônico, -a;
electrónico, -a – electrônico, -a – eletrónico, -a – eletrônico, -a;
Santa Eufémia – santa Eufémia – Santa Eufêmia – santa Eufêmia;
Factor cardiogénico - Fator cardiogénico - Factor cardiognico - Fator cardiogênico
Perspectiva cónica - Perspetiva cónica - Perspectiva cônica - Perspetiva cónica

Com 8 grafias correctas;
Rua de Santo António
Dactiloscopia electrónica
Expectativa económica
Fracção livre do antigénio da próstata
Igreja de Santo António

Incongruências que dificultam a aprendizagem e o uso da Língua:
cor-de-rosa e água-de-colónia escrevem-se com hífen por causa da consagração pelo uso;
cor de laranja e fim de semana escrevem-se sem hífen, apenas porque… sim.
Para (verbo) perde o acento ficando igual a para.
Pôr (verbo) mantém o acento para se distinguir de por.
Pode (pretérito perfeito) leva «obrigatoriamente» acento (pôde) para se distinguir de pode (presente do indicativo);
Demos (presente do conjuntivo) leva «facultativamente» acento (dêmos) para não se distinguir de demos (pretérito perfeito);

Um cabeçalho de uma carta (exemplo extremo de variação gráfica permitida) que tem 16 384 formas correctas para ser escrito;
Ex. mo / ex. mo (x2) Senhor / senhor (x2)
Prof. / prof. (x2) Doutor / doutor (x2) Cónego / Cónego / cónego / cônego (x4) Monsenhor / monsenhor (x2) Eugénio / Eugênio (x2) Baptista / Batista (x2)
Universidade Federal de Rondónia / Rondônia (x2)
Campus de Santo António (x8) de Rondónia / Rondônia (x2)
Rua / rua (x2) de Santa Eufémia / santa Eufémia / Santa Eufêmia / santa Eufêmia (x4);
Brasil
524 288 (= 2 elevado a 18) formas correctas!
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De Anónimo a 21.10.2018 às 13:42

Luís Lavoura, não se escreve não. Para quem é adepto do AO90, deveria estar mais bem informado. A palavra "caracterísitco(a)" tem dupla grafia, como aliás muitas outras palavras no "Aborto Ortográfico". Essa é, aliás, mais uma das "modernices" do dito cujo: muitas palavras admitem que se escreva é "à vontade do freguês".

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De Pedro Correia a 21.10.2018 às 15:14

Ortografia "à la carte".
Mais uma modernice, que alguns basbaques aplaudem.
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De jo a 08.07.2014 às 13:55

É a língua que evolui não a ortografia. Se um país não atualiza a ortografia então a língua falada afasta-se cada vez mais.
Os ingleses não leem Mark Twain como ele escreveu, ou então ele não escreveu conforme a norma seguida atualmente nos USA - as duas não podem ser verdadeiras (o facto de poucas pessoas saberem qual foi a norma seguida por este autor demonstra a pouca importância do assunto).
Não me parece que a utilização de grafias diferentes provoque grandes alterações nos textos. Parece antes que só um grande fanático se preocupa primeiro com a grafia e depois com o que está escrito.
A reforma de ortografia foi encomendada por políticos mas foi feita por académicos. O que parece haver neste assunto é falta de discussão técnica, com as pessoas acantonadas nas suas posições irredutíveis (coisa muito comum em todas as academias, que parece ser a razão de existência da portuguesa).
Repare que não afirmo que o AO é prefeito ou oportuno, mas apresentar como argumento contra que é uma traição republicar autores com uma grafia diferente daquela em que escreveram é tão irracional que acaba por parecer dar razão aos seus defensores.
Voltando à vaca fria: ou defendemos que todos os autores só devem ser republicados na grafia original, ou não faz sentido defender que Sophia não pode ser publicada de acordo com o AO. A menos que se diga que a ortografia que estava em vigor antes do AO era tão perfeita que alterá-la é uma heresia.
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De Pedro Correia a 08.07.2014 às 16:24

O "acordo ortográfico" de 1990, diz você, foi feito por académicos. Não é verdade. Essa é a causa primeira de toda esta polémica. Pelo contrário, o "acordo" foi concretizado contra a comunidade científica portuguesa e à revelia de diversos pareceres emanados dessa mesma comunidade científica.
O poder político em Washington, Paris, Madrid ou Londres não legisla nestas matérias, por não ter competência para tanto nem estar mandatado para isso. Em Portugal foi tudo ao contrário: dois governos - primeiro o de Cavaco Silva em 1990, depois o de Sócrates em 2008 - legislaram sobre a ortografia e mandaram aplicá-la, fazendo orelhas moucas aos pareceres especializados e à revelia do que determinavam os respectivos programas eleitorais, que nunca previram uma alteração da ortografia vigente em Portugal.
Se entende que nada disto é passível de crítica, então há-de dizer-me, na sua opinião, o que merece ser criticado.

(A propósito: se querem mudar a ortografia, "actualizando-a" (seja lá o que isso for), escrevam Sofia em vez de Sophia. Para serem consequentes.
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De lucklucky a 08.07.2014 às 19:45

Discordo, O acordo ortográfico foi desenhado por académicos. Nos académicos há discordâncias. Uns concordam outros não.

Além disso os académicos também serem políticos ou terem uma ideologia têm muito ganhar por terem a atenção de políticos.
Desenhar a lingua de um povo é o sonho de qualquer socialista ou estadista que se preze seja ele de esquerda ou direita, pois o socialismo é definir a vida dos outros e "fica na história".
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De M. S. a 09.07.2014 às 06:12

lucklucky:
Homem, você cansa com essa de que, da Extrema-Direita (ou da Direita, concedo) à Extrema-Esquerda todos são socialistas.
Com tanto psiquiatra disponível (a crise rarefez a procura), não terá dificuldades em encontrar um que o cure.
Se o problema for de falta de recursos diga, eu próprio proporei aqui uma colecta para lhe valer.
Se o ridículo matasse já há muito que tínhamos deixado de ouvir (no caso ler) esse seu disco riscado.
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De Pedro Correia a 10.07.2014 às 13:42

O Luckyluke é um radical de esquerda que ainda não saiu do armário.
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De jo a 09.07.2014 às 11:50

Escreva Sophia ou Sofia, como lhe apetecer.
Continua a não responder ao comentário:
Pretende que todos os autores sejam publicados apenas na grafia em que escreveram, ou isso resume-se só à Sophia/Sofia?
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De Pedro Correia a 09.07.2014 às 15:25

Defendo, tão só, que não seja desrespeitada a vontade de uma das mais notáveis escritoras portuguesas de todos os tempos só porque já morreu e não está cá para defender os seus pontos de vista.
Sophia - assim e não Sofia, pois os nomes não se escrevem 'à la carte', no âmbito das "facultatividades" previstas no "desacordo ortográfico" - militou contra o AO 90. Não passou ao lado da questão: pelo contrário, tomou partido. Foi uma voz crítica e assinou documentos contra esta aberração. Com a mesma firmeza revelada antes do 25 de Abril, no combate à ditadura salazarista, e nos tempos revolucionários, contra a ameaça de novas ditaduras em Portugal.
É uma desonestidade intelectual editar os textos dela em acordês. Mais que isso: é um ultraje à sua memória.
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De ghh a 09.07.2014 às 01:30

"Os ingleses não leem Mark Twain como ele escreveu, ou então ele não escreveu conforme a norma seguida atualmente nos USA - as duas não podem ser verdadeiras"

O inglês da Grã-Bretanha ou dos Estados Unidos não teve ou quase não teve modificações nos últimos 250 anos e as que há entre os aqueles países não incomodam ninguém.

Por isso, a obra de Mark Twain é editada exactamente como foi escrita e lida em todos os países que usam o inglês, do Canadá à Austrália.
(O mesmo para qualquer autor inglês ou francês do séc. XIX)

A evolução da ortografia consiste na sua estabilização e é isso que ocorre nos países cultos.

A modificação por motivos ideológicos e religiosos da ortografia (e de política externa brasileira) - que foi o que aconteceu em Portugal - é um sintoma de atraso e a mudança da grafia de milhares e milhares de palavras um comportamento de ditatorial.
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De Pedro Correia a 10.07.2014 às 13:40

"A evolução da ortografia consiste na sua estabilização e é isso que ocorre nos países cultos.»
Nem mais. Excelente síntese.
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De Maria Dulce Fernandes a 08.07.2014 às 16:18

Concordo com o que o Pedro Correia escreve neste Penso Rápido.
Não acharia o acordo uma heresia , se fizesse sentido como alteração essencial à ortografia da língua portuguesa. Não faz qualquer sentido.
Os nossos estudantes escrevem com muitos erros, mesmo a nível universitário e em vez de os rectificarmos, assumimos as suas aberrações escritas em forma de Acordo Ortográfico. É muito mais simples do que alfabetizar convenientemente.
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De Pedro Correia a 09.07.2014 às 13:09

Resultado: nunca houve tantos erros como agora. Há neste momento pelo menos quatro ortografias correntes em Portugal. Há a ortografia pré-acordo (largamente maioritária na sociedade portuguesa), a acordista, a que não-é-uma-coisa-nem outra e a que decalca a ortografia brasileira, com a ajuda de alguns "conversores" informáticos.
Conclusão: perdeu-se a noção de norma, aliás com a preciosa ajuda do AO 90, que introduz um conceito nada científico - o de "pronúncia culta" para justificar a pseudo-aproximação da ortografia à oralidade.
Um erro, em qualquer parte, é um erro. Mas na ortografia portuguesa, com o mais alto beneplácito do Estado português, um erro passou a ser um não-erro. Porque se perde cada vez mais a noção do que é certo e do que é errado.
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De gtyu a 09.07.2014 às 13:42

"Há a ortografia pré-acordo"

Ou seja, há ortografia legal, definida pelo Decreto nº 35 228 de 8 de Dezembro de 1945 - isto se a LEI ainda tem alguma importância em Portugal.
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De Carlos Cunha a 08.07.2014 às 19:50

ah, a melancolia / mélancolie / melancholy...daquela "nossa" ortografia / orthographie / orthography...
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De da Maia a 09.07.2014 às 03:55

Parabéns pelo novo texto sobre o velho tema.
Não convém esquecer desta violação grosseira, cometida com requintes de bestialidade primitiva, no simples acto despótico do legislador.

Na minha opinião é matéria clara para o Tribunal Constitucional.
A Constituição nos seus artigos 9º e 11º refere-se à língua portuguesa em vigor aquando da aprovação, e a mais nenhuma outra.
Isso implica a forma oral e escrita.
A legislação sobre a língua não pode ser feita ao gosto da leis ocasionais dos governos, tem que ser referendada.

Não vou entrar nas conversas sobre o que faz ou não faz sentido.
Já sabemos dos exemplos e contra-exemplos.
O ponto fulcral que o Pedro aqui assinala, e muito bem, é o da estabilidade.

A nossa língua está estável na sua forma falada há mais de 500 anos, conforme atestam os documentos mais antigos a que temos acesso impresso.
Durante todo este tempo sofreu alterações de forma escrita, e foram muitas ao longo destes 500 anos, umas com mais "h" que outras.

Por um breve período de 50 anos adquiriu uma estabilidade sem paralelo, e que era factor de união com os países lusófonos africanos, onde era igual, e nesse acordo de 1946 foi estabelecida a melhor harmonia com o Brasil, dentro das pequenas diferenças.

Eu não me importo de ver escrito português num formato brasileiro, sempre achei que era igualmente possível, e se os brasileiros se entendem assim, isso não causa maior mossa.
Não me importo que os documentos informais, como a Wikipedia, e outros, sejam escritos nesse formato comum.
Não me importo que os documentos entre Brasil e Portugal usem essa grafia.
A Inglaterra tem o mesmo problema com os EUA e nunca se importou.
A solução mais simples, é admitir que ambas as grafias são possíveis.
Ponto Final.

Nunca a Inglaterra abdicou da sua língua original, em termos de património, acima de acordos pragmáticos de vivência.

O que está em causa neste acordo é que com o pretexto de se usar a forma fonética se está a destruir a forma fonética, porque se não lemos o "c" em "espectador", havia uma diferença clara entre "espetador" e "espétador".
Porque o "c" servia a acentuação.
O contexto não resolve tudo, e o exemplo óbvio disso é o "pára" e o "para".
Casteleiro foi um indigente encarregado de trabalhar uma coisa séria, e isso foi propositado, porque certas partes da maçonaria gostam de usar a confusão e destruição de memória pública como móbil privado.

O problema, como é óbvio, é que há certos assuntos que são muito mais delicados do que parecem à primeira vista.
Tanto podemos ter inocentemente o cábula a preferir tirar os "c" todos porque assim é mais fácil escrever, como podemos ter cabala em vez de cábula.

Gosto de exemplos com o Ph.
O nome "Púnica" é suposto ter derivado da transliteração do "phi" grego que passou "Phoenicia", ou seja Fenícia, tirando letras sucessivamente "Poenicia" ou "Punicia" e "Punica".
Assim, quando falamos em "Guerras Púnicas" deveríamos falar em "Guerras Fenícias", mas já nem era bem isso, porque era então com os fenícios de Cartago.

Assim, a transliteração do grego para o alfabeto latino sempre originou problemas. Não foi só recentemente, e podemos ver quando fundo isto pode ter ido, com pai e mãe:
- Em latim, pater e mater, em grego, patera e mêtera.

No português temos pouca correspondência com padre e madre.
No inglês é interessante ver como a colocação de "h" pode ter levado ao que conhecemos, ou seja, "phather" e "mather"... daqui aparece a passagem conhecida do "ph" para "f" ficando "father" e a pronúncia de "mother" usa o "o" como "a".

Se este exemplo pode ser dúbio, não restam dúvidas de como o "Ch" foi usado como passagem a "K" ou não, entre outros.
Por exemplo, ler "Charles" como "Sharles", mas ler "Chaos" como "Kaos".

Este convite à confusão é antigo, e serve poderes que o conhecem contra populações que o desconhecem.
Irrita-me haver gente favorável às modas, quando são as modas que conduzem o rebanho, e já basta o que basta, quanto mais ouvir os "méeee" concordantes.


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De Pedro Correia a 09.07.2014 às 15:12

Grato pelo seu comentário, da Maia. Tenciono destacá-lo, como merece.
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De da Maia a 10.07.2014 às 02:42

Obrigado, Pedro.
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De gtui a 10.07.2014 às 00:07

Os juízes do tribunal constitucional são nomeados pelos partidos. Por isso, escrevem alegremente em acordês.

Será mais de confiar no Supremo Tribunal ou no TEDH (Tribunal Europeu dos Direitos do Homem) - onde o estado português é um réu condenado repetidas vezes.
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De da Maia a 10.07.2014 às 02:55

Bom, acho que o caso é mesmo constitucional.
O STJ é órgão de recurso das leis comuns, e o TEDH parece completamente fora de causa.
Acho que os juízes do TC já deram mostras que nem sempre alinham com os partidos que os elegeram... mas se respondem a outras "entidades", pois isso não sei.
Se houvesse o número mínimo de deputados, com vontade de colocar a questão, isso seria fácil... se não, é mais complicado.

Curiosamente, ao escrever "órgão" lembrei-me de mais um total disparate do acordo ortográfico... se havia dupla acentuação que não fazia sentido era esta.
Sempre achei uma estupidez, e preferiria escrever "orgão", mantendo a regra de acentuação simples numa palavra que não oferece qualquer confusão.
Mas, não. Os idiotas, foram idiotas ao ponto de tirarem o acento a "pára", mas deixaram ficar os dois em órgão... se isto não é absoluta incompetência caótica, o que se pode chamar?
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De Pedro Correia a 10.07.2014 às 13:37

Tem toda a razão, daMaia. Este pequeno exemplo ilustra bem a debilidade técnica do AO. Precisamente por ter sido elaborado à pressa e às escondidas, em 'petit comité', por meia-dúzia de pessoas ao serviço não da língua portuguesa mas de propósitos políticos, aliás rapidamente confessados.
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De MP a 09.07.2014 às 14:05

Outro dos problemas do actual AO é que grande parte dos seus paladinos não fazem a menor ideia de como aplicá-lo.

Um exemplo característico disso é precisamente a "caraterística", que tem o c pronunciado em português, e assim assinalado em qualquer dicionário com transcrição fonética e, imagine-se, até no próprio VOP, do mais do que insuspeito ILTC - http://www.portaldalinguaportuguesa.org/simplesearch.php?action=lemma&lemma=125633&highlight=^caracter%C3%ADstica$

Sendo que "caraterística" surge assinalado apenas como variante do Brasil.

E no fundo, esta é uma das grandes falhas do AO de 1990: confundir dicção com fonética, e, a partir daí, querer fixar a ortografia com base na fala apenas. O exemplo salta à vista, falas afectadas, ou truncadas, como a da "caraterística", começam a plasmar-se na escrita (mais uma vez, à margem do recomendado pelo próprio AO), a ganhar forma e até justificação.

Em termos práticos, verifica-se que a tão apregoada mudança da língua (os defensores do AO normalmente valorizam a mudança per se, confundindo mudança com evolução) começa a ser operada da má escrita para a fala, e não da fala para a escrita.
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De Pedro Correia a 09.07.2014 às 15:38

Tal como referi, o binómio "cará[c]ter/característica" é um dos exemplos mais chocantes da falta de unidade lexical propiciada pelo AO90 ao sabor das flutuações daquilo a que no acordo se chama "pronúncia culta" - conceito que nada tem de científico e, como tal, não foi caucionado pela comunidade científica portuguesa.
De facto, confunde-se dicção com fonética. E pretende-se impor uma dicção pseudo-superior para impor novas regras de normalização da ortografia, algo que só pode provocar a rejeição liminar de qualquer lexicógrafo.
No limite, estas almas iluminadas pretendem alterar a pronúncia e a dicção de milhares de fonemas da língua portuguesa, num combate implacável já não às supostas consoantes mudas mas às próprias consoantes sonoras.
Utilizam o "acordo ortográfico" como instrumento para atingir este objectivo. "Uniformizar a ortografia" - algo que não foi conseguido nem jamais o será - funcionou apenas como pretexto. Nada mais.
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De Miguel a 10.07.2014 às 01:03

Todo este assunto do acordo ortográfico levou-me a uma epifania: a língua portuguesa não passa dum funcionário público.
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De Pedro Correia a 10.07.2014 às 13:34

Sujeita a tratos de polé.

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