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Para sempre

por Isabel Mouzinho, em 28.01.16

 VergilioFerreira.jpg

Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão  eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções , memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer (...) Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o "escrever bem"? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dela. (...) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir porque ele o revelou. 

 

(Vergílio Ferreira, Pensar)

 

Tinha dezassete anos quando o li pela primeira vez. Ou, pelo menos, quando se me revelou. E essa leitura marcou-me de uma forma tão profunda, que determinou de certo modo a escolha do caminho, porque me levou a decidir em definitivo que queria estudar literatura.

Escritor, ensaísta, professor, de personalidade forte e humor mordaz, dele se diz que morreu a escrever, aos oitenta anos, e que quis que o seu caixão ficasse virado para a Serra da Estrela, que ele tanto amava. Verdade ou não, o que importa é o que nos fica: uma obra imensa que, goste-se muito ou não se goste nada, ocupa um lugar central na literatura portuguesa do século XX. É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário...

Vergílio Ferreira faria hoje cem anos. Para mim, será sempre um dos melhores.


11 comentários

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De Ana C. Leonardo a 28.01.2016 às 09:19

Vergílio, insuperável! Se a degradação do ensino do Português era já evidente há anos, este ministério e este ministro patético farão o resto do trabalho de casa.
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De Isabel Mouzinho a 28.01.2016 às 17:48

Concordo até certo ponto. Penso que também nos cabe ir resistindo, como no caso do AO. Temos de continuar a levar os bons autores, os que são insuperáveis, como VF, até às salas de aula. Não impondo leituras e fichas, mas antes mostrando como podem as palavras, alinhadas de certa maneira, fascinar-nos e fazer-nos pensar. E insistir para que o Português seja o que sempre deve ser:ler, ler, ler e escrever, escrever, escrever.
Hoje, perde-se algum tempo e energia com o que não interessa para nada e deixa-se de lado o essencial. E a "culpa" não é só do ministério, nem dos vários ministros que por lá vão passando, cada um com uma ideia mais mirabolante que o anterior, nem que seja simplesmente para "ser diferente".
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De Luís Lavoura a 28.01.2016 às 09:56

É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário

Eu fui forçado a ler a Manhã submersa no ensino secundário e devo dizer que, embora seja, ao que dizem, dos livros mais "fáceis" de VF, e embora eu fosse um bom aluno e bastante dado à leitura em geral, achei aquilo um bocado estopada. Acho que há na literatura portuguesa coisas bem mais apropriadas para dar a consumir a jovens na força da idade.
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De Isabel Mouzinho a 28.01.2016 às 17:40

Eu li a Aparição e marcou-me profundamente. No fundo, se formos a ver, consoante a abordagem, tudo pode ser "estopada" ou aliciante.
Não sei o que considera "apropriado para jovens na força da idade", mas eu creio que Vergílio Ferreira é um autor incontornável e fundamental. Gostando-se dele, ou não. Eu adoro. E já fiz experiências de leitura de contos de VF com alunos do básico, que gostaram muito de "Uma esplanada sobre o mar", por exemplo, ou "A Estrela".
Agustina também devia estar nos programas. E não está. Está Saramago de que eu não gosto nadinha. Mas, ainda assim, acho que deve ser lido no liceu. Já Sttau Monteiro não faz lá nada... É uma obra menor, claramente.
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De Luís Lavoura a 28.01.2016 às 17:56

se formos a ver, consoante a abordagem, tudo pode ser "estopada" ou aliciante

Não é uma questão de "abordagem". A mim foi-me dito, como aluno, que tinha que ler aquele livro todo, de cabo a rabo, e foi isso que fiz. Ninguém "abordou" o livro comigo.

Talvez o problema esteja em que eu era um aluno de ciências e a Isabel não. Infelizmente, tantos os alunos de ciências como os de letras eram submetidos aos mesmos livros de leitura obrigatória. E continuam a ser, creio.

No fim do trimestre passado estive a falar com as professoras do meu filho mais velho (10º ano) e disse-lhes que o meu filho tinha achado Fernão Lopes um horror. A professora de matemática (salvo erro) concordou veementemente, disse que também ela tinha achado Lopes abominável. A professora de português disse que, ela, achava abominável a matéria lecionada pela professora de física...
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De JSP a 28.01.2016 às 11:12

"Para Sempre".
É isso, é isso...
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De Isabel Mouzinho a 28.01.2016 às 17:30

A obra é um dos melhores textos da literatura portuguesa do século XX. E as palavras de VF permanecem no mundo e em nós para sempre...
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De Anónimo a 28.01.2016 às 11:30

Para mim também, Isabel.
Há precisamente 14 anos fiz uma 'romaria' a Melo (vi a campa, muito simples, só com o nome e as datas, as ruínas da casa onde nasceu); ao seminário do Fundão (onde se inspirou para a Manhã Submersa); à Biblioteca de Gouveia (onde está a sua biblioteca pessoal).
O que mais gostei foi de folhear alguns dos livros que ele leu - recordo um da Virginia Woolf, em inglês, com a tradução a lápis de algumas palavras que ele não conhecia e que me comoveu.
Obrigada por este texto.
:-) Antonieta
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De Isabel Mouzinho a 28.01.2016 às 17:29

Não sou de hierarquias, Antonieta, mas quase me atreveria a considerar VF o "meu" preferido de entre os autores portugueses em prosa.
Nunca fui a Melo, mas gostaria muito. A Gouveia, sim, mas há muitos anos e ainda não estava lá a biblioteca. Quem sabe um dia...
Obrigada eu, nós, Antonieta, pelos seus comentários sempre gentis e pertinentes.
Um beijinho
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De Helena Sacadura Cabral a 28.01.2016 às 20:18

Isabel
Tenho sentimentos contraditórios em relação a grandes escritores. Defeito meu decerto. VF é um deles. Há obras que me emocionam e outras que me deixam um pouco enfastiada. O que nunca me aconteceu com Agustina, a escritora da minha vida, com Eça de Queiroz, com Eugénio de Andrade o meu poeta favorito.
Há alturas e idades para ler certas obras!
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De Isabel Mouzinho a 28.01.2016 às 20:33

Concordo que há alturas e idades certas para ler certas obras, ou melhor: lemo-las de maneira diferente consoante a idade e as nossas circunstâncias do momento da leitura.
Mas também me parece que mesmo em relação a escritores de que gostamos muito, não gostamos de tudo de igual modo. Eu, por exemplo, diria de VF o que a Helena diz de Agustina, mas também não morro de amores por "vagão J", por exemplo ou até "Manhã Submersa". Mas adoro "Aparição" "Para Sempre" "Pensar" e até o diário.

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