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Delito de Opinião

Os puzzles de Christopher Nolan

João Campos, 13.09.20

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Uma das coisas de que mais senti falta durante os longos meses de confinamento foi de ir ao cinema. Bem sei que já abriram há alguns meses, mas até aqui ainda não tinha estreado um filme que me despertasse interesse suficiente para lá voltar. Essa estreia chegou finalmente no final de Agosto, com Tenet, de Christopher Nolan.

A minha relação com a filmografia de Nolan é um tanto ou quanto ambivalente. Não vi (ainda) alguns dos seus êxitos originais, como Memento (2000) ou The Prestige (2006), tendo começado a acompanhá-lo a partir de The Dark Knight (2008), o segundo filme da trilogia de Batman que realizou com a DC Comics (e que inclui o excelente Batman Begins, de 2005, e o terrível The Dark Knight Rises, de 2012). A partir daí fui acompanhando as suas incursões pela ficção científica, com o desapontante Inception (2010) e o excelente, ainda que imperfeito, Interstellar (2014). Reconheço a Nolan mérito suficiente para ficar curioso sempre que regressa ao meu género preferido, e Tenet não me desiludiu. Aliás, vê-lo acabou por se revelar numa experiência surpeendente, não tanto pelo filme em si, mas por uma breve epifania que me proporcionou mais ou menos a meio dos seus cento e cinquenta minutos.

 

Um dos aspectos que me deixou sempre um pouco de pé atrás em Inception - escrevi na altura sobre isso, numa crítica bem mais positiva do que me lembrava - foi a sua absoluta falta de imaginação. Ter visto o prodigioso Paprika (2006) Satoshi Kon uns dias antes da estreia do filme de Nolan não ajudou, claro -  se queremos contar uma história que se passa dentro de sonhos, a animação é a todos os níveis superior à filmagem convencional, e Kon era um verdadeiro mestre. Também não ajudou ter ficado com a sensação de que toda a trama de Inception era secundária - realizador e argumentistas estavam mais focados na matrioska de sonhos que constroem com virtuosismo técnico mas sem grande rasgo imaginativo, e a história que constroem e as personagens que colocam na trama servem apenas de enquadramento, de cenário, a essa espécie de prova de conceito. Já o revi várias vezes na televisão, e a desilusão aumenta um pouco a cada vez.

Nesse sentido, Tenet não é muito diferente. Acima de tudo, Nolan está interessado em explorar as implicações da sua premissa: são encontrados objectos com "entropia invertida", e que por isso recuam no tempo em relação à realidade como a conhecemos; existe uma vasta e ininteligível conspiração temporal que os heróis do filme terão de tentar travar, numa trama reminiscente das histórias de espiões da Guerra Fria, mas desta vez com o Presente e o Futuro em oposição. E isto alimenta o espectáculo: sequências de combate bem coreografadas, uma montagem a todos os níveis espantosa com balas a recuar dos seus alvos para as armas (quase a fazer lembrar um The Matrix que trocou a câmara lenta pela câmara invertida), um enredo propositadamente difícil de seguir que vai deixando inúmeras pontas soltas, unindo-as numa longa e frenética sequência final que dará aos espectadores mais intrigados vontade de rever o filme para ir ligando os pontos. E, claro um macguffin que não é bem o que parece (isto não é um spoiler - neste tipo de filmes nada é o que parece, e o ponto é mesmo esse).

Mas, como disse no segundo parágrafo, Tenet não me aborreceu - antes me proporcionou uma revelação algo óbvia, tanto sobre o filme que via como sobre o filme que vi há dez anos. De certa forma, a ficção científica de Christopher Nolan é uma espécie de adaptação muito livre e muito informal dos contos de Philip K. Dick. A meio do filme veio-me à memória o conto Paycheck, de 1953 (já adaptado ao cinema num filme miserável com Ben Affleck e Uma Thurman - se os leitores ainda não viram, recomendo que assim continuem), no qual Dick utiliza um conjunto de objectos sem relação aparente entre si para montar um puzzle narrativo, com as peças a encaixarem-se em múltiplas reviravoltas. Regra geral, na ficção curta de Philip K. Dick (e mesmo na longa) não encontramos um grande interesse nas personagens - o foco reside quase exclusivamente na ideia, no conceito intricado que desafia alguma parte da realidade tal como a conhecemos. Isso vale por si só; tudo o resto é cenário, é contexto. Serve para orientar, para ancorar a ideia num momento muito específico, para lhe dar volume e textura, mas não mais do que isso.

Tanto Inception como Tenet são apenas e só isso: ideias, conceitos que Nolan quer exprimir utilizando a linguagem do cinema para dar ao público não um filme mas um puzzle audiovisual. As personagens, por exemplo, são meros adereços, não tendo qualquer outro propósito em si. Em Inception ainda lhes tentou dar (e falhou) algum passado, alguma existência, mas em Tenet nem se esforçou: por exemplo, nunca conhecemos o nome do protagonista interpretado por John Daniel Washington, que a dada altura passa a identificar-se precisamente como... Protagonista (consigo imaginar o momento da escrita do guião em que Nolan terá pensado "que se foda"). Sabemos os nomes das outras personagens, interpretadas por Robert Pattinson, Elizabeth Debicki, Dimple Kapadia, Michael Caine e Kenneth Brannagh, mas, na prática, saber ou não saber os seus nomes vai dar ao mesmo, considerando o que o filme revela sobre cada uma delas. Não são ditos os contornos exactos da conspiração temporal - vão sendo dadas algumas pistas, mas tudo isso é tão inconsequente que pouca utilidade tem. Tudo o que interessa é o puzzle - é a missão impossível para recuperar o macguffin, e é ver as várias peças a rodarem no grande ecrã, encaixando-se entre si, numa espécie de Tetris com espingardas automáticas. Ou, se recuarmos a Inception, ao sonho dentro do sonho dentro do sonho (uma vez mais, com espingardas automáticas).

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Em última análise, será talvez essa a diferença fundamental entre Inception e Tenet, e Interstellar - existe neste uma humanidade que simplesmente não existe naqueles. Inception diz-nos que Cobb aceita aquela missão para tentar recuperar os seus dois filhos, mas o espectador nunca vê as crianças, não sabe que pai era Cobb, ou que tipo de relação tinham. Tenet também não nos dá muitas pistas sobre quem é o Protagonista - de onde vem, o que quer, que tipo de pessoa é para além dos traços muito gerais com que é caracterizado (há o possível romance, mas também não sabemos muito sobre Kat; e, sim, existe uma revelação final, mas isso não mais do que outra peça do puzzle - no que ao Protagonista diz respeito, continuamos no escuro). Pelo contrário, Interstellar mostra muito bem qual a relação entre Cooper e Murphy, ou entre Amelia e o Professor Brand - e por isso sabemos muito bem o que está em causa quando percebemos, com as personagens, as consequências do desfasamento temporal (haverá outras críticas que possam ser feitas ao filme - é possível que Nolan, ao tornar as suas personagens mais humanas, tenha escorregado um pouco para o melodrama, e a lógica do final será sem dúvida discutível, mas ao menos as personagens de Matthew McConaughey e Anne Hathaway são tridimensionais, e os actores conseguem fazer alguma coisa com elas). Ali existem de facto consequências - elas são palpáveis, moldam as personagens, forçam-nas a ter de lidar com elas.

Ao contrário do que poderá talvez parecer, isto não é uma crítica algo áspera a Tenet. Pelo contrário: a partir do momento em que o filme me mostrou que devia ser considerado nos seus próprios termos, consegui apreciá-lo muito bem por aquilo que é. E Tenet é um filme de acção espectacular e electrizante, com um enredo ridículo e, convenhamos, irrelevante. Temos balas a recuar no tempo, temos perseguições e tiroteios a decorrer a partir de pontos de vista temporalmente desfasados (a montagem é soberba, e será premiada), e temos um puzzle para ir montando ao longo de duas horas e meia, unindo os pontos para ver enfim aquilo que Nolan nos quer mostrar - e para perceber que aquilo que ele nos queria mostrar era apenas aquilo que mostrou até chegarmos ali. Era o caminho, e não o destino. Não existe em Tenet grande filosofia sobre viagens no tempo (há muito cinema e muita literatura sobre o tema; posso dar sugestões, até mesmo sobre algo tão específico como objectos a recuar no tempo), como não existe grande reflexão sobre a natureza da consequência a partir do momento em que o nexo de causalidade é invertido. Nada. Christopher Nolan, uma vez mais, não está a especular sobre o que quer que seja, nem está a tentar passar qualquer mensagem, não pretende filosofar.  Está só a mostrar-nos um puzzle, e a resolvê-lo diante os nossos olhos. E isso é divertidíssimo.

(Saí da sala com curiosidade de rever Inception com novos olhos. Julgo que continuará a desiludir-me, até porque tenho um termo de comparação. Mas talvez o consiga apreciar um pouco mais - não pelo filme assombroso, complexo e repleto de grandes desempenhos que poderia ter sido, mas pelo filme engenhoso, ainda que vazio, que foi.)

 

 

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