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Os palhaços macabros

por Luís Naves, em 29.10.14

KryptKiddiesClowns.jpg

 

O fenómeno está a alastrar em cidades francesas, mas parece ter origem na Califórnia, também numa pequena cidade. Pessoas vestidas de palhaços surgem em poses suficientemente ambíguas para poderem ser consideradas arrepiantes. No fenómeno francês, apareceram palhaços nas ruas, armados e em atitudes ameaçadoras, naquilo que se poderia definir como brincadeira de mau-gosto, mas logo surgiram grupos de autodefesa anti-palhaços, também armados. Isto foi ao ponto de Lille não ter dado autorização para um desfile chamado zombie walk, no âmbito da festa americana conhecida por Halloween.

A tudo isto se pode juntar uma história de motins e histeria colectiva, também em França, durante a exibição de um filme de terror sobre uma boneca maléfica. As pessoas têm muita imaginação, mas há aqui mais qualquer coisa, talvez isto seja um sinal dos medos colectivos que as sociedades têm acumulado, medos esses que a fantasia do cinema de terror alimentou de forma particularmente eficaz com esta personagem do palhaço que esconde o psicopata. Vendo bem, é uma ideia particularmente criativa, pois transforma uma figura trágico-cómica, que fez rir as crianças durante séculos, no seu perfeito oposto. Como está ligado ao imaginário infantil, o palhaço é particularmente assustador.

 

Neste caso, a pergunta que devemos fazer é ‘o que se passa com as nossas sociedades’? O fenómeno francês parece ser importado dos Estados Unidos, em breve chegará aqui, pois tudo aquilo que é da cultura popular americana acaba por chegar aqui. Estamos perante uma brincadeira que expõe medos fundamentais, imprecisos e totalmente imaginários, que por sua vez produzem uma reacção de agressividade e de auto-defesa das pequenas comunidades supostamente ameaçadas (não há grandes cidades envolvidas).

No passado, havia histerias em torno de bruxas, vampiros, diabos à solta. Havia sempre vítimas, até as pessoas se cansarem de destruir as suas vidas com estas fantasias difusas. Vistos à distância, estes episódios são hoje interpretados como psicoses provocadas pela ignorância geral de cada época, mas os surtos eram ocasionais e temporários, pelo que deviam estar associados a um contexto qualquer de ameaça existencial.

Como nunca gostei de filmes de terror e conheço mal o género, sempre achei estranho o fascínio infantil que eles exercem sobre as massas. As pessoas gostam de se assustar e parecem tirar algum prazer da emoção do medo. Nas sociedades dos nossos antepassados, circulavam narrativas que serviam como base para as histórias de terror que se contavam às crianças. As bruxas são talvez o melhor exemplo, pois associavam a feminilidade e o mal, duas ideias contraditórias, tal como no caso dos palhaços, daí a sua eficácia. A cultura popular evolui e acreditar em bruxas deixou de ser uma opção, pelo que surgem novas personagens para encarnar esses medos colectivos. Mas o que parece certo é que, num contexto diferente, um palhaço em atitudes macabras (ou a sua simples sugestão) não teria levado a reacções tão abruptas e talvez não provocasse mais do que alguns sorrisos.

Existe, de facto, um clima de medo, e acredito que na sociedade francesa isso seja particularmente forte: não é por acaso que, à medida que aumentam as clivagens religiosas, a Frente Nacional tem votações crescentes. O contemporâneo medo económico, ou seja, o medo de perder o emprego, o que levará a prazo a um sentimento de humilhação, é uma das forças que criam o contexto necessário para a histeria. O outro vector pode ser a fragmentação dos media e o aparecimento de informação não filtrada por profissionais e que prolifera nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Ontem, circulou uma notícia falsa, que os autores reclamavam ter sido sancionada pela NASA, e que provocou certo pânico. A invenção de rumores alarmantes não tem nada de novo, talvez seja consequência do humor negro de alguns, mas muitos acreditaram nesta falsa notícia, que não tinha pés nem cabeça.

Não é preciso muito esforço para criar um clima eficaz de fim de mundo iminente. Não sei se os palhaços são um sinal do mal-estar civilizacional que acompanha as grandes mudanças, mas atrevo-me a pensar que vivemos num desses momentos: a aceleração do mundo excita as imaginações e o medo pode ser a ferramenta mais útil para travar certas mudanças.

 


21 comentários

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De trollofthenorth a 29.10.2014 às 12:56

O John Wayne Gacy gosta disto.
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De Vento a 29.10.2014 às 13:01

Diante de um artigo desta importância socio-psico-emocional é meu dever fazer uma redacção.

Redacção
Os palhaços são muito amigos das crianças, e as bruxas também não. Os palhaços em Portugal não gostam de ser chamados de palhaços, talvez por causa das palhaçadas dos franceses. E as bruxas, por causa da feminilidade maçãnica (que vem da maçã do paraíso), também já não querem que os meninos mordam na fruta. Os palhaços já não podem cantar acerca dos atributos das bruxas, não podem piropar e também não podem ter um olhar propedêutico das configurações anatómicas do mal que fez aumentar a parra e diminuir a produção na vinha. E as bruxas agravam muito a imagem dos palhaços ao cunharem de palhaçadas as normais performances biossanitárias.

E os palhaços na relação com as bruxas são muito bonzinhos. Eles só querem fazer piruetas alegres, tocar as buzinas e nas buzinas e aceitam graciosamente estaladas que os fazem entrar em pião. Os palhaços são muito dados à música, por isso mesmo gostam de tocar os instrumentos que permitem belas sonoridades e simbióticas orquestrações.
As bruxas nem por isso.

Estamos a viver tempos de terror na medida em que os palhaços já não alegram e as bruxas não se deixam alegrar.
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De cristof a 29.10.2014 às 16:00

Os arautos da desgraça criam a partir de acontecimentos restritos uma exposição mediática que alarma quem não se distancia e interpreta literalmente os indícios:
Comunicações oficiais de diversas autoridades+parada oficial, transmissões directas em diversos canais do mundo porque um "terrorista" desatou aos tiros numa cidade do Canada, matando (Heroi Nacional) e feriu vários outros.
A crise na UE vai levar a desgraça os cidadãos do mundo com melhor protecção de todo o planeta; o euro vai cair, a Alemanha sai do euro;Portugal sai do euro; a França não cumpre..
Isto numa altura em que o papa Francisco se mostra um cidadão do melhor que existiu nos chefes religiosos... crise? mas qual crise?
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De Fernando Torres a 29.10.2014 às 16:07

ICS acusado de censura por suspender revista devido a reportagem sobre grafittis
Ler aqui:

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=740823


Estes metem mais medo! Muito mais medo!
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De Anónimo a 29.10.2014 às 20:04


O Sr. Fernando Torres conhece pessoalmente as pessoas citadas na notícia?

E quais é que lhe metem medo e quais é que não metem?

Ou toda a gente lhe mete medo desde que lhe digam para ter medo delas?
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De Fernando Torres a 30.10.2014 às 09:58

Não quero fazer aqui a apologia do medo.

Mas há mais gente que pensa como eu:

http://aventar.eu/2014/10/29/censurado/

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De Anónimo a 30.10.2014 às 16:40


Há sempre mais gente que pensa como nós, sempre houve, por pouco que nós pensemos.

Mas podia ter arranjado outros exemplos mais respeitáveis em termos de independência.

Portanto fica por responder a parte mais importante da questão que lhe pus: o Sr. Fernando Torres conhece as pessoas em causa , as três?

O Sr. Fernando Torres leu o trabalho completo que se encontra disponível on-line (não lhe mando o link mas pode procurá-lo)?

O Sr. Fernando Torres é comprador e coleccionador de longa data de uma revista fora de série como aquela e por onde passaram grandes nomes da nossa intelectualidade?

São só questões retóricas.

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De rmg a 29.10.2014 às 17:42


Uma volta pelo "youtube" é instrutiva, abstenho-me de dar mais indicações.

O mais grave é que muita miudagem por aí (incluo aqui muitos adultos que não cresceram) acha imensa graça àquilo e não vê qual o mal da brincadeira, pelo menos até lhes aparecer um pela frente .
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De Vento a 30.10.2014 às 01:41

rmg,

receba as cordiais saudações. O artigo de Luís Naves é uma denúncia que vai muito além do tema focado. Creio que é importante desvalorizar o facto em si assim como as ditas clivagens religiosas.
O problema é bem mais vasto que o que se pretende retractar pelo fenómeno. Esses acontecimentos descritos pelo autor do post no mínimo devem reflectir a aculturação de, digamos, microfenómenos característicos de uma cultura pouco inclusiva, muito dada ao "sucesso", que identifica os EUA, hoje uma referência para o mundo ocidental.
Este fenómeno, o da exclusão, tornou-se catequese nos círculos políticos europeus. Não creio que haja alguma associação ao medo na forma como os personagens se apresentam, mas antes uma caricatura da violência que se vive por detrás de um discurso que aparentemente é inofensivo.
O fenómeno das bruxas e da caça às bruxas reveste-se de múltiplas facetas nos relacionamentos sociais.
Não creio, ainda que alguma coisa deva ser feita, que seja para levar a sério o fenómeno, mas o que induz tais acontecimentos. E a religião também não é a precursora destas ocorrências.
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De rmg a 30.10.2014 às 16:26


Meu caro Vento

O abraço do costume.
Tem o meu amigo netos adolescentes e/ou está próximo da malta dessas gerações?

Este "fenómeno" já eu acompanho através dos meus netos e do que eles me contam há quase um ano, não precisei deste post para "acordar" para o facto.
E foi isso mesmo que eu quis dizer no meu comentário.

Pode o meu amigo ter toda a razão deste mundo, respeito-o muito e leio-o com evidente agrado mesmo que não concorde absolutamente nada consigo, o que já lhe disse mais de uma vez.

De resto se há alguma coisa de que eu me gabo é nunca ter tido nem ter medo físico, ainda este fim de semana passei um mau bocado nessa matéria.

Tenho outros, o de perder os que amo, mas eu nem sequer tenho medo de morrer, quanto muito teria pena de não chegar a bisavô porque isso queria dizer que não tinha vivido mais tempo rodeado daqueles a que quero.

E acho que muita gente que brinca com estas coisas - o que não foi o seu caso - está apenas a exorcizar os seus fantasmas e que agora nem vão saír descanados à rua depois do lusco-fusco.
Andamos há muitos anos a virar frangos...

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De Vento a 30.10.2014 às 20:01

Bom amigo,

raramente estou em total desacordo com meus interlocutores. Procuro sempre extrair de suas palavras e testemunhos a sabedoria que me falta. Antes de tudo, gostaria de referir que o meu comentário ao seu comentário foi uma oportunidade para o abraçar e não para me defender. Não vi em seu comentário qualquer contrariedade ao meu.

Uma vez disse ao meu amigo que não gostava de falar sobre mim. Hoje abro uma pequena excepção.
Sim, tenho essa geração demasiado próxima de mim. E quanto ao medo, físico ou não, muito cedo aprendi a superá-lo. Muito novo, depois de uma noite inteira barricado a ver munições tracejantes, assim como outras de uma antiaérea a ser usada para literalmente cortar casas, a percorrer os céus pouco acima de minha cabeça, consegui chegar a casa.
Exausto, e depois de acalmar minha mãe (o pai estava ausente), deitei-me e nem dei conta de adormecer. Pouco tempo depois acordo com um irmão mais novo a dizer-me que um grupo de homens armados estava dentro de casa. Devo dizer-lhe que era um grupo de soldados drogados com kalashnikov nas mãos. A minha preocupação foi buscar minha irmã, bebé de colo, e coloca-la dentro de um armário de parede. Depois de fazer o mesmo a um irmão mais novo, corri para junto de minha mãe que corajosamente os enfrentava.
Ameaçavam eles um outro meu irmão, e um deles, mais atrevido, decidiu avançar para lhe causar dano. Apercebi-me de tudo, encostei-me a uma das paredes da divisão da casa e quando o campeão passava deitei-lhe o braço ao pescoço e arrastei-o para uma varanda de um dos quartos que dava para a rua. Quando o dobrava para lançá-lo borda fora sinto umas facas (das baionetas) nas costas e vejo um bando de filhos da puta com as armas apontadas.
Não largando o pássaro que tinha na mão dirigi-lhes umas palavras e eles pediram-me que largasse o seu camarada. Só depois de ver minha mãe, que não sei como já estava com a bebé ao colo, e meu irmão mais novo junto a mim acedi ao pedido. Algumas outras peripécias ocorreram posteriormente, mas felizmente tudo correu bem para o nosso lado.
O facto de hoje lhe contar isto e de minha família estar viva não se deve a nenhum acto heróico, mas a um milagre. Nada é coincidência e tudo é providência.
Caro rmg, só para dizer-lhe que da mesma forma que só se vive uma vez também se morre só uma vez. Não, não procuro a morte, mas se houver motivo para entregar a vida tem de merecer a pena a causa.

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De rmg a 31.10.2014 às 17:53


Meu caro Vento

Eu sei que o meu amigo "é o que está à vista" e por isso o prezo (e muito).

Eu não estava de modo algum a contrariá-lo, como bem notou, nem vi na sua resposta qualquer intuito de se defender, como é óbvio.
Mas pelo que já percebi de si há muito tempo é uma pessoa que se entrega às suas convicções de alma e coração e, por vezes, sinto que nos seus raciocínios bem elaborados alguma realidade bem concreta lhe passa ao lado.

Ora como disse um dia Carlos Saura "são os filhos que nos puxam para a realidade" (e eu acrescentaria "e mais tarde os netos").

E se nesta caixa de comentários (e noutras) eu nunca escondi que os tenho, já vejo que é raro quem se abra um pouquinho que seja e acabamos aqui em conversas de surdos pois, como se já não bastasse sermos todos mais ou menos "anónimos", ainda temos bastas vezes que aturar lições de vida de quem não viveu nada ou lições profissionais de quem não trabalhou nada.

Ainda há pouco tempo fui aqui "repreendido" por um comentador por ter manifestado a minha felicidade por alguns milagres - como diz e tem razão - que fazem com que três pessoas de quem muito gosto estejam aí a sorrir-me, apesar de complicações várias por que passaram (e passam, já lá dizía o Sempé "rien n'est simple, tout se complique").
Parece que eu não devia expôr a minha felicidade em público, na dita opinião.

Ora não sou diferente dos outros e também já perdi estúpida e precocemente outras pessoas que me fazem muita falta e essa exibição de dor é que eu teria vergonha de fazer, não tenho feitio para "coitadinho".

Portanto se pus a questão como pus é porque era essa a única maneira de a enquadrar pois as nossas vidas e maneiras de ser são certamente muito diferentes e os netos adolescentes (ou filhos adolescentes, já agora) seriam o único ponto de encontro para prosseguir aquele diálogo concreto.

E escrevi netos e não netos e netas e não foi por acaso, tenho dos dois mas só a percepção destas realidades através do que a miudagem masculina pensa interessava ao raciocínio.

Todas as caixas de comentários estão cheias de pessoas técnicamente idosas ou mesmo idosas de todo, desocupadas, muitas vezes com pouco contacto com as realidades da rua, com os problemas da malta nova ,com o que vai na cabeça dos que têm 14, 15, 16 anos.
Acham que são crianças e não interessam muito, renegando assim o que eles próprios foram nessa idade e as injustiças que terão sofrido por parte dos mais velhos e as suas revoltas.
É um paternalismo ridículo, mais vezes peço a opinião aos netos que a uma série de patetas que conheço e só falam de novelas e futebol.

Depois muita gente clama com indignação que é preciso mudar o mundo e patati et patata quando muitas nem conseguem mudar a hora do jantar lá em casa, ficam muito contentes com as propostas de um futuro radioso se alguém as ouvisse quando o futuro vai ser o que aquela gente que agora cresce quiser que seja quando começar a trabalhar.

É frustrante saber que o mundo mudou mais nos últimos 20 anos que nos 200 anteriores e ler alguns comentários de quem ficou parado lá atrás.

Bem pode o governo A ou B fazer isto ou aquilo, daqui a 10 anos o mundo é destes adolescentes e a maior parte de nós somos uns velhos ou para lá caminhamos rápidamente, a quem só os mais educados darão 2 minutos de vaga atenção.

Lamento assim que se tenham tantas teorias sobre a vida e nunca se veja aqui ninguém a falar do que os adolescentes de hoje, adultos de amanhã, pensam.
E de como olham para o mundo.

Eu ando 4 a 5 horas por dia a pé nos 15 dias que estou em Lisboa, carro só para a estrada, como canta/diz Jean Gabin "je suis toujours à ma fenêtre, je regarde et je m'interroge".
Nunca vou para os mesmos sítios muitas vezes seguidas.
E lhe garanto que quando chego à blogosfera e leio muitos comentários de quem pelos vistos vai à esquina comprar o jornal e volta para o sofá, só me apetece ou rir ou chorar, qualquer delas seria adequada.

Agradeço-lhe muito o seu desabafo, que sinto como um gesto pessoal.
Eu nunca passei por uma situação como a sua, claro, pouca gente passou.

Um abraço para si e obrigado

PS - Sobre isto da morte tenho várias visões, próprias de quem faz 50 mil kms por ano, já a vi muitas vezes e essa não é decerto uma causa que valha a pena...
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De Vento a 01.11.2014 às 01:26

Caro rmg,

o amigo para além de ser uma pessoa dada à precisão é um romântico "duro". Aliás, tive oportunidade de dizer-lhe em tempos que o rmg amava com amor forte sua família.
O amigo teve certamente uma vida dura e faz tudo para proteger os seus das muitas contrariedades que encontrou e que foi superando. Talvez por isto seja também tão disciplinador no amor que oferece, e bem.
Por vezes o amor deixa-nos com uma mão cheia de nada, mas esse nada reflecte tudo quanto tínhamos para dar. O nada com que ficamos é tudo quanto demos quer na vida pessoal quer na vida familiar quer na vida profissional.
O contrário seria a demonstração do mercantilismo que se tornou comum.
Repare que eu coloco as frases na primeira pessoa do plural, a pensar nos nós que não podem reflectir seus sentimentos, aqueles que já não têm voz nem vez. Conheço muitos.
Sinto-me com sorte e agradado quando afirma que "alguma realidade bem concreta lhe passa ao lado", pois isto só revela que há muito ainda para viver e realizar.
Não se deixe afectar por aquilo que outros pensam. Continue a demonstrar seus afectos e a felicidade que sente por se sentir tão afortunado.

Mudar o mundo é difícil, porque para o mudar devemos começar por nós mesmos. Mas partilho de sua opinião, pois os queixumes que escuto sobre o mundo por vezes leva-me a pensar que esses que tanto se queixam devem vir de outra galáxia, pura e imaculada.

Sem dúvida, tudo mudou nestes 20 anos e esses são os homens e mulheres do amanhã, que também será nosso. Mas o presente deles não só é o nosso presente como reflecte muito do nosso passado, e parece-me que isto é pouco reflectido.
Eu gosto muito destes miúdos: são generosos como um dia o fomos e são andorinhas vivendo uma constante primavera. Tenho um puto na família a quem lhe foi dada uma grande responsabilidade. Está num colégio de jesuítas e apadrinhou um colega de uma outra escola, mais novo e num nível escolar diferente, que vive num bairro desfavorecido e numa família desfavorecida. A sua missão é acompanhá-lo nas dificuldades que tenha a qualquer disciplina e fazer-se presente sempre que possa e que lhe seja solicitado.

Esta noção da responsabilidade para com o outro é uma cultura que deve ser incrementada em todas as escolas e famílias. E em simultâneo ajuda o próprio a adquirir a maturidade necessária que o leve a sair de um círculo "restrito" e protegido, fazendo-o compreender que o mérito reside mais na oportunidade que se proporciona e não no que se julga ser ou ter.

Por último, quero pensar a morte da mesma forma que S. Francisco a via: como irmã. É esta relação de familiaridade com a morte que julgo ser necessário cultivar, diferentemente de enterrar a cabeça na areia como a avestruz.

Foi um prazer ter partilhado consigo um pouco de mim. Penso que lhe devia esta atenção.

Abraço amigo

P.S. Continuo consigo e sua esposa em minhas orações. Bom fim-de-semana.
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De rmg a 01.11.2014 às 16:50


Meu caro Vento

É o meu amigo um bom psicólogo, sempre o achei, mas "arrumou-me" com o ser dado à precisão e a tipologia do meu romantismo: minha mulher, filhos e amigos de vez em quando dizem-mo, por essas ou outras palavras e eles conhecem-me bem!

A precisão tem um misto de formação de base e de vida profissional que a tal obrigou, o romântico "duro" talvez com as contingências da vida, não necessáriamente difícil em si mas com muitas opções muito difíceis no percurso, ainda esta semana que entra aí estão duas.

Por isso tem toda e mais alguma razão, temos que ajudar os nossos a ultrapassar situações por que já passámos, as vidas das pessoas não são assim tão diferentes de geração para geração no que respeita ao que realmente interessa, quase sempre a ver com saúde e sentimentos e poucas vezes a ver com dinheiro, ainda que afirmar isto do "dinheiro" seja mal visto nos tempos que correm.
Antes tivessem a ver com dinheiro, que esse ganha-se, se não fôr aqui é noutro sítio, já todos passámos por isso - e mais de uma vez - nesta pequena família que é a minha, ninguém tem medo de mudar de vida amanhã, é demasiado "déjà vu" nestas paragens.

O essencial é não facilitar financeiramente a vida a menos de catástrofe mas que todos tenham a certeza que estamos sempre presentes quando de nós precisarem (não dar o peixe...).
Muitas vezes discuto (amigávelmente) com conhecidos que se queixam de que filhos ou netos vivem pendurados deles sem grande necessidade e assim talvez não estejam a lutar pela vida como deviam.
Não percebem que a culpa é deles, as pessoas compram a atenção dos seus em vez de a conquistarem, porventura uma faceta do mercantilismo de que fala.

Também acho que alguma realidade concreta me passa ao lado e também acho que isso é bom, alguém (Sacha Guitry) disse que tudo o que sabia era à própria ignorância que o devia e revejo-me muito nisso, quanto mais ignorantes nos sentimos mais vontade devemos ter em aprender.

Não me deixo decerto afectar mas não deixa de ser estranho que haja quem ache que expôr a felicidade de ter o sorriso dos que cá andam é uma provocação, como se estivéssemos a falar de bens materiais (que porventura aceitariam melhor, se calhar o problema é mesmo esse pois têm estes e não aqueles).

Gostei muito do que me conta sobre a enorme experiência de vida e de solidariedade que esse rapaz que lhe está próximo está a viver, não conhecia essas oportunidades de os fazer crescer como pessoas.
Pelo que vou vendo por aí ele parte para vida com um capital humano que poucos vão ter.

Por aqui só tenho escuteiros, é uma aprendizagem diferente e mais lenta que essa, talvez mesmo mais "protegida", ainda que seja a alternativa a fins-de-semana de completa inutilidade, o espírito de equipa vejo que vai nascendo.

O meu Amigo não me devia atenção nenhuma, bastava-me a que já trocávamos.
Mas estou-lhe muito grato, como imagina.

Grande abraço

PS - Muito lhe agradeço, lembro-me com frequência do seu cuidado, acto raro nestas andanças.

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De Vento a 01.11.2014 às 20:34

Caro amigo rmg,

aprendi de uma filósofa muito cedo desaparecida (Simone Weil) que a afirmação "sei que nada sei" só pode ser pronunciada depois de muito se saber. Significa isto também que há respostas que nunca encontraremos a não ser pelo olhar da fé.
A fé não é um refúgio, é combustível que nos faz acreditar no sentido da vida e também da morte.
Qualquer Homem ao longo de sua vida é confrontado com duas necessidades: construir e reconstruir a vida.
Jesus, por sua vida e morte, revelou-nos a divindade da vida e da morte. A divindade não consiste em transformarmo-nos em seres alados e/ou privilegiados. Mas tão somente em reconhecer a importância deste cosmos onde uma simples "partícula" incorrectamente manipulada pode originar o caos.

O único elemento agregador de todas estas diferenças só pode ser o Amor. Atribuímos frequentemente a esta palavra um certo sentido platónico, e por isto mesmo resumimos muita da nossa actividade a um círculo muito restrito. De uma outra forma, na ausência desse círculo sentimo-nos como que abandonados, e é aqui que surgem os grandes tormentos da história. É precisamente quando o Homem sente que a vida deixa de ter sentido que as grandes catástrofes ocorrem.
Para evitar estas ocorrências, nós, os cristãos, aceitamos o sentido do Natal. Precisamente porque o Natal não é uma festa de família ou para a família, mas antes nos ajuda a constituir e celebrar família com todos os demais.

Estou convicto que depois de tudo quanto julgámos ter construído vivemos um momento único que nos permitirá reconstruir. E é aqui que entram todos aqueles que possuem os alicerces fundamentais, isto é, os que são capaz de amar, para poder alterar o rumo da história.
O amor não põe condições, porque é uma dádiva. Como dádiva não só se pede como se oferece, é a gratuidade cristã.

Como celebramos o dia de Todos os Santos (na história da Igreja Todos os Santos são aqueles conhecidos e desconhecidos de toda a parte do mundo e de todas as religiões que celebraram em suas vidas o Bem Comum) quero deixar aqui um link que recomendo que veja com sua família.

É a vida de S. Moscati, um médico e investigador ímpar que viveu em Nápoles e lá se encontra enterrado. Muitos milagres, documentados e cujas causas são comprovadas pela ciência não poderem ser explicadas, ocorreram e ainda ocorrem por todos quanto a ele, Moscati, têm se confiado. Verificará o meu amigo que isto da santidade não tem nada de complicado. Veja com bastante atenção e divulgue.

http://www.youtube.com/watch?v=tq8nigMWcg0

http://www.youtube.com/watch?v=yD3twKqZJNk

Obrigado por suas palavras.

Abraço.

P.S. Que São Moscati, juntamente com os médicos que vos acompanham, vos seja favorável nas dificuldades de saúde.



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De rmg a 02.11.2014 às 14:10


Caro Amigo

Muito agradeço mais uma vez as suas palavras e os seus cuidados.

É muito reconfortante saber que, pense cada um como pensar, há ainda quem vá muito para além do egoísmo, diría que as mais das vezes grotesco, que enferma a maior parte de posts e comentários que se lêem aqui pela blogosfera.

"Não interessa que estejas no caminho certo, se ficares sentado todos te ultrapassarão", a frase não é minha mas a tradução livre é.

É a isto que assistimos cada vez mais por aqui e por outros blogues, demasiada gente carregada do que parecem boas intenções e até aparentando ter muita razão mas que está sentada e se limita a incentivar os outros com a sua indignação.

Façam a revolução que, se a coisa estiver a correr bem, eu já lá vou ter.
Já vi este "filme" - e por dentro - há pouco mais de 40 anos.

Ora como a indignação de cada um aos problemas e ansiedades de cada um diz repeito,mascarando-se tantas vezes de altruísmo quando não passa de egoísmo, não se espere que os realmente pobres e os desempregados de longa duração venham para a rua defender os pensionistas do quartil superior (é um exemplo).
Portanto quando vierem para a rua quem provávelmente se lixa são aqueles.

Isto para lhe dizer que me cansei da vacuidade "bem pensante" mas históricamente pouco culta de que os blogues se fazem cada vez mais eco e, como deve ter reparado, já comento muito pouco e a caminho do nada.

E para insistir em que quase ninguém consegue levar o raciocínio filosófico ao nível a que o meu amigo o leva, sem prejuízo de no momento seguinte escrever textos de uma graça e subtileza únicas por aqui, onde engraçadinhos sem graça não faltam.

Como se diz lá pelos sítios onde passo os outros 15 dias do mês : Bem Haja !

Também penso que isto da Santidade não tem nada de complicado mas acho que ser alguém que não passou pela vida só por passar já valeu muito a pena.

Um abraço para si

PS - Pois o mau momento está a alastrar à geração seguinte mas ninguém muda de cara nem perde 10 segundos a queixar-se, é a tal maneira de estar no mundo de que vimos falando...


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De Vento a 03.11.2014 às 02:04

Bom amigo rmg,

as suas maduras, vividas, palavras têm sido um conforto também para mim. Identifico-me com tudo quanto escreve. Mais, há muito do que escreve que me faz identificar situações.

Este diálogo tem sido bastante frutífero para mim. O acompanhar as vicissitudes de vida de sua família em matéria tão marcante, que a outros deitam por terra, mas que são capaz de vos agregar de uma maneira inimaginável são um testemunho que supera qualquer palavra ou angústia que eu possa ter pronunciado.

A oração, bom amigo, é a chave que abre as portas do céu. Nunca desistam dela, animados ou desanimados.
Garanto-lhe, e é um testemunho pessoal, que não fosse ela, a oração, eu não seria o que sou.
Hoje, olhando para as situações passadas, onde absolutamente nada nem ninguém poderia alterar o rumo fatal das mesmas, posso garantir-lhe com plena e total lucidez que não fosse a graça da perseverança eu não estaria aqui a partilhar com o amigo tais descobertas.
Devo dizer-lhe também, com total lealdade, que esta perseverança não veio de mim. Era totalmente impossível nas situações vividas e nas circunstâncias experienciadas que tal ocorre-se por força humana. E até mesmo o ódio, a revolta e a agressividade se transformaram em compreensão para com aqueles que foram os autores de tais circunstâncias.

Josefina Bakhita, uma santa de raça africana, escravizada, maltratada e chicoteada por seu senhor, diante de Cristo crucificado pronunciou as seguintes palavras:
"Se este "patrão" conheceu as dores que lhe foram infligidas só pode ser um bom "patrão", porque é capaz de reconhecer as dores naqueles que O buscam em aflições".
http://www.youtube.com/watch?v=d9FEeLyEqJY

Bom amigo, não desista e verá a glória de Deus.
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De rmg a 03.11.2014 às 18:27


Meu caro Vento

Nunca virar a cara, nunca se queixar, nunca perder um minuto que não seja na luta.

Minha mulher fez a 3ª anestesia geral em ano e meio, minha filha mais nova vai agora para a 2ª em mês e meio, meu filho mais velho "só" teve uma há um mês mas nem doente estava, uma situação puramente preventiva deu para o tôrto (parece que 3 casos em cada 1000 dão e estas coisas não acontecem só aos outros).

Não deve haver mais problemas, eu nunca tomei um remédio na vida e tenho um filho hipocondríaco que perante o cenário geral até lhe passaram as doenças todas imaginárias que tinha, já nos temos rido os dois.

Nunca nenhum de nós fala de nada, tirando às pessoas mais chegadas limitamo-nos a dizer que estamos todos bem, ninguém nos pergunta pela saúde para saber de nós mas para ter oportunidade de que saibamos deles.
A vida continua como sempre, queremos cá estar todos muitos anos (gostava de ser bisavô, como gostei de ser pai ou avô).

E isso é muito bom, como lhe dizía ontem mostra que não passámos pela vida só por passar.

O pior é estudar o máximo divisor comum e o mínimo múltiplo comum com os netos, uma trabalheira, lá vêm eles com o "então não és engenheiro?", eu sem lhes poder explicar que aquilo nem aos engenheiros faz qualquer falta pela vida fora e eu já não me lembro de nada (mas vou estudar)...

Isto para lhe dizer que as dificuldades por que cada um de nós passa na vida não são comparáveis pois não é possível classificá-las por graus, o meu amigo terá tido e tem certamente preocupações que para si terão sido umas maiores e outras menores às que eu tive ou tenho.
Há cerca de 2 anos andava eu preocupado com o que agora me parecem "cacas" mas que na altura tomavam uma dimensão importante, está na natureza humana essa capacidade de isolar situações para melhor lhes resistir.

Claro que depois cada um de nós é fruto de outras contingências, eu próprio era um pessimista terrível há 30 anos e hoje sou um optimista, fruto de ter passado um péssimo bocado com esta minha filha quando ela tinha 10 anos.
Se aquela fase foi ultrapassada na altura como foi, nada de muito pior me podia acontecer na vida e até do ponto de vista profissional essa filosofia me foi essencial em mudanças radicais que quis ou fui obrigado a fazer.

Conto-lhe isto porque vem a propósito de algo que temos conversado muito.
Tinha a minha filha 9 anos e estava muito constipada, minha mulher levou-a a Sta. Maria e no elevador para o piso de Pediatria entrou um senhor com uma bata branca, disse apenas "obrigue-os a tirarem-lhe uma radiografia" e saíu no piso seguinte.
A mãe ficou tão impressionada com a convicção do senhor que os obrigou mesmo (ninguém achava que se justificasse) e foi detectada uma malformação congénita no coração que levou a que ela fôsse das primeiras crianças a serem operadas em Sta. Cruz pela equipa do Prof. Machado Macedo.

Isto para lhe dizer que poucas pessoas como eu, apesar de toda a minha (pseudo) racionalidade, concordarão tanto consigo quando falamos em milagres.

Muito lhe agradeço as suas mensagens amigas



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De Vento a 04.11.2014 às 10:39

Amigo,

deixemos então por aqui os nossos testemunhos para quem quiser pegar neles.

Abraço
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De rmg a 30.10.2014 às 21:26


Penúltima linha : "descansados", claro.

As minhas desculpas.
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De rmg a 02.11.2014 às 19:40


Já agora...

http://nordpresse.be/clown-tueur-abattu-lors-dune-camera-cachee-en-russie/

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