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Pensamento da semana

por Cristina Torrão, em 10.11.19

Não aprecio a frase: «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro». Pressupõe subserviência, implica que a liberdade do outro seja mais importante do que a minha. Ou seja: a liberdade do outro significa o fim da minha liberdade. E a minha não significa o fim da do outro? A liberdade do outro também acaba onde começa a minha? Ficamos num beco sem saída.

Prefiro considerar ser possível duas pessoas serem livres frente a frente, sem que nenhuma baixe a cabeça e sem que nenhuma deixe de ser livre. Prefiro falar de respeito, aceitar o valor do outro, vê-lo ao meu nível (nem acima, nem abaixo). E o respeito tem de ser mútuo. Não fazer, ou não dizer nada que possa ferir a dignidade do outro não é um corte à minha liberdade. A minha liberdade não acaba, apenas respeita. Por isso, prefiro dizer: «a minha liberdade respeita a dignidade do outro».

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana


55 comentários

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De André Miguel a 04.11.2019 às 10:09

Não pressupõe subserviência alguma, mas sim respeito. A liberdade do outro não impede de expressar a minha opinião, impede apenas de limitar a sua liberdade (de viver como bem entende, de gastar o seu dinheiro naquilo que desejar, de trabalhar onde e como quiser, etc).
Palavras não ofendem nem limitam, os actos sim. Oscar Wilde resumiu de forma deliciosa esta ideia: "não concordo com uma palavra do que V. Exa diz, mas lutarei pelo seu direito de fazer figuras de idiota".
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De Cristina Torrão a 04.11.2019 às 12:25

Palavras não ofendem?
Eu acho que sim, que podem ofender e muito.
Expressar uma opinião é uma coisa; insultar é outra, completamente diferente.
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De Anónimo a 04.11.2019 às 14:18

Típico pensamento totalitário, o objectivo que a autora quer é controlar e fechar a Overton Window para só aquilo que aceita.

Ou ainda não percebeu que acusar o outro de insulto é precisamente o "truque" para a construir o edifício censório nos dias de hoje.


lucklucky
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:20

Apelidar o interlocutor de, por exemplo, "idiota", "escumalha", "aberração da natureza" e outros mimos é, para mim, insulto.

Trocar ideias, como aqui estamos a fazer, não é insulto.
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De Anónimo a 05.11.2019 às 22:28

Isso são os insultos da civilização judaico-cristã burguesa por isso não desconverse.

Quando você coloca a fronteira na "ofensa" que outros sentem então está simplesmente a fertilizar o caminho para que todos se clamem ofendidos pelas opiniões dos outros.
Que é o caminho que estamos a tomar, proibir tudo o que é ofensivo para a esquerda e progressistas uma vez que no momento são quem tem o poder cultural.

Bater palmas é uma ofensa? A Universidade de Oxford já veio aconselhar a não se bater palmas.

lucklucky


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De Cristina Torrão a 06.11.2019 às 18:16

Desconversar? Pelos vistos, já aprendeu com o Trump a pôr nos outros os próprios defeitos.

A única coisa que ofende, na minha opinião, são insultos. Sejam judaico-cristãos, sejam outros. Insultar significa humilhar, rebaixar. Não apoio, não utilizo.

E não sou de esquerda.
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De Anónimo a 08.11.2019 às 18:03

"Insultar significa humilhar, rebaixar. "

Factos podem humilhar e rebaixar, vai proibir factos?


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De Cristina Torrão a 08.11.2019 às 18:17

Eu? Não proíbo nada.
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De Anónimo a 09.11.2019 às 15:09

Claro que proíbe, os conservadores que não conservam nada já aí têm mais uma lei cheia de proibições.

lucklucky
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De isabel s. a 06.11.2019 às 22:52

As ideias, desde que expressas com civismo, não ofendem ninguem. As opinioes são coisa diversa.
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De Vorph Valknut a 07.11.2019 às 22:32

Essa é boa!

A) O senhor é um idiota.

B) O senhor permita-me, com sua licença, mas é um idiota.

No exemplo B) o idiota não deveria sentir - se ofendido.

O pensamento da semana é da mais básica elementariedade, mas há sempre uns idiotas cujo passatempo é aparvalhar. Santa paciência, a da Cristina. Eu nem me dava ao trabalho publicar. Lixo com eles

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De Isabel s. a 08.11.2019 às 19:44

Esta “idiota cujo passatempo é aparvalhar e que devia estar no lixo” segundo a douta opinião de um livre pensador português, certamente detentor de uma mente de grandeza intelectual tal que nunca aparvalha ninguém nem nunca se aproxima do lixo, conhece bem a diferença, por vezes ténue é verdade, entre os conceitos de “ideia” e “opinião” .
O comentário deste livre pensador é a ilustração inequívoca do que se pode fazer com uma opinião quando se pretende não discutir uma ideia.
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De Vorph Valknut a 09.11.2019 às 17:25

A/C Isabel s.

Há opiniões sem ideias, como há ideias que não merecem discussão.

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De Isabel s. a 10.11.2019 às 16:32

Tem toda a razão. Era mesmo aí que eu queria chegar. O que há mais são mesmo opiniões sem ideias e não abundam no espaço público ideias que mereçam discussão. Está a ver que podemos estar de acordo sem nos chamarmos de idiotas ou de lixo.
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De Vorph Valknut a 08.11.2019 às 14:02

A opinião é a expressão de uma ideia. Santa paciência
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:23

P.S. Eu falei em "respeito mútuo", de parte a parte. Não tem nada a ver com pensamento totalitário.
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De Luís Lavoura a 04.11.2019 às 12:09

De facto, a frase «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro» é muito ambígua e inexata.
Na prática, as liberdades de uns e de outros são, de facto, atribuídas pelo Estado. Não são inerentes às pessoas; elas acabam e começam onde o Estado o decreta.
Por exemplo, o meu filho tem a liberdade de jogar à bola na rua? Os carros têm a liberdade de acelerar por essa rua a 50 à hora? A primeira liberdade não existe, a segunda sim, mas isso acontece porque o Estado assim o decreta, não porque uma liberdade termine onde a outra começa. Poderia perfeitamente o tráfego automóvel ser proibido na rua e o meu filho ter a liberdade de jogar à bola nela, se o Estado assim o determinasse.
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De Cristina Torrão a 04.11.2019 às 12:40

Por acaso, na Alemanha, há ruas, em certas urbanizações, em que as crianças podem jogar à bola, ou brincarem ao que quiserem. Nem sequer há passeios para peões, porque estes podem também andar por onde quiserem. A velocidade máxima permitida são 10 km/h. E ninguém se pode queixar do barulho das crianças durante o dia (penso que até às 20 horas). Normalmente, estas ruas não são muito largas, nem asfaltadas, mas sim lajeadas.

Vivo numa rua assim, mas, na verdade, são raras - por exemplo, a minha é um beco sem saída, serve apenas os moradores, suas visitas e serviços postais.

De resto, em muitos bairros habitacionais, a velocidade máxima é de apenas 30 km/h, embora, neste caso, não seja permitido brincar na rua.

Este comentário foi apenas à laia de informação, não para contradizer o seu.
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De Luís Lavoura a 04.11.2019 às 16:55

Sim, claro, eu na Alemanha também morei num local assim, tipo "vila", uma rua sem saída, lateral a uma estrada principal, e cuja função era só mesmo dar acesso àquela urbanização.
Mas em Portugal, atualmente (em tempos muito recuados, como eu disse, havia as "vilas" industriais), este tipo de urbanização está muito em desuso. Quase todas as ruas têm saída, são de atravessamento.
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De Luís Lavoura a 04.11.2019 às 17:05

É claro que a frase "a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro" é a modos que uma tautologia. Mas é uma tautologia perigosa, enganadora.
Os liberais usam essa frase como se a liberdade de cada um estivesse muito bem definida e fosse imutável, assim a modos que uma lei de Deus: liberdade de viver, liberdade de fazer o que se quiser com a sua propriedade, etc.
Mas isso é falso. Poderia ser verdadeiro no século 18, quando o liberalismo clássico começou, mas atualmente é falso. No mundo atual, a fronteira entre a minha liberdade e a liberdade do outro é artificial, é definida pelo Estado, e pode a qualquer momento ser alterada.
Por exemplo, aqui há uns anos, era-se livre de fumar dentro de um restaurante, que é como quem diz, ninguém era livre de respirar ar não-malcheiroso dentro de um restaurante. Atualmente, a fronteira entre a liberdade do fumador e a liberdade do não-fumador foi alterada: dentro do restaurante não cheira mal, mas a partir da porta dele o fumador faz o que quer.
Outro exemplo, eu sou livre de dormir em minha casa e o meu vizinho é livre de fazer barulho em casa dele. A fronteira entre as duas liberdades é fixada pelo Estado: as 23 horas, em Portugal. Se fosse na Suíça, a fronteira seriam as 21 horas. É uma fronteira convencional, artificial, fixada pelo Estado, entre a minha liberdade e a do meu vizinho.
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De Anónimo a 04.11.2019 às 14:23

Como muitas vezes o Luís Lavoura desconversa.

A "liberdade acaba quando começa a dos outros" é uma expressão para a nossa convivência quotidiana sem a intervenção do estado.

Claro que isto incomoda de sobremaneira esquerdistas, para quem o estado tem de regular tudo.

lucklucky
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De jo a 05.11.2019 às 12:54

Já pensou quem é o Estado?
Não é um grupo de alucinados que mandam em todos os outros. O Estado existe porque os cidadãos que o compõem querem e determina o que estes determinam.
Dizer que o Estado o persegue revela alguma confusão. Como parte do Estado está a perseguir-se a si próprio.
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De Anónimo a 06.11.2019 às 09:12

Eu não disse que o Estado me persegue.
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De Isabel Paulos a 04.11.2019 às 16:42

Não acho que se trate de subserviência, mas sim da necessidade de hierarquização de valores para dirimir uma questão de conflito de direitos. Para superar o tal beco sem saída terá que hierarquizar os direitos ou os valores subjacentes à dita liberdade. Por muito democratas que sejamos não podemos fugir a esta hierarquização.
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:25

Penso que com respeito mútuo se consegue muita coisa.
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De Isabel Paulos a 05.11.2019 às 10:46

Obrigada pela resposta, Cristina.
Consegue sim, se tudo correr bem. Mas o drama está no conflito e é na zona de discórdia que a questão se coloca.
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De Anónimo a 08.11.2019 às 10:40

Mas minha Senhora, nem sempre com o respeito se consegue obter um respeito mútuo; mesmo em indivíduos de quem se espera um certo polimento, uma certa cultura de base, em suma - uma certa dose de formação ...
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De Cristina Torrão a 08.11.2019 às 11:30

Infelizmente, é verdade.
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De J.S.M.suave e nas tintas a 04.11.2019 às 20:21

Schopenhauer afirma na sua obra: "O Mundo Como Vontade e Como Representação" : " Eu não posso querer o que quero". O que é que isto significa, afinal?
Significa, naquilo que mais tarde Freud desenvolveu na sua teoria da Psicanálise, com a definição de Ego e Superego, que existe um conflito permanente no seio dos indivíduos e das nações entre aquilo que desejam ( vontade = desejo = ego) e aquilo que necessáriamente querem ( moral = consciência = Superego).
Ora, esse conflito latente não existe nos outros animais, porque neles, segundo Schopenhauer, só existe a vontade.
Sendo assim, a liberdade dum indivíduo - pelo exercício da vontade -, termina onde e quando começa a do outro ( pelo exercício da razão ). Este determinismo da vontade designa-se por liberdade moral: eu só posso querer o que necessáriamente quero.
Ora, pelo exercício da vontade, a minha liberdade é infinita. Pelo exercício da razão, a minha liberdade é limitada.
Sendo assim ambas as afirmações são verdadeiras dependendo do contexto ontológico em que as inserimos. Determinismo versus Possibilismo, ou, se preferir, Schopenhauer versus Nietzsche.

Cumprimentos
Jorge Marques
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:37

«Pelo exercício da razão, a minha liberdade é limitada» - sim, é claro que temos de fazer concessões. Mas não deixamos de ser livres por causa disso. O importante é que não sejam sempre os mesmos a condescender, tem de haver um equilíbrio, tanto nas relações pessoais, como na vida em sociedade.
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De J.S.M.suave e nas tintas a 05.11.2019 às 18:25

A questão que se coloca nada tem que ver com fortes versus fracos do ponto de vista socio-economico,
mas sim do ponto de vista do caracter. Ora eu não vejo nenhuma vantagem ética em condescender com os mais fracos. Isso perpétua tudo o que há de mais ignóbil e mesquinho nos seres humanos, alimentando uma doença que a partir do individual penetra profundamente no social, contaminando todas as relações sociais, e assim, num efeito boomerang, todos os individuos. A compaixão é sempre perversa: pode favorecer a preservação da espécie mas não a cura da doença que a enferma.
Schopenhauer depressa chegou a esta conclusão, e por isso se tornou
pessimista quanto a qualquer possibilidade de cura, chegando mesmo a propor o fim da espécie através do acto voluntário da negação da reprodução. Nietzsche, pelo contrário, propôs uma nova ideia ( nisto era profundamente platónico), aceitar e abraçar todos os devires ( vontade de potência) como possibilidade ( liberdade física e intelectual), eliminando assim as causas de todos os males que reproduzem o homem fraco.
Se Nietzsche anunciou para este efeito a morte de Deus, Deleuze - o seu seguidor mais proficuo - anunciou a morte de Édipo, pai de todas as fundações da moral sempre assentes no conceito de família - reprodutora de todas as fraquezas e de todos os males de que padecem os homens.
A esquizofrenia é a pior de todas as doenças. Fernando Pessoa criou os seus heterónimos a partir desta constatação: ele não poderia ser todos numa só pessoa dados os constrangimentos de ordem moral que isso acarreta - ao homem moral exige-se compaixão e sinceridade, e estas qualidades matam qualquer possibilidade de devir. Idealismo e realismo ontológico são as duas faces da mesma moeda. Talvez por isso ele detestava Eça de Queiroz (a quem reconhecia o génio da escrita ), que considerava um provinciano, por se deslumbrar com os avanços civilizacionais (materiais) do primeiro mundo, e não compreender o perspectivismo que verdadeiramente forma o homem e as nação livres.
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De Vorph Valknut a 06.11.2019 às 00:30

Força da espécie, não condescender com os mais fracos, doença... Fiquei baralhado. Lê Schopenhauer, ou Adolf Hitler?

Quanto a Nietzsche, refere - se ao filosófo alemão que morreu com sífilis?

É curioso ver como os intelectuais, de alto gabarito, fazem das suas misérias, filosofias miseráveis. Em resumo, uns fracos, em sentido lato, que de forma engenhosa convencem - se, convencendo, serem os seus medos, sinais de arrojo, e o seu desamparo, sinal de recusa. Falta - lhes em amor, o que lhes sobra em insinceridade.

Leia mais tintas, pode ser que nelas ache peso mais alto.
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De Vorph Valknut a 06.11.2019 às 00:35

"A esquizofrenia é a pior de todas as doenças. Fernando Pessoa criou os seus heterónimos a partir desta constatação"

Engana - se. Foi na solidão do desamparo, no desamor que o Nandinho criou os seus amigos. O primeiro aos 6 anos. Segundo ouvi levava do padrasto.

É penoso o pedantismo, a insegurança das almas leves.
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De Cristina Torrão a 06.11.2019 às 18:19

Acho muito perigoso esse desprezo pelos mais fracos.
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De Cristina Torrão a 06.11.2019 às 18:48

Não entendo uma coisa, caro J.S.M.
Se há fortes e fracos de carácter, porque é que os fracos são mais susceptíveis de contaminar todas as relações sociais, e assim, num efeito boomerang, todos os indivíduos? Não seria mais lógico o contrário, ou seja, que a força de carácter predominasse e que o "convívio" fizesse dos fracos fortes (ou mais fortes)?

Sabe o que me parece? Que os "fortes" têm um medo terrível de ficarem contaminados. O que, no fundo, faz deles uns fracos.

Desprezar os fracos não é ser forte, é ser cobarde. Não mostrar compaixão não é ser forte, é ser cobarde. Ser forte é ter força suficiente para pegar nos fracos e fazer deles fortes.
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De Vorph Valknut a 06.11.2019 às 22:16

Em cheio. Um "mata leão" , Cristina.
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De Cristina Torrão a 08.11.2019 às 18:18

Obrigada, Vorph.
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De J.S.M.suave e nas tintas a 07.11.2019 às 13:05

As suas duas primeiras perguntas são muito pertinentes. É exactamente a essas perguntas que toda a tese por mim explanada se propõe responder.
Não é fácil, convir'a, fazê-lo aqui, em meia dúzia de parágrafos. Contudo, se atentar naquilo que já foi dito, a resposta a essas questões já foi mais ou menos dada.
Senão vejamos.
O homem fraco tem o espírito corrompido. " Denomino corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde os seus instintos, quando escolhe, quando prefere o que lhe é nocivo."
A corrupção é o crime mais perverso que pode ser nomeado numa democracia liberal: ela indica a falta de ética num mundo em que o indivíduo é auto-determinado, indica a falta de fibra no carácter de um sujeito. Carácter esse que só pode ser feito individualmente, por escolhas e decisões individuais. É uma maneira de retirar um oponente da vida em sociedade ( já que para viver em sociedade é necessário seguir regras éticas).
Ora, ao corrupto nada o demove. Nem a repressão da lei, nem, pelos vistos, os valores morais intrínsecos à compaixão cristã, ou ascética . Doutro modo, como diz, o convívio com os mais fortes já teria produzido os seus resultados. E os corruptos em vez de se reproduzirem como um vírus, já teriam sido eliminados.
A não ser que se defenda uma sociedade iliberal, totalitária, que que quarte a liberdade de todos, não vejo forma de acabar com esta praga. Mas não é isso que se pretende, pois não?
"A palavra corrupção, na minha boca, é isenta de pelo menos uma suspeita: a de que envolve uma acusação moral contra a humanidade. Entendo-a - e desejo enfatizar novamente - livre de qualquer valor moral: e isso é tão verdade que a corrupção de que falo é mais óbvia para mim precisamente onde esteve, até agora, a maior parte da aspiração à "virtude" e à "divindade". Como se presume, entendo essa corrupção no sentido de decadência: o meu argumento é que todos os valores nas quais a humanidade suporta os seus anseios mais sublimes são valores de decadência."
(Nietzsche, O Anticristo)

A decadência é o sentido moral do niilista, aquele que nega a vida. O homem decadente é o crente, o iludido pela estrutura religiosa do pensamento: é aquele que vive num mundo de fantasias e sombras. A corrupção, portanto, é a negação da vida, é deixar de lado aquilo que importa e aquilo que nos faz fortes, para ir em busca daquilo que nos enfraquece.

É necessária e urgente uma transformação, ou melhor, uma transvaloracao do homem. Doutro modo, assistiremos sempre ao sofrimento e/ou à negação da vida.

Para além do asceta compassivo - que é o homem de Schopenhauer( uma forma de vida feita de ausência de vontade, pouco ou nada potenciadora de felicidade, e não reprodutiva), como é o caso de 'Sidartha' de Herman Hesse. Ou o homem de Freud ( a vida é igual à morte - negação da vida), como é o caso de 'O Escrivão' de Melville. Ou o homem esquizofrénico, como é o caso do homem-barata de 'A Metamorfose' de Kafka. Ou, ainda de Kafka, o homem perseguido e carente de justiça e liberdade, como é o caso do Joseph K de 'O Processo'. Ou o homem digno, mas destruído pela sua condição social, como é o caso dos caçadores de baleias de 'Moby Dich' de Melville. Ou o homem absurdo e sem esperança, como é o caso de Sisifo de 'O Mito de Sisifo' de Camus. etc, etc, etc.

De Sophia a Drumond de Andrade, Pessoa, Machado de Assis, Torga, Whitman. Enfim, uma llista infindável de autores da melhor literatura mundial que eu poderia nomear, beberam muita da sua inspiração nestas fontes incontornaveis da filosofia moderna: Espinoza, Schopenhauer e Nietzsche.

Foi com grande prazer que partilhei
esta troca de ideias consigo. Mas, como deve calcular, é-me impossível manter este ping-pong por mais tempo sem prejuízo da minha vida profissional - o tempo é escasso.
Teremos outras oportunidades, certamente. Mas, por ora, não me é possível continuar.

Cumprimentos
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De Vorph Valknut a 06.11.2019 às 00:43

Schopenhauer era biólogo? Vou - lhe confessar algo importante. A razão do homem é uma artimanha, do natural, que empresta certa lógica ao apetite irracional. Imagine, assim, de outra forma. O animal bebe do charco, nós do copo. Um copo que serve menos água e mais disfarce.
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De Vorph Valknut a 05.11.2019 às 00:46

A nossa liberdade termina quando começa a liberdade do outro se e só se o outro for maior do que nós. A Força é a medida de toda a Liberdade.
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:29

Infelizmente, é assim que funciona o mundo, na maior parte das vezes. Eu preferia que houvesse mais tolerância e respeito.
A aplicação da "Força" acaba realmente com a liberdade do mais fraco.
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De J.S.M.suave e nas tintas a 06.11.2019 às 05:22

Força, neste contexto, não deve ser confundido com violência. Aliás, o termo mais correcto é: Conatus ( a essência do ser - potência do ser) . É um conceito muito importante, além de muito elegante, porque com ele Espinoza pôde estruturar, juntamente com a sua noção de Deus ( panteista) toda a sua Ética. Este termo vem do Latim e significa "esforço". Influenciou Schopenhauer e posteriormente o conceito de Vontade de Potência em Nietzsche, além de ter grande importância para Deleuze
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De Cristina Torrão a 06.11.2019 às 18:21

Continuo a achar estas teorias muito perigosas.
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De Vorph Valknut a 06.11.2019 às 22:13

Mas qual potência, qual carapuça! A Vontade de Poder, de Nietzsche, foi um conjunto de escritos, póstumos, pré - seleccionados pela sua irmã, com o propósito de agradar o Fuhrer e dele "sacar" uma pensão vitalícia ao Reich.

É ridículo falar de Poder, quando se fala em Nietzsche, quando se conhece bem a sua vida. Um homem que arranjou na filosofia e na solidão compensação de desamores. Nietzsche começa a pensar, raivosanente, quando a sua amada Lou Salomé o traie com o seu melhor amigo, o psicólogo, Paul Ree. Nietzsche não foi filósofo, ele não construiu um sistema de ideias. A única obra com começo meio e fim foi a Genealogia da Moral. O resto são um conjunto desgarrado de aforismos onde se encontra tudo e o seu contrário, recordando a Bíblia, que o alemão tanto desprezava. Nietzsche no final, quando a sífilis lhe moia o miolo, assinava as suas cartas como, O Crucificado. Ridículo Nietzsche ser recordado através da sua última obra, intitulada, Vontade de Poder, quando nem nos seus melhores dias conseguiu consumar - se como homem, nunca recuperado de um desgosto de amor. Nietzsche é muito mais poeta trovador, que filósofo.
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De Bea a 05.11.2019 às 09:34

Pois a mim me parece pura questão de frasealogia porque o que explicitou como respeito pela liberdade do outro e que, digo eu, corta a sua efectivamente - não há liberdade irrestrita -, é o mesmo que dizer que a sua e a minha liberdade terminam no encontro com a liberdade do outro. E é claro que ninguém supõe que o outro não seja também um eu e o mesmo não seja válido para ele.
A prática da liberdade, levada a sério, é apenas uma questão ética. Um "apenas" tão difícil de conseguir.
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De Cristina Torrão a 05.11.2019 às 10:30

Uma questão ética, Bea, sem dúvida.
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De Miguel a 05.11.2019 às 12:07

Não, a frase citada no início do postal não pressupõe subserviência; pelo contrário, o que assume é simetria entre as partes. Simetria essa que, em muitas circunstâncias, é meramente teórica visto que as relações sociais são inevitavelmente geradores de assimetrias (estatuto social, capital cultural, poder económico ou político, etc) entre os indivíduos, embora o sejam de uma maneira diferente de como eram no Antigo Regime (anterior às revoluções americana e francesa).
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De a 05.11.2019 às 12:53

Bom dia, Cristina Torrão.
Colocando "as coisas" de forma bem simples, a minha liberdade passa por, por exemplo, viajar. Viajar em família com o meu marido e os nossos três filhos, no caso, ao Reino Unido. Passear por St. James's Park e fotografar parte daquela beleza. Fotografar também a minha filha mais nova - criança com 10 anos - a alimentar um esquilo (ela tinha uma amêndoa na palma da mão). E veja bem, Cristina Torrão, para cúmulo da liberdade, achar que posso - se me apetecer, e apeteceu - publicar as ditas fotografias no meu blogue pessoal.
(Cristina Torrão, comento de forma irónica, obviamente) - (e quanto ao blogue, foi encerrado. precisamente porque as pessoas não atingem que "há uma linha que separa" - que há uma coisa chamada Respeito, que devia ser ensinada e valorizada, essa coisa do Respeito, desde a mais tenra idade - e que a liberdade de um acaba onde começa a do outro).
Desejo-lhe um dia bom, em liberdade.
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De Anónimo a 05.11.2019 às 19:15

Nós somos assim.
Complicamos o que é simples.
Se é de liberdade que se trata, não podemos misturá-la com dignidade, que é um conceito muito mais amplo.
Também não podemos politizá-la, porque a política trata do público e a liberdade é do mais privado que há.
A declaração em causa significa simplesmente que somos todos natural e igualmente livres.

João de Brito
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De Cristina Torrão a 06.11.2019 às 18:26

Não podemos misturar liberdade com dignidade?
A meu ver, a dignidade é o mais importante que temos. Se não incluirmos a dignidade em tudo o que fazemos e discutimos, deixamos de ser humanos.

A liberdade também é pública. Somos seres sociais, só sobrevivemos em sociedade. A liberdade tem de nos acompanhar em todas as situações da vida.
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De Anónimo a 06.11.2019 às 18:23

A "liberdade" actualmente é "determinada" pelo guru Costa dos 19/50.

A.Vieira

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De Anónimo a 09.11.2019 às 15:10

A liberdade é determinada pelos jornalistas são eles que promovem a violência.

lucklucky

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