Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Os beijos dos mais-velhos

jpt, 18.10.18

14584155_gLNSv.jpeg

(Escola Portuguesa de Moçambique, Maputo)

 

 

1. Esta historieta que corre em Portugal lembra-nos, cá em casa, um episódio. Em Março de 2010 Sócrates visitou Moçambique. Em época tão avançada do seu poder só os Santos Silva, Vieira da Silva, Leitão Marques e quejandos, mais os seus propagandistas a la blog Jugular ou Eixo do Mal, secundados pela mole de aficionados deficientes cívicos, podiam ainda negar o quão corrupto e corruptor do país o energúmeno seguia, e o quão abjectos eram os apparatchiki, essa rede clientelar que hoje de novo tanto se (ka)move no poder.

Nessa ida a Maputo Sócrates, como é da praxe ali, visitou a Escola Portuguesa, onde estudava a minha filha, então com 7 anos. Lá enfileiraram as criancinhas para a recepção a Sua Excelência, como sempre se faz. Por coincidência o escroque avançou para o ror de petizes e pediu à nossa Carolina e à colega que a ladeava "dão-me um beijinho?". Conta ela ainda hoje "eu lembrei-me do mal que dele dizias e tive medo". Mas, claro, nos seus 7 anos não teve a autonomia para se esquivar, e creio que até sentiu a excitação do falso brilho do poder, pois "o nem tudo o que reluz é ouro" é algo que se aprende mais tarde.
À noite, em casa, irei-me ao saber da história. Quis ir à escola reclamar, escrever para o ministério, que direito tinha a equipa docente em expor a minha filha a tão pernicioso e indecente contacto.? "Não vale a pena", foi a derrotada conclusão a que cheguei. Pois parte dos funcionários lambuza(va)m-se com o imundo, a outra tinha medo. Chamando-lhe respeito. Seria envolver, ainda que indirectamente, a minha filha no asco pelo governo e seus apoiantes. Semeando até, quiçá, antipatia entre o corpo docente.

Mas lá está, há que controlar os contactos físicos dos mais-velhos com as crianças, não as obrigar ao indesejado, ao temido, ao naturalmente repugnante.

 

2. O professor Daniel Cardoso que tantos nas redes sociais agora gozam e insultam não disse nada demais. Os pais medianamente informados e sensíveis educam os filhos a ser polidos - ou seja, pulem os filhos, adequam a sua autonomia a regras sociais. O professor, que tal como tantos outros colegas, bota Foucault a torto e a direito (pelo menos na tv) - não é nada de especial, no meu tempo era o Althusser, daqui a uma década será outro - esquece-se um bocado disso, que a "autonomia" desses monstros egocêntricos que são as crianças é burilada por nós, mais-velhos. Mas ao polirmos os filhos não devemos rasgar-lhes essa liberdade decisória.

E nisso da sua gestão dos beijos e outros contactos físicos com os mais-velhos, e os algo externos ao núcleo da família elementar. Quando fui criança era muito mais usual que gente da parentela ou amigos de pais ou avós nos beijassem, beliscassem as faces, acariciassem a cabeça. Coisas de carinho, sem a malícia que hoje em tudo se coloca, pela actual sobre-erotização da vida.

Tal como refere o professor educámos a nossa filha sem nunca a obrigar a beijar ou abraçar. Cumprimentar e agradecer sim, é uma regra. Contacto físico não, é uma decisão. E quantas vezes se recusou a beijar adultos, até próximos, por desconforto ou timidez (mas não por humores, por "birra", que isso é coisa diferente e não aceitável). E no ambiente actual, em que a consciência educada é diferente das vigentes nas anteriores gerações, também as pessoas não impõem às crianças esse contacto. "Dás-me depois" ouvi tantas vezes dizer. A mim acontecia-me isso com as minhas sobrinhas-netas, eu chegado a Lisboa uma ou duas vezes por ano, gordo, encanecido, barbudo, fedor a tabaco entranhado. Elas beijavam a minha mulher, abraçavam a prima, não me beijavam. Viam o carinho de mana mais-velha que a sua avó me dava, o relativo apreço das suas mães para comigo, mas nem isso as convencia. E ficou como nosso código, ainda hoje aos quase 10 anos risonhamente jogam essa negação de me beijarem.

O que nós, pais, fazemos é induzir a extroversão, aquilo de que o corpo não é um cofre, combater os medos e a excessiva timidez: cuidado com as festinhas aos gatos que são erráticos, atenção aos cães, os quais se podem acariciar desde que os conheçamos, se se pode ou deve (no sentido de "ficar bem", ser "gentil") beijar fulano - e quantas vezes a minha pequenina filha me olhou indagando se devia ou não beijar alguém, esperando um aceno ou um encolher de ombros quase imperceptível, consoante o caso. Tal como, depois, mais crescidos, a questão tão portuguesa do tratamento, na segunda ou terceira pessoa (complicado código), onde a regra de oiro cá de casa foi "não tratas ninguém por tio, a não ser os tios mesmo ...", que não há paciência para estes patetas arrivistas de agora.

Ou seja, o professor não disse nada de errado. Como todos os de bom senso e educação percebem. Daniel Cardoso está a ser canibalizado por uma enxurrada de imbecis, mal-educados ainda por cima. Principalmente por razões sociológicas, pois o homem não é "Lisboa", notório até nisso de ir à plateia do "Prós e Contras" para botar opinião, coisa mais "Preço Certo" do que "Quadratura do Círculo" na indústria de entretenimento. E os blasés não lhe perdoam o aparente berço, visível no sotaque, no léxico e na en-to-a-ção. Os blasés gostam da desenvoltura televisiva do Marques Lopes ou da Clara Ferreira Alves ("aqui no programa só nos enganámos numa coisa - 4 de nós 5 -, sempre acreditámos que havia uma campanha da direita contra Sócrates", vi há dias a referida indivíduo, num trecho de youtube partilhado no facebook, sem mostrar qualquer vergonha e com toda a fluidez televisiva e sotaque lisboeta. E toda a gente acha elegante ... a ninguém apetece lapidar este "avençadismo"), mas detestam berços diferentes, a não ser que sejam patuscos objectos etnográficos, "emplastros" risíveis.

E depois há as razões moralistas, moralistóides. O professor é um tipo sui generis (conversando entre amigos eu diria "uma ave rara") e mostra-o. E depois? Não parece um forcado da Chamusca ou o terceira-linha do CDUL. E depois? Mostra que vive com várias mulheres. E depois? É um bocado piroso naquilo do "poliamoroso"? É, mas nem sequer é particularmente novidade (que tal a gente ler sobre os anos 60s? ou ouvir a música e ver os filmes?). E a quantidade de gente que tem vários casos, ou que vai aos "profissionais do sexo" (é a expressão agora correcta, mas eu recuso-me a abandonar o masculino universal, como os patetas actuais fazem)? Faz fotografia erótica? E depois? Não há tantos facebuqueiros que fotografam ocasos e lhes chamam "sunset", há coisa mais indigente do que isso? Não há tantos luxuriosos que fotografam os camarões que comem, há menoridade estética maior do que essa?

Porquê este meu lençol, irritado? Porque me fartei de ver gente a botar coisas estúpidas sobre o homem, de gente obtusa. E perversa, uma perversão explicitada nas críticas ao facto de Daniel Cardoso ser professor, de ataques à empresa onde ele trabalha. Não conhecem o conteúdo do trabalho dele, as capacidades que tem. Mas põem-lhe, só para botar mais um "post" (como, rastejantes ignorantes iletrados, chamam aos postais), em causa o emprego, até o direito ao trabalho. Eu não conheço o homem mas espero bem que a sua universidade saiba defendê-lo, saiba garantir a sua imagem pública afirmando a pertinência dos seus critérios de recrutamento. Apoiando-o. E menosprezando a torpeza desta mole de morcões ululantes.

 

8 comentários

  • Imagem de perfil

    jpt 18.10.2018

    Considera (ou acha, consoante o que apanhou do caso) que a opinião é uma imbecilidade. Enquadra-se assim no âmbito dos opinadores, dos intépretes.
    Os que daí saem para o teclado e afins dizer que o homem não pode ser professor, que é uma vergonha, que lhe publicam fotos e com isso gozam e sublinhando a inadmissibilidade laboral e a incúria do empregador: enquadram-se na categorias de ogres javardos
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 18.10.2018

    Não sei de quê o senhor é professor.
    A opinião dele quanto a beijinhos, enquanto encarregado de educação, espero que mantenha privada.
    Mas ele disse uma coisa que me deixou preocupado (sabendo agora que lecciona), ainda que não espantado.
    Porém, ele disse algo interessante: fez uma extrapolação para uma conclusão (curiosamente, bate certo com o que pensa), baseada na amostra que conhece. Ora isso é algo que é completamente contra o método científico, o que é deveras preocupante falando de um educador.
  • Imagem de perfil

    jpt 18.10.2018

    Não é, mesmo nada, contra o método científico. Mais, como educador (coisa que de facto não é, é um professor universitário e, presume-se, investigador) não estaria algemado ao método científico. As pessoas não têm que ter conhecimentos sobre todos os assuntos, é-nos impossível. E podemos ter indignações e repúdios por razões estéticas, morais, sensitivas ou até indescritíveis (eu e o Galamba, por exemplo). Mas quando as queremos fundamentar com argumentos substantivos, porque achamos que é necessário,conviria perceber um pouco do conteúdo desses argumentos. E há livros disponíveis, até "introduções" ... (menos ao Galamba, claro)
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 18.10.2018

    Não é um educador? Bem...

    Quanto ao que ele fez, é totalmente contra todas as regras investigação científica. Quero provar algo, arranjo um grupo, este grupo comprova a minha teoria, logo ela está certa. Se isto não é perigoso...
    Isso é táctica de rede social, de pessoas que se juntam de quem pensa igual a elas (algo natural), e que extrapolam para uma realidade em que a maioria pensa como tal. É por estas que os "Trumps" são eleitos e a malta fica espantada, é que segundo as suas "sondagens", aqueles tinham menos de 1% dos votos.
    Posso arranjar, eu, um grupo de pessoas que fumou toda a vida, e nunca teve problemas pulmonares. Para provar a minha teoria de que o tabaco não provoca problemas nos pulmões.
  • Imagem de perfil

    jpt 18.10.2018

    Eu aqui não posso nem quero contrapor: você leu o trabalho dele e eu não li, como tal as suas críticas metodológicas têm muito mais autoridade do que qualquer "achar" meu. Mas, se me permite, eu não estou a falar do trabalho dele. O que eu digo é algo completamente diferente. Se o homem é incompetente os "pares" (palavra tétrica, eu sei) que o desmontem (e você também, pois conhecedor do trabalho). Não pessoas que viram um péssimo programa de televisão (ou brevíssimos excertos de um péssimo programa de televisão) no qual o homem disse coisas de que não gostaram (tais como não obriguem os putos a beijarem porque isso lhes constrange a autonomia; ou porque vive com um harém de messalinas e a gente não gosta disso ..). É assim tão estranho distinguir as coisas?
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 18.10.2018

    Eu não estou a falar do trabalho dele. Estou a falar do que ele disse na Televisão (e nessa altura, nem sabia quem ele era, ou o que fazia).
    Quanto à parte da resistência aos beijinhos, é lá a opinião dele. Acho uma estupidez, mas adiante.
    Mas ele seguiu com uma intervenção em que diz que tem uma turma de 50 alunos que acham que o homem viola a mulher porque naturalmente não se controla, e extrapola para uma relação causa-efeito entre esses 50 terem sido obrigados a receber beijinho do avô e portanto desvalorizarem a privacidade íntima.
    É a típica metodologia de, quero provar algo, logo vou arranjar um exemplo que comprove.
    Eu também posso ir a um pros e contras e dizer que conheço 20 pretos que foram presos porque assaltaram lojas, e 20 brancos que nunca cometeram um crime. O que prova que os pretos são ladrões e os brancos honestos.
    Se não vê nada de errado nisso...
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 19.10.2018

    Essa do preto faz lembrar JÔ :
    Quando um branco corre na calçada, dizem : Atleta.
    Se for um preto : Ladrão.
    Essa história dos beijos aos avós não tem pés nem cabeça. Agora, cumprimentar o Sócrates com um beijinho é violência.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.