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Delito de Opinião

O único poder dos jornalistas

Pedro Correia, 20.12.21

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9 de Novembro de 1989: a histórica conferência de imprensa em Berlim-Leste

 

Morreu há dias, com 92 anos, um jornalista que protagonizou um acontecimento capital do século XX. Riccardo Ehrman, italiano de origem polaca, trabalhava em 1989 como correspondente da Ansa em Berlim-Leste. No dia 9 de Novembro, numa conferência de imprensa, o porta-voz do então governo comunista, Günter Schabowski, anunciou a iminente publicação de uma lei destinada a facilitar a circulação rumo à metade ocidental da cidade. Ehrman fez então a pergunta que se impunha: «Quando entram em vigor as novas normas?» A resposta, algo atabalhoada do funcionário governamental, acelerou os acontecimentos: «Pelo que sei... entram já.» Foi quanto bastou para derrubar o Muro da Vergonha, erguido 28 anos antes

O jornalista rumou de imediato à sede da delegação da agência noticiosa italiana e escreveu num telex com prioridade máxima: «O Muro caiu.»

Fazia-se História. Com agá maiúsculo. 

 

Sabe-se hoje que o porta-voz, involuntariamente, induziu os jornalistas em erro. Não havia ordem formal para abrir a fronteira e permitir enfim a livre circulação entre os habitantes da Alemanha ocupada pelos soviéticos e a parte da cidade que havia ficado sob tutela militar norte-americana, francesa e britânica em 1945. Mas a pressão dos berlinenses cansados de décadas de opressão que logo acorreram em massa aos postos fronteiriços fez ruir na prática uma barreira que ainda não havia sido derrubada por decisão política. 

Ehrman trocou em 1991 Berlim por Madrid, onde chefiou a delegação da agência até se aposentar e ali se radicou até ao fim da vida. Certamente orgulhoso de ter cumprido a sua obrigação profissional naquele dia inesquecível. Assumindo o único verdadeiro poder de um jornalista: o de fazer perguntas.

Esqueçam as tretas do "quarto poder": não existe nenhum outro.

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