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Os labirintos da memória

por Pedro Correia, em 11.10.14

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Não sei se convosco acontecem coisas destas. Na quinta-feira, quando soube que o escritor francês Patrick Modiano era o vencedor do Nobel, lembrei-me logo que tinha uma obra dele: Domingos de Agosto, editada pela D. Quixote, na sua efémera colecção de livros de bolso.

Ao chegar a casa, e como tenho a biblioteca arrumada, fui logo direito ao livro disposto a lê-lo nos próximos dias. Lá estava a anotação inicial: comprei-o a 27 de Maio de 2000 (certamente na Feira do Livro, por coincidir com a data). A surpresa aconteceu ao espreitar a última página, onde vinha outra inscrição: 11 de Junho de 2000. A data em que terminei de lê-lo, duas semanas depois de o ter comprado.

Lembro-me perfeitamente de livros que li muito antes deste. Acontece que nada retive desta obra. Nada mesmo. Irei (re)lê-la como se fosse a primeira vez. Certamente sem dificuldade, até porque só tem 160 páginas.

Gosto de sublinhar um livro que vou lendo. Quando isso não acontece é sinal inequívoco de que a leitura não está a impressionar-me. Folheio este exemplar e verifico: tem apenas dois sublinhados.

Um na página 33: «É da Primavera que eu tenho medo. Chega sempre como uma vaga de fundo, e eu pergunto-me sempre se não vou desequilibrar-me e sair borda fora.»

Outro na página 107: «Porque é que certas pessoas são como as pastilhas elásticas que em vão tentamos desprender dos saltos dos sapatos, esfragando-os na borda de um passeio?»

Foi uma leitura tão etérea que passou por mim sem deixar rasto. Ao contrário da pastilha elástica mencionada no parágrafo anterior. Já conhecia, portanto, Patrick Modiano. Mas na quinta-feira recebi a notícia do Nobel como se nunca me tivesse sido apresentado.


64 comentários

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De Carlos Cunha a 11.10.2014 às 13:05

fica-lhe bem reconhecer que tem esses lapsos literários, coisa que já se tinha notado e afinal acontece ao comum dos mortais, porque não acredito que adquira e leia livros à la professor martelo.
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 13:25

Obrigado pelo elogio. Mas o professor Marcelo lê certamente muito mais livros que eu.
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De rmg a 11.10.2014 às 16:29


Como o meu caro sabe (*) o francês é a minha 2ª língua materna, tenho milhares (pelo menos três) de livros franceses LIDOS nas prateleiras da casa de Lisboa e nas muitas mais prateleiras da casa que não é em Lisboa (onde o espaço é muito).

Leio em francês desde os 6 anos e já tenho 68 anos.
Nunca li nada deste senhor nem nunca me apeteceu ler nada, o simples folhear de um livro mais a leitura de algumas páginas dizem logo tudo.

Mas de repente está tudo entusiasmado com a atribuição do Nobel a um senhor que eles mal conheciam ou nem sequer conheciam na véspera mas que acham lindo falar dele como se tivessem tido sempre um livro do dito à cabeceira.

Como também sabe (*) sou melómano compulsivo e poucas coisas me dão mais gozo do que em determinadas ocasiões invocar "compositores" que acabo de inventar na altura : não só muita gente os conhece como alguns até têm discos dele (ainda que não se lembrem de quais, pudera!).

Lembrei-me disto agora, toda a gente o conhece bem e leu quase tudo do Modiano...

(*) Sabe bem porque já falei disso aqui mais de uma vez e "dei provas" , claro.
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 23:40

Esse passatempo de driblar algumas bempensâncias invocando a excelência de compositores que nunca existiram parece-me bem divertido, meu caro. Os "adesivos" que adoram proclamar conhecimento íntimo com a obra de escritores "nobelizados" que de todo desconhecem é um fenómeno que se repete ano após ano. Noutros tempos irritava-me, agora diverte-me. E quando são pretensos "críticos literários" que exibem tal pseudo-sabedoria colada com cuspo ainda me diverte mais. Alguns andam por aí em pose enfatuada dando gala da sua inesgotável ignorância.
O melhor mesmo é irmos sorrindo com estas coisas...
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De rmg a 12.10.2014 às 01:12


E é bem divertido, para mais sabendo essas bempensâncias que eu tenho "umas luzes", em particular na música clássica, mais ridículo se torna.
Mas nunca me desmanchei, primeiro porque não seria correcto, depois porque lá me estragavam o divertimento.

No caso da música barroca é muito fácil, basta ter alguns nomes italianos acabados em "ini" debaixo da língua e citar uns concertos para oboé ou flauta, nunca falha porque de facto foram muitos.

Poucas pessoas admitem que não sabem ou nunca ouviram falar, dizem assim umas vacuidades a puxar ao intelectual, é um problema de falta de confiança.
E no fundo era bem simples : não sei mas quero saber.

De facto o melhor é írmos sorrindo.
Ainda há 5 anos tivemos o fenómeno Herta Müller que, se não me falha a memória, só tinha um livro traduzido cá (nunca li nem tenciono ler, já não sou rapaz novo e tenho que fazer escolhas que eu ache inteligentes).
Por acaso (ou talvez não) as editoras tiveram o bom senso de ír a correr editar outros mas fazerem edições pequeninas.


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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 12:04

Meu caro: já me fez soltar uma boa gargalhada com esse seu "passatempo musical". Um verdadeiro achado!
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De André Benjamim a 11.10.2014 às 16:44

Também me aconteceu o mesmo, mas com outra obra. Um Circo que Passa, igualmente das Publicações Dom Quixote, mas da colecção «Ficção Universal». No meu caso, sei quando o comprei, mas não sei quando o li; sei que o li porque os livros que tenho e que ainda não li estão à parte. Estou agora a relê-lo. (No meu caso é quase impossível que um livro que me passe pelas mãos leve algum risco, ou dobra - quanto muito fica alguma folha ou marcador pelo meio). As primeiras páginas não me são estranhas, mas as primeiras e as últimas páginas são as que melhor memorizamos/recordamos (é o que dizem os estudos sobre Memória). Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 23:33

Desconhecia esses estudos sobre memória, André. É um tema que me apaixona, a memória. Sempre defendi que devemos fazer tudo para ajudar a nossa memória - e há imensas formas de concretizarmos esse objectivo nos mais diversos actos do quotidiano. Eu há muitos anos assinalo a lápis no fim de cada livro a data em que o li (e as datas em que o reli). E também, muitas vezes, o local em que terminei de o ler e a "estrela" com que o classifico.
Registo a coincidência de, no seu caso, também não ter guardado na memória a leitura de um livro de Modiano. Já somos dois, portanto.
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De André Benjamim a 12.10.2014 às 06:47

Falei da memória por causa da tradicional sentença da Academia Sueca que calhou ao Modiano, e por causa da coincidência de ambos termos lido um livro dele de que não nos recordamos - isso quererá, talvez, querer dizer qualquer coisa sobre a obra do autor... A verdade é que não procurei outras depois. Após nova leitura de algumas páginas, parece-me um escritor bastante competente, mas apenas. Enfim, uma única obra não dá para avaliar nada.

O Prémio Nobel de Literatura é injustamente criticado como um prémio literário; de facto, não é um prémio literário (ainda que mais ou menos, conforme a época, o comité se tenha aproximado ou afastado do critério literário). O Prémio Nobel de Literatura começa por ser uma má tradução do nome do prémio para português. É o Prémio Nobel "para" a área da Literatura; segundo a vontade de Alfred Nobel, seria um prémio para uma obra de carácter idealista, que pudesse contribuir para uma mudança para melhor no mundo, na vida, na sociedade... Bom (como diz o Marcelo), digo isto para dizer que, provavelmente, e sendo verdade o que investiguei sobre o autor e a sua obra, o Prémio para Modiano seja uma chamada de atenção, num momento em que na Europa veem ao de cimo anti-semitismos, antigos nacionalismos, e em que na Europa e no Mundo há «ocupações»...

(Quanto aos estudos sobre memória, assim é, recordamos melhor o início e o fim, seja do que for; normalmente melhor o início que o fim - se a minha memória dos estudos de Psicologia da Memória não me engana :-) )
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 12:11

Caro André: sublinha - e muito bem - que o significado original deste Nobel, como bem se percebe pela tradução literal da sua designação sueca, transcende aquilo a que costumamos chamar "literatura". Por isso noutros tempos historiadores, pensadores, filósofos e cientistas sociais foram também galardoados. Lembro-me de Bertrand Russell, Bergson, Sartre, Mommsen e até de Winston Churchill pela sua magnífica faceta de historiador. Essa saudável tradição perdeu-se e hoje o Nobel distingue apenas poetas e prosadores de ficção. É uma concepção redutora, que de algum modo afunilou este prémio.
Como acentua, um livro não basta para ajuizarmos a obra de um autor. Eu vou dar uma segunda oportunidade a Modiano, embora sem correr: limitar-me-ei a andar.
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De Anónimo a 12.10.2014 às 13:33

Muito obrigada pelo esclarecimento, André.
Por isto é que eu gosto de vir aqui ao Delito: estou sempre a aprender.
:-) Antonieta
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 20:41

Ainda bem que fala nisso André, porque acho que esse é exactamente o problema de muitas pessoas: não perceberem muito bem como é que funciona o Nobel. A Academia está perante escritores que possivelmente considera de qualidade equiparável e gosta de aproveitar o Prémio para passar mensagens. A escolha não é meramente a qualidade literária (embora esse seja um factor imprescindível). Alice Munro, sendo uma escritora de qualidade inquestionável, ganhou também por ser uma contista e por ser necessário fazer justiça a um estilo até então ignorado pela Academia.

E depois há a questão do processo de nomeação que muita gente desconhece. Noutro post publicado por aqui falava-se dos injustiçados, entre os quais Proust, que nunca foi nomeado pelas inúmeras entidades nomeadoras (muitas delas francesas e bastante diversas, desde instituições públicas, a professores de literatura, antigos Prémios Nobel, etc). Portanto, a questão não é assim tão linear.
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De Miguel a 13.10.2014 às 01:25

Eles podiam ter corrigido essa injustiça honrando o maior contista de sempre: Jorge Luis Borges; mas ele não transmitia a mensagem correcta, recebendo medalhas de Pinochet, apenas perfeição estética, e isso é secundário para a Academia. Nabokov, idem.
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 16:46

A lista é longa. Alguns dos excluídos são mencionados numa lista que culmina aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4865551.html
Tenho outra lista, que termina aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5223805.html
(hei-de colocar 'tags' autónomas nestes 200 'posts' para poderem ser consultados com mais facilidade)

Também considero Borges o melhor contista de sempre.
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De João Oliveira a 13.10.2014 às 21:24

Mas certamente que há autores que todos nós achamos que deveriam ter recebido o prémio e que não receberam. O que não é equivalente a dizer que quem recebeu o Prémio Nobel não o mereceu.

Acho sinceramente Miguel que não é correcto dizer que a perfeição estética é um elemento secundário para a Academia, porque para já estás a partir do princípio que o Borges é unanimemente considerado como perfeito, o que é polémico. Parece-me que as nossas opiniões pessoais ainda não têm força de lei. Mas se a Academia nas suas ponderações achou que não deveria premiar alguém que foi condecorado por Pinochet, está no seu direito, respeitando a parte do “ideal” que o André por aqui falou. Além disso é sabido que a Academia é avessa a imperativos, e escritores com o Borges e o Roth sofrem com isso, com o facto de a Academia raramente se sentir tentada a premiar quem toda a gente pensa que ela deve premiar.

E não podemos esquecer algo: a Academia pesa o impacto do prémio e não tenho dúvidas que entre dá-lo a um autor consagrado e lido em todo mundo, para quem o Nobel seria apenas uma coroa, ou a um autor que consideram ter a mesma qualidade e que é pouco conhecido, prefiram a 2ª opção, pela diferença que podem vir a fazer na divulgação da obra desse escritor. Mas pensar que a Academia dá prémios a autores que acha medianos não faz sentido nenhum.
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De rmg a 12.10.2014 às 21:45


Totalmente de acordo com a sua leitura da situação patente no fim do 2º parágrafo.
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De João Oliveira a 11.10.2014 às 19:43

Eu nunca tinha ouvido falar neste autor e vou hoje começar a ler o "No Café da Juventude Perdida" que consegui entretanto comprar. Confesso que estou optimista, mas não seria a primeira vez que não concordo com a Academia, embora não ponha em causa as suas opções.
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 23:44

Devemos dar sempre o benefício da dúvida, João. É uma questão de honestidade intelectual. Para podermos pronunciar-nos depois com conhecimento de causa.
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De João Oliveira a 11.10.2014 às 23:53

Sem dúvida Pedro. É exactamente essa a postura que faço questão de ter e que considero ser o dever de um blogger, sob pena de trair a confiança dos leitores. Não tenho pejo em dizer que não conheço um escritor ou que não li um livro, embora haja pessoas que achem que quem escreve sobre literatura tem de já ter lido tudo. Eu prefiro partilhar a viagem do que expor conhecimentos, como me parece também que é o seu caso.
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De Anónimo a 12.10.2014 às 09:14

Completamente de acordo, João!
Acho bizarro as pessoas não terem lido uma linha sequer e, ainda assim, discordarem.
Se eu não conhecesse o Modiano, só aquela foto do seu blog me faria querer lê-lo: quem se rodeia assim de livros tem de ter coisas interessantes para contar, digo eu.
Também gostaria que o Mia tivesse ganho, é um escritor e um ser humano (interior e exterior... eheh) que eu muito admiro.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 12:16

Eu continuarei a torcer pelo Rubem Fonseca. E pelo Amos Oz. E pelo John Carré. Três gigantes. Nenhum deles receberá o Nobel. Mas continuarei a dizer, ano após ano, que o merecem como poucos.
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De rmg a 12.10.2014 às 22:03


John LeCarré é um caso só por si.

Nenhum escritor conseguiu chegar tão longe na análise das grandezas e baixezas da natureza humana, sem pieguices nem grandiloquências, as mais das vezes vistas do ponto de vista de gente tão anónima (ou mais) que nós todos.
Por vezes tem-se a sensação de que aquilo, por mais improvável que a situação pareça, nos podia ter acontecido a nós bastando para isso estarmos no lugar errado na altura certa ou no lugar certo na altura errada.

E isto desde "Call for the dead" de 1961 e "A murder of quality" de 1962, só depois chegou em 1963 "O espião que saíu do frio", sem ceder a tentações fáceis ou comercialonas e sem perder qualidade nenhuma nunca, indo a todas as frentes mesmo que incomode muita gente.

"Um espião perfeito" é um livro extraordinário, talvez porque também tenha muito do autor dentro sendo, como é, um livro em grande parte autobiográfico.

Mas aqui entrará muito do que João Oliveira diz (e muito bem) acima e tem a ver com o processo de nomeação.
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 22:12

Sou de há muito admirador de John Le Carré. Bastaria 'Um Espião Perfeito' - para mim, um romance perfeito - para o imortalizar na história da literatura. Mas, claro, os académicos do Nobel encaram a obra dele como literatura "menor", como romances "de espionagem", e passam ao lado. Como passaram ao lado de um Graham Greene, por exemplo.
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 22:17

Confesso que li "Um Espião Perfeito" e não gostei nada.Vou dar outras oportunidade a Le Carré mas com muitas reservas. Enfim, nem todos podemos gostar de amarelo.
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 22:24

Espero escrever em breve sobre 'Um Espião Perfeito' na série 'Grandes Romances'. E justificar devidamente, nesse texto, a minha opinião sobre uma das obras que mais me impressionaram até hoje.
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 22:45

Apesar da discordância, lerei com atenção.
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De rmg a 13.10.2014 às 01:35


Gostar de LeCarré tem muito a ver também com o que fômos e a vida que vivemos (eu escrevi "também"!).

Quem teve toda a vida que lidar diáriamente com dezenas de pessoas e as "suas circunstâncias", muitas vezes perceber-lhes os anseios, as dúvidas e os medos e tentar resolvê-los, estará porventura numa situação bem diferente de quem viveu uma vida mais calma, menos "animada socialmente".

Talvez que a estes um bom momento de aventura e suspense saiba bem mas, como sabemos, não é disso que tratam os livros dele ainda que muita gente disso esteja convencida.

Se a isso juntarmos a tal questão da altura (certa ou errada) e do local (errado ou certo) onde algumas vezes tivemos que "dar a volta à vida", teremos os ingredientes suficientes para encontrar nos seus livros pessoas e situações que nos são bem familiares (às vezes até nos encontramos a nós).

Os meus filhos mais velhos (rapazes, 44 e 43 anos) são um exemplo disso.
Um sempre viveu no meio da confusão (pior que eu), o outro sempre trabalhou sózinho ou quase e isso reflecte-se no que gostaram e gostam de ler.
Não sou eu que o digo, são eles.

Claro que extrapolar a partir daqui é abusivo e sei que posso ser fácilmente acusado de facilitismo no concluír,no entanto é o que sinto ao lê-lo, algo do estilo "eu conheço este gajo aqui".
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De Anónimo a 13.10.2014 às 07:16

Do Le Carré eu destacaria A Casa da Rússia, que originou um belíssimo filme com o Sean Connery e a Michelle Pfeiffer, filmado em parte na nossa bela Lisboa.
Antonieta
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 20:01

Eu fiquei com muita vontade de ler Mia Couto depois de ter lido a entrevista dele ao Carlos Vaz Marques e já tenho o "Terra Sonâmbula" na minha lista de leituras a médio prazo. Com a sua eleição a Academia matava 2 coelhos duma cajadada: resolvia a sua dívida para com a língua portuguesa e os africanos. Enfim, foram por outro caminho, eles lá sabem. Já comecei a ler Modiano, um livro que a Lire considerou o melhor de 2007, e estou a achar interessante. Ainda sem condições de fazer comentários mais construídos, mas continuo optimista.
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 22:16

Julgo que o próximo Nobel da língua portuguesa beneficiará alguém das letras brasileiras. E não faltam alguns bons candidatos. Pena Jorge Amado, Erico Veríssimo, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade já não poderem ser contemplados.
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 22:22

Acho que essa possibilidade é forte, embora eu ache que não há nenhum escritor brasileiro neste momento com a projecção internacional do Mia Couto. O Ferreira Gullar (mais um autor que quero ler) tem alguma projecção e há uns anos houve a notícia que ele teria sido nomeado por um grupo de professores americanos, brasileiros e portugueses. Eu gosto muito do Rubem Fonseca, mas não sei se ele tem peso internacional.
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 22:33

Um país de 200 milhões de pessoas, só por si, justifica só por si atenção internacional aos seus escritores. A Índia e a China e o Japão e a Rússia já foram contemplados diversas vezes com Nobéis de literatura. E até países muito mais modestos do que o Brasil na própria América Latina, como o Chile (duas vezes), o Peru e a Guatemala.
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De Anónimo a 13.10.2014 às 08:22

Pedro, desculpe emendá-lo mas o Japão só teve 2: Kawabata e Oe.
A China também, sendo que um deles é cidadão francês.
Idem para a Índia (Tagore e Kipling) sendo um deles cidadão britânico.
Quanto ao resto estou completamente de acordo.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 16:36

Certo, Antonieta. A verdade no entanto é que, em comparação com os dois japoneses, os dois chineses, o indiano, os cinco russos e os dois sul-africanos, a ausência total de brasileiros é quase chocante. Sabendo nós que o Brasil teve escritores da craveira de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Drummond de Andrade, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.
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De rmg a 11.10.2014 às 20:24


Já agora, aqui vai o resumo do livro retirado da Wikipedia:

"C’est l’histoire de la cavale morne et douce d’un couple qui se planque dans une triste chambre meublée de Nice. Elle porte en pendentif un magnifique diamant « la croix du sud » dont on devine qu’il ne leur appartient pas et qu’ils vont devoir vendre pour poursuivre leur fuite. Au début du récit, on devine que la jeune femme a disparu. Lui semble avoir renoncé à la retrouver et tue le temps dans des promenades dans les rues de Nice durant lesquelles il retrouve le mari de Sylvia qui est maintenant camelot après une vie plus aisée. Après une tentative de dialogue ratée, le mari disparaît également.

Petit à petit, l’histoire se développe et apparaît un couple, les Neal, qui s’intéresse au bijou. La vente est presque réalisée mais la jeune femme disparaît avec eux : a-t-elle été enlevée ? S’est-elle enfuie volontairement. Les souvenirs s’égrènent et on apprend la rencontre du couple sur les bords de la Marne dans le décor des riches villas construites par les proxénètes et les trafiquants, l’apparition du diamant qui a une histoire mouvementée et trouble et le début de la fuite des deux amants."

Pois...
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 23:27

Este resumo (que lhe agradeço ter trazido aqui) explica, em boa parte, o motivo por que este livro não me deixou rasto na memória. Rien de rien.
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De rmg a 12.10.2014 às 00:55


Por isso mesmo o trouxe aqui, um tema de chacha (perdoe-se-me o eventual exagero,)que só seria um grande livro se estivesse extraordináriamente bem escrito.
Não será o caso, nem na terra dele lhe ligaram muito.

No entanto não me parece que possamos dissociar esta atribuição do prémio de outra circunstância, a saber, a notável quebra de qualidade geral da literatura francesa nos últimos 15 a 20 anos, pelo menos se comparada com a aura de que vinha gozando desde os fins do século XIX e que perdurou por todo o século XX.

Só para mostrar o contraste veja-se a pujança da literatura espanhola nesse mesmo período e a falta de atenção que tem tido destas gentes que atribuem o Nobel.

Com o Grande Prémio da Academia Francesa há 42 anos e o Goncourt há 36 anos só por desconhecimento destas lides é que se pode dizer que "é um autor premiado" pois isso já foi há imenso tempo quando medido "em livros publicados".

E sendo um autor traduzido para 30 línguas não é sequer um autor traduzido para inglês com frequência (e isso hoje em dia, goste-se ou não, é uma "marca").

Estava na altura de ser "um francês", foi este...
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De rmg a 12.10.2014 às 01:41


Em tempo.

Não esqueci Le Clézio.
Mas é um caso especial de "autor francês".
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De Anónimo a 12.10.2014 às 08:55

Rui, fico feliz por saber que gosta do Le Clézio, este sim, completamente desconhecido para mim até à atribuição do Nobel, e do qual já tenho e li 6 livros.
Outra descoberta Nobel foi o Orhan Pamuk.
:-) Antonieta
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De Anónimo a 12.10.2014 às 13:22

Caro rmg,
as minhas desculpas por lhe ter chamado Rui, não sei onde fui buscar a ideia, talvez num comentário anterior, sinceramente não sei...
Antonieta
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De rmg a 12.10.2014 às 21:42


Cara Antonieta, não tem nada que me pedir desculpa por me ter tratado pelo meu nome.
Fez muito bem e pode e deve continuar.

Não terá sido a um comentário anterior aqui mas foi decerto a um comentário anterior talvez no "fio de prumo", onde a nossa cara Drª Helena ficou uma vez na dúvida de como me tratar (Caro? Cara?) e eu optei logo por pôr RuiMG no fim do texto, até para facilitar a contextualização (gosto desta palavra!) do que eu ía escrevendo.
Como lá escrevo menos e menos vezes pareceu-me útil.

O problema aqui nunca se pôs pois ficou claro logo ao princípio que era "caro" (para quem me queria tratar assim pois também tenho levado bastante no côco – e por vezes merecidamente).

Daqui se deduz que é boa e atenta observadora.
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De Anónimo a 13.10.2014 às 06:52

Tem razão, Artur, foi mesmo no Fio de Prumo.
E ainda bem que não ficou aborrecido comigo.
:-) Antonieta
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De Anónimo a 12.10.2014 às 09:24

Caro Rui, com um resumo assim eu também não lia, razão pela qual não confio nada na wikipedia, especialmente a escrita em português.
Mas, para mim, a história não é o mais importante, é a forma como é contada, o que o escritor vai dizendo lá pelo meio que me pode tocar ou não.
Mas isto é a minha opinião, claro.
E agora fico à espera da opinião da (re)leitura do Pedro, e também da sua (que muito prezo) se resolver dar uma chance ao Patrick.
:-) Antonieta
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De rmg a 12.10.2014 às 13:16


Cara Antonieta

Mais logo acabamos a conversa, agora tenho que ír levar minha mulher a Lisboa e voltar para cá.
Como são 600 kms ida e volta ainda demoro um bocadinho.
Mas como é viagem que faço duas vezes por mês já nem ligo...

Agradeço a sua atenção.
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De rmg a 12.10.2014 às 14:07


Cara Antonieta

Como ainda tinha aqui uns minutos antes de ír ali almoçar junto lhe envio um link que acho útil nos tempos que correm, os deste Nobel:

http://lereseaumodiano.blogspot.pt/2011/11/dimanches-daout-presentation-du-roman.html

Pode ler aqui - entre outras coisas - o resumo "publicitário" da contracapa do livro que não me parece seja mais entusiasmante que a citação que fiz da Wikipedia e que é daqui:

http://fr.wikipedia.org/wiki/Dimanches_d'ao%C3%BBt

Como vê a página da Wikipedia é exclusivamente dedicada ao livro e não entra em considerações sobre o autor.

Mas se para tanto a Antonieta tiver pachorra podemos "trocar umas ideias sobre o assunto" pois não penso o mesmo sobre a Wikipedia: de facto é a única fonte de informação que permite o contraditório de qualquer pessoa à face da terra que ache que aquilo que lá está não é verdade.

Vai-se lá e emenda-se e fica-se depois sujeito a uma espécie de "peer review",
uma auto-regulação que permite um certo nível geral, muito facilitada pelo acesso instantâneo de todo e qualquer um à net.

Portanto para mim é mais "confiável" (nada o é em absoluto, claro) que qualquer artigo de opinião deste ou daquele, sempre condicionado por ideias , interesses ou preconceitos próprios que ninguém aparece a discutir porque a maior parte das vezes nem resposta leva.

PS- Vimos isto nos blogs, os autores pouco respondem ou até respondem de forma pouco simpática quando contrariados, afastando comentadores.
O Pedro Correia é uma das raras excepções (não é graxa, ele sabe!).


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De rmg a 12.10.2014 às 22:36


Não me parece que o vá ler e não é por má vontade com o Patrick e muito menos consigo...

Só que há que fazer opções e, nesta altura, estão algumas releituras na calha entre as quais os 3 volumes da "Trilogia de Karla" de John LeCarré (na realidade é a 3ª vez que a leio nos últimos 35 anos, comecei por lê-la em francês e agora é a 2ª vez que a vou ler no original).
Cada maluco sua mania.

E como as minhas leituras de fundo são relativas à 2ª Grande Guerra, pois estão lá todas as razões pelas quais o mundo chegou aqui e vai continuar por maus caminhos, para aí vai muito tempo e trabalho.

As coisas são o que são, dizía sempre Vítor Cunha Rego.
Não tenho nada contra a entrega do galardão a Modiano, que não conheço e portanto não posso julgar.
Apenas digo que se havia que escolher um e deixar 100 de fora, muitos outros
teriam mais razões e méritos para ser o "um" ("c'est mon avis (opinion) et je le partage",diría Mr. Prudhomme).

Mas isso não me impede de achar que o prémio tem um significado que devia ír muito além de nomeações e short lists, seja em que campo fôr.
Tendo eu formação técnica e sendo "economista auto-didacta" (somos todos, eu sei!) também acompanho a atribuição nas áreas das engenharias e das economias e o resultado final é muito semelhante.

Uma boa noite para si


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De Anónimo a 13.10.2014 às 07:28

Eu também leio tudo sobre a 2a guerra mundial, daí o querer ler o "Dora Bruder", mas prometo não falar mais no Modiano.
Quanto ao René-François-Armand (Sully) Prudhomme, li em Agosto o "Journal Intime" e o "Pensées".
Achei interessante ler o primeiro laureado mas não adorei.
Boas releituras, Artur!
:-) Antonieta
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De Maria Dulce Fernandes a 11.10.2014 às 22:01

Gosto de ler em francês, mas só BD ... é a única língua aceitável para ler BD a sério.
O Senhor do Nobel, cai no goto da minha ignorância. Admito que não conheço. Depois de ler o texto e os comentários, nem garanto que tenha grande vontade de conhecer.
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De Pedro Correia a 11.10.2014 às 23:24

Não há segunda oportunidade para uma primeira impressão, Dulce. E a minha, neste caso, não foi boa.
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De Anónimo a 12.10.2014 às 09:43

Olá, Maria Dulce!
Parafraseando o outro, eu diria: "Não negue à partida um autor que desconhece".
Já pensou que até pode gostar?
Caso contrário, fica a detestar com conhecimento de causa.
Depois dê notícias, ok?
:-) Antonieta

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De Maria Dulce Fernandes a 13.10.2014 às 00:01

Nem de propósito, Antonieta . Chegada do emprego, encontrei A Rua das Lojas Escuras, que o meu sobrinho me deixou ficar em casa. Pode não ser o melhor livro para uma primeira abordagem a um autor que desconheço, mas vou lê-lo sim. :):):)
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De Anónimo a 12.10.2014 às 08:49

Depois destes comentários até me sinto mal ao dizer que já conhecia o Modiano e que até já li três livros dele. Mas não admira pois compro há muito tempo duas revistas francesas: a Lire e a Magazine Littéraire.
Nas edições de Outubro (compradas em 26/09), ambas trazem notícias deste escritor:
A Lire um "extrait" do último livro: li, gostei e já encomendei.
A ML um artigo muito elogioso do Pierre Assouline sobre o mesmo livro, saído em 02/10 em França.
Em nenhuma das revistas li qualquer menção ao prémio Nobel.
Eu gosto do Modiano, embora tenha ficado surpreendida como todos
vós.
:-) Antonieta

p.s.: Pedro, não sei se sabe que saíu um Hors-Série do Le Monde dedicado ao Simenon, precisamente do Pierre Assouline. Talvez queira dar uma espreitadela...
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 12:01

Viva, Antonieta. Faz muito bem em expressar o seu conhecimento sobre o novíssimo Nobel da Literatura. Já eu, que li um livro dele, não posso dizer o mesmo porque o "omiti" da memória - algo em mim tão insólito que não resisti em partilhá-lo aqui.
Depois verifiquei que não fui o único.
Quem eu critico (e também nisto estou bem acompanhado) são aquelas pessoas, incluindo "críticos", que falam de autores e obras sem os conhecer. Este é um fenómeno bastante mais frequente do que por vezes julgamos...
Em tempos também fui leitor assíduo da 'Lire', o que me ajudava a andar a par dos acontecimentos editoriais em França. Sobrepuseram-se entretanto novos interesses, novos focos de atenção, e há vários anos não frequento essa revista que o grande Bernard Pivot ajudou a celebrizar.
A primeira impressão, como a minha (des)memória comprovou, não foi positiva. Mas tenciono dar uma segunda oportunidade a Modiano, até no âmbito deste nosso saudável "despique" literário a propósito de escritores galardoados com o Nobel. Um "despique" que já me levou este ano a ler pela primeira vez Pirandello, Oe, Andric, Cholokov, Kawabata e agora Naguib Mahfouz, de que estou a gostar muito.
Obrigado pela dica: a obra de Simenon tem para mim um interesse inesgotável.
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De Anónimo a 12.10.2014 às 19:06

Pedro, se puder, não deixe de ler o "Remise de Peine" (Éditions du Seuil, Janvier/88).
Reli-o hoje e gostei tanto como da primeira vez.
É um comovente e ternurento relato autobiográfico de quando Modiano e seu irmão Rudy (dois anos mais novo) foram deixados pelos pais em casa de uns amigos bem estranhos.
Embora ele não o refira, este livro é uma homenagem ao seu único irmão, que morreu aos 10 anos com leucemia.
Agora quero muito ler o "Dora Bruder", mas acho que vou esperar pela reedição portuguesa que não deve tardar.
Antonieta
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De Pedro Correia a 12.10.2014 às 22:18

Obrigado pelas dicas, Antonieta. E a propósito: já tenho o 'hors-série' do 'Le Monde' sobre Simenon.
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De cristof a 12.10.2014 às 12:05

O ano passado tinha ficado triste por ver que dos livros que li da AM havia alguns escritores portugueses melhores. A explicação do portavoz dos Nobel veio trazer-me mais conforto :
Por cada escritor que o comité escolhe existem muitos outros com enorme qualidade que ficam naturalmente frustados - mas só temos um premio para dar.
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De Miguel a 12.10.2014 às 16:34

"Por cada escritor que o comité escolhe existem muitos outros com enorme qualidade que ficam naturalmente frustados - mas só temos um premio para dar."

Mas em que é que isso o conforta? Os suecos estão a admitir que reconhecem a existência de escritores superiores, mas preferem dá-los aos medíocres. Se só têm um para dar por ano, a escolha devia ser cuidadosa e certeira.

Também nunca li Modiano, ainda que houvesse ouvido falar dele. As opiniões de conhecidos que o leram não foram nada encorajadoras. O consenso parece ser que escreveu um primeiro grande romance, mas depois decidiu apostar no convencional e repetir o mesmo livro um a seguir ao outro. Fui logo ler as primeiras páginas de um livro na Amazon e fiquei com a impressão de que é mais um daqueles escritores que há em demasia hoje em dia: escrita despojada, escorreita; frases curtas e declarativas, como telegramas, com pouca complexidade sintássica; vocabulário limitado, as habituais "2000 palavras" de que Mário de Carvalho se lamentava numa qualquer entrevista; ausência de metáforas, símiles e elegância estilística. Lobo Antunes não é de certeza. Em suma, literatura tão exuberante como um artigo de jornal.

Pois, não vou perder o meu tempo com ele.

De quem tenho pena é dos americanos, tanta qualidade por aquelas bandas, mas Roth, Pynchon, Gass, Theroux, Barth podem continuar a tirar o cavalinho da chuva enquanto os suecos não sofrerem uma radical mudança de preconceitos idiotas.
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De João Oliveira a 12.10.2014 às 20:30

Miguel, a Academia de maneira nenhuma reconheceu que há “escritores superiores, mas preferem dá-los aos medíocres”. A Academia disse sim algo que faz todo o sentido. Depois do processo de nomeações e das triagens que são feitas, chega-se a 5 finalistas e a Academia lê as obras desses 5 escritores. É de esperar que esses 5 finalistas sejam escritores bons, ou não chegariam àquela fase, portanto isso quer dizer que todos os anos há 4 escritores frustrados, pelo menos. Mas eles certamente escolherão aquele que consideram melhor ou, pelo menos, aquele que para eles faz mais sentido naquele momento.

Relativamente à questão do estilo e da escrita directa, acho que isso é sobrevalorizar a forma e mais uma vez considerar que escrever de maneira aparentemente simples não é algo trabalhoso. Publiquei no meu blog um texto sobre o Rentes de Carvalho escrito por uma amiga, que depois tive oportunidade de partilhar com ele, em que ela falava de forma elogiosa da simplicidade e naturalidade da escrita. Recebi depois um email do Rentes de Carvalho em que ele me dizia que tinha um pouco receio quando a sua escrita era mencionada dessa forma porque se pode confundir simplicidade com simplismo e não perceber o trabalho de depuração que aquela forma de escrita exige.

Pegando no Roth, que dos autores que mencionas foi o único que li, considero que a sua escrita até é bastante simples e ele foca-se sobretudo na história e nas mensagens que quer passar. Pelo menos foi a ideia com que fiquei dos 2 livros dele que li, a menos que ele noutros tenha optado por algo diferente (também há quem o acuse de andar sempre a escrever o mesmo livro).

Continuo a defender o princípio de que prefiro alguém que escreva de forma simples e tenha algo a dizer, do que quem escreve de forma elaborada e não tem conteúdo. A literatura não se pode resumir a questões de forma. De qualquer forma, um livro é um todo, e avaliá-lo com base em poucas páginas ou em sinopses parece-me injusto. Eu li Herta Müller convencido que ia ler algo do outro mundo, com base na sinopse, e acabei por ter uma experiência sofrível.
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De Miguel a 13.10.2014 às 01:23

Ah, João, lá estamos nós a encadear cornos outra vez :)

Se os suecos chegam a cinco finalistas e Kundera e Lobo Antunes estão lá mas são ignorados a favor de Modiano, ou nem chegam a essa selecção, então há algo de errado nas escolhas.

Sobre a forma, acho-a bastante importante; não podemos fingir que Flaubert, Joyce, Nabokov nunca existiram. Escrever não é só história, não é só mensagem, é também, é especialmente trabalho de linguagem. Para enviar mensagens há os correios. O escritor tem de ter uma visão, tem de preocupar-se com a estética. Eu gosto de um livro que me maravilhe com o inesperado da linguagem, gosto de jogos de palavras, trocadilhos, efeitos, ornamentos, gosto de metáforas frescas; os escritores têm o dever de trabalhar a linguagem.

Do Rentes de Carvalho nunca li nada, mas não me agrada que sempre que o leio sobre escrita e livros ele está sempre contra livros de 800 páginas. Só aí há uma cisma irreparável entre nós. Essa da depuração é bonita, mas faz-me pensar no Paulo Coelho há uns anos atrás, a vangloriar-se de que era melhor do que James Joyce porque explicava ideias complexas e difíceis com simplicidade. Pois eu duvido de ideias complexas e difíceis que possam ser explicadas com simplicidade e em poucas folhas. Às vezes os livros são grandes porque as ideias também o são.

O Roth é um dos meus escritores favoritos e já li quase tudo dele; é falso que escreva o mesmo livro; isso é conversa de gente ignorante: When She Was Good, Portnoy's Complaint, Our Gang, The Counterlife, The Great American Novel, Operation Shylock, The Plot Against America são completamente diferentes entre si, com temas e situações únicos: sátira política, drama realista, comédia, fantasia ocasionalmente, romance histórico. A década mais ecléctica dele é de longe os anos 70; lê tudo dela e diz-me se aquilo é o mesmo livro que anda a escrever. Agora é verdade que ele não se coaduna com o que escrevi anteriormente, nem Barth ou Pynchon para ser honesto, mas eles têm uma força de visão, uma forma tão única de olharem o mundo, que impõem à linguagem uma aura de frescura, verve e surpresa que não senti nos excertos de Modiano.
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De João Oliveira a 13.10.2014 às 21:53

Miguel, como se costuma dizer, só se discute com quem se respeita :)

Mas eu não disse que a forma não interessa. O que eu digo é que a forma não basta e quando tu dizes “é especialmente trabalho de linguagem” eu diria “é também trabalho de linguagem”. O teu erro, na minha opinião, é considerares que a escrita simples e despojada não é uma opção estilísitca. Eu encaro-a exactamente com um elemento da visão do escritor, que é para mim o central, como tu bem referiste. E por isso, para mim não há regras. Cada livro exige algo, como já te disse, pelo que não percebo que qualifiques como escritores sem qualidade Munro e Modiano só porque escolhem não escrever com frases enormes e palavreado rebuscado.

Agora, trazeres para uma conversa respeitável o nome do Paulo Coelho, isso já não me parece bem, e caíste na armadilha de confundir a simplicidade com o simplismo. A depuração trata-se do trabalho de artesão de escolher a frase perfeita, com as palavras certas, e não o “deixa-me lá trocar isto por miúdos”.
Quanto ao número de páginas, mantenho a minha opinião: às vezes um livro merece as 800 páginas que tem, às vezes não. Sim, as ideias por vezes são grandiosas e precisam de muito espaço. Mas diz-nos o bom senso que a realidade é que muitas vezes o que é grandioso é o ego e as ideias não são assim tão fantásticas. Quando obrigamos alguém a ler 800 páginas é bom que tenhamos algo a dizer de facto!

E terminamos com o Roth. Concordo absolutamente contigo. Era só para te mostrar como por vezes podemos ser injustos com escritores quando estamos com má vontade. Há quem argumente “ah, os livros dele são todos sobre homens, muitas vezes de meia-idade, com complexos sexuais, com personagens femininas secundárias” e obliteram tudo o resto. Eu li dois livros bem diferentes dele (“O Complexo de Portnoy” e o “Todo-o-Mundo”) mas que têm de facto elementos em comum, o que não leva a considerá-lo um escritor limitado. Por isso digo: gostemos ou não de um escritor (refiro-me aos que têm provas dadas), temos de ter também o distanciamento para percebermos que pode haver ali qualidade literária, mesmo que não seja aquilo que gostemos de ler.

Gostando tu do Roth, que é tão estilisticamente despojado como a Munro ou o Modiano, dizeres que não lês Modiano porque ele é estilisticamente despojado não me parece fazer muito sentido. Mas cada um lê o que quer, que nestas coisas da literatura já se sabe que o que há menos são regras.
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De Miguel a 14.10.2014 às 00:50

"Frases enormes e palavreado rebuscado."

Ah, vejo que já andaste a ler o capítulo ;)

Vários dos meus escritores favoritos sofrem desses dois males; a frase longa é essencialmente uma invenção do século XX: Proust, Joyce, Faulkner, Bernhard, Simon, Saramago, Lobo Antunes, McElroy, Bolãno, Krasznahorkai. Não digo que gosto de todos estes, mas há que reconhecer que a literatura moderna tem ido nesse sentido. E o léxico rebuscado só o parece porque as pessoas estão habituadas às "2000 palavras." Rebuscado muitas vezes esconde o motivo fulcral, que é a busca do nome exacto de cada coisa. Gostos dos escritores que combatem a praga da catacrese. Mas confesso que também admiro fãs de anterologia como Alexander Theroux.

"Quando obrigamos alguém a ler 800 páginas é bom que tenhamos algo a dizer de facto!"

Por falar no Theroux, acabei de ler o Darconville's Cat, que certamente não tem uma grande ideia ou até algo de importante ou interessante para dizer, mas di-lo com verve e originalidade, e com o mais rebuscado vocabulário com que alguma vez me deparei, pelo que as 700 páginas passaram depressa. É isso que me preocupa com as mensagens; às vezes não é tanto ter algo para dizer, como dizê-lo de uma forma fresca, diferente, original. É por isso que a forma importa muito. O prazer de ler não deve ser sobre descobrir uma qualquer mensagem, para isso actualizo a minha caixa de correio, mas no acto de ler simplesmente, ter uma experiência estética.

Quanto ao Roth, é terrível e injusto que digas que é tão despojado como Munro; para começar ele é muito mais imaginativo, já criou narrativas a volta de um cacho maior de conceitos e situações; para mais, há uma veia kafkiana nele, que dá à escrita dela, por mais realista que seja, uma nuance absurda, algo insana, muito deliciosa. Depois há o abjeccionismo na sua obra, uma crueza em mostrar as maiores perversões possíveis que não se encontra em Munro; não há dúvida de que anda a esforçar-se para chocar desde Portnoy's Complex, e com grande sucesso diria. Para mais, sendo o bom pós-modernista que é, a sua obra está cheia de jogos e rupturas, ele trabalha muito a estrutura dos romances e levou-o a sítios nunca antes vistos; com os livros de Nathan Zuckerman meteu-se numa brincadeira que borrou as linhas da ficção e da autobiografia, e com romances como Operation Shylock, onde um Roth ficcional é o protagonista, simplesmente rebenta com a divisão. E não nos esqueçamos do seu lado burlesco e auto-irónico, ele muitas vezes goza consigo mesmo dentro dos livros, sem medo de se mostrar vulnerável. Como estilista, ele pode favorecer a sobriedade do seu mestre, Henry James, mas a tal visão artística é intensa, fulgurante. O que ele trouxe de novo para o romance é quase inumerável.
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De João Oliveira a 14.10.2014 às 11:44

Não Miguel , ainda não consegui ler o capítulo ;) E jamais iria mandar indirectas, se já o tivesse lido.

Eu não tenho problemas com frases longos e palavreado rebuscado, tenho problemas sim que se defina um bom escritor como alguém que escreve dessa maneira. Os escritores podem ser bons de diferentes formas.

Temos uma postura absolutamente antagónica relativamente à literatura (e surpreendentemente temos alguns autores favoritos em comum). Para mim ver a literatura como uma experiência estética e o escritor como um tecnicista da palavra é redutor. É pouco. Isso é converter a escrita num acto meramente formal e transformar a escrita numa concha vazia. Parece-me ingénuo pensar que se pode escrever bem, sem se importar com aquilo sobre o que se escreve. Um escritor tem de ser mais do que isso. O Saramago é mais do que isso, o Roth é mais do que isso. Enfim, pode ser que nalguns casos resulte. No livro que eu li do Lobo Antunes não resultou certamente.

Quando falava de mensagem, referia-me ao que tu te referes como visão. Referia-me a suscitar algo no leitor.

Acho que Munro e Roth são mais parecidos do que aquilo que julgas, simplesmente os temas sobre os quais ela se debruça podem não te dizer tanto, mas isso não os torna menos prementes. Tanto um como o outro compensam o seu despojamento estilístico com a profundidade emocional com que constroem as suas personagens. Munro fala de coisas simples, de situações mundanas, de pessoas banais, mas quando a estás a ler parece que toda a vida conheceste aquelas pessoas e que tudo o que lhes diz respeito é imensamente interessante. E tudo isto em poucas páginas. E é por isso que ela é considerada com bastante unanimidade a melhor contista viva. E recebeu tantos prémios como o Roth. E é tão elogiada pela crítica como ele. E também por outros escritores.
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 16:11

Já passei por lá para registar a coincidência, Ana. E a simetria.

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