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Pelo fim do dia anual da mulher

por João André, em 08.03.18

Desde que comecei a pensar no assunto que passei a não gostar do Dia Internacional da Mulher. Fazia sentido a sua celebração quando surgiu, mas não celebro aquilo que passou a representar: o dia em que os homens prestam atenção às mulheres como antigamente comprariam indulgências. Passou a ser então uma espécie de vávula de escape para a consciência. Não faz mal o comportamento machista ou misógino nos outros dias se se oferecerem flores (hoje em dia virtuais) no dia 8 de Março. Como li (ou ouvi) em tempos: por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem.

 

Não é uma questão apenas de como os homens se comportam (e não se pense que eu não me incluo neste grupo). Parte da responsabilidade é também das mulheres, que enchem os seus murais do Facebook, os seus feeds to Twitter ou os seus blogs com comentários de celebração do ser mulher, celebração das mulheres nos seus círculos (pessoais ou profissionais), e o orgulho de ser mulher. Não tenho nada contra isso, mas especialmente o primeiro e terceiro casos fazem-me confusão. Como celebrar ou ter orgulho em algo sobre o que não se tem influência. Seria o mesmo que dizer que se tem orgulho em ter dois pés ou uma boca. Há naturalmente circunstâncias em que isto muda (operações, acidentes) mas nenhum de nós pode influenciar o sexo com que nasceu.

 

Da mesma forma que não vale a pena celebrar o ser-se feminina. Uma mulher que se identifique como tal mas goste de crescer os pêlos, arrotar, vestir-se de calças e camisa de flanela, colocar uma tatuagem a dizer "Amor de Mãe", ver filmes de acção, beber cerveja, e, horror dos horrores, preferir mulheres, será menos digna de ser chamada "mulher"? Pode ser menos interessante do ponto de vista estético (e a estética muda com o tempo), mas não podemos reduzi-la a algo menos que Catherine Deneuve ou Natália Correia.

 

O Dia Internacional da Mulher é então o dia em que as mulheres são lembradas e acarinhadas por serem aquilo que sempre são. Deveríamos no entanto vê-lo como um dia em que reflectimos sobre o papel das mulheres, os seus direitos, aquilo que conquistaram (com ou sem ajuda) num mundo dominado por homens e aquilo que ainda falta conquistar. O papel de movimentos como os actuais #metoo ou #timesup é fundamental, mais que qualquer flor, virtual ou não, oferecida num único dia do ano. Não mudará o mundo só por si, mas lembra o mundo dos desafios que as mulheres e os homens (estamos neste mundo juntos) continuam a enfrentar.

 

Este dia 8 de Março de 2018 é então um belo dia para relembrar tudo o que foi exposto no último ano. Um colunista que eu leio (a propósito de outros temas) gosta d eescrever que a luz do sol é o melhor desinfectante. Se assim é, estes últimos 365 dias têm vindo a desinfectar muitos dos corredores infectos no mundo. E a limpeza, como aconteceu no passado, tem sido feita por mulheres.

 

E, assim, deixo o meu voto. Por para elas serem importantes, deixo às minhas mulheres os meus votos de um Feliz Dia Internacional da Mulher. E o meu desejo muito sincero que seja um dos últimos que se celebrem apenas de ano a ano.

 

#PressforProgress

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18 comentários

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De Teresa Ribeiro a 08.03.2018 às 13:15

Mais uma vez, no essencial estamos em sintonia, João André.
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De João André a 08.03.2018 às 14:26

Já o sabia Teresa :)
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De Sílex a 08.03.2018 às 13:49

Não podia concordar mais com tudo o que diz. Do meu ponto de vista, também, não vejo grande sentido (ou mesmo necessidade), de celebrar-se este dia!
Dias da Mulher são todos eles, como do Homem são, os 365 dias em que se saibam respeitar mutuamente e ao género com que nasceram.
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De João André a 08.03.2018 às 14:27

O respeito mútuo é essencial. Infelizmente pedi-lo, simplesmente, não tem ajudado muito.
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De Sílex a 08.03.2018 às 15:23

Eu que o diga! Respeitar é muito, muito importante. Mas ser respeitado é um direito tão,ou mais precioso!
Há quem tenha sentidos de "liberdade do outro", muito diferentes e ache que: "a minha liberdadezinha permite-me tudo. Logo, estou à vontade, tudo me é permitido..." E nesse campo, como neste de ser-se (ou saber-se ser mulher e saber ser homem) e respeitar cada um, nas suas liberdades e direitos, há um vastíssimo "deserto" para atravessar.
Infelizmente, nos dias que vivemos, mais confusões se fazem com o Ser Mulher e como tal, "corte-se a direito". Não! Ser mulher não dá direito de ver as coisas com radicalismo, "ódios" e muitas vezes, "má fé". Como não o dá ao homem, de tratar mal ou matar, uma mulher.
Veja-se, por exemplo, muito do movimento #Metoo. Se tem muito de fundamento, muito terá de "acerto de contas." Continuando nas expressões populares (se me permite), "nem tanto ao mar, nem tanto à terra". Mas é assunto muito discutível e dá direito a muitas e variadas opiniões. Continuo a achar desnecessário um Dia da Mulher, sem existir um Dia do Homem, porque ambos se completam. Ou deviam completar-se. Um bom resto de dia e muito obrigada pela sua resposta.
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De Beatriz Santos a 08.03.2018 às 14:22

Creio que se enganou só numa coisinha (julgo mesmo que a única razão é ser homem), o orgulho em ser mulher não nos vem de bendizermos a sorte de, por acaso, sermos mulheres. Porque isso seria, digamos, pelo menos, masoquista, todas deveríamos desejar ser homens já que tudo lhes foi sempre mais fácil; exceptuando, talvez, as guerras.
É que os homens nascem homens e sim senhor, mas as mulheres tornam-se (ou não) mulheres, crescem, engrandecem dentro do género (não todas, é certo). Ora, caro senhor, que isto aconteça num mundo ainda submisso ao preconceito de superioridade masculina, é obra. Por isso, neste e em todos os dias do ano, louvo esse crescimento que se faz a pulso nos interstícios do poder.
E não, não tenho raiva aos homens. Nem gosto muito deles. E não quero que haja um dia do homem, inverter papéis não é solução. Estão no mundo como eu, são gente como eu, deviam ter vergonha na cara e lutar e viver de igual para igual.
Tenho esperança nas gerações mais jovens. Urge não a perder.
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De João André a 08.03.2018 às 14:30

Penso que compreendo oque quer escrever, mas não diria que as mulheres se tornam tal, nem crescem, nem nada disso. Penso que aprendem "simplesmente" a ser mulheres num mundo historicamente desenvolvido para as menorizar (até, ou especialmente, quando as distinguem como "especiais").

Só não gostei do seu primeiro parentesis. Estraga o seu argumento. O facto de eu ser homem não me faz estar correcto ou errado em nada. Torna-me talvez incapaz de compreender certos aspectos (como uma mulher teria dificuldades em compreender alguns dos homens), mas não me faz enganar só por ser homem. Esse tipo de argumento é o negativo do "é por ser mulher".
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De Beatriz Santos a 08.03.2018 às 15:13

Por vezes eu dou razão ao interlocutor. Não é o caso. Julgo mesmo que as mulheres têm um tipo de compreensão muito feito sobre a vida pessoal e os antecedentes históricos. E que os homens beneficiam de outro em função das mesmas variáveis. Mais me parece um purismo esta questão. O que disse não está fora do que afirmei (não me referi a verdades inatas ao sexo com que se nasce).

Pois. Cada um diz como melhor lhe parece. E o que parece não aparece igual a todos. É por isso que se chama opinião e permite divergências (mesmo estilísticas).

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De Anónimo a 08.03.2018 às 15:27

"exceptuando, talvez, as guerras. " Quem fala assim não sabe o que diz nem viveu a guerra colonial (para não falar noutras). !!!!!!!!!!
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De Anónimo a 08.03.2018 às 18:05

Caro anónimo das 15:27:
Nem sabe o que foi a guerra de trincheiras (na primeira guerra mundial) nem o que foi o desembarque da Normandia. Ou viram filmes a sorrir pensando que era tudo imaginação e aventura.
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De Beatriz Santos a 08.03.2018 às 21:45

Caro(a) senhor(a), julga então que as guerras foram só facilidades para os homens?! Ou que as mulheres sofreram o mesmo que eles?! Se é certo que elas tiveram o seu quinhão durante os tempos de guerra que não poupam ninguém - tem razão, não vivi a guerra colonial, mas a história não se faz apenas do que nos foi presente -, também é verdade que a participação directa dos homens, no computo geral, envolveu maior perigo e riscos.
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De Consolida filho, consolida! a 08.03.2018 às 14:45

"Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho?"

in FMI, Zé Mário Branco
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De Psicogata a 08.03.2018 às 14:54

Celebrar o dia Internacional da Mulher faz todo sentido, só que não da forma como as mulheres o celebram.
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De Anónimo a 08.03.2018 às 15:31

"não da forma como as mulheres o celebram." Claro. Aquela das espanholas irem para a rua de caçarola na mão é para fazer lembrar a queda de Allende e a ascenção de Pinochet. Fiquei horrorizado só de ver. E porquê caçarolas? Será esse o instrumento destinado às mulheres?
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De Ideia Maluca a 09.03.2018 às 00:57

Dia Internacional para a Igualdade de Género?
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De Anónimo a 08.03.2018 às 15:35

"por ano há um Dia Internacional da Mulher e 364 Dias Internacionais do Homem." Não é verdade. Há dias internacionais de todas as coisas desde o orgasmo até não sei o quê. Isso aborrece e farta. Nem sei se há dia do homem, pelo menos não conheço. Mas talvez aja pois há de tudo e mais alguma coisa para gáudio de quem vende prendas inúteis.
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De Anónimo a 08.03.2018 às 16:35

Raio, o h de haja voou.
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De Ana a 09.03.2018 às 09:53

Pelo fim??? É tão bom termos o nosso dia! Ele há cada maluco.

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