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Os coletes amarelos em Bruxelas

por jpt, em 08.12.18

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Ainda estou a por o gorro e as luvas e vejo-os passar, a estes “tiagos amarelos” de cá, tão poucos que os julgo a cauda da manifestação, mas logo me afianço que não, pois mais à frente vão uns poucos mais, tudo apressado com ar de quem já está na hora do almoço. Mesmo assim desço e chego-me à praceta – para um lisboeta Schuman é até risível –, feito mirone. Encontro-a vedada, só numa esquina dela saem alguns transeuntes, numa pequena passagem que apenas habitantes podem cruzar, ainda que por mim passem mais de uma vintena de filipinos (ou serão indonésios?, percebo que, estuporadamente, não os distingo de imediato), vindos sem o olhar embasbacado de turista ou os necessários apetrechos dessa condição. Serão talvez um distraído grupo de culto ou, se calhar, só comensal. Deste lado do arame, literal, está um grupo meio desasado, ouço o espanhol muito andino por aqui usual, três casais de velhotes gringos, gordões não-obesos, falam alto, como lhes é geneticamente necessário, e estão a adorar esta Europa que lhes coube, e mesmo à minha frente um jovem casal português, indeciso, a ela percebo-a, no seu casaco justo, muito bem torneada, muito bem mesmo, raiosparta que é raro ver alguém assim, e ele tem postura funcionária, cabelo ralo a escassear-se, e tudo nele me lembra um qualquer de Tennessee Williams. No pequeno impasse sorrio ao meu óbvio (e profético) estereótipo. E dada a gaguez muda na minha dianteira, avanço à polícia e pergunto como aceder ao metro ao que junto, feito sonso, um “o que se passa?”. Ela dá-me um sorriso lindo, resplandecente, flamengo di-lo-ei, que também é a única coisa que desvenda, sob aquele capacete e a armadura (parecida com aquelas com as quais os másculos oficiais da GNR espancam os recrutas), explica como contornar até a próxima estação e pede enfáticas desculpas pelo incómodo, devido a “uma manifestação”. Todos damos meia-volta e seguimos, os patrícios trintinhas fazendo por não notar, nem com aquele laivo de aceno ou recanto de sorriso, ser eu, barbudo encanecido sob gorro e ganga, um português, isso que o sotaque grita, e de ter feito para os esclarecer, talvez por coincidência, talvez por simpatia, vão lá eles saber ... Sigo atrás do pelotão, os do espanhol são tipo ciclistas da Colômbia, já estão quase em Ambiorix, os avulsos caminham em ritmo de sábado, os gringos bamboleiam palrando, o ainda casal (desculpem-me mas tenho que o dizer …) vai lento, mesmo à minha frente, nem sequer lhes vi as caras, mas repito-me o mudo apreço pela patrícia, ouvem-se sirenes ao longe, e zumbidos de helicópteros, e têm soado estrondos, daqueles que eu diria tiros se estivesse em Moçambique. Hesito, devo ir atrás destes até ao metro?, percorrer a cidade a ver a agitação, assim conhecer um pouco desta Bélgica, mais Valónia do que a outra mas ainda assim, fingir-me o ainda andarilho interessado, com prosápias de intelectual que fui, e até disso fazer um postal de blog, daqueles aos laiques e até comentários? Mas lembro-me que daqui a bocado o Chelsea joga com o City, acho que é esse, e inflicto, na via de casa vou a uma loja, onde nunca entrara, para comprar filtros, “bonjour” e é isso que quero, sff, e o lojista, indiano, responde-me “bom dia”, e eu surpreso, a perguntar-lhe no meu atrapalhado francês como me percebera, e depois até se é de Goa, e ele segue, em português também trapalhão que não, mas “na minha loja anterior – e diz um bairro que eu não fixo – tinha muitos clientes portugueses”, “aprendi a falar um pouco” (e aprendeu) e, saltando para o francês, “quando o senhor entrou vi logo que o senhor é português”. Rio-me, agradado com a surpresa, e nisto de haver qualquer coisa de óbvio. E mais me rio, já caminhando para casa, com o tão óbvio “bon chic bon genre” do casalinho – não sei se já disse, a rapariga era mesmo interessante, o rapaz, enfim … O mesmo bon chic bon genre dos intelectuais lisboetas, agora em reboliço entusiástico com estes “tiagos”, 1000 aqui, 8000 ali em Paris, ouvirei, por causa deles a clamarem o fim da República, da Europa, etc. Em elogios de “pastoral” à justeza do “povo” “rural”, como há anos elogiaram os “tiagos berberes” e “árabes” que pilhavam. Pois estes finos adoram o “povo” – desde que não seja o que aparece no “Preço Certo” da RTP ou nas tralhas das outras estações. E que não lhes perturbe o sábado bruxelense.  Como dirá o lojista vizinho “vê-se logo que são portugueses”.

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7 comentários

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De Pedro Vorph a 08.12.2018 às 19:28

Belo texto, Jpt. Há nele laivos de Lobo Antunes....ou de James Joyce....o jpt, assim, como um Leopold Bloom, em odisseia ....gosto da escrita escorreita, em fluxo...
Tudo de bom.
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De jpt a 08.12.2018 às 19:37

V. tem toda a razão no que diz, conhece bem do que fala, aqui na rua a que aludo há um bar chamado "James Joyce",
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De Sarin a 08.12.2018 às 20:22

Não notaste o, vá, preconceitozinho? (Eu até escreveria em itálico, se no DO tivessem os comentários em Rich Text...)
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De Tiro ao Alvo a 09.12.2018 às 09:11

“Vê-se logo que são portugueses”, mas, carago, também se vê bem que quem assim fala não é do Porto, nem aprendeu a falar português no Norte, pois, se assim fosse, então diria muito claramente: "bê-se logo que são portugueses"...
Isto apenas para lhe dizer que gostei deste seu post e para lhe desejar que tire bom probeito da sua estadia em Bruxelas.
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De jpt a 10.12.2018 às 08:33

Obrigado pela simpatia
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De Anónimo a 10.12.2018 às 18:34

Belo fraseado… muito belo, mesmo…
Até a portuguesita sai bem revelada - (muito bem torneada, diga-se!).
Mas, ó patrício, não venha à terra tão cedo. Deixe assentar o pó. Por cá anda uma tourada dos diabos. Uma deputada, sofrendo de ócio, pinta as unhas, outros discutem animadamente as habituais banalidades - de quando em vez inventam leis -, e há uns tantos que apenas parecem estar ausentes, mas não - são os transparentes.
Volte daqui a uns tempos: quando lhe der forte a saudade.
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De jpt a 10.12.2018 às 21:43

Obrigado pelo conselho. Hei-de ir, um dia

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