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Os palhaços macabros

por Luís Naves, em 29.10.14

KryptKiddiesClowns.jpg

 

O fenómeno está a alastrar em cidades francesas, mas parece ter origem na Califórnia, também numa pequena cidade. Pessoas vestidas de palhaços surgem em poses suficientemente ambíguas para poderem ser consideradas arrepiantes. No fenómeno francês, apareceram palhaços nas ruas, armados e em atitudes ameaçadoras, naquilo que se poderia definir como brincadeira de mau-gosto, mas logo surgiram grupos de autodefesa anti-palhaços, também armados. Isto foi ao ponto de Lille não ter dado autorização para um desfile chamado zombie walk, no âmbito da festa americana conhecida por Halloween.

A tudo isto se pode juntar uma história de motins e histeria colectiva, também em França, durante a exibição de um filme de terror sobre uma boneca maléfica. As pessoas têm muita imaginação, mas há aqui mais qualquer coisa, talvez isto seja um sinal dos medos colectivos que as sociedades têm acumulado, medos esses que a fantasia do cinema de terror alimentou de forma particularmente eficaz com esta personagem do palhaço que esconde o psicopata. Vendo bem, é uma ideia particularmente criativa, pois transforma uma figura trágico-cómica, que fez rir as crianças durante séculos, no seu perfeito oposto. Como está ligado ao imaginário infantil, o palhaço é particularmente assustador.

 

Neste caso, a pergunta que devemos fazer é ‘o que se passa com as nossas sociedades’? O fenómeno francês parece ser importado dos Estados Unidos, em breve chegará aqui, pois tudo aquilo que é da cultura popular americana acaba por chegar aqui. Estamos perante uma brincadeira que expõe medos fundamentais, imprecisos e totalmente imaginários, que por sua vez produzem uma reacção de agressividade e de auto-defesa das pequenas comunidades supostamente ameaçadas (não há grandes cidades envolvidas).

No passado, havia histerias em torno de bruxas, vampiros, diabos à solta. Havia sempre vítimas, até as pessoas se cansarem de destruir as suas vidas com estas fantasias difusas. Vistos à distância, estes episódios são hoje interpretados como psicoses provocadas pela ignorância geral de cada época, mas os surtos eram ocasionais e temporários, pelo que deviam estar associados a um contexto qualquer de ameaça existencial.

Como nunca gostei de filmes de terror e conheço mal o género, sempre achei estranho o fascínio infantil que eles exercem sobre as massas. As pessoas gostam de se assustar e parecem tirar algum prazer da emoção do medo. Nas sociedades dos nossos antepassados, circulavam narrativas que serviam como base para as histórias de terror que se contavam às crianças. As bruxas são talvez o melhor exemplo, pois associavam a feminilidade e o mal, duas ideias contraditórias, tal como no caso dos palhaços, daí a sua eficácia. A cultura popular evolui e acreditar em bruxas deixou de ser uma opção, pelo que surgem novas personagens para encarnar esses medos colectivos. Mas o que parece certo é que, num contexto diferente, um palhaço em atitudes macabras (ou a sua simples sugestão) não teria levado a reacções tão abruptas e talvez não provocasse mais do que alguns sorrisos.

Existe, de facto, um clima de medo, e acredito que na sociedade francesa isso seja particularmente forte: não é por acaso que, à medida que aumentam as clivagens religiosas, a Frente Nacional tem votações crescentes. O contemporâneo medo económico, ou seja, o medo de perder o emprego, o que levará a prazo a um sentimento de humilhação, é uma das forças que criam o contexto necessário para a histeria. O outro vector pode ser a fragmentação dos media e o aparecimento de informação não filtrada por profissionais e que prolifera nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Ontem, circulou uma notícia falsa, que os autores reclamavam ter sido sancionada pela NASA, e que provocou certo pânico. A invenção de rumores alarmantes não tem nada de novo, talvez seja consequência do humor negro de alguns, mas muitos acreditaram nesta falsa notícia, que não tinha pés nem cabeça.

Não é preciso muito esforço para criar um clima eficaz de fim de mundo iminente. Não sei se os palhaços são um sinal do mal-estar civilizacional que acompanha as grandes mudanças, mas atrevo-me a pensar que vivemos num desses momentos: a aceleração do mundo excita as imaginações e o medo pode ser a ferramenta mais útil para travar certas mudanças.

 


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