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Para reflectir neste feriado

por Pedro Correia, em 26.05.16

Corpo_Deus_lisboa_gf[1].jpg

Procissão do Corpus Christi em Lisboa, com a presença do Rei D. Manuel II (1908)

 

É o dia certo para aplaudir outra medida do Governo. Esta tem uma importância acrescida no plano simbólico, o que a torna ainda mais digna de realce. E - tal como a do Simplex 2016, que saudei aqui - também tem um impacto directo na vida dos portugueses. Refiro-me à reposição das quatro datas do calendário laboral que haviam sido retiradas em 2012 da lista dos feriados nacionais - sem uma justificação plausível, sem resultar de imposição dos credores externos que tutelavam as nossas finanças públicas, sem sequer um estudo de impacto orçamental que as tornasse credíveis no estrito plano contabilístico. Foi um erro lapidar do anterior Executivo: nos momentos de crise, há que fazer um apelo reforçado aos valores comunitários que estes feriados de algum modo celebram.  "Uma coisa completamente tonta", como na altura salientou Marcelo Rebelo de Sousa.

Sendo justo e acertado o aplauso a António Costa por ter anunciado de imediato o regresso ao bom senso neste domínio, não pode passar sem um severo reparo crítico a atitude pusilânime da hierarquia católica, que há quatro anos acedeu sem um sussurro de protesto à supressão do Dia do Corpo de Deus e do Dia de Todos os Santos - datas solenes do calendário litúrgico e com longa tradição de prática votiva entre nós - da lista de feriados oficiais.

Assistia plena razão à Igreja, no plano institucional e moral, para reclamar contra o banimento oficial das duas festas cristãs que forçou até uma troca de documentos diplomáticos entre Lisboa e o Vaticano por incluir matéria contida na Concordata, tratado internacional celebrado entre o Estado português e a Santa Sé. Mas optou pelo silêncio, como se lhe fosse indiferente a opinião da cidadania católica e não entendesse o grave precedente que aquela decisão governamental abria no equilíbrio sempre delicado entre um Estado aconfessional e uma sociedade com matriz religiosa.

Esse perturbante silêncio de então contrasta de forma chocante com o alarido actual em torno das previstas alterações ao modelo dos contratos de associação celebrados entre o Ministério da Educação e algumas dezenas de estabelecimentos escolares, parte dos quais geridos pela Igreja. Apetece perguntar como Jesus no Evangelho: "O que vale mais? O ouro ou o santuário que tornou o ouro sagrado?" (Mateus, 23-17)

Matéria que justifica meditação neste dia que volta a ser feriado.

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24 comentários

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De M. S. a 26.05.2016 às 09:44

Caro Pedro:
Assertivo, como sempre.
Esqueceu-se de outro pormenor: este governo rendeu-se a uma certa racionalidade na gestão de ALGUNS feriados.
Quer discutir na Concertação Social a eventualidade de deslocar o seu gozo para evitar as pontes.
Acabei de ouvir um alto dignitário da Igreja manifestar-se contra essa possibilidade e tentar atirar poeira para os olhos dos incautos.
Disse que não via como se poderia gozar o Natal à Sexta-feira, por exemplo.
Ora, não é isso que está em causa.
É só em relação àqueles em que o seu gozo seja relativamente neutro em relação ao dia que lhes ficaria destinado.
Enfim, mais palavras para quê?
(Manuel Silva)

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De Luís Lavoura a 26.05.2016 às 11:00

discutir na Concertação Social a eventualidade de deslocar o seu gozo para evitar as pontes

As pontes são apenas dias de férias que os trabalhadores, legitimamente, metem. Se os trabalhadores querem tirar férias repartidas, é bom que o façam.

Pôr os feriados todos às sextas e segundas-feiras seria dramático para as atividades escolares, que estão organizadas de acordo com os dias da semana. Se um ano escolar perder três ou quatro sextas-feiras, todas as disciplinas que têm aulas nesse dia ficam em grande aperto para dar o programa completo.
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De M. S. a 26.05.2016 às 13:05

Luís Lavoura:
Esta sua preocupação é de quem não conhece minimamente a organização do calendário escolar.
Este problema sempre existiu, pelo menos com o 1 e o 8 de Dezembro e às vezes mais 1 ou 2 feriados no mesmo dia da semana.
E o mundo ainda não acabou a não ser para os que todos os dias morrem.
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De Luís Lavoura a 26.05.2016 às 15:39

Este problema sempre existiu

Claro que sempre existiu. Mas devemos tentar atenuá-lo, não exacerbá-lo.

pelo menos com o 1 e o 8 de Dezembro

Exatamente. O feriado de 8 de dezembro deveria ter sido eliminado. Em vez de eliminarem o 1 de novembro, que tem significado para boa parte do povo, eliminavam o 8 de dezembro, ao qual ninguém liga nada e que só nos dá essas chatices.
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De JAB a 26.05.2016 às 09:54

A supressão dos feriados do Corpo de Deus e de Todos os Santos não causava grandes problemas à Igreja Católica por duas ou três razões, penso eu: O Corpo de Deus era simplesmente transferido para o Domingo como acontece já em outros países da Europa, e particularmente em Itália, com o contratempo de o não ser no Vaticano: a procissão passa pela Via Merulana de Roma com as coisas a correrem como se nada fosse porque é um dia de trabalho... Já com muitos outros dias santos aconteceu o mesmo ou então foram "dispensados" (São José, Anunciação, Ascensão... que são Solenidades litúrgicas mas não dias santos). O dia de Todos os Santos já tem um problema com ele: como as pessoas costumam ir aos cemitérios celebrar os Fieis Defuntos no dia anterior (Todos os Santos) este estava a ser claramente desvirtuado... a supressão do feriado não afectava a vida da Igreja nem a liturgia... Pessoalmente, no caso do Corpo de Deus, penso que se perde com a reposição.
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De Luís Lavoura a 26.05.2016 às 11:01

Estou completamente de acordo.
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 12:04

JAB, na perspectiva deste texto é irrelevante se a suspensão dos feriados do Corpo de Deus e de Todos os Santos "causava ou não problemas" à Igreja. O que me interessa enfatizar é o contraste entre a atitude reverente e timorata da hierarquia católica no caso da supressão dos feriados religiosos e a atitude enérgica e assertiva que tem mantido na questão dos contratos de associação.
Só isso. E já é muito.
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De sampy a 26.05.2016 às 10:17

"supressão do Dia do Corpo de Deus e do Dia de Todos os Santos"
"banimento oficial das duas festas cristãs"

Como é evidente, não houve qualquer banimento de festas nem supressão de dias santos. A festa do Corpo de Deus foi transferida para o domingo seguinte e o Primeiro de Novembro continuou a ser o dia de Todos os Santos.

O carácter de dia feriado é que foi suspenso, por um período de cinco anos, findo o qual se faria uma avaliação dos ganhos económicos e sociais da medida. Este era o acordo que, como se sabe, não foi cumprido.

Que havia justificação (plausível ou não, discuta-se), mostram-no as declarações do ministro do Trabalho, ontem, admitindo alterar o calendário de feriados, para os encostar ao fim-de-semana.

Comparar a atitude da Igreja nos dois casos mencionados é, no mínimo, misturar alhos com bugalhos.

Por fim, venha de lá essa indignação com o fim dos feriados do Dia de Reis, Dia de S. José e Dia da Ascenção. O silêncio perante estes precedentes é intolerável.
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 10:38

Extraordinário princípio: primeiro toma-se a decisão sem estudos prévios de qualquer espécie, depois aguarda-se "avaliação dos ganhos económicos e sociais da medida" para e determinar, cinco anos depois, se estava correcta....
Mais extraordinário ainda é haver quem defenda isto.

Comparar os feriados que foram suprimidos do calendário laboral dos anos anteriores e agora repostos com o Dia de Reis e o Dia de S. José é que é comparar alhos com bugalhos.
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De sampy a 26.05.2016 às 11:32

Quer dizer: o Pedro Correia não tem conhecimento de terem havido estudos prévios de qualquer espécie, pelo que está em condições de garantir que não existem. Óptimo.

Curiosamente, como se supõe não ter havido quaisquer estudos, nem no sentido de avalizar a suspensão dos feriados, nem no sentido de ratificar a sua manutenção/reposição, conclui-se que a suspensão foi errada, e que a manutenção era certa e a reposição foi correcta. Lógico.

E em que é que a comparação falha? Na questão de entre a suspensão duns e a supressão doutros mediarem algumas décadas? De o Pedro Correia se ter habituado à ausência duns mas não à doutros? Todas eram datas solenes do calendário litúrgico e com tradição votiva entre nós. E, ao que parece, esse é o argumento em que a diatribe do post se baseia...
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 12:05

Eu não "suponho não ter havido quaisquer estudos". Eu sei que não houve.
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De ali kath a 26.05.2016 às 10:21

o bes e banif voaram
a vaca também
faltam os restante banquinhos
e o ex-porto de Lisboa a caminho de Vigo
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 12:06

As vacas ganham asas e os banqueiros vão de patins.
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De Luís Lavoura a 26.05.2016 às 10:57

Discordo deste post.
O Corpo de Deus foi uma coisa que em tempos se celebrou. Hoje em dia a maioria dos portugueses está-se nas tintas para ele.
A não ser nalguns sítios, como por exemplo Vila do Conde, não há hoje tradições vivas de celebração deste dia.
Acho muito bem que o feriado do 1º de novembro tenha sido restaurado, pois se trata de um dia com tradição de celebração bem viva, por todo o país. O Corpo de Deus, não.
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 11:51

"O Corpo de Deus foi uma coisa" é uma frase notável.
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De João André a 26.05.2016 às 11:11

Vou ser polémico aqui neste aspecto Pedro. E aviso de antemão que o que vou escrever são suposições puras e eu poderei estar completamente errado.

Na altura, o governo anunciou que ia eliminar dois feriados religiosos. Lembro que se falou do de 15 de Agosto (Assunção de Maria) como uma das possibilidades. E é aqui que entro em suposições cínicas: a data está encostada ao 13 de Maio e poderá ser usada por muita gente para uma visita a Fátima. Fátima em Agosto é uma das cash cows da Igreja em Portugal. Como também é feriado noutros países europeus com muita diáspora portuguesa, muitos emigrantes aproveitam para ir com famílias e amigos de cá a Fátima. Sem o feriado seria provável que este fluxo se reduzisse pelo menos parcialmente.

Os feriados do Corpo de Cristo e de Todos os Santos não têm o mesmo valor material. Talvez por isso, para poder ter a certeza que o 15 de Agosto seria mantido, a Igreja terá decidido aceitar o corte dos outros feriados.

Avisei que seria uma visão cínica. Podem comçar as críticas agora.
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De sampy a 26.05.2016 às 16:49

Nada contra a visão cínica. Desde que se adeque à realidade.

O 15 de Agosto não foi mexido por duas razões:
- porque a nível da rentabilidade laboral não aquece nem arrefece: a maior parte do país está mesmo de férias nessa altura.
- porque é um dos dias tradicionalmente mais pretendidos e concorridos para festas familiares e romarias de aldeia. Ir a Fátima nesse dia, só mesmo por desespero.
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De Maria Dulce Fernandes a 26.05.2016 às 12:53

Os Feriados nunca deveriam ter sido abolidos e foi certíssimo reinstaurá-los. Todos eles . Excelente texto a propósito.
Não percebo porque carga de água os feriados religiosos incomodam tanta gente.
São dias que comemoram efemérides cristãs, algumas delas com mais de mil anos.
Fazem parte da cultura dos povos e devem como tal ser celebrados.
Ninguém se opõe à celebração em Portugal do 1ª de Maio , uma efeméride (?) - refere-se à ratificação em plenário do dia de 8 horas- que nem é portuguêsa, nem é milenar nem sequer tem uma simbologia especial, e foi adoptada por nós há pouco mais de 40 anos. Se passou a simbolizar uma vitória alcançada , então teremos nós muito que celebrar, desde que um tipo que se dava mal com a mãe e estava farto de ver o estádio do dragão, entrou A1 por aí abaixo à espadeirada e só parou no Alentejo e muitos mais lhe seguiram os passos. Verdadeiras conquistas estas, mas talvez porque a religião era outra e se agradecia a Deus e aos Santos não interessam mesmo nada.
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 14:05

Medida acertada, a deste Governo. Tão acertada como a do anterior foi errada. Com o insólito beneplácito da hierarquia católica, que pareceu mais interessada em agradar ao poder político de turno do que em exprimir os sentimentos da larga comunidade que representa no plano espiritual. Como se para a Igreja fosse indiferente a redução da componente religiosa na lista dos feriados oficiais.
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De Maria Dulce Fernandes a 26.05.2016 às 14:10

Ressalvo:

Onde se lê dia de 8 horas, leia-se dia de 8 horas de trabalho, não vão os censores de serviço aqui do pedaço pensar que sou megalómana ao ponto de acelerar o movimento de rotação da terra.
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De Pedro Correia a 26.05.2016 às 17:18

Era o que faltava pensarem uma coisa dessas, Dulce.
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De pita a 26.05.2016 às 13:42

A festa do Corpo de Deus que sempre existiu, passou a feriado por decisão de A.O Salazar. Uma festa da "Casa dos 24", das corporações, tendo ele acabado com a 5a-feira de espiga.
A igreja portuguesa tem sido uma badalhoca castrada desde a morte de D. António Ribeiro.
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De singularis alentejanus a 27.05.2016 às 11:57

Haja alguém que me explique. Governantes tidos como católicos(os anteriores) a eliminarem feriados de índole cristã, governantes marxistas(os actuais) a reporem esses mesmos feriados. Sim, não estou a ver um militante do PS, do PCP ou do BE
numa procissão do Corpo de Deus, mas sim numa qualquer praia deste jardim à beira-mar plantado.
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De Pedro Correia a 28.05.2016 às 16:00

E no entanto até em Cuba têm finalmente reposto feriados religiosos que estiveram banidos durante décadas:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4275175.html

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