Os debates televisivos

Fui docente durante 18 anos (um no então ensino secundário, os outros no ensino universitário). Gostei. Bastante. A única coisa que me desagradava era aquilo de proceder às avaliações (”dar notas”, como se diz no dialecto ideológico dos professores - não se “dá” nada, nem aulas nem notas, note-se bem isso).
Nessa tarefa de avaliador sempre me cingi a um valor fundamental: ser justo, o que decerto cumpri com imperfeições. Mas sem malícia. Para isso procurei seguir apenas dois mandamentos: 1) sopesar apenas a refracção alheia dos saberes que eu havia disponibilizado na disciplina em causa; 2) nunca privilegiar alguém - entenda-se, os “alunos preferidos”, que os há quase sempre, por razões múltiplas.
Dito isto, vejo nas redes sociais que há bastante gente com vertigem avaliadora, presumo que confundindo-a com qualquer estrado professoral. Pois pululam tipos que adoram “dar notas” aos contendores da corrida presidencial. A cada debate lá vêm eles, X a um, Y a outro. Mimetizando a mediocridade comentadora das emissões radiofónicas com que as estações televisivas vêm “enchendo chouriços” horas a fio (cenários pobres, duas ou três câmaras, uns gajos quaisquer a perorem sobre “debates”). E nisso, tal como os da tv, (quase) sempre privilegiando o seu “aluno preferido”.
Para o vulgar de Lineu é uma pobre forma de se imaginar participando na campanha, de “colar cartazes” como dantes se fazia militância. Mas assim maliciosa, pois quase nunca assumida. E, pior, é a reprodução de uma pobre percepção do que é a política (e neste caso a presidência), como se esta assente nas capacidades para um debate televisivo. Sim, eu sei que há 60 anos o NIxon muito transpirou no debate com o Kennedy e que dizem ter isso causado a sua derrota. Mas isso não justifica este generalizado disparate.
Ainda só vi 3 debates. Há pouco vi (em diferido) o de Cotrim - em quem votarei - com Marques Mendes. Este é um veterano da política e dos seus bastidores, e um experimentado especialista televisivo. Abriu investindo contra Cotrim - que não é um tosco, mas que se tinha posto a jeito, com a rábula das “pressões” sofridas -, em registo de “pressão alta” (em futebolês), tamanho que o adversário “foi às cordas” e até teve uma “contagem de protecção” (em boxês), quando balbuciou um atarantado “bom dia”...
Depois o debate lá se equilibrou um pouco, Cotrim evitou o KO mas perdeu aos pontos, claramente. Saiu amachucado. Há uma coisa que me irrita imenso entre as gentes da IL (e não só): é o hábito de usarem anglicismos - nas últimas eleições autárquicas quando vi anunciado um “Sunset” com Carlos Moedas estive quase a inflectir o meu voto para a CDU...
Mas agora, diante deste debate em que Cotrim foi menos hábil e ágil do que Marques Mendes, só me ocorre um “So what?...”.

