Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Pensamento da semana

por jpt, em 11.11.18

tardi.jpg

 

Como não desprezar toda esta pompa comemorativa se lendo Jacques Tardi, décadas de magistral vasculha da história sem fim da I Guerra Mundial, no mostrar da desgraça de cada poilu, milhões de Varlots, subjugados ao miserando militarismo alimentado do mais torpe e ávido dos nacionalismos, na mais ignóbil das guerras, a do estertor suicidário dos velhos impérios?

E como não resmungar diante do nosso empertigamento falsário, esquecendo aquela república logo-trôpega vendo a guerra como única forma de se sustentar, gulosa da presença no festim dos despojos? Escamoteando um país agressor, na volúpia de mais um pedaço de terra longínqua, subtraída aos que também já dela se haviam apropriado? Glorificando a pobre tropa da Europa, ali indesejada pois inútil no desequipada e impreparada que era, mera má carne para canhão? E falsificando a guerra de África, dizendo-a ainda, com impudicícia neste XXI, "campanhas de pacificação" indígena? Escamoteando a incompetência das expedições, nas quais a pobre soldadesca arregimentada, ali obrigada, tão vítima foi da inexistência de comando, conhecimento de terreno ou material adequado, este aldrabado pelas corrupções da administração militar? E de ter sido aquilo ainda uma tropa de antigo regime, de oficiais privilegiados, com rações e equipamentos superiores, deixando os meros praças morrer à míngua diante da inclemência dos elementos? E o silêncio sobre o descalabro demográfico que foi a hecatombe dos arrebanhados carregadores africanos? Como aceitar tantos meneios contextualizadores quando se refere a "guerra colonial" de 1961-74 e tantos encómios embrutecidos a esta mera guerra colonial de 1915-1918? Como compreender que surjam políticos, ignorantes ou malévolos, apenas netos herdeiros daquele malvado republicanismo, chamar a tudo isto "patriotismo"? 

E diante deste cerimonial patético, alarido de sociedade disfucional, como esquecer Pemba, a antiga Porto Amélia, lá no Cabo Delgado, onde Von Lettow-Vorbeck se cumulou de glória face aos britânicos, diante da total irrelevância inepta do corpo expedicionário português, devastado pelas doenças, palmilhando a selva incapaz até de combater? Como esquecer, ainda para mais vendo as encenações lisboetas d'agora, aquele cemitério militar? 

 

pemba 1.jpeg

pemba 2.jpeg

Ali a irritar-me até envergonhado, no verdadeiro patriotismo, não este de pacotilha, vigente no "Terreiro do Paço", de Belém a São Bento ... A descer destes talhões militares até à baixa da cidade, ao comerciante português residente, "arranja lá uns homens, deixo-te aqui 100 dólares, eles que vão lá capinar aquilo, que é uma vergonha", ainda para mais separado por um mero murete, tão mero que se cruza no alçar da perna, do talhão da Commonwealth, esse arranjado todos os meses, impecável, túmulos à antiga, que os britânicos andaram a recolher os corpos do mato e ali os sepultaram: uma ala de europeus, uma outra de indianos, uma outra de africanos. Todos com uma lápide, um nome, posto, regimento de pertença e datas. Sim, era um império, diferenciavam raças e religiões, hierarquizavam-nas. Mas, pelo menos na morte, cada um era um. Com nome, túmulo e respeito. Até hoje. E os nossos? Anónimos e desgraçados na vida, anónimos e desengraçados na morte.

E depois em Maputo ao adido de defesa, "ó comandante, vá lá ver aquilo, sff, que é uma vergonha". E ele, mar-e-guerra como deve ser, a tomar-se de brios, a visitar, a informar. E, meses depois, "ó doutor, Lisboa diz que não pode ser, em trabalho de arquivo para identificar mortos e arranjo de túmulos seriam para aí mil contos (5 mil euros agora) e não há dinheiro". Mil contos?, "mas isso não são 2 ou 3 bilhetes de executiva para essas missões que cá vêm fazer nada?" avanço eu, no sarcasmo desiludido de quem vai a sul do Equador (ou será do Tejo?). E o comandante, sábio, "ó Zé Teixeira, o que é que quer que eu lhes faça?" e a gente a saber que nada se pode, doutor de gabinete posto é doutor. E uma década depois, numa visita do PR Cavaco Silva, eu a aprumar-me comendador e a avançar para o homem da casa militar, e a explicar ao "nosso" tenente-coronel disto tudo e ele, simpático, que "sim, já estamos informados", até porque este nem é caso único. Pois não, sei bem.

Patriotismo, dizem estes, agora, em festividades encenadas. E lembro, a la Tardi, aquela pobre geração, camponeses arrancados às courelas, operários e serviçais conscritos em nome de uma madrasta, a sorte que lhes coube, "putain". Para serem húmus de capim. E da vaidade de gerações.

Pensamento da semana? Estes d'agora cantam mal e não me encantam.

  

Adenda: escrevi este postal sem saber do conteúdo do discurso de ontem do PR, para o qual um comentário logo me chama a atenção (excerto aqui. Ainda não está colocado no sítio presidencial mas decerto que em breve o estará). Não vale a pena alimentar grandes debates sobre isso, pois as coisas são simples: o que o PR disse é absolutamente crível sobre a II Guerra Mundial. Recaindo sobre a I Guerra Mundial é pura ignorância. Ou, pior, é falsificar a história. 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


64 comentários

Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 08:33

O caro JPT está a ficar lélé da cuca, e não tá a ver bem o filme!!
Então não sabe, o caro JPT, que na 1ª guerra " lutaram pela compreensão contra o ódio, pela liberdade contra a opressão, pela justiça contra a iniquidade, pela Europa aberta contra a Europa fechada, o mundo solidário contra o mundo dos egoísmos, das xenofobias e exclusões.". E “Quem isto não entender não entendeu nada do passado, do presente nem do futuro de Portugal”.
Sim, o PR, esclarece-nos que os soldados portugueses, e já agora os ingleses, belgas, franceses, lutaram contra as xenofobias, os nacionalismos, os racismos e por uma europa aberta, multicultural e ecuménica. Se não sabia não faz mal, porque os soldados de então também não sabiam.
Estamos sempre a aprender, não desespere!!
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 08:37

o homem disse isso? é inacreditável - vou googlar para confirmar Obrigado pelo comentário
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 08:39

Disse mesmo. Isto é surreal.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 09:17

No pasquim, Público, hoje, diz que sim!!
Também estranhei, mas depois entranhou-se!! Hoje, já deve ser versão oficial da história, não sei!! Não percebo nada de história, eu é mais bolos!!
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 17:23

Pois, está como eu, só divirjo nisto de ser mais moelas e imperiais
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 06.11.2018 às 09:54

E note, caro jpt, que o "lélé da cuca" e o "não tár a ver bem o filme" são alusões ao léxico Marcelesco, consabidamente, e nunca expressões com o valor facial que poderiam ser levadas como ofensa à pessoa do meu caro jpt, quem, intelectualmente, muito prezo!!
Imagem de perfil

De jpt a 06.11.2018 às 10:12

nem eu as entendi como tal (mas não as sabia marcelismos ...)
Imagem de perfil

De Pedro a 05.11.2018 às 09:04

Justiniano, felizmente já não existem guerras. Apenas lutas pela liberdade e contra a opressão (abra o link, é interessante )

https://youtu.be/_-d93ewGhmE
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 09:44

Pois, caro Pedro, é a história em movimento. Obrigado e um bem haja,
Sem imagem de perfil

De V. a 11.11.2018 às 10:07

Tretas, mesmo.
Sem imagem de perfil

De JPT a 05.11.2018 às 12:49

A sério? E eu a julgar que os Sérvios tinha lutado pela Grande Sérvia, os Franceses pela Alsácia-Lorena, os Ingleses para acabar com a indústria pesada alemã e ficar com os melhores bocados do Império Otomano, os Italianos por Trento, Trieste e a Dalmácia, os Romenos pela Transilvânia, os Russos por Deus e pelo Czar (até se fartarem de ambos). E que nós apenas declaramos guerra aos alemães para (na tese oficial) não perdermos as colónias ou (na realidade) para reforçar o precário regime que então nos governava – duas razões se aplicam à Guerra 1961-1974, que, francamente, não consta que tenha sido uma “luta pela compreensão contra o ódio, a liberdade contra a opressão, a justiça contra a iniquidade, a Europa aberta contra a Europa fechada, o mundo solidário contra o mundo dos egoísmos, das xenofobias e das exclusões”...
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:10

Caro maiúsculo, não há qualquer dúvida que estamos desactualizados quanto à verdade histórica Deve ser problema vido das nossas iniciais, estás de que padecemos
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 19:39

Está como eu, excepto a parte do joelho!!
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 05.11.2018 às 20:09

Os Italianos queriam as nossas colónias.
Imagem de perfil

De jpt a 06.11.2018 às 10:14

malvados
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 11.11.2018 às 22:58

E no entanto as palavras de quem nos governava nos anos sessenta não eram assim tão diferentes. Será que o PR copiou algum discurso do progenitor?
Imagem de perfil

De jpt a 12.11.2018 às 07:44

Os papéis (e ideias) do progenitor? Não me surpreende nada. Desde o início desta presidência que o resmungo, esta treta dos afectos & auto-retratos, que é o único projecto "políticos" de Sousa, é completamente decalcado do ideário e prática do senhor seu pai. As diferenças maiores será que chama selfie ao autoretrato e que se despe em público, coisa que o pai, senhor decente, nunca faria.
Imagem de perfil

De Pedro a 05.11.2018 às 08:50

Jpt , na mesma linha de pensamento aqui fica:

" Pedia a V.ª Ex.ª, pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho. Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei onde hei-de respirar. O nome do meu filho é Francisco da Luz Carloto".

Maria Florinda da Luz tinha sido informada por telegrama que o filho tinha morrido na guerra em Moçambique a 19 de Janeiro de 1967. Se o quisesse trazer, teria de pagar 12 mil escudos, o que equivaleria, aos preços de hoje (de acordo com o conversor da Pordata), a cerca de 4 mil euros.

Desde que a guerra tinha começado, em Angola em 1961, que o Estado português só pagava a ida e o regresso aos militares vivos, não o dos mortos. Quem queria trazer os seus tinha de pagar e quanto mais longe morria o militar mais caro: trazer um corpo de Moçambique era o mais caro; da Guiné, por ser mais próximo, ficava um pouco mais barato, 7500 escudos (cerca de 2500 euros), lembra o livro de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Os Anos da Guerra Colonial 1961.1975 (QuidNovi).

Maldição às bandeiras que amortalham os vivos. E nos bancos das praças, ruas e avenidas descansamos o corpo sem vergonha. Pois sem memória
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 08:53

A forma como Portugal trata os mortos das guerras é uma vergonha.
Imagem de perfil

De Pedro a 05.11.2018 às 09:11

A forma como o Estado trata alguns faz-lhes pensar se porventura serão mortos acordados
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:12

O Estado português é como os castelos do Herman José: altaneiro
Imagem de perfil

De Pedro a 05.11.2018 às 09:20

Jpt seguindo a linha do desdobramento :

A forma como Portugal trata os vivos é uma vergonha ( "Peço imensa desculpa a V.ª Ex.ª destas minhas tristes palavras")

Valha-nos o Queen Margot, na falta de melhor
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:13

O Queen Margot é uma solução E teria o aval da "troika"
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 05.11.2018 às 09:07

Excelente texto como aliás, são os deste narrador.

A.Vieira
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 17:25

Obrigado pela sua simpatia. E, permita-me a franqueza, ainda mais grato lhe fico pelo elogio: "narrador" é a melhor coisa que me poderiam chamar.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 05.11.2018 às 09:59

o descalabro demográfico que foi a hecatombe dos arrebanhados carregadores africanos

Li algures que a afamada e muito louvada "longa marcha" de von Lettow-Vorbeck (correção: não tem "e" depois do "o" de "Vorbeck") custou a vida a um milhão de africanos, segundo se estima.
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 17:28

Será exagerado Nem as dimensões das populações daquelas áreas seriam tão grandes que sustentassem isso nem o impacto terá sido tão tamanho Mas foi avassalador, entre alemães, britânicos e portugueses, foi uma verdadeira razia
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 17:42

Tem toda a razão na correcção Quando chegar a um computador mudarei Obrigado
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 05.11.2018 às 10:04

lembro, a la Tardi, aquela pobre geração, camponeses arrancados às courelas, operários e serviçais conscritos em nome de uma madrasta, a sorte que lhes coube

Foi exatamente o mesmo que aconteceu àqueles que foram combater na "guerra colonial". Foram combater numa terra estranha para defender a boa vida de outros. Outros esses que depois, mais tarde, em vez de lhes agradecerem o favor, anda vieram para cá resmungar que mais deveriam ter ido defendê-los.
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:14

Discordo mas preciso de um teclado de computador para explicitar, que o telefone só me chega para breves trechos
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 06.11.2018 às 11:22

Este, está a ver, já é o Lavoura, autentico, de trator, desembraiado e de lagartas a lavrar a eito!! E não é meigo, mesmo não sabendo a quem ou ao que se refere!!
Sem imagem de perfil

De JPT a 06.11.2018 às 10:51

Não o creio tão ignorante que não saiba que os portugueses de descendência europeia residentes nas colónias (ou províncias ultramarinas) também combatiam - e que muitos mais (como o meu Pai, durante 4 anos) fizeram a tropa antes sequer de terem migrado para África (como fizeram dezenas de milhares de portugueses entre 1961 e 1974). Nem que o creio tão ignorante que não saiba que uma parte considerável dos mortos das guerras coloniais foram soldados de origem africana (tal como na I Guerra Mundial, com a diferença que aí ninguém os contava). Nem o creio tão ignorante que não saiba que as primeiras vítimas da guerra colonial foram os portugueses de descendência europeia e os africanos que trabalhavam para eles, massacrados pela UPA em 1961 - mortes que, fora das cidades, continuaram a acontecer regularmente. Quanto ao "resmungar" dos retornados, penso que é desajustado exigir boa disposição a refugiados que perderam as vidas que tinham, para aterrarem num país do terceiro mundo, governado por lunáticos e sem futuro aparente. Tal grau de exigência, vindo de um individuo que regularmente "resmunga" porque os fp têm de trabalhar 40 horas, ou ficaram sem uma diuturnidades, ou os reformados de luxo tiveram as pensões cortadas, porque o Estado faliu, já não me parece que a ignorância seja a explicação para os seus restantes disparates, mas como respeito o dono do blogue, fico-me por aqui.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 06.11.2018 às 16:47

os portugueses de descendência europeia residentes nas colónias também combatiam

Evidentemente que combatiam. Não me referia a eles - referia-me àqueles pobres camponeses do Minho ou do Alentejo que foram retirados às suas courelas para irem combater numa terra longínqua e estranha em África.

uma parte considerável dos mortos das guerras coloniais foram soldados de origem africana

Sem dúvida. Mais uma vez, não me referia a eles.

as primeiras vítimas da guerra colonial foram os portugueses de descendência europeia e os africanos que trabalhavam para eles

Isso é bem sabido e, mais uma vez, não é o tema do meu comentário.

é desajustado exigir boa disposição a refugiados que perderam as vidas que tinham

Eu diria que os retornados, que em não pequena parte não o eram porque já tinham nascido em África, se deveriam sentir agradecidos por terem tido, durante tantos anos, o apoio de todos aqueles camponeses do Continente português que foram arrancados à sua terra para irem defender a boa vida (porque é sabido que se vivia muito melhor nas colónias do que no Continente) dos portugueses de África. E se deveriam sentir agradecidos por finalmente, em 1975, terem sido acolhidos em Portugal.

um individuo que regularmente "resmunga" porque os fp têm de trabalhar 40 horas, ou ficaram sem uma diuturnidades

!!!!! Não se deve estar a referir a mim... Eu jamais, que me recorde, resmunguei por causa de 40 horas ou de diuturnidades!
Imagem de perfil

De jpt a 09.11.2018 às 09:21

Em relação ao que digo no postal há grandes diferenças entre as duas guerras, e isso cumpre salientar. Independentemente do que se possa considerar sobre a pertinência e legitimidade da guerra colonial (1961-1974) e dos juizos críticos que se possam fazer sobre as estratégias militares assumidas, julgo que será pacífico considerar que houve uma extrema (e até surpreendente, se atentarmos nas dificuldades económicas e na escassez de formação de recursos humanos no país e na enorme amplitude de espaços de guerra) competência na logística militar. Na I GM foi uma total incompetência, tanto na logística como na condução estratégica e táctica dos militares no terreno - o que talvez tenha a ver com o afastamento dos oficiais que haviam comandado as guerras de ocupação no final da monarquia, mas aqui especulo. Incompetência que também demonstrava o profundo sentimento de elite, desrespeitador das tropas, algo que não esteve patente meio século depois. Há nisso sina de evolução social, das mentalidades, tanto no âmbito castrense como na própria sociedade, ainda mais de notar pois decorrida no Estado Novo, que não postulava uma cidadania republicana, mas uma diferenciação corporativa que minguava a equidade na cidadania.

Quanto ao resto que me diz discordo pois esquece (elide) que as colónias não eram para os colonos (os tais da boa vida a que V. , com algum veneno, alude). De facto elas eram importantíssimas para a socioeconomia nacional, e motores do sempre propalado crescimento económico do tardo Estado Novo, e como tal a "boa vida" relativa, o enriquecimento societal e as transformações socioeconómicas na Metròpole eram fruto disso. E era isso também por isso que os metropolitanos eram recrutados em massa para combater (tal como os colonos). Ou seja V; está a ecoar a narrativa falsária pós-25 de Abril, aquela que consagrou o colonialismo como uma face má portuguesa, a dos colonos exploradores, inversa à face boa portuguesa, a do "bom povo", os explorados metropolitanos. Esse dualismo é uma treta, retórica descabida.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 05.11.2018 às 11:47

Eu concordo plenamente com JPT que o discurso de Marcelo foi inacreditavelmente deslocado em relação às verdadeiras, e pouco nobres, motivações da 1ª Grande Guerra.
Mas, tendo em conta a pouca nobreza dessas motivações, que discurso quereria JPT que o pobre Marcelo tivesse feito?
Coube ao infeliz Marcelo ter que fazer um discurso comemorativo daquela guerra infame. Para dizer a verdade ele deveria ter dito que todos aqueles soldados morreram em vão, ou então que morreram por um mal-afamado império colonial. Ele não poderia dizer tal coisa. Então, disse umas coisas alternativas, lindas mas que não se aplicam àquela guerra. Que podia ele fazer?
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 13:49

O Lavoura, que habitualmente parece uma grade de discos pesada, sempre tão inclemente para com gentes menores em responsabilidade, a quem regra geral dedica roundup ou escarificador de pregas fundas, vem agora aqui, à laia de p. velha, apelar à condescendência, compreensão e mais e coisa!
E candidamente finaliza. Que podia ele fazer?
Assim de repente, por o Lavoura a fazer-lhe o discurso, seria igualmente trágico mas, talvez, menos patético!
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:16

Comentador Justiniano, insultos aos bloguistas ainda vá que não vá, não serão bem-vindos, mas a gente pode compreender Agora aos outros comentadores? Não há necessidade ...
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 05.11.2018 às 19:41

Que insultos?!?
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 21:40

Tem alguma razão, estive um pouco hiper-sensível, não terá havido da sua parte um verdadeiro insulto. Mas, ainda assim, a comparação do nosso prezado comentador com uma profissional do sexo idosa não deixa de ser algo desagradável, e mesmo desnecessária.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 06.11.2018 às 09:03

Não se quede tão inquieto, caro jpt.
Já há muito que intercedo com o Lavoura, e sempre com verdade e lisura (eu aprecio, sinceramente, o Luís Lavoura)!! Nunca, em momento algum, ofendi o Lavoura nem o Lavoura se sentiu, por mim, ofendido.
O Presidente Marcelo, num discurso assinalando o centenário da 1ª Guerra, e a participação portuguesa, alivia-se num romance histórico desconchavado, uma coisa subversiva para as mentes dos mais novos e ingénuos que ainda acreditam na palavra do Presidente da República. Um proselitismo que se balda da história e da verdade!! (porque razão não se ouviu a esquerda histérica, em peso, a bradar lavagem histórica?? Porque o enredo os enternece, a ficção conjuga-se com as suas próprias ficções e logo, quando assim é, baldam-se, de alto, para tudo o resto, como é costume. Ou então já ninguém liga, ninguém leva o PR a sério, o que será ainda mais trágico)
O Lavoura vem aqui de pantufas, quando habitualmente avança, ladeira acima, de socas, largar-se em condescendencias e compreensões várias.
A expressão que empreguei, à laia de P. velha, não é, por um destinatário medianamente esclarecido, interpretada literalmente como sendo alusiva a uma profissional do sexo idosa. A expressão, como bem sabe o caro jpt, quer significar que o sujeito assim qualificado excede o conceito de sonso.
Imagem de perfil

De jpt a 06.11.2018 às 09:09

Tem razão, penitencio-me, vim aqui algo adamado ...
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 17:36

O postal não é sobre o PR (eu liguei a textos meus já antigos sobre a questão). Muito em reacção a uma notícia de que aí haveria grande desfile comemorativo e também ao meu desejo de aqui ir a Namur ouvir a 5 de Mahler, a comemoração. Bem, quanto ao PR, eu não me importava que me pagassem para lhe escrever discursos mas assim, grátis, já torço o nariz. Mas poderia ter louvado esforço e sacrifício daqueles a que o pais (a Pátria fica sempre bem dizer) convocou. Sem grandes elocubrações e anacrônicas
Sem imagem de perfil

De JPT a 12.11.2018 às 12:18

Fazer o discurso que Macron fez ontem. "Durant ces quatre années, l’Europe manqua de se suicider. L’humanité s’était enfoncée dans le labyrinthe hideux d’affrontements sans merci, dans un enfer qui engloutit tous les combattants, de quelque côté qu’ils soient, de quelque nationalité qu’ils soient [...] J’ai vu sur nos monuments la litanie des noms de Français côtoyant les noms des étrangers morts sous le soleil de France ; j’ai vu les corps de nos soldats ensevelis sous une nature redevenue innocente, comme j’avais vu, dans les fosses communes, se mêler les ossements des soldats allemands et des soldats français côte à côte qui, par un hiver glacial, s’étaient entre-tués pour quelques mètres de terrain [...] La leçon de la Grande Guerre ne peut être celle de la rancœur d’un peuple contre d’autres, pas plus que celle de l’oubli du passé. Elle est un enracinement qui oblige à penser à l’avenir et à penser à l’essentiel. La France sait ce qu’elle doit à ses combattants et à tous les combattants venus du monde entier. Elle s’incline devant leur grandeur. [...] La France salue avec respect et gravité les morts des autres nations que, jadis, elle a combattues. Elle se tient à côté d’elles" Mas isso, seria, presumo, pedir demais.
Imagem de perfil

De jpt a 12.11.2018 às 12:45

Obrigado meu caro maiúsculo Este é um verdadeiro comentário da semana ... Que belo discurso.
Imagem de perfil

De jpt a 12.11.2018 às 12:46

E sim, seria pedir demais
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 05.11.2018 às 12:03

Assim de repente, recordo três reinados verdadeiramente patrióticos - o de D. Afonso Henriques, o de D. Dinis e o de D. João II.
Alguns outros lhes terão dado continuidade.
Todos os restantes e mais a república foram e são de um confrangedor seguidismo e uma vergonhosa submissão aos bretões e suas criaturas (uma pequena ressalva para Salazar, que tentou fazer uma espécie de jogo duplo).
Onde, hoje em dia, se diga ou se escreva patriotismo, oiça-se e leia-se, pois, seguidismo e submissão.
É triste, mas é verdade.
João de Brito
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 05.11.2018 às 15:36

Não sei se há perdão para quem manda os seus para uma guerra antevendo-os sem retorno; mal armados, mal comidos, sem a assistência que lhes era devida. E ignorantes do inferno que os esperava e os havia de matar. Todas as guerras são de temer.
Imagem de perfil

De jpt a 05.11.2018 às 18:17

Sim Mas nem todas as guerras são iguais E está está no tipo da ignominia
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 05.11.2018 às 20:45

Qual a diferença para a Segunda Guerra Mundial para a pessoa comum ou para rapazes de 16 anos?

E já agora,os Americanos que vieram à Europa duas vezes?

Já parece a narrativa hollywoodesco-jornalista: os traumas de guerra só ocorreram na guerra do Vietname.

A excepção é sempre a II Guerra Mundial? A Guerra Justa...

Mas só o passou a ser depois de 22 Junho de 1941...


Sobre a I

Motorhead 1916
https://www.youtube.com/watch?v=EqFoqtpUFY8

16 years old when I went to the war
To fight for a land fit for heroes
God on my side and a gun in my hand
Chasing my days down to zero
And I marched and I fought and I bled and I died
And I never did get any older
But I knew at the time that a year in the line
Was a long enough life for a soldier

We all volunteered and we wrote down our names
And we added two years to our ages
Eager for life and ahead of the game
Ready for history's pages
And we brawled and we fought and we whored 'til we stood
Ten thousand shoulder to shoulder
A thirst for the Hun, we were food for the gun
And that's what you are when you're soldiers
I heard my friend cry and he sank to his knees
Coughing blood as he screamed for his mother
And I fell by his side and that's how we died
Clinging like kids to each other
And I lay in the mud and the guts and the blood
And I wept as his body grew colder
And I called for my mother and she never came
Though it wasn't my fault and I wasn't to blame
The day not half over and ten thousand slain
And now there's nobody remembers our names
And that's how it is for a soldier


Outras perspectivas

https://en.wikipedia.org/wiki/Ernst_Junger (falta umlaut no u)

https://en.wikipedia.org/wiki/Adrian_Carton_de_Wiart

"Frankly I had enjoyed the war."

In an attack upon an enemy fort at Shimber Berris, Carton de Wiart was shot twice in the face, losing his eye and also a portion of his ear. He was awarded the Distinguished Service Order (DSO) on 15 May 1915.[12]

E foi só o começo...


Imagem de perfil

De jpt a 06.11.2018 às 09:16

Junger é um escritor fabuloso e deixou-nos, se calhar como ninguém, o arquivo de um mundo mental soberbo na sua peculiaridade Agora se vamos começar a fazer a colecção dos ecos literários da I Guerra Mundial com toda a certeza que a lista e a balança (não do génio literário) não tenderá para as loas àquela guerra

Quanto ao apelo patriótico que varreu as populações europeias (não tanto em Portugal por várias razões, talvez acima de tudo pela nossa excentricidade em relação às querelas económico-territoriais da "Europa Central" e porque os nossos itens épicos eram ultramarinos) sim, explodiram com grande vigor, até para surpresa de muitos - que é que a canção que nos deixa lembra. E ficou isto que ela canta - não há ninguém para cantar o nome. Nem para limpar o túmulo, apenas para contar uma história falsa
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 07.11.2018 às 01:05

"..e a balança (não do génio literário) não tenderá para as loas àquela guerra."

Concordo, mas quis deixar um pinto e um contraponto.

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 09.11.2018 às 01:20

Estou mal infomado sobre as campanhas de África, mas um primo meu ganhou nelas a sua Torre e Espada - que nunca foi fácil de ganhar.
Embora fosse oficial (foi general, depois) não tenho noção de grandes facilidades, grande diferença de ração, etc. para o oficialato no exército português. Isso acontecia - ou historicamente: aconteceu, pela última vez, diga-se, no exército inglês - mas as mortes na aristocracia foram semelhantes às dos demais elementos militares. Aliás, a 1ª Guerra contribuiu para a extinção física de grande parte da aristocracia europeia: dos frequentadores da Côte d'Azur (Cannes, Nice, Mónaco) terão morrido perto de 75%.
Imagem de perfil

De jpt a 09.11.2018 às 09:07

Obrigado pelo comentário. As descrições da guerra em Moçambique - no postal deixei ligações a breves textos meus identificando livros sobre a temática - são explícitas. A descrição da chegada das tropas ao litoral norte de Moçambique é mesmo pungente - tendas e água para oficiais, nada para soldados. Estes sofrendo logo uma razia devido a desinterias e malária. As coisas eram mesmo assim.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D