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Outras lições nórdicas

por José António Abreu, em 25.07.15

Alexander Stubb, o ministro das Finanças finlandês, esteve em destaque durante a sequência de reuniões do Eurogrupo sobre a questão grega. Interventivo, adepto do Twitter, sem papas na língua a reflectir as reservas dos seus concidadãos (diz-se, ainda assim, ter sido bastante mais comedido nas declarações em inglês do que nas que emitiu em finlandês), merece-me esta nota por algo que pouca atenção despertou em Portugal.

Cai-Göran Alexander Stubb foi deputado ao Parlamento Europeu entre 2004 e 2008, ministro dos negócios estrangeiros entre 2008 e 2011 e ministro dos assuntos europeus e do comércio externo entre 2011 e 2014. Em Junho desse ano, Jyrki Katainen, líder do partido de Stubb e primeiro-ministro, demitiu-se. Stubb assumiu ambos os cargos. Nas eleições de Maio último, o seu partido obteve apenas o segundo lugar no número de votos e o terceiro no número de assentos no Parlamento. Na sequência das negociações que se seguiram para a formação do governo, Stubb transitou do lugar de primeiro-ministro para o de ministro das finanças.

Não estou a ver um político português fazer algo similar. Aceitar este tipo de «despromoção» num país em que até se tornou regra a demissão do líder do principal partido derrotado. Sinais de falta de maturidade democrática, dirão alguns. Certo. Mas não apenas dos políticos e não apenas «democrática»; também «social». O líder derrotado demite-se e nunca faria o que Stubb fez por muito mais do que vaidade pessoal ou crença genuína de ser essa a melhor solução para o país. Fá-lo também porque, de outro modo, perderia o respeito dos portugueses. E isto permite extrapolar para áreas que não a da política. Permite compreender como Passos está certo ao salientar o estigma que, em Portugal, tende a cair sobre os desempregados (sobre quem perde o emprego). Os portugueses gostam de discursos empolgados acerca de respeito e de solidariedade, oferecem empenhadamente um quilo de arroz ou de massa nas campanhas do Banco Alimentar contra a Fome mas, raspada a camada superficial de verniz, estão longe de constituir uma sociedade respeitadora do esforço, do risco pessoal e da consequência mais negativa destes: o ocasional insucesso.

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18 comentários

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De Anónimo a 25.07.2015 às 11:14

Como há casos (lembro-me de Israel) em que um primeiro mInistro mais tarde noutro governo é simplesmente Ministro.
Tenho ideia de que em Portugal não há um único caso de um Mnistro que mais tarde viesse a ser Secretário de Estado. Ou há?
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De José António Abreu a 25.07.2015 às 13:01

Não sei. Mas duvido. Somos muito ciosos do estatuto atingido. E consideramos uma falha desprestigiante alguém "rebaixar-se".
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De Anónimo a 25.07.2015 às 12:17

O actual Ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande, Laurent Fabius, já foi Primeiro Ministro do seu país.
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De Helena Sacadura Cabral a 25.07.2015 às 12:19

Mais uma vez o sapo resolveu classificar-me de Anónimo. O comentário anterir é da Helena Sacadura Cabral
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De José António Abreu a 25.07.2015 às 13:04

Helena: o seu estilo é inimitável mas confesso que, sem a adenda, a este comentário eu não conseguiria identificar o autor. :)

E obrigado por apontar mais um exemplo, que nem sequer vem de um país nórdico.
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De isa a 25.07.2015 às 18:10

E também há aquele caso de um Primeiro Ministro ser Presidente, de Presidente passar a Primeiro Ministro e de Primeiro Ministro a Presidente... e para não haver confusões estou a falar de Putin porque, por cá, suponho que qualquer Primeiro Ministro não recusaria o lugar de Presidente, aliás, deve ser o sonho de qualquer político, até do Presidente da Câmara que, antes de acabar o mandato, manda os votos dos eleitores para o lixo, arranja um substituto não eleito e salta logo para onde cheira à possibilidade de vir a ser Primeiro Ministro e, finalmente, até há os que nunca estiveram na política e apontam logo ao alvo maior... uma espécie de "paraquedistas" à Presidência
Politiquices à parte, é muito mais difícil encontrar um canalizador competente do que políticos incompetentes ao virar de cada esquina LOL
É a única razão para se reduzir Freguesias e o número de Câmaras ser intocável... o que fazer a tanta gente... que não sabe fazer mais nada
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De José António Abreu a 26.07.2015 às 19:11

No caso de Putin, o homem faz o cargo. Quanto aos que apontam alto logo de início, é bom ter ambição mas talvez também fosse conveniente ter sentido do ridículo (é como aqueles novos escritores pensam que, ao primeiro livro, parecem achar ter atingido o nível de Tolstoi ou de Hemingway). De qualquer modo e como diz, a política é um bom ramo para quem não sabe fazer nada de concreto. Como arranjar canalizações.
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De Anónimo a 25.07.2015 às 20:01

Helena:
E o antigo 1.º ministro Alain Juppé foi depois MNE em França, 1995 a 1997.
E Maire de Bordeaux, 1995 a 2004.
E ministro de Estado, da Ecologia e Desenvolvimento, 2007 a 2007.
E ministro da Defesa, 2010 a 2010.
E MNE, 2011 a 2012.
E Giscard D'Estaing, depois de PR, foi Conselheiro Regional e Deputado Europeu.

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De Anónimo a 25.07.2015 às 22:20

Mário Soares depois de Presidente foi deputado europeu.
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De José António Abreu a 26.07.2015 às 19:14

Sim, mas esse era um cargo fora do país e da hierarquia normal. Ainda assim, apontou a presidente do Parlamento e ficou irritado - perdendo mesmo o verniz - quando não conseguiu a eleição.
Mas Soares até foi dos últimos (se não o último) líder de um dos dois principais partidos a não se demitir após uma derrota eleitoral.
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De jo a 25.07.2015 às 15:11

É a política entendida como o comércio de sabonetes.

Se eu vendo sabonetes maximizo o lucro fazendo o tipo de sabonete que as pessoas pretendem. Eu acho que o de lavanda é melhor, mas se o povo prefere rosas, não há problema, fabrica-se de rosas. O que é preciso é que alguém compre.

O político sabonete tem uma ideia de quais são as políticas que são melhores para o país, se as pessoas não concordarem com ele, não tenta fazer valer o seu ponto de vista, muda de ideias. O que é preciso é que alguém pague, que a vida está difícil.
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De José António Abreu a 26.07.2015 às 19:15

O político Marxista, portanto (de Groucho, não de Karl).
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De cristof a 25.07.2015 às 16:22

Para lá das narrativas políticas , sem dúvida que o hábito de dar prioridade ao mérito, a preparação para o que se quer fazer(antes do fazer claro) daria mais consistência á sociedade portuguesa . Como vemos até nos eleitores e nos partidos, falta por vezes uma preparação sólida e fundamentada para o que andam a defender; no caso dos novos candidatos a partidos, entristece ver tanta demagogia, cópia do que fazem os maiores e tiros nos pés que anulam qualquer hipótese de se tornarem úties.Os cidadãos só fazem bem, em confrontar todas as propostas que escutam e não emprenharem pelos ouvidos. Deixemos de facciosismos e analisemos os dados com frieza.
Ex: quantos empregos é que os partidos, sindicatos, governo,analistas e comentadores criaram? então porque aceitam que todos falem muito em criação de empregos e não lhes chamem de demagogos? ou no mínimo narradores de contos de encantar?
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De José António Abreu a 26.07.2015 às 19:20

Aparentemente os eleitores e, mais ainda, os comentadores exigem-no. Quando os políticos se 'limitam' ao concreto, prometem pouco e alertam para a necessidade de prudência são acusados de ter falta de visão e de um "projecto para o futuro". E - dizem os tais comentadores, com alguma justificação histórica por trás - perdem as eleições.
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De lucklucky a 25.07.2015 às 16:22

O desejo do Português é atingir a Aristocracia.
Ser burguês implica provar sempre que se é bom - o tal odiado mercado livre - e tal é indigno.

Aristocracia onde só precisam de provar o valem uma vez para entrar no clube.

E a maneira mais rápida nos dias de hoje para se tornar Aristocrata é o Socialismo. É o Socialismo que dá os privilégios pela Lei, como no passado fazia o Rei.

O país está todo construido sobre esta lógica: veja-se a Função Publica onde não se pode ser despedido, as reformas vitalícias de deputados por uns anos de trabalho, a lógica de tirar um curso onde não interessa se se aprende alguma coisa útil para os outros. O que é preciso é o canudo.

O Português é capitalista com as suas coisas, socialista com as coisas dos outros, anti-social vota socialista de esquerda ou mesmo de direita para mais facilmente ter privilégios e assim atingir o grau de Aristocrata assegurado pela lei e pago pelos outros. Só possível com a violência do Estado Socialista.
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De José António Abreu a 26.07.2015 às 19:31

Julgo ser inexistente o Estado que não exerce violência sobre os cidadãos. Por acção ou omissão (caso em que permite que ela seja exercida por outros), todos o fazem. Quanto ao resto, totalmente de acordo. Por muito que se fale de solidariedade, de competência e de altruísmo, o objectivo real é atingir a aristrocacia da forma mais simples e menos trabalhosa que for possível, nunca mais voltar atrás e achar que se conseguiu tudo por mérito (que os outros não possuem).
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De Luís Lavoura a 27.07.2015 às 09:44

o ocasional insucesso

O insucesso está longe de ser apenas ocasional. É mais que sabido que grande parte das jovens empresas acaba por falir ou encerrar passados poucos meses ou anos. É claro que a história se foca sempre nas empresas vencedoras, nas que tiveram sucesso, sem reparar que por trás delas está um lote, frequentemente muito maior, de tentativas que falharam.

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