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Delito de Opinião

Os fins e os meios

Romances e política II: A CONDIÇÃO HUMANA (1933)

Pedro Correia, 20.01.22

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Admirável cronista de algumas das revoluções do século XX, arquétipo do intelectual que nunca deixou de ser um homem envolvido nas grandes causas do seu tempo, André Malraux testemunhou a eclosão da guerrilha urbana numa China ainda sujeita às feitorias coloniais. Destas experiências surgiram duas das suas mais emblemáticas obras: Os ConquistadoresA Condição Humana, galardoada com o Prémio Goncourt.

Este romance, no essencial, é o vibrante relato de uma insurreição falhada - decretada em 1927 pelo Partido Comunista Chinês em Xangai e reprimida pelas forças nacionalistas do Kuomintang. Se saísse da pena de outro autor, poderia confinar-se a uma narrativa de aventuras. Mas aqui o que mais sobressai é o dilema de Tchen, jovem militante comunista. Vai cometer um homicídio, liquidando um adversário político adormecido num hotel da cidade, e sabe de antemão que não regressará moralmente ileso deste crime. Antes de erguer a faca, fere-se propositadamente, numa espécie de rito iniciático: como se, ao derramar o seu próprio sangue, tornasse menos reprovável o homicídio.

Uma linha muito ténue distingue a civilização da barbárie e o homem das espécies irracionais, que matam apenas por instinto de sobrevivência ou imperiosa necessidade de defesa. Tchen mata em cumprimento de ordens superiores, agindo de acordo com a suprema razão do partido - análoga à «razão de Estado» que tem levado tantos países a entrar em guerras. Isto sobrepõe-se à voz da consciência que nos induz em sentido oposto, mandando separar o homem da fera assassina.

É a eterna questão - jamais resolvida, como nos ensinam os compêndios de História - entre os fins e os meios. Importa «dar um sentido imediato ao indivíduo sem esperança e multiplicar os atentados, não por uma organização, mas por uma ideia: fazer renascer os mártires», considera Tchen. O revolucionário torna-se terrorista, cruzou uma decisiva fronteira moral na condição humana. 

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