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Outra objectividade

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.08.18

"Tenho a noção de que muito do que aqui ficou dito contraria hipóteses populares entre boa parte da opinião pública, mas que são contraditadas por análises objectivas dos dados relevantes", escreveu o Prof. José Miguel Cardoso Pereira num texto para o qual me chamaram a atenção e que me pareceu escorreito e objectivo face ao lixo que me tem chegado sobre os incêndios que têm continuado a devastar Portugal.

Eu admito que sim, que exista um desfasamento entre aquilo que é a crença e a opinião popular e a análise da realidade apoiada em dados científicos. Sei que estou longe e, talvez por essa razão, não me chega muita da informação a que teria acesso se vivesse no rectângulo. Apesar disso continuo a ver as notícias e reportagens que me chegam, revoltado e impotente por nada poder fazer.

As imagens das tragédias mais recentes, na qual abarcaria toda a última década, e sendo certo que o ano passado o número de vidas perdidas e as circunstâncias em que ocorreram ultrapassaram todos os limites, têm-me feito pensar no assunto, havendo um ponto que me parece inegável: não há uma única vez que não apareçam, não uma mas várias vozes a criticarem o modo como se combatem os fogos, as estratégias de abordagem, a utilização de alguns meios aéreos e as decisões de evacuar ou não evacuar, de encerrar estradas ou de mantê-las abertas. Como se o combate a esse pesadelo, de cada vez que surge, fosse uma espécie de jogo de futebol em que todos são comentadores de bancada enquanto se perdem vidas e bens.

Não percebo nada de incêndios ou de florestas. Nada sei sobre as melhores técnicas para se combaterem os fogos quando deflagram. Guio-me apenas pelo senso comum e pelo que vou lendo e ouvindo por parte de quem sabe (julgo eu). Não posso, por isso mesmo, deixar de me sentir confuso, como certamente qualquer cidadão ficará, com a facilidade com que alguns políticos abordam o assunto, tudo servindo como pretexto para obtenção de dividendos numa matéria que a todos diz respeito e que pelas suas consequências deixa marcas indeléveis nas vidas de quem impotente vive os braseiros por dentro.

Não sou, evidentemente, cego ao que se passa noutros lados. Este ano os incêndios chegaram ao norte da Europa, não se circunscrevendo à Europa do Sul (Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia). Na Austrália repetem-se todos os anos com consequências cada vez mais devastadoras, tanto para os seres humanos como para a fauna e a flora. O mesmo acontece nos Estados Unidos, onde ainda este Verão arderam, e continuam a arder, milhares de hectares de floresta, uma vez mais com a perda de vidas humanas e de imensas habitações. O que se discute não é muito diferente do que em Portugal também se esgrime. E até os Estados Unidos precisam da ajuda de terceiros países para combaterem os fogos no seu território.

Recuso-me por isso a acreditar que incompetentes sejam só os nossos, os políticos, os técnicos, a nossa protecção civil, os bombeiros voluntários e todos os outros. As imagens que há algumas semanas ando a ver de incêndios por esse mundo fora, como as que vi em Março, não são muito diferentes das de Monchique ou das que todos nos recordamos do ano passado.

Parece-me, por isso, uma excelente ideia que seja criada uma comissão permanente destinada a acompanhar esta desgraça que ciclicamente nos assola, que seja capaz de reunir informação, gente conhecedora e interessada sobre o assunto, que consiga fazer uma monitorização do que se vai passando e acontecendo dentro e fora de portas. Todos os meios que conseguirmos mobilizar para combater esta fonte de dor e sofrimento serão poucos. O que só será possível quando se  acabar com alguns protagonismos e se tratar estes assuntos com outra objectividade. Com outra racionalidade, com outra seriedade. 


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