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Os hostels e o covid-19

por jpt, em 03.06.20

Hostel evacuado em Lisboa. 169 estrangeiros já foram transferidos ...

(testes de despistagem do covid-19 em albergue lisboeta, Abril de 2020)

No final da era confinada li várias notícias sobre testes de despistagem de covid-19 em "hostels" lisboetas com estrangeiros. Sempre desconfio quando vejo usar termos em língua estrangeiras em vez do português, não por nacionalismo bacoco mas porque é sempre forma de enganar o cidadão, forma-mor de aldrabismo (exemplo extremo será a generalização de "spread", cujos efeitos ainda estamos a pagar, e muito ...).

Na altura não compreendi bem o fenómeno. Ainda que tenha aflorado a assunto num texto longo sobre esta era, P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19", uma inutilidade pois não lido, mas que me serviu como catarse. 

Não os percebi pois julguei-os albergues (que é como se diz "hostels" quando não se é tonto) privados e dedicados a uma clientela de imigrantes pobres (legais ou não é indiferente). Assim uma versão "moderna", pois desligada dos empregadores, dos "compoundes", como se diz em Moçambique, celebrizados pelo tétrico alojamento de mineiros migrantes ali na vizinha África do Sul. Ou versão urbana dos contentores que as herdades alentejanas agora usam para alojar os nepaleses que ali aportam como mão-de-obra barata e ... calada. E também os presumi merecedores de visita de alguma ASAE da hotelaria ...

Mas afinal os tais "compoundes" não são exactamente (só) isso. Pois neles vivem, em condições pérfidas, imigrantes que requereram asilo e lá são colocados pelo Estado.

Este texto publicado no Público é muito interessante. Até pela linguagem, de relatório ("nós vimos que ...."), rara na imprensa portuguesa onde vigora a retórica "opinativa" ("eu acho que ..."). E é letal para os serviços estatais e autárquicos. Não apontando os seus mandantes, governantes e autarcas (viés típico do tal nosso "eu acho que ..."). Mas desnudando os sectores intermédios e baixos do funcionalismo público (pois ... "nós vimos que").

O que se passa no feixe dos organismos estatais envolvidos nesta questão é uma total vergonha - até contrária às intenções superiores. E é um problema dos serviços. Como dizem as autoras: "as diferentes instituições responsáveis pelo “sistema de asilo” continuaram a adotar hábitos endémicos de inoperância e sobranceria".

Será conveniente lembrar que essa "cultura" do funcionalismo público é transversal. Não universal. Mas recorrente. E é uma inimiga, vil. Não só dos desprotegidos estrangeiros. Mas de todos nós, do nosso desenvolvimento.


5 comentários

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De Vento a 03.06.2020 às 23:20

Estava a escrever um comentário e falhou-me o "teclado".

Dizia eu que o Covid é mesmo dos hostels, pertence aos basfond ou bas-fond. De quando em vez faz umas incursões ao "Studio 54" (https://www.youtube.com/watch?v=SuguvrpLffE) só para mostrar que não é um tipo preconceituoso.

Todavia é um gajo bem caçado pelo protagonismo que assume para justificar tudo, para o bem e para o mal, e desmontar o país da "Alice".
Mas não deixa de ser um moralista, pois não gostava das máscaras que se usavam e mandou todo mundo colocar umas semelhantes para não se diferenciarem. Farisaico, o bichinho. Faz-me lembrar algo.

Bem caçado, jpt. E sabe porque está bem caçado? Porque os ditos serviços, em suas sobrancerias, julgam-se agentes de esmola, mas dão à sola nos deveres.
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De jpt a 04.06.2020 às 09:27

Pois, quanto do que nós contestamos nos "políticos" se deve aos tais serviços. E, neste caso ainda mais, pois o problema radica, como bem aponta, em que se "julgam agentes de esmola". E não são.
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De Vorph "Girevoy" Valknut a 04.06.2020 às 10:32

Excelente postal
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De Anónimo a 04.06.2020 às 12:58

Se puser em vez de "hostel" pensão fica logo com a solução.

O Estado não tem onde alojar os requerentes de asilo e aluga pensões manhosas para os guardar. Os citados "hostels" são sobretudo na Almirante Reis em Lisboa, zona famosa pelas pensões que alugavam quartos à hora.

Parece que ninguém se lembrou que se tivessem mais funcionários a tratar dos pedidos de asilo, os processo seriam mais rápidos, e não seriam necessários tantos quartos alugados. Mas isso era contratar pessoal para a Função Pública e isso é tabu. Já gastar dinheiro em quartos e ter gente amontoada à custa do contribuinte não é.
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De Anónimo a 04.06.2020 às 19:19

Muito bom post. Sem dúvida do que melhor se tem escrito sobre este e outros casos semelhantes.
Não é em vão que JPT tem (temos) um saber de experiência feito, vivência de sobra no que respeita aos ditos "racismos", de todas as cores e feitos.
Mas, não vale a pena malhar em ferro frio.

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