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Delito de Opinião

Os neo-bustos

jpt, 07.02.26

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(Este é um dos textos que incluí na "Gazeta Semanal" do meu "O Pimentel")

Um amigo avisou-me que em Benfica no próximo 12 de Fevereiro será inaugurado este mural de homenagem aos Heróis do Mar, de autoria de Francisco Camilo.

Não gosto deste tipo de “arte urbana” - como agora se apresenta o que antes se dizia “street art”, a qual sempre considerei como apenas “street curio”. E já resmunguei com alguns dislates (ideológicos e não só) com que vão povoando Lisboa. No rumo figurativo destas “intervenções” vejo as versões actuais dessas estatuetas que abundam nas cidades e vilas portuguesas - de facto recônditas pois vão-se tornando invisíveis aos munícipes -, dedicadas a invocar vultos já tendencialmente incógnitos pois da “lei da morte” afinal “(não) se vão libertando”. Ou seja, estas novas obras são uns verdadeiros neo-bustos, com a característica peculiar - se positiva se negativa que cada um decida da sua preferência - de serem mais perecíveis.

Mas neste caso suspendo o meu pigarreio. Pois, se neste rumo de evocações laudatórias, parece-me muito apropriada a homenagem aos “Heróis"…”, um grupo que na década de 1980 teve enorme importância cultural, até maior do que a musical, naquilo de terem exigido e proporcionado o descomplexo nacional, o reencontro do país consigo próprio e a sua celebração, passada que fora a era do país pária.

E desejo que esta inauguração de mural possa ser preâmbulo de uma muito devida homenagem individual a Pedro Ayres de Magalhães - e isto sem qualquer demérito para os seus parceiros nos “Heróis do Mar”. Escrevi-o há anos, quando ele se tornou sexagenário: “é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar.” Homem reservado, independente, talvez até altivo, Magalhães segue sem uma corte, da qual desnecessita. Mas também sem a reverência pública que lhe é devida. E só há poucos meses, lendo um já velho livro que abandonara nas estantes sem o encetar, vi expressa uma visão similar: Pedro Rolo Duarte (no “Noites em Branco”, Oficina do Livro, 1999, pp. 181-183, reproduzindo um seu texto no “Diário de Notícias” de 1993) dizia o que me parece óbvio: “A importância de Pedro Ayres de Magalhães para a música portuguesa do pós-25 de Abril é idêntica à que teve José Afonso nas décadas de 60 e 70. Gostava que um dia alguém reconhecesse esse facto.” Eu sou mais radical do que foi - há três décadas - Rolo Duarte. Aqui mesmo escrevi há meses: “o português mais relevante - e não só na música - da minha geração é o Pedro Ayres de Magalhães, por razões que agora não desenvolvo mas sumarizo: na grandeza de si próprio, Homem que é, descomplexou este traste país. (…) Pois o Magalhães fez mais, foi português! E convocou-nos a nisso segui-lo, refez-nos.

E neste país que tem a mania das arengas post-mortem, dos gemidos in memoriam, será adequado que - pelo menos neste caso - a gente se reúna em memórias, sensibilidades, análises, improvisos e até desgarradas, em amálgamas contraditórias que surjam, e sopesemos o que o Magalhães nos tem sido. Nos é. E o enfrentemos, em convívio intelectual, e evidentemente musical, com os nossos vieses… Pois ele o merece.

(Porque vem a propósito: a RTP tem disponível uma entrevista a Magalhães feita por Rolo Duarte em 1997, seccionada em três partes - 123.)

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