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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.06.18

Com a paulatina e inexorável transformação em curso da face de Macau de uma cidade pacífica – de gente empreendedora, em que o jeito de fazer chinês se misturava com as diversas heranças, dos jesuítas aos portugueses, em que sem perder cada parcela da sua identidade cultural cada um exibia as características próprias das suas tradições num ambiente de feição mediterrânica, sem medo de se perder porque sempre se reencontraria, em que, por vezes, parecia que o tempo tinha parado mal se punha o pé na região – num espaço com características próprias de um estado policial autoritário, em que se pretende através de uma reforma da lei de bases da organização judiciária, afastar (assim se desprezando e humilhando os que ainda cá estão e que se a lei for avante nos termos previstos não se deverão importar com a forma como forem tratados) os juízes estrangeiros de julgarem processos que as autoridades entendam classificar como relativos à “segurança interna”, com a gente em surdina desconfiando que já é escutada a toda a hora e que todos são alvos potenciais de escuta, com milhares de câmaras de televisão instaladas pelas ruas, passadeiras, escadas interiores de edifícios de escritórios e de habitação, centros de saúde, à porta de gabinetes médicos, com fiscais escondidos atrás de arbustos para verem se o indivíduo que espera o autocarro está a fumar dentro da linha azul marcada no pavimento que assegura os dez metros até à paragem, como se o fumo não passasse a linha e não fosse levado pelo vento, até à admissão da instalação de câmaras de reconhecimento facial, de recolha de dados biométricos e de monitorização em tempo real de tudo o que se escreve ou diz na Internet, para o que o senhor Secretário para a Segurança do Governo de Macau quer aprovar uma nova lei de cibersegurança, já sem falar no crescente endurecimento de muitas penas em relação a crimes menores e sem dignidade para fazerem oscilar o equilíbrio social, e enquanto se aguarda a sentença do inacreditável “caso Sulu Sou”, em que o atropelo ostensivo da lei e de direitos fundamentais por parte da Assembleia Legislativa levou ao banco dos réus, com a não menos importante chancela da justiça, um dos poucos deputados eleitos por sufrágio directo, dei comigo a pensar, também a propósito de uma reportagem sobre os últimos meses que ontem passou no canal português da televisão de Macau (TDM), e a perguntar para mim se é legítima, em abstracto, a aceleração dos processos históricos.

 

Que a história, isto é, o passado pode ser falsificado, deturpado, escondido, até humilhado, apropriado, por países, pessoas, associações, por qualquer agremiação, todos sabemos. E tivemos vastos exemplos ao longo de anos de facínoras, de tiranos grandes e pequenos, de ditadores, e até de tipos que se dizem “historiadores”, “democratas” e se assumem como “maçons” (assim mesmo, entre aspas, porque os canalhas não se podem apropriar do que não lhes pertence), por vezes nas mais insuspeitas organizações, dessa acção cirúrgica de refazer os factos, desfazendo a realidade.

 

Mas será legítima a aceleração do processo histórico, colocando-se em causa valores, princípios, leis, modos de viver, segurança, tranquilidade, paz social, culturas, legítimas aspirações e sossego? E qual o preço que a um cidadão normal, ciente dos seus direitos e deveres, será legítimo pedir para pagar pela pacífica oposição a essa aceleração?

 

Convido-vos, a todos, a pensarem comigo. Ajudando-me também a pensar. Se possível deixando aqui registadas, na caixa de comentários, que é para isso que devem servir e não para outras coisas, as vossas reflexões. E se algum dos meus companheiros e amigas do Delito também me quiser acompanhar, aqui rabiscando os seus textos ou desenhos (esta é mais para o Bandeira), ficar-lhes-ei agradecido. Pensa-se melhor em conjunto, mais ainda quando se está triste, também pelos que hão-de vir, e se tem medo de estar a perder alguma parte do filme que se continuar a rodar a este ritmo acabará por obscurecer a História. A nossa. A de todos. Nesta semana que começa a 28 de Maio.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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6 comentários

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De Vento a 28.05.2018 às 02:35

"Mas será legítima a aceleração do processo histórico, colocando-se em causa valores, princípios, leis, modos de viver, segurança, tranquilidade, paz social, culturas, legítimas aspirações e sossego? E qual o preço que a um cidadão normal, ciente dos seus direitos e deveres, será legítimo pedir para pagar pela pacífica oposição a essa aceleração?"

Como tenho por aqui fãs incondicionais aos meus escritos sobre a eutanásia, ficaria mal comigo mesmo se os privasse de mais um altíssimo contributo que pretendo dar a esta causa de ser contra.
O debate que hoje se vem assistindo em torno desta temática é fruto não de uma aceleração do processo histórico mas de um trauma característico dos pequeno-burgueses que, acedendo à possibilidade de ler uns livritos, julgam ter adquirido um avanço civilizacional que os coloca acima de todos os demais.

Esta mentalidade pequeno-burguesa, que entende o seu umbigo como origem e emanação do conhecimento, esquece que é o Saber o factor determinante na gestão das relações sociais e da preservação da harmonia. É esta mesma pequena-burguesia traumatizada que, em nome de um suposto conhecimento, agora se arvora em cientista sem dedicar tempo algum a investigar. Os povos ameríndios e algumas tribos africanas, sem necessidade de estabelecer uma indústria de investigação nos moldes que hoje conhecemos, há muito que vem usando unguentos e mézinhas para superar suas dores e até mesmo curar muitos dos seus males. Mas sempre com a consciência que a morte um dia chegará e não é necessário qualquer douto agente para a antecipar e até mesmo usar a matança como medida terapêutica.

Desde o aborto até à discussão que agora se celebra em torno da eutanásia, a matança é vista como um acto de misericórdia e saúde pública. Pensava eu que a sanidade da civilização até agora edificada consistia em conceber também a saúde pública como um acto de preservação da Vida que devia ser levada a efeito com todos os recursos disponíveis mais aqueles que se devem disponibilizar.
Todavia, dou conta que este trauma pequeno-burguês em torno do seu douto conhecimento procura usar o mesmo não como forma de progressão mas de estagnação. Acabando por optar pela solução mais simples e rápida.

Por isto mesmo afirmo que a solução final (sim, sei que é um termo nazi) que se preconiza não só é fruto de um preconceito estético-social como também indica à sociedade o descrédito que lhes deve ser atribuído quer pela preguiça na investigação científica quer na própria descredibilização da ciência que estes doutos, em nome dela, inferem na solução que preconizam.
Ainda por isto mesmo, o ser contra a eutanásia é também ser contra esta mentalidade pequeno-burguesa que deixou crescer a pança e sente-se realizada ostentando-a.

Vem isto tudo a propósito para dizer que o que se passa em Macau em nada difere do que em Portugal se pretende fazer para regular e controlar a mente dos cidadãos, usando a lei para atingir tais fins. Ainda por isto mesmo, continuo a afirmar que a nova forma de estalinismo e nazismo está ser implementada por via legislativa.
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De Meister Von Kälhau a 28.05.2018 às 13:26

"Esta mentalidade pequeno-burguesa"

Agora deu-lhe para a fraseologia marxista? Não se baralhe homem!! Não há nenhum fatalismo ontológico de classe, pelo menos desde a Idade Média
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De Vento a 28.05.2018 às 15:30

Leu mal. A questão não está na classe, mas na assimilação de trejeitos.
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De Meister Von Kälhau a 28.05.2018 às 17:14

Primeiro mudam-se os gostos. Depois as vontades. Com as elites todos aprenderemos a gostar.
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De Vento a 29.05.2018 às 11:50

O problema está aí. O que são as elites?
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De Meister Von Kälhau a 29.05.2018 às 16:03

Os que olham de cima para baixo...

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