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Delito de Opinião

Para MM

Patrícia Reis, 25.04.14

(com 24 horas de atraso)

Era um sítio onde nada existia porque era também onde tudo tinha nascido. Ali a olhar o vulcão, o fim da tarde e o silêncio ancestral das casas brancas, escadas azuis, portadas de madeira por abrir. Ela deixou-se ficar assim por um instante. E lembrou-se de coisas. Pequenas e estranhas coisas que faziam dela o centro a partir dali, da ilha. Primeiro a absoluta convicção de um fim qualquer. Depois os detalhes desse fim: minuciosos pontos avessos à realidade. Ela gostava, já se vê, de metáforas. Não por serem simples de conceber, pelo contrário, mas por serem uma forma simplificadora de tudo o resto. Explicar com clareza é exaustivo. Ela acreditava nisso. Mesmo olhando os barcos que deixavam riscos como trilhos terrestres nas águas duras, a beleza era - e seria sempre - sofrimento. Produzida por essa imensa dor que ela carregava. Ninguém sabia disso, claro. Era uma verdade dela. Talvez fosse a sua imagem. Quem sabe? Não se ajustava a nada daquilo que pertence ao imaginário dos outros, ideias seguras e certeiras sobre anjos e heróis e até, porque não?, sobre Deus.
Ao contrário de todos, ela sabia exactamente o cheiro do bafo do criador, a textura da sua pele, o odor mais cansado só dele, os gestos milenares de incompreensão, de amor e desamor. Sim, desamor. Deus também tinha essa capacidade única de deixar de amar e, depois de tanto tempo, era só disso que ela tinha receio. Não, não era receio, era medo. Um sentimento comum a todos os seres vivos, pensava ela na sua pose de vigilante do vulcão, da ilha e do mar. Ali estava o ralo do mundo. Se alguém poderoso suspeitasse a água desapareceria para sempre, fugindo rápida no ralo do mundo que conduz ao fim do universo. Ela também acreditava nisso: Deus, o ralo, alguém poderoso, no medo e no desamor. Para alguém com as suas responsabilidades era quase cómico prever as desgraças da Humanidade, acreditar na bondade da natureza.
Deus perdoa sempre, o homem por vezes, a natureza nunca, ouvira sentenciar uma vez, longe dali, na voz de um padre inspirado. E assim era.
A natureza é quem manda, é uma criação que tomou conta do criador, que goza na cara dele, que faz e desfaz qualquer sonho. A natureza não é uma forma bondosa de sobreviver e evoluir. Nada pode ser encarado com essa premissa tão fácil. Ela já o sabia. Quando se afastou do muro caído de branco, fixou o chão azul grego e seguiu, rápida, resolvida a procurar alguém para salvar.

Salvar uma pessoa não é o que se espera. A maioria das pessoas não quer ser salva, agarram-se a ideias, depois a coisas e de imediato ao tal medo dominador que tolda até os mais inteligentes. Ela era determinada e, por isso, ocupava grande parte do seu tempo nessa procura: alguém para salvar de uma forma eficaz, para sempre. Não tendo asas de anjo ou capa de super-herói, o seu lugar no mundo estava limitado. Era apenas mais uma, quem sabe se a precisar de salvação. Ninguém a reconhecia de imediato e, com o tempo, havia mesmo quem nunca chegasse a reconhecê-la. Para cada indivíduo ou situação ela era transformável. Se fosse preciso era boa ouvinte; se necessário não se calava; se argumentava, lutava; se lutava, argumentava. Andava contra a maré dos outros. A impor respeito, regras, sabedoria. Não tinha a certeza. Havia pessoas que diziam que o destino estava marcado no ciclo sanguíneo do código genético. De quem vens? Como serás? És o que outros foram? A tua inteligência é apenas a do outro e sem o outro não és nada? Ela não compreendia essa lógica. Ela não decifrar qualquer espécie de exercício lógico, fosse qual fosse. O seu papel era outro. Caminhar ao lado, levitar se fosse caso, mas nunca desvalorizar o potencial vislumbre de um génio descarnado. Um incompreendido. Um sofredor. Todos esses - com ou sem código genético inspirado no caldo cultural certo - eram a inteligência do mundo, mantinham-no a funcionar, contribuíam para a sua rotação. Quanto mais fora do padrão, melhor. A sobrevivência da natureza era apenas isso: encontrar pessoas fora daquilo a que se designava a ordem das coisas, a normalidade, e salvá-las para que tudo começasse de novo. Uma fórmula simples. Ela procurava nos pobres, nos ricos, nos sem abrigos, nas ilhas e nos continentes, pelos desertos e savanas. Ela tinha mais de um milhão de anos. Ela era chave de tudo. E ali, na Grécia, onde tudo começa e acaba, haveria também alguém para salvar, alguém importante. Era a sua missão. Sentiu-o quando chegou à ilha, sempre de barco, sempre na tal água dura e cristalina, uma água com a cor do coração dela, transparente e limpa, profunda e escura por vezes; implacável. Ninguém a imagina. Nem ela se imagina nesse tormento, é apenas uma vida, a dela. E agora parte pelas ruelas brancas de sombra fresca e junta-se à multidão para ir ver o pôr-do-sol em Oia, vai na onda humana que se desloca para a ponta da ilha. Recorda-se de um soneto e diz alto, como fazem os loucos nas grandes cidades, diz alto porque aqui não importa o que achem dela e porque também ninguém a vê, não é?

Vi que, durante a longa travessia
Das águas cor de vinho, num sinal
De passagem divina, o mar ardia
Com brancas labaredas de cristal.

E vi depois, ao pôr do sol, em Ia,
Coberto o céu de líquido metal
Num resplendor de aurora boreal.
E o povo, ateu, ao culto se rendia.

É que, ao ver a beleza do teu rosto,
A natureza se equivoca. E crê
Que um deus voltou. E, perturbada, vem

Fazer raiar auroras no sol-posto
E a água incendiar. Bem sei porquê:
Vejo o teu rosto e engano-me também.

Ela não se enganava. Estava à beira de um outro muro branco e o mar chamava-a, raios de prata, rasgos de luz, movimentos subtis, correntes e marés, vozes de outras margens, sentidos distintos. Quando o sol adormeceu no fim daquele desenho, as pessoas bateram palmas, alguns tímidas, outras esfusiantes. E foi então que, pela sombra, percebeu o seu destino, a alma a salvar. A sombra dizia tudo: o corpo pequeno, encolhido, a cabeça baixa, numa combinação de desistência e de melancolia que tantas vezes se confunde com tristeza. Ela caminhou na direcção da sombra.

Foi bom o pôr-do-sol.

É sempre bom. É o sol.

Diz isso como se não tivesse importância.

Disse? Não dei contei. Talvez tenha dito. Hoje nem estive a ver até ao fim, entristece-me o fim, sabe?

Quer dizer, quando o sol desaparece por fim?

Não, antes, quando fica aquela nesga de luz amarela ou laranja, não se sabe, a esconder-se do outro lado daquela ilha.

Compreendo.

Não é para compreender.

Talvez não seja, mas eu compreendo. Julgo sempre que o sol fica do outro lado, intacto, à espera. Bastaria ir à outra ilha, do outro lado, e lá estava ele...

Pois, pode ser, mas não é assim que sinto.

Como é que sente? Se não se importa que pergunte...

Não me importo. Não a conheço, não sei quem a senhora é. Não faz mal.

O homem não disse como se sentia e ela não insistiu. Ficaram ali. O vento começou a fustigar os toldos dos restaurantes, os vasos com flores, as cortinas das janelas por fechar. Quando percebeu o gesto dele, a mão na pedra do chão junto à anca, ainda sem esforço, ela fez o que fazia melhor: apagou a luz. Oia encheu-se de uma escuridão natural. Todos os candeeiros se apagaram, os restaurantes levariam um momento a repor a luz com geradores ruidosos, velas brancas em frascos coloridos. E, por um segundo, o coração dele parou, ela viu, e ficou, estático, perante o enorme céu, um manto de estrelas sem fim, uma outra perspectiva. Não conseguiu deixar de sorrir. Havia momentos em que valia a pena ser o que era. O corpo do homem abandonou-se à contemplação e ela voltou a perguntar

Como se sente?

Pequeno.

O céu tem esse efeito.

Não. Quer dizer, sim, é verdade que o céu é de uma imensidão sem fim. Eu sinto-me pequeno perante tudo. Estou a chegar a um fim.

Qual fim?

O fim do amor.

É por isso que está aqui sentado?

Lá em cima, na varanda da casa que aluguei, deve estar a minha mulher, a roer as unhas, a ler um livro, a falar ao telefone...

Ou a chorar, à sua espera.

Não. A minha mulher não chora por mim. Já não.

Ela calou-se. Não tinha previsto uma salvação amorosa. Não era o seu forte. O amor desassossegava-a. Fugia dos amorosos, dos perdidos e desiludidos, desses que eram capazes de exibir um coração partido com uma quase precisão médica. O tempo provara-lhe que o amor tinha sempre um rasto de desencantamento. O homem ali ao lado era apenas mais um fio desse rasto. Suspirou. E, depois, com um excesso de generosidade e paciência, preparou-se para cumprir a sua missão.

Então, conte lá. Eu sou uma desconhecida e gosto de histórias de amor.

Esta não é uma história de amor. É sobre o fim do amor, já lhe disse.

Conte lá.

E o homem contou. Conhecera a sua mulher por acaso. Havia até, pensando nisso, uma série de acasos e consequências, que o levaram a ficar junto a ela numa inauguração de uma exposição. Estavam os dois a tentar decifrar uma escultura feita com panelas e tachos. E a mulher disse

É demasiado conceptual.

Tudo o é nos dias que correm.

Tem toda a razão.

E a mulher rira-se de uma forma tão amorosa, delicada, que ele deixou de ver a escultura e concentrou-se nela: baixa, morena, algumas sardas, cabelo preso, calças pretas, camisa branca, mãos de unhas rentes, demasiado rentes, o final dos dedos arredondados adequados à sua condição de vítima. Era uma mulher bonita. Esperta. Viva. Ele soube logo estas coisas todas e outras que a vida confirmou mais tarde. Tomaram vinho tinto. Trocaram telefones e seguiu-se o resto até ao amor infantil do reconhecimento dos corpos, primeiro tímido, depois audaz com a sorte que os deuses reservam a estes casos. Era quase perfeito quando nada o é. Ela ria-se e deitava a cabeça para trás. Ele pegava-lhe na mão assim que chegavam à rua. Ao fim de um ano eram capazes de terminar as frases um do outro ou ainda; muito mais surpreendente para terceiros, dizer exactamente a mesma coisa ao mesmo tempo. Era uma operação matemática. Ele e ela e os dois e depois tudo o resto e o resto valia nada.

Foi assim durante dez anos.

E depois? O que aconteceu?

Acho que foi a vida. Deixámos de falar.

Mas já tentou, não tentou?

Falar? Sim, falar, conversar, discutir, ficar irritado e depois bater com a porta. É a minha especialidade.

Pode sempre dar a volta.

Dar a volta a quê? À Terra?

Não. Ao desamor.

O homem ficou a pensar naquilo. Ela fechou os olhos e suspirou de novo, um suspiro quase imperceptível. As luzes de Oia continuavam por acender, um capricho seu, mas isso agora não importava. Estava decidida a tirar o homem do fundo do nada, devolvê-lo à vida. Para isso era preciso o céu e as estrelas luminosas, a estrela do norte tão forte mesmo ali ao lado.

Já viu a estrela do norte?

Sim. Brilha muito.

É porque mantém o brilho. A questão é sempre essa: manter.

Pois, talvez. Eu não me mantive apaixonado e agora estou aqui preso numa ilha com a minha mulher e não tenho como fugir.

Bom e se caísse uma estrela cadente? Que desejaria?

Voltar atrás.

Onde? Exactamente...

Àquele momento em que o amor se perdeu.

O amor não se perde.

Ah, isso é tão fácil de dizer.

O homem não arredava da sua angústia e ela viu-se obrigada a ceder. Fez cair uma estrela cadente. Tocou no braço do homem para que ele a visse cair, o brilho como um desenho de arquitecto no topo do mundo. O homem levantou-se num repente. Ficou parado a olhar a queda da estrela. Ela levantou-se e disse

Agora já tem a sua oportunidade: volte atrás e mantenha o brilho aceso. Não existe nada de semelhante ao fim do amor. Se quiser, teve sorte, teve-me hoje só para si e eu decidi tomar conta, salvá-lo.

Dito isto, levantou-se devagar e começou a descer as escadas em direcção ao porto. Confundiu-se com as paredes e as casas esculpidas nas rochas, seguiu ligeira, sempre olhando o mar. As luzes de Oia regressaram, o céu voltou a esconder as estrelas e tudo regressou ao burburinho habitual dos turistas e locais. Já não viu o homem, continuou sempre em frente, descendo, até que os pés tocaram na pedra fria do pontão, passaram dois barcos atracados e o corpo dela mergulhou inteiramente no berço do mundo. Naquele dia não haveria mais ninguém a salvar.

(poema de Hélia Correia)

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