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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.09.19

Lá fora chove intensamente. Cai o céu em mais uma noite de tempestade tropical. Relampeja e troveja quando, a propósito do admirável documentário de Bruce Weber, recordo o fabuloso Chet Baker e ouço Almost Blue.

Há sempre uma encruzilhada na vida de um homem normal. Talvez várias na vida de um homem que escape à mediania. Uma ou várias implicam escolher. Pode ser a decisão de dar ou não dar um beijo, o destino de uma paixão, a escolha de um amor (sim, o amor também é uma escolha). Para alguns a descoberta de uma vocação, por vezes a opção entre uma vida livre a sofrer ou uma do tipo vegetativa, rica e sem dramas. Com princípio, meio e fim, ignorando a dor, própria ou alheia.

Tirando aquela parte em que o entrevistador pergunta a Chet Baker qual terá sido o momento mais feliz da sua vida, cuja compreensão — digo eu, que não sou tão exagerado como ele ou Faulkner — só está ao alcance de um alfista(*), recordo aquele momento em que Baker, olhando para si próprio, diz o que aconselharia a um filho. Era mais ou menos isto: descobre o que queres ser, vai por ti, e depois procura ser um génio no que escolheste.

O problema é que nem todos têm o mesmo grau de loucura nas escolhas que fazem para atingirem a genialidade. E depois é preciso levar o resto da vida a conviver com isso. Uma chatice.

 

A diferença entre um homem e um génio está na sua dose de loucura.

E ser capaz de colocá-la ao serviço dos outros dando prazer a si próprio. Seja na literatura, na pintura, na música, na medicina, num artigo de jornal ou numa sala de audiências, sem nunca se esquecer que a genialidade só pode ser reconhecida se no meio de toda a loucura o génio ainda for capaz de realizar que vive em sociedade. E por causa dela.

Os outros tornam os génios menos infelizes quando reconhecem a sua loucura. Sem dizê-lo. E ao tirarem partido dela, em cada instante, ainda quando não o reconhecem, ajudam a prolongá-la. A realização do génio passa por trazê-lo até à nossa dimensão. Até à ignorância. É nisso que está a genialidade. E só os que humildemente o aceitam conseguem atingir esse estatuto. Almost Blue.

21539474_zKiM7[1].jpg(a foto tem direitos de autor)

 

(*) Contra tudo o que se poderia imaginar, Baker diz ter sido o momento em que guiou pela primeira vez o seu Alfa Romeo. Eu não vou tão longe, embora não possa deixar de sorrir.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana


2 comentários

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De Bea a 27.08.2019 às 22:59

É mesmo. Se todos cumpríssemos com esses conselhos seríamos uns bem sucedidos anjos na terra. Como não cumprimos, somos só homens. A maioria, entre os quais me incluo, nada geniais nem nas aspirações nem nas escolhas e nem na vida. Mas, se quer que lhe diga, um planeta de génios não sei o que seria. Que cada um vá tentando ser o melhor no que escolheu ou não escolheu mas lhe caiu em cima, parece-me lícito como desejo universal. Essas metas de sucesso com escolhas acertadas não me dizem nada. Nunca disseram.
Tem razão, nunca sairei da cepa torta. Mas que quer, também há gente assim.
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De Sérgio de Almeida Correia a 28.08.2019 às 04:45

O sucesso é uma coisa muito relativa. Depende de quem vê, dizem, mas eu penso que é mais de quem sente.

E cada um deve ser o que escolheu. Não julgo os outros. Quando muito critico-os.

A felicidade do outro poderia ser muitas vezes a minha infelicidade se colocado no seu lugar, e eu não sei as razões das suas escolhas. Quero apenas tentar encontrar as minhas.

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