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Delito de Opinião

Pensamento da semana

João Campos, 21.04.19

A  morte é o último refúgio dos deuses.

Os avanços da ciência todos os dias privam o divino dos seus poderes de criação do Universo - teorizámos o Big Bang e a Relatividade, pisámos o solo lunar, enviámos sondas aos vários planetas do Sistema Solar (duas delas encontram-se nas nossas fronteiras estelares), e ainda há dias tivemos a oportunidade de contemplar com assombro, pela primeira vez na História, o ambiente que envolve um buraco negro a 55 milhões de anos-luz de distância no tempo e no espaço. Um feito científico e tecnológico notável, para nos mostrar algo que reside a uma distância incompreensível. Também a criação humana escapou ao domínio dos deuses, por Darwin e por todos os que se lhe seguiram - não fomos criados pelo sopro divino mas pela evolução dos primeiros organismos a residir no lodo primordial, que aos tropeções pelas eras nos permitiram chegar aqui, milhares de milhões de anos volvidos. A vida será um milagre, talvez, mas menos pelas suas múltiplas interpretações divinas do que pela sua fascinante improbabilidade.

Resta a morte, absoluta na sua inverosimilhança e no seu mistério. É nela, e não no espaço, que reside a fronteira final. O derradeiro abismo. Como o horizonte de eventos do buraco negro M87* - nem a luz lhe escapa, e tudo o que ultrapassa as suas fronteiras cósmicas esvai-se para lá do nosso conhecimento. Sabemos da existência da morte e da sua inevitabilidade; tentamos não pensar nela no nosso dia-a-dia, e tentamos preparar-nos para ela sempre que se nos impõe. É um exercício fútil: não há doença incurável, acidente irreparável ou velhice prolongada que nos permita antecipar o fatidico momento em que o coração de alguém que nos é querido pára de bater e a sua pessoa, única e irrepetível, desaparece para lá do nosso alcance. Resta o vazio que essa pessoa deixa, as memórias que nos acompanharão até ao fim, e o desejo improvável de a voltarmos a encontrar. É aqui que as respostas da ciência se revelam insuficientes, incapazes que oferecer consolo ou de alimentar uma esperança que escapa à lógica e a razão. E é neste vazio tão vasto e diminuto, e nesta esperança impossível, que sobrevivem os deuses.

 

Este pensamento acompanhou o Delito durante toda a semana.

3 comentários

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    João Campos 17.04.2019

    "A ciência não disse, não mostrou de onde veio, de onde surgiu, como do nada se criou essa bolinha. Disse-o apenas e a ciência não se questiona. É ciência."

    Na sua essência, não é o método científico um questionar permanente?
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    Corvo 17.04.2019

    Não! A ciência diz e não se fala mais no assunto.
    Questionável é o aparecimento de tudo vindo do nada. Pelo menos é o que eu me pergunto.
    Mas também não atribuo esse enigma à providência divina, no sentido em que a Igreja me quer mostrar, que Deus construiu tudo em seis dias e descansou ao sétimo. Interrogo-me, apenas, e não aceito que venha a ciência dizer-me que era uma bola no espaço que explodiu e espalhou tudo, sem que me diga de onde veio a tal bolinha e como e quem meteu todo o universo dentro dela. Já para não perguntar aonde se foi buscar o universo para o meter dentro da bolinha.
    Outros aceitarão, e não tenho nada a contraditar. Cada um na sua e bons vizinhos na mesma.
    Saudações e resto de uma excelente noite.
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