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Os críticos também se enganam

por Pedro Correia, em 28.12.19

500x500[7].jpg

 

A crítica influencia o público. Mas o público também pode influenciar a crítica – e de que maneira. Há um exemplo já considerado clássico no cinema – o de Psico, de Alfred Hitchcock. Quando se estreou, em 1960, os críticos de serviço nos Estados Unidos zurziram sem piedade esta longa-metragem atípica do mestre do suspense. «Uma mancha numa carreira honrosa», houve quem escrevesse. E não faltou quem comparasse esta obra-prima do cinema de terror a «um daqueles espectáculos de televisão feitos para preencher duas horas».

O New York Herald Tribune publicou uma das críticas mais ambíguas: «É bastante difícil divertirmo-nos com a forma que a insanidade mental pode assumir.» Podia estar a referir-se a Norman Bates, a personagem desempenhada pelo actor principal, Anthony Perkins. Mas também podia estar a referir-se ao próprio realizador.

O mais prestigiado crítico norte-americano dessa época, Bosley Crowther, não fugiu ao tom geral. «Horrível» – foi o termo severo que usou na sua análise à película, publicada em 17 de Julho de 1960 no New York Times.

Algum desses textos influenciou o público? Aparentemente, não. Psico foi um sucesso de bilheteira desde o primeiro instante. Não só nos Estados Unidos, mas também no Canadá, na América do Sul, na França, no Reino Unido e até no Japão. Tornou-se um dos filmes a preto e branco com mais lucro de sempre e fez de Hitchcock um multimilionário. 

 

O retorno das bilheteiras pareceu ter influenciado os críticos, que passaram a ver o filme com outros olhos. A revista Time, que na estreia acolhera Psico com palavras duras – «Hitchcock tem a mão demasiado pesada» – passou a chamar-lhe «superlativo». E até o exigente Crowther deu o braço a torcer, mencionando-o, no fim do ano, na sua lista dos dez melhores filmes de 1960. A obra era a mesma: só os olhos que a viam tinham mudado.

Assim se iniciava uma consagração canónica que chegou até hoje. Psico, a tal peliculazinha equiparável a uma série televisiva, figura em 18.º lugar na lista das cem melhores longas-metragens de sempre do Instituto do Filme Americano. Só outras duas se integram no género terror e figuram em lugares bem mais recuados: O Silêncio dos Inocentes (65.º) e Frankenstein (87.º).

 

500x500[4].jpg«Os filmes de Hitchcock lidam com o mal sob a forma de ganância, violência, ocorrências naturais destruidoras e guerra. (...) Em Psico não nos deparamos com um ou dois apontamentos de terror – o filme inteiro é construído em torno do terror», sublinha Philip Tallon no ensaio "Terror, Hitchcock e o Problema do Mal", inserido no livro A Filosofia Segundo Hitchcock (Estrela Polar, 2008).

Hoje pode escrever-se isto sem receio de contraditório. Por alturas da estreia, estas linhas arriscar-se-iam a ser ridicularizadas pelos mais exigentes críticos de cinema.

Nenhum deles tinha razão. O público é que estava certo. 


22 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 28.12.2019 às 11:38

A crítica muitas vezes tem o efeito oposto ao pretendido.
Quando uma obra é arrasada pela crítica, existe sempre a tendência de confirmar o porquê e muitas vezes regressa-se agradavelmente surpreendido. É como o Pedro diz, a obra é a mesma, o olhar é que é diferente.
Bom texto. Bom fim de semana.
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 21:09

Muitas vezes o público segue as críticas. Mas o contrário é muito mais frequente, embora não seja notícia: são os críticos quem se rende à evidência, sob a pressão do sucesso popular.
Isto acontece, em regra, por não querem ficar com má reputação futura. O exemplo que aqui trago parece-me ser bastante ilustrativo, cara Maria Dulce.
Bom domingo.
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De João Lisboa a 28.12.2019 às 12:13

E, embora o "veredicto do público" não seja garantia de coisa nenhuma (quantos "grandes êxitos" do passado não são, hoje, merecidamente ignorados?), os "enganos" só se tornam graves se - sendo, realmente, enganos - nunca forem admitidos. Ainda não há muito tempo me esbofeteei publicamente ao reler tolices antigas: https://lishbuna.blogspot.com/2019/10/limpar-o-po-aos-arquivos-lx-com.html e https://lishbuna.blogspot.com/2016/05/limpar-o-po-aos-arquivos-xxx-com.html. Mas, se não nos levarmos demasiado a sério, tudo tem cura.
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 21:11

Chama-se a isso honestidade intelectual, caro João.
Em correspondência directa com a sua frase final: «Se não nos levarmos demasiado a sério, tudo tem cura.»
Daria um magnífico pensamento da semana. Ou do mês. Ou até do ano.
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De Anonimus a 28.12.2019 às 12:53

Psycho recebeu más críticas (provavelmente) por ser algo de diferente. Como os críticos não reconheciam ou compreendiam o género, falaram mal.
Exorcista e Rosemary's baby, MVP do terror.
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 21:03

'A Semente do Diabo': supra-sumo do cinema de terror.
Gostei do filme, gostei do livro.
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ja-li-o-livro-e-vi-o-filme-34-8051432

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De António a 28.12.2019 às 17:06

Roger Ebert demorou mais 14 anos do que eu a chamar “Great Movie” a Blade Runner. E 2001 foi bastante incompreendido pela crítica do tempo.
Pela minha parte, só lamento não conseguir gostar do Citizen Kane, normalmente considerado pela crítica o melhor filme de sempre. E com a minha idade acho que já lá não vou.
Veremos o que diz o tempo sobre os dois últimos Avengers, que bateram recordes de audiência. A crítica tem batido forte e feio. Acho-os muito competentes e admiro mesmo a perícia dos directores na gestão de tantas personagens e linhas de acção.
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 21:01

Um célebre crítico torceu o nariz a 'Citizen Kane' por não ter uma só cena de perseguição de automóveis.
Esse crítico deve ter adorado 'Bullitt' ou 'French Connection'.
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De António a 29.12.2019 às 10:38

Cada coisa no seu lugar. Gosto muito de Terrence Malick mas não o vejo a dirigir o Baby Driver.
Eu nem sei o que poderiam incluír no Citizen Kane para eu gostar. Provavelmente o defeito é meu, o filme é mesmo empolgante, e tenho pena de não encontrar beleza onde tantos encontram.
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De Iosé Maxymiano Machado a 29.12.2019 às 20:14

Tambéme tivemos em Portugal filmes zurzidos pela chamada crítica que após receberem prémios em diversos festivais refizeram a mesma chamando-lhes uma abordagem mas densa....lololol
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De Anónimo a 28.12.2019 às 19:50

"A crítica serve para dar de comer aos críticos " ...
Jorge Luís Borges.



JSP
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 21:00

É uma frase muito sugestiva. E verdadeira. Embora muitos escritores e cineastas, por exemplo, tenham começado por ser críticos.
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De Anonimus a 28.12.2019 às 19:57

Os títulos em brasileiro são TOP!

(Tubarão tb está no top 100)

Faltam-me alguns. Ver e rever.
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De Pedro Correia a 28.12.2019 às 20:58

Fui conferir agora: dos primeiros 50 só não vi 'Nascimento de uma Nação', que figura no 44.º lugar.
Alguns dos títulos brasileiros são simplesmente caricatos. Um exemplo: 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa' foi o nome que atribuíram a 'Annie Hall'.
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De Pedro Correia a 29.12.2019 às 20:16

Irmanam com 'A Noviça Rebelde' (Música no Coração) e 'O Poderoso Chefão' (O Padrinho).
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De Luís Lavoura a 29.12.2019 às 09:09

O público é que estava certo.

Há quem diga que José Rodrigues dos Santos é o mais lido escritor português. É sem dúvida um bom escritor, porque o público é que está certo.
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De Pedro Correia a 29.12.2019 às 09:25

«Estar certo» é pronunciar-se sobre aquilo que se ignora. Como parece ser o seu caso.
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De s o s a 30.12.2019 às 00:00

é uma boa historia.

Para compreender melhor o mecanismo, fico agora á espera de uma historia em que o publico é que nao esteve certo.



Boas entradas e bom ano !
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De Pedro Correia a 30.12.2019 às 09:00

Não é história: são factos.

Boas entradas, bom ano - para si também.
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De sampy a 30.12.2019 às 21:59

Bem, não foram apenas os críticos.

A produtora também não acreditou no projecto, impondo um financiamento reduzido (que Hitchcock tratou de assumir como desafio pessoal). Esperando um valente fracasso, a Paramount aceitou alegremente ceder ao realizador a maioria das receitas de bilheteira em vez de lhe pagar o salário (a troca revelou-se tremendamente benéfica para Hitchcock). Para se protegerem, exigiram a inserção da (enormemente contestada) cena com a explicação do psiquiatra. No término das filmagens, Hitchcock já se tinha mudado para a Universal.

O próprio Hitchcock sentiu-se desapontado com as primeiras provas do filme e chegou a considerar editá-lo para o passar na televisão apenas. Só quando teve oportunidade de o visionar com a banda sonora de Herrmann é que se sentiu bem mais confiante. Mais tarde admitirá que a banda sonora valeu pelo menos um terço do sucesso do filme.

Quanto ao público, para lá das múltiplas técnicas de condução/manipulação da plateia a que Hitchcock recorre durante o filme com a sua característica maestria, ele foi também "vítima" de uma série de truques publicitários e de marketing em torno das projecções que, se hoje aparentam ser corriqueiros e ingénuos, na altura surgiram como deveras inovadores e eficazes.
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De Pedro Correia a 31.12.2019 às 21:02

Grato pelo contexto que ajudou a descrever. Bom ano novo.

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