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Alguma coisa deve recear o BCE para no início deste mês ter colocado no terreno toda a artilharia pesada. O objectivo das medidas (novo programa de injecção monetária no sector bancário e compra de activos titularizados, incluindo créditos ao sector imobiliário) é combater uma situação pré-deflacionária, em que a inflação subjacente para o conjunto da zona euro é de 0,9%, para situá-la em torno dos 2%. Mas confundir a inflação resultante de um desajustamento temporal dos factores de produção quando a economia cresce impulsionada por uma procura robusta, com a taumaturgia de que aumentando a massa monetária e desencadeando um processo inflacionário conseguiríamos espicaçar a procura, isso, lamento, é absurdo.

 

Mas o dislate é apenas aparente, porque as medidas monetaristas adoptadas em 4 de Setembro são apenas o álibi que permite a Draghi enviar a sua verdadeira mensagem: com estas medidas esgotámos todos os cartuchos de que dispomos e que são permitidos pelos estatutos do BCE para estimular a procura pela via monetária; a partir de agora toca aos políticos empreender as reformas necessárias para relançar a economia. Sem reformas estruturais profundas e corajosas as políticas monetárias por si só não nos tirarão do marasmo generalizado em que a UE se encontra. É necessária uma política concertada de reformas a nível europeu, com metas e mecanismos claros de implementação, para superar a presente situação de empobrecimento progressivo. Em Portugal fez-se alguma coisa, mas muito pouco. Qualquer tentativa de reforma esbarra na constituição ou provoca o levantamento dos "defensores" do Estado Social, quando é precisamente o imobilismo face às mudanças na sociedade e no mundo que o faz perigar.

 

Só um programa de reformas europeu poderá romper os escolhos de políticas nacionais de vistas curtas e populistas, mais interessadas em cortejar votantes que em sanear estruturas e mecanismos obsoletos. Um novo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Uma concertação indispensável para cimentar solidamente uma prosperidade que nos permita continuar a pagar o Estado Social de que beneficiamos, que constitui um dos grandes feitos da Europa e é talvez, a par do humanismo, o nosso maior património.

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19 comentários

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De Luís Lavoura a 22.09.2014 às 13:33

a presente situação de empobrecimento progressivo

Bem, eu não vejo empobrecimento nenhum (na média da sociedade). Se o crescimento económico é zero e o crescimento da população também é zero, então não há empobrecimento nenhum - há estabilidade dos rendimentos (médios).
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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 13:46

Não está a contar com a inflação, sobretudo a importada (agora que o caminho do euro parece ser a desvalorização face às demais moedas).
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De l.rodrigues a 22.09.2014 às 14:19

O problema é que a (média) não traduz a assimetria da distribuição dos rendimentos e dos sacrifícios.
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De l.rodrigues a 22.09.2014 às 14:21

" confundir a inflação resultante de um desajustamento temporal dos factores de produção quando a economia cresce impulsionada por uma procura robusta, com a taumaturgia de que aumentando a massa monetária e desencadeando um processo inflacionário conseguiríamos espicaçar a procura, isso, lamento, é absurdo"

Tirando o preconceito, em que se baseia para dizer isto?
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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 14:36

Basta analisar o comportamento do consumo e da inflação americanos nos últimos anos.
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De l.rodrigues a 22.09.2014 às 16:16

Não existe processo inflacionário americano.

http://nyti.ms/1pHbIsw

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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 17:01

Exacto. Eu tenho razão.
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De jo a 22.09.2014 às 16:18

Não percebo como é que se aumenta a procura desviando o dinheiro dos salários para o capital.
Espera-se que na posse de mais dinheiro o capital invista para quê se o mercado desapareceu?
É falso que em Portugal não se tenha avançado o suficiente no corte de despesas e diminuição dos salários. Superaram-se todos os objetivos propostos pela troika. O que não se verificou foi o aumento do investimento que se deveria ter verificado.
A troika e o governo falharam todos os objetivos de controlo do défice, da dívida e de atração de investimento estrangeiro.
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De l.rodrigues a 22.09.2014 às 17:41

Tudo variações da teoria do trickle-down/supply side. Ou...

"the horse-and-sparrow theory: If you feed the horse enough oats, some will pass through to the road for the sparrows"
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 22.09.2014 às 18:51

A gente fica de boca aberta a ler tanta ciência da economia. Gosto especialmente da parte que fala da "assimetria da distribuição dos rendimentos e dos sacrificios", e da "falta de investimento". Acharão estes senhores que o dinheiro cai do céu?
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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 20:20

Cai do banco central aos trambolhões. Claro que cada vez que o BCE cria moeda desvaloriza os salários e as poupanças de toda a gente, mas isso não convém dizer.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 22.09.2014 às 21:24

Entretanto...

http://economico.sapo.pt/noticias/draghi-pede-reformas-estruturais-corajosas-aos-governos_201994.html

Já terão perguntado ao Costa um comentário sobre isto? Ou sobre isto?:

http://economico.sapo.pt/noticias/valls-diz-perante-merkel-perceber-duvidas-sobre-a-franca_201998.html
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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 22:20

Acho que hoje está à janela da câmara à espera que a cheia passe
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De l.rodrigues a 23.09.2014 às 14:44

O dinheiro não cai do céu, sobe para o Olimpo.
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De Vento a 22.09.2014 às 21:39

Na realidade, parece-me que se essa política tivesse sido adoptada há 4/5 anos ela teria boas repercussões na economia. Não acredito que seja esse o caminho actual dos cidadãos, escaldados que estão.
E também por isto não acredito que o sector económico se estimule. Porquê? porque o desemprego, a elevada tributação e a desaceleração económica na Ásia e América Latina ditarão a ineficiência destes estímulos.

A Alemanha - e os bons alunos - só agora verificará o erro de suas políticas de empobrecimento para tentar salvar o seu sistema financeiro.

Tudo passará por um write off substancial da dívida e dos défices.
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De Rui Herbon a 22.09.2014 às 22:19

Um dos problemas deste tipo de políticas é que entre o banco central e a economia estão os bancos comerciais e, em última instância, são eles quem decide para onde o dinheiro vai. E referi ali acima o caso americano exactamente por isso, porque apesar da enorme criação de moeda pela Reserva Federal, a inflação continua baixa, ou seja, pouco desse dinheiro chegou aos consumidores, isto é, às famílias, sendo a maior parte canalizada para investimentos financeiros. Enquanto não se reformar o sistema bancário a sério, este tipo de medidas serve apenas para desvalorizar salários e poupanças e fomentar a próxima bolha financeira e subsequente crise.
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De Vento a 22.09.2014 às 22:34

Sim, Rui. A política do quantitative easing ou se faz a nível global, isto é, na Europa, América, Japão, com redução de taxas para que outros países externos também possam beneficiar dessa onda, beneficiando também esses mesmos países com mais liquidez, ou feito às mijinhas, isoladamente, acaba por revelar-se mais um aborto.
Volto a afirmar: ou há write off ou nada feito.
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De Diogo Moreira a 23.09.2014 às 01:31

Confesso que este texto me deixa muito confuso... Talvez seja esse o objectivo: confundir!

Primeiro, o Rui Herbon faz uma apologia do absurdo da condução da Política Monetária Expansionista levada a cabo pelo BCE, para no parágrafo seguinte dizer que foi uma jogada de mestre de Mario Draghi - para obrigar à acção dos Governos dos países da Zona Euro.

É importante parar aqui. Os Governos da Zona Euro, liderados pela chanceler alemã, entendem que o problema que afecta a referida Zona é a existência de défices excessivos das contas públicas. A receita seguida é a persecução de mais austeridade, com o intuito de agradar aos mercados para conseguir a sua 'confiança', bem como o castigo dos prevaricadores dos países do Sul.

Seguindo o texto do Rui, subitamente, os Governos da Zona Euro estão entre a espada e a parede para aumentar a Procura - dado que o BCE já não pode contribuir - e a solução tem o nome de "reformas estruturais". Aqui temos 3 problemas: 1. os Governos não admitem que o principal problema da Zona Euro é a falta de Procura dos seus bens e serviços; 2. o BCE não consegue assustar ninguém (especialmente com os mil e um cuidados que colocam na linguagem utilizada aquando na divulgação das suas informações, o que requer 3 ou 4 leituras atentas para perceber bem afinal o que eles estão a dizer); 3. "reformas estruturais" - que têm igualmente que ser "profundas" e "corajosas".

"É necessária uma política concertada de reformas a nível europeu, com metas e mecanismos claros de implementação, para superar a presente situação de empobrecimento progressivo. Em Portugal fez-se alguma coisa, mas muito pouco."
O Primeiro-Ministro português afirmou que "só vamos sair da crise empobrecendo", pelo que não dá para perceber o sentido lógico deste parágrafo.
Cf: http://expresso.sapo.pt/passos-coelho-so-vamos-sair-da-crise-empobrecendo-video=f683176

"Qualquer tentativa de reforma esbarra na constituição ou provoca o levantamento dos "defensores" do Estado Social, quando é precisamente o imobilismo face às mudanças na sociedade e no mundo que o faz perigar."
E aqui chegamos às "reformas estruturais" que são necessárias segundo o autor: são aquelas que são contrárias à Lei Portuguesa ou que modifiquem o contrato social que o povo português fez ao longo de longas décadas - aquela 'cena' a que dão o nome de "coesão social" e, por causa dela, a 'malta' não anda por aí a roubar tudo o que mexa.

No final, o autor ainda consegue fazer a apologia do Estado Social, "um dos grandes feitos da Europa e é talvez, a par do humanismo, o nosso maior património". Porém, as 'sacanas' das "reformas" pretendem esburacar esse mesmo Estado Social - e o famigerado Tribunal Constitucional que teima em não deixar passar essas "reformas"... Solução? "Só um programa de reformas europeu".

No final de contas, este texto foi só para dizer que Portugal está no bom caminho e que se fizermos "reformas estruturais" tudo vai melhorar, como que se fosse magia (mesmo que se vá contra a Lei e o Estado Social) - especialmente se essas "reformas" vieram da Europa, para as temos que 'gramar' à força.
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De Rui Herbon a 23.09.2014 às 12:11

A confusão e a falta de entendimento devem-se certamente à salsicha educativa. Hélas.

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