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Os novos censores andam aí (6)

por Pedro Correia, em 15.02.18

les-trois-pamphlets-antisemites-de-louis-ferdinand

 

O abominável Mein Kampf poisa aí por todas as livrarias, com várias chancelas editoriais, ao alcance das mentes mais frágeis ou perturbadas: até uma criança pode adquirir um exemplar (ou dois ou mais). E tornou-se até um best seller na própria Alemanha, com 85 mil exemplares vendidos em 2016.

As torrentes de ódio vertidas pela pena do "cabo Hitler", como lhe chamava Churchill, deixam hoje aparentemente indiferentes os plantões de turno. Já a baba anti-semita escorrida por  Louis-Ferdinand Céline - admirável escritor com indefensáveis ideias políticas - continuam remetidas para o limbo da clandestinidade. Num tempo em que tudo se publica, do excelso ao péssimo, o autor de Viagem ao Fim da Noite mantém obras interditas: a editora Gallimard desistiu de lançar a edição crítica, anotada e profundamente contextualizada que planeara de três panfletos, escritos entre 1937 e 1941, e que permanecem por reeditar desde a II Guerra Mundial: Bagatelas por um Massacre, Escola de Cadáveres e Os Maus Lençóis.

O reaparecimento destes títulos reunidos sob a designação Escritos Polémicos seria "uma agressão aos judeus de França", bradou Serge Klarsfeld, presidente da associação gaulesa de filhos e filhas de judeus deportados. Uma voz estridente entre tantas outras, somadas às pressões políticas e mediáticas, que forçaram a bater em retirada o poderoso grupo editorial, que tem no seu catálogo 36 escritores galardoados com o Prémio Goncourt, dez com o Pulitzer e 38 com o Nobel da Literatura.

"Suspendo este projecto por entender que não estão reunidas as condições metodológicas e memoriais para encará-lo com serenidade", anunciou no mês passado Antoine Gallimard em comunicado à agência France Presse. Céline, falecido em 1961, continua a ser censurado. Enquanto Hitler renasce como "besta célere" nestes dias incongruentes em que a liberdade é um bem escasso, sujeito a critérios selectivos e arbitrários.

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31 comentários

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De Vlad, o Emborcador a 15.02.2018 às 11:54

Pedro, é a velha história dos movimentos reformadores, revolucionários, que fazem da moral, bandeira. Quanta maldade, intolerância, se justificam em benévolos propósitos?

Que cada um alimente o seu monstro, não vá ele estraçalhar quem o acossa. E para os desaprendidos, façam o favor de fechar olhos e ouvidos. É sempre menos violento o mal deixado à solta.

Se eles sabem que andam por aí, ainda, os Cantos de Moldoror, essa fábula de maldades:

"Há os que escrevem em busca de aplausos humanos, por meio de nobres qualidades de coração que a imaginação inventa ou que talvez possuam. Quanto a mim, sirvo-me do meu génio para descrever as delícias da crueldade!

https://www.wook.pt/livro/os-cantos-de-maldoror-conde-de-lautreamont/2540707
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:17

Não concebo maior monstro contra a liberdade intelectual do que o da censura. E há tantos aprendizes de censor, por aí, de tesourinha na mão...
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De Anónimo a 15.02.2018 às 12:28

Tanto que quero ler Céline e ainda nem me estreei. É um dos meus objectivos na vida:).
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:17

Vai muito a tempo.
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De Sarin a 15.02.2018 às 13:33

Como é que dizia Lao Tsé, " mantém os teus amigos por perto e os teus inimigos..."?

É mais fácil proibir o debate do que instigar o debate. Debater obriga a alinhar conhecimento e pensamento, e se o conhecimento em si mesmo já pode ser perigoso (seja ele resultado de erudição ou de experiência e observação), aliado ao pensamento é fatal para quem deseja a universalidade da interpretação única e a sua reverência.
Nada de novo, apenas recrudescimentos cíclicos: o Século das Luzes antecedeu a Rainha Vitória, mas foi o vitorianismo que se impôs mais facilmente. Mais rapidamente. Mais longamente.
Talvez o nosso genoma nos condene a viver em grupo e a nossa memória genética nos torne recessivos nas, e por isso pouco receptivos às, flutuações que nos podem desagregar? Talvez porque a evolução se deve a acidentes genéticos e, na natureza como nas sociedades, vinga o mais bem adaptado ao ambiente? Ou talvez porque é muito mais simples proibir do que educar, esclarecer e, voltamos ao mesmo, debater. O próprio conceito de educação nasceu subvertido: também se educa pelos dogmas, e confunde-se amiúde com disciplinar... Mas não, falo da educação pela discussão, a educação que nos coloca perante os factos e nos dá as ferramentas para os interpretarmos e até para decidirmos entre o que gostamos o que aceitamos e o que abominamos, entre aquilo que defendemos aquilo que nos deixa indiferentes e aquilo que combatemos.

O sempiterno paternalismo latente em qualquer acto de censura mudou de tom: se antes se achava que o povo as mulheres os escravos não tinham capacidade para decidir por eles mesmos, hoje entende-se que até podem ter mas, e agora incluímos os restantes membros da humanidade com excepção dos elementos do grupóide ou do grupo, os indivíduos não têm competências para perceber as implicações que as suas decisões poderão ter no grupo ou na humanidade.


Não há muito os jornais queimavam com a vontade de incendiar uma editora portuguesa que ousou publicar o Mein Kampf.
Atacada geralmente por ser de esquerda - embora tanto me excomunguem por ser comuna como me baptizem de xuxa ou de ganzada/histérica do be, que as palas partidárias mandam disparar em frente, viva a geringonça por ter facilitado a muitos comentadores a agregação em esquerdalha - fui rotulada pelos mesmos atacantes de "fascista" ou "neo-nazi" quando defendi a publicação e disse que pecava pelo atraso. Também ganhei o rótulo com os cumprimentos de muitos assumidos esquerdistas, o que apenas reforçou a certeza de que o obscurantismo não tem predilecção por abscissas, apenas objecta às cisões.


Os censores sempre estiveram na moda. Mas hoje abarcam grupos que, nas intersecções, criam miríades de grupóides, e em última análise são a ubiquidade e a constância que tornam tão difícil o desmontar do seu discurso.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:19

Sim, os censores sempre estiveram na moda. Mas hoje são populares até entre aqueles que batem no peito proclamando-se contra a censura.
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De Sarin a 16.02.2018 às 09:27

Segundo as notícias que vou lendo, e descontados os exageros, no facebook aparecem com frequência exercícios e desafios que se tornam virais e acompanham parte da comunidade durante dias. Por vezes saem da rede - que paradoxalmente está desenhada para disseminar, não para segurar.
Desconfio que a censura é o novo exercício. E o seu conceito, o novo desafio.
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De Maria Dulce Fernandes a 15.02.2018 às 13:40

Nunca entendi a censura.
Pode ser importante ler a Bíblia para entender Deus ou talvez o Codex Gigas ( que reza a lenda é produto do Demo) para perceber do bem e do mal, a dualidade que rege toda a nossa vivência durante a vida, mas não creio.
São os nossos círculos de criação e crescimento que definem a nossa natureza.
Diz-me que livros lês, dir-te-ei quem és é um perfeito disparate.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:20

De acordo, Dulce. Uma vez mais.
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De Carlos Faria a 15.02.2018 às 14:13

Não fui um dos leitores que tenha gostado muito de "Viagem ao fim da noite", simplesmente por o ter achado demasiado sombrio sem esperança, mas sem dúvida bem escrito e estruturado.
Agora dói-me ver este crescendo da censura em democracia imposta pelos ditadores do politicamente correto, como se eu fosse incapaz de ler sem espírito crítico e por isso impossibilitado de ter acesso a livros que não sejam inócuos como um index dos tempos modernos. Contudo, choca-me muito mais que em paralelo Mein Kampft ande por aí não para o analisarmos criticamente mas para propaganda dum mal.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:21

Confesso que também me choca ver 'Mein Kampf' em destaque nas livrarias mais em voga cá no burgo. Ao lado de anódinos livrinhos com receitas culinárias ou de policiais do Rex Stout.
Mas choca-me sempre mais que em 2018 haja autores proibidos. Ainda por cima em França, de onde emanaram as "Luzes".
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De Sarin a 16.02.2018 às 17:35

Também me choca.
Qualquer orquídia teclada por Stout dá 3-0 à prosa toda do Mein Kampf, e o Fhürer teria muita filosofia a aprender até com o discreto Panzer, quanto mais com o montenegrino detective!
PS: não vou à bola com o Fox.
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De Anónimo a 15.02.2018 às 15:08

A História é a história dos vencedores.
E a da II Guerra mundial também.
Pelo que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, em Dresden, e pelas amostras mais recentes, desconfio muito do que aconteceu.
Nada me garante que os aliados fossem muito melhores que os outros.
João de Brito
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De Vlad, o Emborcador a 15.02.2018 às 17:01

Descrente de Holocaustos?

Existe por aí uma Academia Histórica negacionista

The World Is Full of Holocaust Deniers
A new survey suggests that many Asians, Africans, Middle Easterners, young people, Muslims, and Hindus believe that facts about the genocide have been distorted.

https://www.google.pt/amp/s/www.theatlantic.com/amp/article/370870/
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De Anónimo a 15.02.2018 às 19:45

Negacionista?!
Não foi isso que eu escrevi.
É mais do género: não confirmo nem desminto.
E acha que não há razões para isso?!
Não sejamos ingénuos!
João de Brito
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:23

Nega que seja negacionista?
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:23

O vírus negacionista ainda por aí. Altamente contagioso, ao que garantem os médicos especialistas.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:22

Entre Hitler e Churchill o seu coração ainda hesita?
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De Sarin a 16.02.2018 às 17:47

O Estaline pode ficar com os dois, eu por mim voto no Franclim.
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De sampy a 15.02.2018 às 15:17

Duas notas:

- o escritor e sua esposa foram os primeiros a censurar os ditos opúsculos.

- à beira destes escritos, o livro do bigodinho não passa de um xarope para a tosse.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:24

Livros execráveis de autores admiráveis dariam para encher bibliotecas.
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De Luís Lavoura a 15.02.2018 às 15:55

Tanto quanto me apercebo deste post, não houve censura nenhuma. O Estado não proibiu a edição de nada. Houve apenas críticas à possível edição de uma obra e então o editor desistiu de a editar.
Tendo as críticas aparentemente cabimento, parece-me que a decisão do editor foi correta. Um editor deve abster-se de publicar certas coisas.
A França não é propriamente um expoente da liberdade mas, pelo menos neste caso, não houve censura nenhuma.
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De Sarin a 15.02.2018 às 17:29

A censura não começa e acaba no aparelho do Estado - excepto nos regimes totalitários.

Ao decidir não publicar algo - que não se refere a indivíduos reais, note-se! - porque pode ofender ou atacar a sensibilidade de um grupo, o editor mais não faz do que dizer ao leitor "eu não publico porque tu não sabes lidar com o que está escrito ou eu não sei lidar com as reacções que vou gerar".
Quem escreve quer partilhar, a decisão de aceitar a partilha é - ou devia ser - do leitor.

Que uma editora não estatal siga critérios económicos ou ideológicos é aceitável, quem define o seu modelo de negócio é a própria. Mas não foi o argumento, no caso.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 15:12

Claro; a censura não começa nem termina no Estado.
Hoje censura-se isto porque um determinado grupo de pressão se insurge, amanhã censura-se aquilo, depois censura-se muito mais.
E nunca falta gente a aplaudir o silenciamento nas suas diversas etapas.
Foi sempre assim no passado, continua a ser assim agora.
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De Luís Lavoura a 15.02.2018 às 18:23

Há algumas décadas, no nosso país, o célebre político Sá Carneiro vivia maritalmente com uma mulher, Snu Abecassis, sem no entanto ser casado com ela. Apesar de isso ser do conhecimento da generalidade dos jornalistas, nenhum escrevia isso nos jornais. Os jornalistas "auto-censuravam-se". Ou seja, abstinham-se de informar nos jornais coisas que, consideravam eles (e muito bem), deveriam permanecer privadas.
Fazer auto-censura não é o mesmo que haver censura. É simplesmente as pessoas terem o bom-gosto de perceber que certas coisas não devem ser publicadas.
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De Vlad, o Emborcador a 15.02.2018 às 19:43

A censura mais eficaz é aquela que não necessita de ser imposta.

Que se escreva tudo, de preferência bem alto
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De Maria Dulce Fernandes a 15.02.2018 às 19:59

Tudo a ver com a "interdição" da publicação obras literárias.
Acredito que não faça parte da geração de 70.
Bom senso e bom gosto é coisa que não lhe assiste.
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 00:25

Próprio de um 'troll' profissional.
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De Graça a 16.02.2018 às 15:05

Céline havia deixado ordens para que os panfletos não fossem editados.
A sua viúva, centenária, optou por ir contra a vontade do marido. O que me parece mal, claro.
Agora, censura... Não teremos aprendido nada?
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De Pedro Correia a 16.02.2018 às 15:10

Qual a alternativa? Proibir? Lançar para a fogueira?
Censura é o que aconteceu: um prestigiado grupo editorial como aconteceu com a Gallimard - que não é uma empresa de vão de escada nem de escabrosos nazis - planeia e anuncia o lançamento de uma edição crítica desses panfletos e no entanto os clamores das redes e dos poderes fácticos, conjugados, inviabilizam esse lançamento.
Há muitas formas de censura. Esta é uma delas.
Tornará os panfletos clandestinos que circulam por aí ainda mais cobiçados. O fruto proibido é o mais apetecido: esta é uma das lições que a história nos ensina.
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De Sarin a 16.02.2018 às 17:58

Os pintores pintam sobre as telas que renegam, os escultores amassam o barro já com formas que abominam, os escritores apagam até rasgarem as frases que não queriam criar.

A publicação é mera questão de ocasião.

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