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Pensamento da semana

por João André, em 08.03.20

O mundo moderno cria especialistas em tudo e mais alguma coisa sem criar seres humanos. Não é uma questão de a cultura geral ser insuficiente, é o facto de o conceito de cutura geral ser bastas vezes incompreendido. Ler Shakespeare demonstrará cultura, mas desconhecer a segunda lei da termodinâmica, talvez mais grave que não conhecer o Bardo, não é vista como uma falha grave de cultura.

Não só deveríamos todos investir em saber mais, como deveríamos investir em saber pensar melhor, melhorar o espírito crítico e aplicá-lo a tudo o que vemos, ouvimos, lemos, sentimos. E deveríamos depois ter as ferramentas para poder raciocinar e argumentar as teses em discussão.

Nesse aspecto, além de falhas pessoais e da sociedade, há uma falha na escola, ao insistir num mundo de especialistas que ficam depois mancos de outras formas de conhecimento e razão. As humanidades deveriam manter sempre cadeiras de matemática e ciência (mesmo que geral). As ciências deveriam sempre insistir em línguas estrangeiras, literatura e filosofia.

Urge reverter o desconhecimento que vem na forma de conhecimento ultra-específico e absoluto. Só conhecendo mais, saberemos o pouco que conhecemos. E questionaremos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.


59 comentários

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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 09:19

Discordo do terceiro parágrafo.
Não vale a pena tentar ensinar literatura ou matemática a quem não tem mesmo queda para compreender essas coisas. É uma perda de tempo (e de neurónios) que poderia com muito maior proveito ser utilizado noutras coisas.
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De João André a 02.03.2020 às 10:03

Não acredito minimamente em "não ter mesmo queda" para seja o que for. Normalmente tais problemas são resultado de mau ensino, má motivação (que também começa em casa) ou outros problemas. Poderia dar casos que conheci, mas não têm relevância estatística. Claro que há quem tenha talento especial para certos temas, mas não proponho que toda a gente se torne um crítico literário ou receba uma medalha Abels. Apenas que aprendam mais e melhorem o seu pensamento ao incluir outras áreas do conhecimento humano.

A falta de literacia científica é hoje gritante e visível em questões como o aquecimento global, o COVID-19 ou até na forma como se usa o termo "mediano" de forma errada.
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 10:23

A falta de literacia científica é hoje gritante e visível

Concordo consigo. Mas, uma coisa é a literacia científica, que é fundamental, outra é a literacia em Humanidades, que me parece dispensável. Ou antes, que me parece desejável - para quem sente atração por ela.

Parece-me fundamental toda a gente conhecer minimamente as leis da termodinâmica. Mas parece-me totalmente errado pretender que toda a gente leia Gil Vicente ou Eça de Queiroz. Tal como me parece errado ensinar a toda a gente as leis do basquetebol, ou a diferença entre um clarinete e um oboé.
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De João André a 02.03.2020 às 11:01

Se olhasse para a literária como uma fonte de factos talvez que concordasse um pouco consigo, mas não é o caso. A literatura é importante para fornecer outras formas e pensar e exprimir os pensamentos, além de educar sobre história, cultura, etc. Mesmo que queira olhar para ela sob um.ponto e vista estritamente utilitário, serve para ensinar a escrever melhor.

Mas fora isso, interpretar Gil Vicente ou Virgílio ou Murakami ajuda a compreender perspectivas completamente distintas umas das outras e a desenvolver o cérebro. Isso deveria bastar.

E o mesmo se aplica a outras áreas. Talvez não seja fundamental aprender basquetebol ou oboé, mas saber mais sobre desporto ou música é importante. Desporto ensina dedicação, colaboração, decisões rápidas, a lidar com stress, etc. Mesmo sem e ser qualquer especialista. Música desenvolver novas conexões no cérebro e permite criar novas formas e pensamento (já demonstrado em literatura científica).

Pela sua lógica, porque razão se ensinaria mais que a ler, escrever e fazer aritmética básica? O seu estilo e liberalismo aproxima-se por vezes de uma anarquia distópica.
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 11:16

O seu estilo e liberalismo aproxima-se por vezes de uma anarquia distópica.

O liberalismo não é para aqui chamado. As opiniões que expus nos meus comentários nada têm a ver com liberalismo.

Têm essencialmente a ver com o facto de eu ser pai de dois jovens e de observar o extremo sofrimento deles em terem que aprender coisas para as quais não têm qualquer espécie de jeito e que, a meu ver, não lhes trazem nem trarão qualquer espécie de benefício prático.

Ao contrário da maior parte das pessoas que perora sobre estes temas, eu tenho dele conhecimento prático, porque sou pai.
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De Vorph Valknut a 06.03.2020 às 08:55

Ui... Pois eu sendo pai e médico nunca precisei das leis da termodinâmica para coisa nenhuma. Sendo, na maior parte do meu tempo, uma Pessoa, é - me bastante mais útil usar Eça, Papini,Torga, Pope, Shakespeare, Platão, Séneca, Leopardi, Bolano, Nandinho, para compreender a vida, do que Hawkins , ou Hubble. Aliás, não tenho muita paciência para ignorantes, os tais que não se interessam pelas coisas maiores da vida (as que têm, em si mesmas valor, e não no que permitem materialmente obter) . São aborrecidos, aborrecem, e aborrecem-se com extrema facilidade. Não há fórmula matemática que me explique a gravidade de "A Morte e Marcha Fúnebre de Siegfried" , de Wagner ou a "Sonata ao Luar" , de Beethoven. Ouvindo, sentindo, aprendo o que nenhum livro sobre números jamais me ensinará. Resolvo, nelas, todos os mistérios do mundo. E quem não sente, não é Homem. É número, objecto, pedra, um vazio de gente que ocupa um espaço de nada.

https://youtu.be/wXh5JprKqiU

https://youtu.be/4Tr0otuiQuU

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De J. a 06.03.2020 às 18:00

"Não há fórmula matemática que me explique a gravidade de "A Morte e Marcha Fúnebre de Siegfried" , de Wagner"
A isto pode-se contrapor: não há sinfonia nenhuma de Wagner que demonstre o Teorema de Goedel ou que decida a conjectura de Rieman.
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De J. a 07.03.2020 às 11:48

" não há sinfonia nenhuma de Wagner que demonstre o Teorema de Goedel ou que decida a conjectura de Rieman."
E agora acrescento:
Escreveu F. Pessoa: o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo, há é menos gente para o compreender.
Também se pode dizer
O Teorema de Goedel é tão belo como A Morte e Marcha Fúnebre de Siegfried" , de Wagner", há é menos gente para o compreender.
E assim é possível afirmar: "Ouvindo, sentindo, aprendo o que nenhum livro sobre números jamais me ensinará". Claro! Mas os livros de números ensinam outras coisas que não se sentem nas sinfonias. Há é pouca gente (muito pouca) capaz de o perceber.
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De Vorph Valknut a 08.03.2020 às 11:37

https://vorph.blogs.sapo.pt/serra-do-geres-para-os-lados-de-portela-364862

https://vorph.blogs.sapo.pt/minas-dos-carris-portela-do-homem-geres-365133

Salve Regina

https://youtu.be/3P2bDrRtNQI

Sim, J, entendo-o. Gosto daquela parte do Teorema de Godel onde se deduz haver um limite para o conhecimento matemático. Havendo um limite há todo um espaço para a espiritualidade, dada pela música, pela montanha, pelo poema
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De Vorph Valknut a 06.03.2020 às 09:22

Mostre-lhes. Não há no mundo mais do que confeitarias.

https://youtu.be/0jjE-2FqqpM
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De Vento a 02.03.2020 às 09:21

Penso que está muito bem esgalhado o pensamento. A propósito desta reflexão regresso às quotas para sabermos como se encaixa o conceito de entropia (S).

Quanto mais organizado o sistema menor a entropia e vice-versa. Portanto, estamos perante uma constatação científica do sistema no que respeita à reversibilidade e irreversibilidade do mesmo.
Acontece que esta lei da física reforça a observação sobre o natural, melhor, o
comportamento natural dos elementos.

Se fizermos agora o esforço de comparar o natural com o artificial, constataremos que os cientistas políticos que hoje governam e outrora governaram este Portugal e as nações procuraram nada mais nada menos que transformar um elemento artificial em um sistema natural. Digamos que introduzem e introduziram moléculas artificiais num sistema que se organiza naturalmente e de outra forma, criando ainda mais incompatibilidades e aumentando a irreversibilidade.
Um homem e uma mulher não se dilui num sistema, não se tornam em uma mesma matéria; contrariamente ao que se pensa, encaixam-se. Assim, também nesta matéria, a questão das quotas está aí somente para privilegiar grupos, porque outros tantos homens e mulheres ficarão sempre de fora da lei.

Por isto, estamos diante de um critério artificialmente selectivo que leva erradamente a pensar que a molécula legal é provocadora da organização do sistema que se mantém completamente desorganizado.

Entremos agora na questão racial. De um momento para o outro os avançados e avençados civilizacionais que nos governam descobriram o racismo e, mais importante que isto, descobriam que há racistas e há não racistas. E como sabem que há racistas e há não racistas eles chacoalham o recipiente com uma molécula legal para confirmar que a desorganização se mantém, isto é, menor se torna a entropia da entropia que pretendem criar. Difícil entender, João?

Portanto, a lei natural diz-nos que perante realidades é a oportunidade de se gerar compatibilidades que organiza o sistema.
Por outras palavras, diz o imaginário que em regra as mulatas são belas, boas, quentes, carinhosas, fogosas; em tudo melhor que as brancas. Mas eu não posso pretender misturar quem gosta de brancas com uma bela, boa e fogosa mulata. Portanto, a mulata, se gostar, deve escolher quem quer e o branco ou branca também. E se não gostar fica com quem quiser. O sistema organiza-se.
Se eu pretender chacoalhar o que per si se entende incompatível é sabido que as moléculas giram desorganizadas e cria-se uma ainda maior irreversibilidade do sistema.

Em conclusão, sabido que é que a organização social ao longo da história tem demonstrado reversibilidade, isto é, a capacidade de per si se organizar, então desejemos que o estado se foda nestas matérias e aceitemos que a temperatura se mantenha para que o calor possa ser cedido e recebido naturalmente.

Não obstante, sim, compete também à escola, mas não só, fazer compreender que os limites do espírito podem ser ultrapassados através de um melhor entendimento sobre o que nos é igualmente diferente: mulheres, homens, caucasianos, negróides, ameríndios e asiáticos. Porém respeitando sempre a cultura e natureza de cada um sem pretender misturá-las e adulterá-las.

Ninguém pode ser discriminado por raça, cultura, ideologia, credo e etc. Mas ninguém é obrigado a professar a mesma cultura, ideologia e credo. Mantém-se livre de optar por se juntar ou não a qualquer uma delas.

A lei só deve ser introduzida para dirimir actos que o senso-comum por si mesmo rejeita, isto é, o que for matéria criminal.

Um dia, por progressão natural e não legal, todos compreenderão que são absolutamente iguais em suas diferenças. Isto não é igualdade, é ajuste, tal como uma ficha macho se liga a uma tomada fêmea.

É pela unidade, e não pela legalidade e uniformidade, que se deve lutar.

Na história do cristianismo temos como referência que a lei não liberta, porque foi essa mesma lei que nos ofereceu o cruxificado. Tal como Arquimedes dizia, "dá-me um ponto de apoio e moverei o mundo", foi a cruz o ponto de apoio transformador que ocorreu e virá a ocorrer neste universo de gentes.
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De Vento a 02.03.2020 às 10:46

Para concluir:
a partir das questões figurativas que apontei, como é possível criar uma ordem, no quadro das relações, sem ela passar primeiro por um crescimento e amadurecimento da sociedade?

Veja o caso da escravatura, ela foi abolida. Masa inda hoje em muitos países existe uma clara separação de pessoas e de raças, e as leis estão lá.

Não vou focar exemplos de países, mas mesmo em países onde existe uma forte miscigenação, não obstante a lei, continua a existir um claro separatismo.
Sabe qual é o elemento agregador e "despreconceituador" deste tipo de relações? Os movimentos eclesiais, em particular as igrejas cristãs. Há uma consciência colectiva que se desenvolve com o tempo.

Muitos anos antes, o nosso Padre António Vieira tornou-se ele mesmo um dos precursores deste tipo de relacionamento. E ele mesmo atirou-se às cúpulas sociais e governativas para denunciar a hipocrisia.
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De o cunhado do acutilante a 02.03.2020 às 10:50

Caro Vento. No seu universo paralelo, se não for enforcado pelo caminho chegará a presidente. Desejo-lhe a melhor sorte.
Mas no meu universo, e, penso, de toda a gente que por aqui anda, explique lá o que tem o cu a ver com as calças.
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De Vento a 02.03.2020 às 11:05

Já vi que me dá todo o caminho e eu aceito.
A 2ª lei da termodinâmica diz respeito à entropia. É em torno disto que o autor fez o post.
Se você entende que a forca é um bom elemento para dirimir pensamentos, venha a forca.
Citando um conhecido revolucionário: "dispara porque só matas o homem".
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De o cunhado do acutilante a 02.03.2020 às 12:10

Entendido!
Tudo se resume, portanto, a uma questão entrópica. Não tinha percebido.
É que já começava a panicar à prosaica obrigatoriedade de ter de ler o Sheik espirre, não! o Shakespeare a ver se neste meu moribundo cérebro entrava alguma coisinha.
Muito obrigado; livrou-me de boa. Entropia, é?
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De Vento a 02.03.2020 às 15:13

É. Já o informei que, como ser divino, ando por aqui para defender as alminhas.

Qualquer dúvida, por favor, traga a forca.
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De Miguel a 04.03.2020 às 08:47

Eu proponho que antes da entropia se domine o logaritmo.
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De Vento a 04.03.2020 às 21:10

Miguel, na matéria em questão é impossível. E ainda que procurássemos adaptar, melhor, encontrar um logaritmando aplicado à geografia, neste caso geografia política ou geografia social, não me ocorre qualquer engenho para o determinar na sua universalidade.
Para isto somente o conhecimento da história e do comportamento tornará possível a previsibilidade.

Podemos atribuir uma previsibilidade matemática? Não existe, porque a lógica na matemática é outra. Portanto, quando muito poderemos escrever sobre a ilusão da previsibilidade quando solicitamos respostas perante hipotéticas equações.

Exemplo: Imagine que alguém pergunte qual o número seguinte na sequência abaixo.
Que resposta se poderá dar em termos de lógica-matemática?
00, 01, 02, 03, 04, 05, 06, 07, 08.
Imagine agora que optou pela resposta dita determinística.

Coloquemos outro exemplo:
Imagine a mesma pergunta para a seguinte sequência:
01, 03, 00, 13, 02, 10, 15, 16, 06, 04, 07, 11, 05, 14, 09, 08.

Será que se poderá considerar uma sequência aleatória e, consequentemente, não determinística?
Na minha perspectiva ela é tão determinística quanto a anterior.

Ainda que usasse um algoritmo (sim, disse algoritmo e não logaritmo) para encontrar uma resposta, não é possível determinar em rigor se existe um próximo número.

Conclusão, o logaritmo facilita a conta e aplica-se em várias áreas da ciência: matemática, química, computação... Porém nunca com rigor nos níveis da percepção da atitude e o resultado desta.
Fiz entender-me sobre a ilusão da previsibilidade e a lógica-matemática?
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De Vorph Valknut a 06.03.2020 às 09:27

Uma palavra, apenas, Vento: fosga - se!!
Há aqui mais profundidade do que na cova da Mariana
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De Vento a 06.03.2020 às 15:53

A mariana é uma égua ou é mesmo Mariana e mija para a cova?
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 09:22

Ler Shakespeare demonstrará cultura

Porquê, especificamente, Shakespeare?

Não haverá na cultura portuguesa, ou na espanhola, ou na marroquina, ou na vietnamita, ou noutra qualquer, escritores tão bons ou melhores do que Shakespeare?

Se é cultura conhecer Shakespeare, não o é igualmente conhecer os grandes escritores desses outros países todos?

E será Shakespeare adequado para pessoas que não conheçam o contexto inglês da sua época? Ou seja - para a maioria de nós?
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De João André a 02.03.2020 às 10:06

Porque a minha reflexão sobre este assunto começa com C.P. Snow e ele dá o exemplo de obras de Shakespeare. Também usa a 2a lei da termodinâmica.

Mas se eu escolhesse outro autor, porque razão você não se queixaria também dele? Se eu dissesse Natália Correia, Miguel de Cervantes, Jane Austen ou Bill Bryson, você poderia não gostar também destes.
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 10:19

se eu escolhesse outro autor, porque razão você não se queixaria também dele?

Exatamente, eu queixar-me-ia de qualquer outro autor.

É por isso mesmo que considero que o melhor é não ensinar autor nenhum - ou melhor, ensinar somente a quem quer aprender autores de um tipo (género, tradição, língua, etc) específico.
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De João André a 02.03.2020 às 11:04

Mais uma vez uma lógica liberalismo completamente manca de... lógica.

Se não for exposto aos diferentes autores, estilos e correntes, como saber a que existem. Como pode querer aprender sobre Redol se não ouviu falar dele ou de neo-realismo?
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 11:31

Como pode querer aprender sobre Redol se não ouviu falar dele ou de neo-realismo?

Esse argumento pode ser aplicado a milhentas coisas. Pode ser aplicado ao budismo, à espeleologia, ao boxe, a tocar tabla, etc etc etc. Se fôssemos a aplicar esse argumento, então uma criança ou jovem deveria aprender (ou ser exposta a) muitas mais coisas do que aquelas que aprende.

Por isso mesmo considero esse argumento falacioso. Não podemos ter como objetivo que uma criança aprenda tudo aquilo que, potencialmente, será bom ou útil que ela aprenda. Devemos ter um objetivo mais realista: que ela aprenda tudo aquilo que é essencial que ela aprenda.

Ora, praticar boxe, tocar tabla, explorar grutas, apreciar autores neorrealistas, ou aprender as bases do judaísmo - tudo isso são coisas potencialmente muito benéficas e úteis - mas não são essenciais.

Ao contrário da ciência. Essa, sim, é essencial.
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De Vento a 02.03.2020 às 16:15

Lavoura, as ciências sociais, por exemplo a sociologia e/ou antropologia social, são de uma importância tal que a ciência, no sentido que lhe atribui, não teria cabimento sem elas.
A ciência que procura introduzir como essencial, sem as outras, incluindo as bases do judaísmo, que fizeram com que se introduzisse nas mais diversas constituições do mundo os princípios do direito - recordo as tábuas da lei -, mas também Redol - que nos deixa um legado da visão social transformadora que também possibilitaria a evolução científica (recomendo a leitura de Gaibéus e a Barca dos Sete Lemes)- não serviria de nada ou atribuir-se-lhe-ia especificamente a redução do homem à expressão numérica que, por exemplo, as ciências económicas têm procurado fazer.

Pretendo com isto dizer que se não fosse a força social transformadora, a ciência ainda hoje estaria na idade da pedra e as crianças estavam a ajudar seus pais na lavoura ou a guardar rebanho, ao invés de estarem na escola. Ainda que muito seja necessário aperfeiçoar.
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De Miguel a 04.03.2020 às 08:50

Cum raio, então se um gajo não conhece nenhum autor como é que vai saber que quer aprender um deles?
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De o cunhado do acutilante a 02.03.2020 às 14:41

Caro Luís Lavoura.

"Porquê, especificamente, Shakespeare??

Não necessariamente. Demonstrará na mesma cultura se se disser que se leu.
Esse ou quaisquer outros grandes dramaturgos, passados ou recentes.
Diz-se que se leram e os níveis culturais disparam para níveis de grandeza empíricos.
O que bem vistas as coisas é o que verdadeiramente interessa. Não importa sê-lo, o importante é parecê-lo.
- Ah e tal, - indagará com algum cepticismo o Caro Luís lavoura, - e se formos confrontados com questões pertinentes ao assunto em causa?
Fácil. Mantém-se a posição, plagia-se o Vento e espetam-se com umas entropias a preceito, - precedidas ou precedentes de várias conjugações sobre os efeitos nefastos sobre o deterioramento da reversibilidade quando confrontada com a irreversibilidade, - sempre mantendo a seriedade de quem sabendo-se observado condescende em dignar-se conceder-lhe um olhar de sublime modéstia, de quem sabe ser assim e não esperar outra coisa, e tá feito. Opositor ao tapete.
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De Luís Lavoura a 02.03.2020 às 15:48

Não necessariamente. Demonstrará na mesma cultura se se disser que se leu. Esse ou quaisquer outros grandes dramaturgos, passados ou recentes.

Pois. Na prática, o que a generalidade dos educandos atualmente faz, confrontados com uma quantidade de trabalho, e de coisas para ler, totalmente desumanos - repito: totalmente desumanos - é fingir que leu, ou seja, ler e copiar algumas frases de uns livros-cábulas já preparados para esse efeito e/ou disponíveis na internet. Ninguém lê o autor original, toda a gente perde, aliás, o gosto que poderia vir a ter em lê-lo, e toda a gente substitui a leitura por umas cábulas.

É este o resultado prático de uma educação cruel, que pretende enfiar pelas goelas dos jovens abaixo uma quantidade brutal de coisas que não tem qualquer utilidade para eles, em particular e em especial, obras de literatura de tempos d'antanho.
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De Vento a 02.03.2020 às 16:40

Lavoura, ali o acutilante se lhe perguntarem se leu alguma coisa do que Sócrates, o filósofo, escreveu, seria o primeiro a dizer que conhecia.

Olhe, Lavoura, isto é para enervar o acutilante, pois o que escrevo tem rasteira. Não responda. Deixe ver o que ele escreve.
Seja condescendente, pois a reversibilidade e irreversibilidade revela-se nos pormenores. E vai ao tapete. Aguarde.
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De o cunhado do acutilante a 02.03.2020 às 18:10

Essa agora, Vento! muito me ensina.
Então Sócrates não jogava à bola? Também era filósofo?
Sócrates, filósofo ilustre, pensava só conhecer o nosso filho pátrio que desbravou o caminho para a verdadeira filosofia de eleição, quando, de calças novas, jurava a pés juntos pela imagem do Crucificado: neste bolso nunca entrou dinheiro alheio.
De resto tem razão. Não conheço nada de filosofia.
O que é triste. São estas profundas incongruências do conhecimento humano, tudo para uns, (Vento), nada para outros, (este seu criado) que por vezes me fazem quedar como um desses filósofos respirando sem saber, alto, magro, bêbedo, doente e pálido meditando nas tristes vicissitudes da existência, encarando o mundo como se daí já nada haja a aproveitar, ou nem valha a pena.
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De Vento a 02.03.2020 às 21:04

Eu logo vi. Posso concluir que está na fase em que precisa desabafar, não?
A Entropia é exactamente isso: a desordem a que tanto se atém não é desordem, é a ordem do sistema.
Por isto, muito me apraz poder dar-lhe a mão. Grato pelas referências que vai fazendo a minha pessoa. Não me esqueça.
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De o cunhado do acutilante a 02.03.2020 às 18:28

Absolutamente de acordo!
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De Anonimus a 03.03.2020 às 12:11

Há uns anos dei um curso (básico) de excel a recém-licenciados de Direito. Futuros advogados, juízes.
Fiquei a saber que 99% não sabiam o que era uma percentagem. Não me refiro a saber calcular, simplesmente desconheciam o conceito.
E mais, não queriam saber disso!
Este foi um dos exemplos de completa iliteracia. Depois admiram-se dos portugas não saberem cuidar das finanças.

Deram o exemplo das regras do basquete. Claro que ninguém devia ser obrigado a saber as regras de uma modalidade, mas se a seguirem não faz sentido instruirem-se sobre ela?
É que nós somos fanáticos do futebol, ou outros desportos, mas poucos são os que se dão ao trabalho de aprender as regras, quanto mais História ou actualidade.
Isso é o que chamará a cultura geral, a aprendizagem deve ser contínua, até ao dia em que descemos ao andar 7 palmos abaixo do rés-do-chão.
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De Costa a 04.03.2020 às 12:44

"O mundo moderno cria especialistas em tudo e mais alguma coisa sem criar seres humanos".

Legiões muito competentes, ou nem isso, nesta ou naquela particular coisa. Mas devidamente protegidas da injustificável maçada, parece, para os próprios, e do risco tremendamente subversivo, para os poderes, de conhecer e pensar fora de tudo o que não seja traduzível numa equação, numa fórmula matemática, no diâmetro de um cano, na espessura de uma tábua, no adubo a aplicar, no medicamento a administrar.

Legiões de formiguinhas operárias, cuidadosamente mantidas ao abrigo do horror de conhecer um mínimo da História, da cultura, do pensamento que se afaste das ciências ditas exactas. Obedientes, tudo aceitando sem uma pergunta - o chefe e o que o chefe manda - por desconhecer outra possibilidade. Tranquilizadas prontamente, na remota hipótese de uma dúvida pretender despontar, pelo safanão a tempo ministrado pela "autoridade" e pelo circo (futebol e coisas afins) incessante e cavalarmente servido. Legiões prontas a repetir os erros da História sempre que conveniente.

Há literatura, sobre isso (mas que interessa?). E há, desde logo aqui, quem o ache muito bem.

Costa
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De o cunhado do acutilante a 04.03.2020 às 15:07

Caro Costa.
Tudo depende da perspectiva de quem olha.
De que adianta a essas legiões de formiguinhas cuidadosamente mantidas ao abrigo do horror de conhecer um mínimo da História, da cultura, do pensamento que se afaste das ciências ditas exactas, se do outro lado está o formigão que dita o caminho a seguir?
E porquê só adquirir o conhecimento da história? Se nos pretendemos cultos então sejamo-lo de todo o conhecimento humano. Escultura, pintura, mecânica, música, dança, astronomia, arqueologia, ciência geral, etc etc...
Li, não me recordo onde, um pensamento profundo que aqui se aplica na perfeição.
De que adianta as ovelhas fazerem manifestos sobre a vegetabilidade se os lobos tiverem opinião diferente?
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De Costa a 04.03.2020 às 16:22

"E porquê só adquirir o conhecimento da história? Se nos pretendemos cultos então sejamo-lo de todo o conhecimento humano. Escultura, pintura, mecânica, música, dança, astronomia, arqueologia, ciência geral, etc etc..."

Não quis ser nem exaustivo nem estabelecer um catálogo exclusivo, meu caro, muito havendo, evidentemente, para lá disso que referi. Pensei que resultasse natural, mesmo que não explicitado.

Quanto ao resto, serei ovelha, decerto. Mas saiba o lobo que eu sei dessa minha condição e da sua geral iniquidade.
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De o cunhado do acutilante a 04.03.2020 às 17:56

Caro Costa: e resultou. Para mim e para a grande maioria de quem aqui comenta, se não mesmo para todos, foi suficientemente explícito para ser compreendido.
O que eu quis dizer foi que o conceito de cultura para uns não é propriamente o mesmo para outros, sem que, todos não sejam cultos.
Duvido muito, por exemplo, que Shakespeare , Homero, Cícero, Cervantes, Camões, Proust, Dumas, Arquimedes, Sócrates e por aí adiante, façam parte da cultura do pescador que na mesa nos põe o bacalhau e o carapau.
Mas ele é culto. Tem a cultura dos ventos e marés e da navegação.
Do mesmo modo será estendível o exemplo apresentado no que concerne ao trolha que nos ergue as habitações, ao jardineiro que alinda os parques, ao mecânico que nos aperta os parafusos e nos muda os travões ao carro que nos permite viajar em segurança.
Sabemos quem foi Henrique VIII, mas bem morríamos de fome porque não sabemos depenar um frango.
Provavelmente eles não sabem. Mas não morrem de fome nem nos deixam morrer a nós.
Ora sendo a cultura a base onde se alicerça o futuro da humanidade, como implicitamente se quer fazer passar, qual a verdadeiramente salvadora?
A nossa cultura ou a deles?
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De Costa a 04.03.2020 às 20:23

Suponho que será salvadora uma cultura que dê a todos a oportunidade de experimentar e, querendo, aprofundar. Que mostre o que existe ou existiu para que aqui se chegasse. Que, pegando num dos seus exemplos, mostre um pouco de Cícero abdicando de um pouco das torrentes de reality shows. Uma cultura que desperte o interesse em lugar de poupar escrupulosamente o cidadão a essas maçadas, tudo fazendo para o embrutecer muito convenientemente. Uma cultura em que um pai incentive um filho a descobrir Eça e o que ele de nós retratou, em lugar de se insurgir veementemente contra a sua inclusão num currículo escolar. E o filho depois que decida.

Porque razão, diga-me, alguém que saiba depenar um frango terá que se desconhecer essas coisas?

Costa
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De o cunhado do acutilante a 05.03.2020 às 00:07

Não terá, obrigatoriamente de desconhecer. Simplesmente a cultura de saber remendar e lançar a rede ao mar, é-lhe suficiente.
Cultura é conhecimento. Aceito e concordo. Mas que benefícios maiores tira da vida quem é culto e não se sabe desenrascar, ou quem é menos culto e arranja solução para as crises.
Por exemplo: imaginemos, hipoteticamente, que um individuo que é um poço sem fundo de cultura, por um qualquer motivo se encontra sozinho perdido numa savana africana. Pode acontecer. Aventurar-se por ela adentro e o carro pifar.
Tem fome e sede, mas não há água. Mangas há! montes de árvores carregadinhas delas e de macacos, que lá em cima indiferentes à fome do desvalido culto regalam-se com os suculentos frutos, Ah! subir também não pode porque são árvores de grande porte e e como passou a vida a cultivar-se não teve tempo para aprender a trepar às árvores.
Passa um dia, passam dois, passam mais uns quantos e quando está no limite da resistência humana, e já só lhe resta morrer de fome, passa por ali um negro, nu ou quase nu que nem numa linguagem rudimentar se sabe exprimir. Um ignorante completo.
Vê o desespero da infeliz personagem, poço de cultura a finar-se, e que faz ele?
Faz gestos ameaçadores para os macacos, grita para eles, gesticula e joga-lhes umas pedras ou galhos.
Imediatamente os até aí legítimos proprietários dos frutos, agarram-se com pés e mãos aos galhos e entram numa acesa disputa balançando os corpos para cima e para baixo, e as mangas começam a cair. Ao verem isso, mais se enervam e mais se balançam coléricos, e a árvore fica pelada.
Ora o tal esfomeado mais culto que a biblioteca de Alexandria, nos seus áureos tempos, sobreviveu graças à cultura de um negro que nunca viu uma letra na vida dele.
Quero dizer com isto, pelo menos é o que eu penso, que toda a cultura que se possa armazenar numa vida só tem valor se nos servir de proveito.
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De o cunhado do acutilante a 05.03.2020 às 00:20

Ah! e telemóvel também não tinha... com ele.
Esquecera-o no hotel.
Ser o expoente máximo da cultura não é sinonimo de ponderoso.
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De Costa a 05.03.2020 às 02:25

Enfim, creio que se se recorrer à invocação de situações extremas, de absoluta excepção, tudo o que se disser em nome de uma opção que tomemos como globalmente preferível é sempre susceptível de ser invalidado. Não me servirá de muito, decerto, ser uma referência em estudos da Grécia antiga (que não sou), se me calhar em sorte estar no lado receptor de um bombardeamento que destrua o local onde viva. Mas tomamos um tal cenário como rotina? Creio que por cá, felizmente, ainda não.

Veja bem, eu conhecendo razoavelmente os componentes da mecânica do meu carro, o que fazem, porque lá estão e como operam para que aquela máquina faça o que eu dela pretendo, nem me atrevo a mudar um filtro de óleo. Deixo-o para alguém, cuja cultura me é desconhecida - nem é de minha conta - mas que, pelo menos formalmente, me dá garantias de o saber fazer competentemente. E está muito bem assim.

Está muito bem que um pescador se baste com o conhecimento da sua profissão e a experiência que a escola da vida lhe der. A sua honestidade, o seu carácter de pessoa de bem são por aí intocáveis. Longe de mim pretender que sejamos todos forçosamente eruditos, sem todavia saber substituir uma torneira; eu nem sou uma coisa nem sem substituir a outra. Nem remendar uma rede de pesca. Nem trepar a uma árvore e alcançar o fruto salvador; que provavelmente, por meu desconhecimento, tomaria por venenoso.

O que me impressiona não é que alguém, podendo ir um pouco mais longe (um pouco mais longe, ter curiosidade pelo mundo à nossa volta, ciências exactas e humanidades incluídas, não requer sequer uma certificação académica; instrução e cultura não são necessariamente a mesma coisa), se baste deliberadamente, conscientemente, com uma mediocridade que nem aúrea será. Isso não me impressiona, apenas o lamento.

O que me impressiona, revolta, é que essa escolha de deliberada ignorância seja dolosamente fomentada por quem podia (devia), abrir portas. Desde o Poder a um pai.

Costa
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De o cunhado do acutilante a 05.03.2020 às 15:12

Olá. boa-tarde.
Nisso estou totalmente de acordo consigo. Podendo ir mais longe é sempre bom.
Como alguém disse e muito bem, o saber não ocupa lugar.
Contudo, e foi o que aqui discuti consigo, só cultura não chega. Podendo ser associada ao conhecimento, esse que só a experiência de vida ensina, então sim! para alguém mediamente afoito, tudo é ultrapassado.
Erudição e experiência e a pessoas está devidamente armada porque ser-se só erudito é muito pouco. Veja o exemplo que me apresentou: provavelmente temeria serem os frutos venenosos.
Antes porém, e porque eventualmente continuando o nosso diálogo neste registo poderia dar azo a uma errónea interpretação de que me dirijo a si especificamente, excluamos-lo a si e coloquemos um terceiro no seu lugar.
Temos então um erudito, um profundo conhecedor da história, arte, literatura, filosofia, enfim; de tudo que preenche o conhecimento humano, de tudo quanto a escola e os livros lhe ensinaram mas, e na dramática situação apresentada, interroga-se temeroso: e se as mangas forem venenosas?
Ora tudo quanto a escola e os livros lhe ensinaram de nada lhe serviu porque faltou-lhe o outro conhecimento, esse que complementa o primeiro: o saber da experiência porque se o possuísse saberia que tudo quanto um macaco come um homem pode comer sem qualquer receio.
Um macaco ou qualquer outro animal. Tudo que numa árvore um animal coma, ou num chão um bicho paste, é comestível para uma pessoa.
Pode, e nisso concordo, é que no segundo caso apresentado a degustação humana não seja agradavelmente apreciada. Mas, lá está: quando há fome não há ruim pão. :)

Foi um prazer.
Os meus cumprimentos e simpatia.
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De Costa a 05.03.2020 às 16:57

Uma coisa não exclui a outra. E se, naquilo que escrevi, em algum ponto parece passar a ideia oposta, então fui eu quem não soube ser claro. Se algo pretendi foi manifestar repúdio pela tendência - que não é de agora e cresce robusta por aí - de ter as chamadas Humanidades na conta de uma fundamental inutilidade, uma perniciosa bizarria de sádicos diletantes, entregues às delícias perversas de martirizar estudantes indefesos.

Foi um gosto trocar impressões consigo.
Costa
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De Anónimo a 05.03.2020 às 02:06

"Sou especialista da curiosidade não especializada".

Professor Agostinho da Silva
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De o cunhado do acutilante a 05.03.2020 às 15:20

Senhor Professor Agostinho da Silva.
Lamento desiludi-lo, mas para que lhe serve?
Curiosidade válida, aquela mesmo proveitosa, só a especializada, que é a sublime arte de saber ver sem ser visto a ver.
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De Vento a 05.03.2020 às 16:43

Não há curiosidade especializada. Há especialistas curiosos e outros que o são pela inicial curiosidade.
Você afirma a verdade e o seu contrário. E como é um especialista em animais, deixe-me perguntar-lhe se sabe qual o segredo da vida (?).
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De o cunhado do acutilante a 05.03.2020 às 18:34

Dentro do contexto diferenciador do senhor Professor Agostinho da Silva sobre curiosidade que cria uma não especializada, por que não criar eu uma especializada?
Não sou um especialista sobre animais: sou simplesmente um amante da natureza, onde, aliás, desde tenra idade fui criado.
Acreditará ou não, mas aos oito anos empoleirado numa árvore na companhia de um negro grandalhão de 40 anos cuja missão era a de guarda-costas mas que de juízo tinha menos do que eu, via, deliciado, os mabecos perseguirem a presa e as hienas devorarem caça. E chitas, e onças, e mais e mais.
Nunca nenhuma criança teve uma infância como a minha nem nunca nenhuma foi tão feliz.
O segredo da vida não sei. Se me perguntou para saber, lamento mas continuará na ignorância. Se me perguntou com ela fisgada pois sabe e quer aniquilar-me com o seu conhecimento, então agradeço-lhe que o partilhe comigo.
Nunca fui presunçoso e recusei aprender com quem sabe
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De Vento a 05.03.2020 às 22:25

Já temos uma coisa em comum: África. De minha infância recordo-me de um amigo africano; e percorri mato colocando-me ele em seus ombros. Seu nome era Salomão, e parecia ter 2,00m de altura. Parecia, porque as dimensões para uma criança são bem maiores que as percebidas por um adulto. A melhor forma de ver os animais era quando plantado ao entardecer junto aos lagos e rios, onde iam beber água e muita coisa acontecia.


Feitas as apresentações, vamos lá:
O segredo da vida é este que aprendi de um filósofo brasileiro: as vacas não dão leite.
Posso desenvolver mais se você continuar interessado.


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De o cunhado do acutilante a 06.03.2020 às 02:22

Ah! África, minha terra.
Linda.
Das savanas,
onde o bicho corre.
Vive e cria,
luta e morre.

Eu sou teu,
sou o teu povo.
Sou a senzala,
o pirão e funge.

Sou os tan tans
do teu batuque,
quebrando a noite.
Sou a negritude,
o fatalismo,
da tua gente

E na quente noite africana,
feiticeira amante nua,
o luar derramava prata.

Quanto à vida. Estou! muito interessado! vivamente interessado!
Sobretudo porque o meu conhecimento sobre essas simpáticas ruminantes é muito escasso, ou nenhum .
Sei que foram domesticadas aí por volta de uns oito mil anos, mais semana menos semana, e que são animais muito úteis porque comem-se por dentro e bebem-se por fora.
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De Vento a 06.03.2020 às 10:02

Já lá vamos, aos poemas.

As vacas não dão leite, somos nós que o tiramos com a ordenha. O mesmo acontece com o conhecimento. Ele existe, anda por aí. Expressa-se de muitas formas, mas é necessário segurar na teta e tirar-lhe o conteúdo. Dá trabalho, mas não é em vão. Ele é necessário.
Portanto, o passado, tivesse sido o que fosse, foi uma necessidade para aqui se poder chegar. Sobra futuro, que já é agora. Neste sentido o futuro é uma possibilidade para se ir aonde se quiser ir. São as gentes que dominam o tempo e não o contrário.

Os San (Khoisan, também conhecidos por bosquímanos. A título de curiosidade, o dialecto deles caracteriza-se pela existência de cliques), possuem uma religiosidade animista. Afirmam eles: "Há um sonho que nos sonha".
Edith Stein, mais conhecida por Santa Teresa Benedita da Cruz, morta em Auschwitz pelos nazis, judia, filósofa e ateia, posteriormente convertida ao catolicismo, deixou-nos um legado extraordinário na busca pela Verdade, para chegar ao centro de sua busca: "Existe uma Alma da alma".
Esta constatação de certa forma aproxima-se da intuição dos San, ou Khoisan, mas bem mais desenvolvida e melhor interpretada, que descobre a realidade cristã: temos um Deus que nos sonhou, mas sonhou para que o encontro com Ele tenha sentido no encontro com o Homem. Por isto mesmo: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará". Esta Verdade é uma Pessoa, Jesus.

A partir daqui, importa dividir o mundo em três eras:
A era, já não recolectora, da agricultura em que a moeda era possuir terras e era rico quem as possuía (riqueza esta muitas vezes mal distribuída):
A era industrial, em que a moeda era o capital (de igual forma que o anterior);
E a era para que devemos avançar, que é a era do Conhecimento: a Verdadeira e nova moeda a ser introduzida.

A Verdade, ou o sonho que nos sonha, encontra-se pelo Conhecimento - "Procurai e encontrareis; Pedi e ser-vos-á dado; Batei e abrir-se-vos-á" -, mas o Conhecimento APLICADO, isto é, que se APLICA de cérebro a cérebro.

Assim, é esta teta, o Conhecimento, que necessita ser espremida para que a seiva corra, para ser ofertada, pois "o que recebestes de graça dai de graça".
Porém com a consciência de que quem galga uma montanha quer sempre subir uma outra ainda mais elevada.

Tudo isto para dizer-lhe, e daí o ter chamado à colação os nossos irmãos San, que o Homem não é um humano com experiências espirituais; é antes um ser espiritual com uma experiência humana. Sempre ao encontro de si e dos outros, mas n´Ele: no Sonho que nos sonhou.

O propósito do presente: demonstrar-lhe sobre a importância de Conhecer: seja para o depenador de galinhas, seja para o vagabundo, seja para o industrial, seja para o matemático, seja para quem for.
Uma comunidade, ao contrário do que se pensa, não é um ajuntamento de pessoas. Se fosse isto bastar-nos-ia andar de metro nas mais diversas capitais ou cidades do mundo, bem como de autocarro ou colocarmo-nos numa fila de carros.
Comunidade é uma unidade em partilha.

Vamos aos versos de um poema que Amália cantava:
Partem tão tristes os tristes,
Tão tristes, tão saudosos,
Tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem.

Este poema é para si, para dizer-lhe: não vá por aqui.


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De o cunhado do acutilante a 06.03.2020 às 16:40

Ah!... Fiquei na mesma.
E acredite que o li atentamente até ao fim.
Isso são percursos de vida, directrizes de pensamento doutrinadas por uns e seguidas por multidões. Ideologias da religião,(católica) religião essa sempre disponível à salvação pelo convencimento das alminhas titubeantes.
Vê meu filho, não procures o materialismo, sê humilde, engrandece-te na tua miséria e teu será o reino dos Céus. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um materialista entrar no reino do Céu.
Como se custasse alguma coisa fazer os camelos mais pequenos e o buraco da agulha maior.
Diz-me o Vento: Santa Teresa Benedita da Cruz, morta em Auschwitz pelos nazis, judia, filósofa e ateia, posteriormente convertida ao catolicismo, deixou-nos um legado extraordinário na busca pela Verdade, para chegar ao centro de sua busca: "Existe uma Alma da alma".
E para quem não for nem se queira converter ao catolicismo? Para esses não há herança? Vivem eternamente na mentira?
Seguidamente diz-me:
A Verdade, ou o sonho que nos sonha, encontra-se pelo Conhecimento - "Procurai e encontrareis; Pedi e ser-vos-á dado; Batei e abrir-se-vos-á"
Obrigado, mas dispenso essa verdade, e mais dispenso o Conhecimento que a ela me dá acesso.
Tanto quanto a vida me ensinou, a Verdade que conheço é esta.
Moureja toda a tua vida e terás sempre a côdea para a ceia.
Vens pedir? Vai trabalhar, malandro!
"Batei e abrir-se-vos-á." Bem, aqui abro uma excepção. Tudo depende da visita.
Se for formosa e bem paramentada dificilmente, ou mesmo nunca ficará à porta.
Não, Vento. Não é nada disso que eu quero saber, nem foi o que me perguntou.
Perguntou-me se eu conhecia a origem da vida. Veja lá se se recorda.
Disse-lhe que não e o Vento prontificou-se a iluminar-me o espírito. E afinal vêm-me com filosofia existencial para cima.
Daí ficar eu na mesma. Se burro nasci ignorante me fino

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De Vento a 07.03.2020 às 11:09

Voltemos ao início de nossos contactos, melhor do seu contacto comigo: Está a ver como não entendeu nada.
Eu não perguntei sobre a ORIGEM da vida, mas sobre o SEGREDO da vida; e este segredo passa exactamente por mourejar, mourejar também em outros sentidos. Isto para demonstrar-lhe que a objectividade ou subjectividade de uma verdade e raciocínio depende da forma como cada um direcciona seu pensamento.

A segunda questão foi demonstrar-lhe que o Conhecimento, aparentando polos opostos (relacionando o pensamento e perspectiva dos San com o pensamento e perspectiva judaico-cristão), só encontra oposição na forma e não na substância. E uso-o para contrariar o pré-conceito.
Assim, procurei realçar que a matéria, isto é, a forma e o visível, desnuda-se diante do invisível (espírito), que possui a mesma natureza.

Passar o camelo (corda) pelo buraco da agulha, que tem um contexto próprio, significa tão somente que os obesos, isto é, os cheios de si e escravos da posse que os possui, dificilmente transporão a "Porta estreita", por sua cegueira mediática.

Também tinha percebido esse seu lado materialista (o do moureja para ti) através do facto de se ter referido ao seu guarda-costas como tal e não pelo seu nome. Daí que em si transporta o significado utilitarista das coisas e das pessoas. E, em matéria de conhecimento, revela que só lhe basta o pão para o bandulho e os objectos para a vaidade. E não só de pão vive o homem.

Todavia partilhar e buscar o conhecimento e a verdade que se encontra também é "mourejar" (que vem de mouro, aparentando que sós estes trabalham), e o trabalhador é digno de seu salário.
Por outro lado os burros também mourejam ou moirejam, e a estes dá-se-lhes palha. Portanto, nada se lhes tem exigir que não o trabalho para ganhar a erva.

Como iniciei as respostas de baixo para cima, e ainda desnudando a sua ignorância, não é a matéria e o soldo que estão em causa, mas a escravidão à matéria, ao soldo e à palha.
Como tal, persiste em debater matérias que de todo ignora quando ainda se encontra a dar os passos das primeiras letras.

Assim, e concluindo, a afirmação de Séneca faz todo o sentido: "quando o homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável".
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De o cunhado do acutilante a 07.03.2020 às 17:55

Utilizando a preposição "da" tanto pode dar para uma coisa como para outra.
Assim "o segredo da vida" tanto pode indiciar o percurso como o início dela.
Se queria, como objectivamente parece querer ensinar o significado de se saber respirar ordeiramente a fim do Céu não nos escapar, então tivesse dito.
"O segredo da boa vida" Ou de uma vida boa, o que para o caso não me parece trazer relativa modificação nem fazer significativa diferença
Depois como teólogo talvez alguém descortine o farol, como psicólogo, provavelmente também, mas para mim dispenso-o. Debruça-se muito sobre as minudências do paciente e descura os pormaiores.
Reparou no ostracismo a que votei o nome do grandalhão guarda-costa e afincou-se numa exaustiva tarefa psicanalítica a meu respeito sem atentar no importante.
O que deveria ter-lhe espoletado a atenção, ao invés de lhe merecer tão profundo estudo dedutivo a ausência de um apelido, era o que fazia eu aos oito anos no meio do mato em cima de uma árvore em vez de estar na escola.
Ná, muito fraco psicólogo.
Resta-me para meu consolo; fraco mas sempre é melhor que nenhum, é que se burro me fino não vou desacompanhado.

Não que sem antes, não tendo eu tão profundos e empíricos conhecimentos sobre a vida como o caro Vento, me exima de dizer.
Não é por muito falar que melhor se faz acreditar.

Desejo-lhe um excelente fim-de-semana
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De Vento a 08.03.2020 às 10:22

Você é um artista.

1 - Na resposta que dei ficou claro o propósito: " o segredo da vida é este...: as vacas não dão leite". Depois, perguntei-lhe se desejava que continuasse. Você mostrou-se bastante interessado.

2 - O sentido era a busca, a descoberta, o encontro e a partilha do Conhecimento, em todas suas vertentes e idiossincrasias para demonstrar o comum. É este mourejar que o deixa fora de si, pois basta-lhe o alimento e umas quantas coisitas mais. Os burros (alusão aos animais), depois de muito trabalharem e comerem, finam-se; e nunca vão só, pois existem outros da mesma espécie.

3 - O importante na questão do grandalhão é que ele apresenta-se como o guarda e não o companheiro do menino: a reacção dos mabecos e das hienas na sua luta pela sobrevivência eram-lhe mais caras que as lições e experiências do professor grandalhão. Portanto, você viu paisagens e não lhe ficaram as lições e conhecimentos daqueles outros que as habitavam, lições essas que nem menciona.

4 - Concordo com a sua afirmação, que certamente resulta do que em si mesmo encontra, isto é, muita conversa e pouca credibilidade.

Conclusão, João André posta um pensamento pertinente e que importa continuar a realçar.

Bfs
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De o cunhado do acutilante a 08.03.2020 às 20:46

Finalmente algo em que estamos de acordo: João André posta um pensamento pertinente,
Parabéns pela dedução.
Quanto ao resto: psicologia, teologia, astrologia, bibliologia, egiptologia, - bem: não foi tão longe lá chegaria,- fado e musicais vários...Está despedido.

Uma excelente semana.

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De o cunhado do acutilante a 07.03.2020 às 12:06

Também não serve.
Não estou triste nem tenho planos de viajar.
Como se não bastasse o fado não faz parte das minhas apreciações musicais. Para ser mesmo sincero, detesto-o.
Portanto pode ficar tranquilo que por aí não vou, não.
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De Vento a 07.03.2020 às 20:30

Foi um verso, não é fado. Mas se Amália o cantava não significa que esse verso fadado não seja um fado apropriado.
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De Anónimo a 05.03.2020 às 11:24

A mim o que mais me impressiona é o tanto que se aprende nestas simples troca de idéias , nesta cavaqueira de tão alto nível. Fica-nos sempre qualquer coisa no intelecto.
Sempre a apreender até morrer...

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