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Delito de Opinião

Outros quatro a ler no metro

Pedro Correia, 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

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