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Pensamento da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 07.10.18

A impaciência e o seu contrário têm-me (a)parecido por estes dias como que em alto relevo, mas imagino que sempre tenham estado por aí à vista. À minha vista estão agora mais, pode ser apenas isso. A capacidade de alguns trabalhadores/as de atendimento ao público aguentarem a pressa, ou o vagar, a conflitualidade ou a sem-noção de tantos clientes é um clamoroso exemplo diário de paciência. Outro bem rotineiro é a capacidade que a generalidade dos condutores mantêm de tolerar no trânsito os que se estão a borrifar para a alternância de passagem em hora de ponta - uma das mais bonitas invenções da civilidade urbana - e aí vão eles. 

Mas e a falta de paciência? Para onde foi o dom de aceitarmos o que não controlamos, previmos ou desejámos? Que é esta agitação que há agora à flor de quase tudo? Dá-se por ela ou sente-se ao fim de poucos minutos numa fila, em qualquer ajuntamento inopinado de pessoas, ante mudanças de planos, frente a um sítio em obras, nos lugares com má receção de rede, na saída do estacionamento, em eventos de celebração ritual. Nos mais simples momentos de silêncio. 

Que é que se passa connosco?

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana


14 comentários

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De Pedro a 01.10.2018 às 08:15

A frustração, a tristeza é tanta que apenas desejamos que o amanhã amanheça. Daí a pressa que o hoje acabe. Um hoje que será uma cópia do dia seguinte
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De Ana Cláudia Vicente a 03.10.2018 às 15:42

Uma reeducação para o vagar possível. Eu pelos menos sinto precisão disto. Nada de muito significativo me acontece quando, por regra, ainda ou já estou com a cabeça noutro tempo/lugar.
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De Anónimo a 01.10.2018 às 09:06

1) Estamos a ficar mais velhos.
2) As expectativas estão a sair goradas - sei lá, a regência da geringonça é a um collage de pantominas de troca-tintas; o clube "mais grande" esta entoupeirado...
3) Não sera bem a falta de paciência (ou melhor, só a falta dela). Antes a falta de temperança - que eu aprendi na catequese, algo que hoje é visto como floral gótico. Ou para os mais laicos, a falta do contraponto ao "hubris" dos gregos antigos substituido por idolatrias a Rei Midas, isto sem terem lido a história até ao fim - onde se descobre que tal Monarca acabou com orelhas de burro.

Jorg
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De Ana Cláudia Vicente a 03.10.2018 às 16:19

A temperança - bem visto. Os antigos - a Oriente e Ocidente - tinham-na por fundadora numa vida bem vivida (em comunidade). O ter saído do nosso léxico corrente é sintomático de algo, sim. Uma boa oportunidade para (pelo menos eu) voltar a Platão.
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De Rui Henrique Levira a 06.10.2018 às 02:03

A temperança... Pois... Ouvi dizer que ainda se encontra em grande abundância lá para os lados do Oriente longínquo. E parece que ainda por lá também abundam coisas como a piedade filial, a qual, por cá, anda pelo grau de rarefacção do lince ibérico. Coisas que o Confucionismo tece...
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De V. a 02.10.2018 às 00:32

Eu acho que é manias + peneiras (irritações da classe média alta) + excesso de população. Numa linha mais científica leiam a noção de "espaço proxémico" e as teses desenvolvidas por E. T. Hall.

Leiam vocês porque eu não tenho pachorra.
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De Pedro a 02.10.2018 às 07:58

https://www.google.pt/amp/s/amp.theguardian.com/science/the-h-word/2016/mar/23/science-ballard-high-rise-animal-research-pathological-overcrowding

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De V. a 02.10.2018 às 23:32

Gracias pelo link. Edward Hall também é etólogo — e refere várias vezes a experiência de Calhoun
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De Ana Cláudia Vicente a 03.10.2018 às 16:21

Não tinha pensado nestes termos, mas a conversar é que a gente (se) entende!
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De Ana Cláudia Vicente a 03.10.2018 às 16:20

:) Não conheço, mas vou procurar.
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De Pedro Correia a 02.10.2018 às 23:16

Excelente reflexão, Cláudia. Tenho-me questionado também sobre isto. Sobre a forma como quase toda a gente parece fazer questão de ser (ou pelo menos parecer) desagradável em relação aos outros.
Como se as palavras amáveis e os mais simples gestos de civilidade e bonomia tivessem emigrado de vez para parte incerta.
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De Ana Cláudia Vicente a 04.10.2018 às 12:31

Oh, obrigada :)

Parece-me que há muito que tresleia gentileza por fraqueza.
Como li ontem (já não sei onde, nem quem o escreveu):

'Querer ser "cool" para quê? Antes ser "warm". Quando o coração deixar de bater logo ficaremos todos irremediavelmente "cool", de qualquer das maneiras.'
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De Rui Henrique Levira a 06.10.2018 às 01:42

As palavras amáveis e os mais simples gestos de civilidade e bonomia, meu prezado Pedro Correia, têm a sua fonte na capacidade de empatia. Quando se aterrou essa fonte com toneladas de narcisismo e se entronizou a "emoção" e o "sentimento" como o alfa e o ómega das relações em sociedade, caminhamos para a dissolução da argamassa que mantém unida essa mesma sociedade.
Somos seres emocionais? Certamente. Mas somos também seres racionais e a empatia é sentimento e Razão a um mesmo tempo. É ela, no fundo, a ferramenta que nos permite ler os outros e nos faz dar um passo em frente no sentido de compreendê-los. Se a emoção/sentimento me faz sorrir e dar os bons dias ao meu vizinho pela manhã, quando estou bem disposto, já a mesma emoção/sentimento far-me-á ignorá-lo, quando acordo às avessas. A empatia assumida e praticada obriga-me (e eu dela sou um grato e voluntário cativo) a sorrir e a saudar pela manhã quem como eu é humano, se sente grato por estar vivo e com estoicismo carrega o fardo de ser humano e perecível.
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De júlio farinha a 07.10.2018 às 01:26

A simpatia e o seu contrário são expressão da vida e da educação. Quando a vida corre bem, esta modela os nossos comportamentos e atitudes tornando-nos cívicos e amigos.Se já se vai notando alguma melhoria no atendimento dos funcionários e nas filas de trânsito, isso pode significar que algo mudou, positivamente, na nossa evolução enquanto indivíduos e seres sociais.
Em suma, o comportamento do cidadão é, em última análise, fruto da cidade. Temos o primado do objecto sobre o sujeito existindo, porém, uma relação dialéctica entre os dois. Somos feitos pelas circunstância que nós mesmos ajudamos a criar.

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