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Uma frase:

8 de Setembro de 2016 “Sou o saloio de Mação, com créditos hipotecários, que tem de trabalhar para os pagar, que não tem dinheiro em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos e, até desse ponto de vista, que não tem amigos”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pelo caso que envolve José Sócrates

SIC

8 de Setembro de 2016

 

Um post:

A rentrée de Filipe Nunes Vicente, autor sempre atento, sempre lúcido.

 

A semana

Domingo, 4 de Setembro de 2016

A CDU, partido democrata-cristão da chanceler Angela Merkel, sofreu uma derrota estrondosa no pequeno estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, ficando em terceiro lugar na votação, atrás da Alternativa para a Alemanha, AfD, partido de protesto que está a conquistar largas fatias dos eleitores da direita. Esta formação é recente, começou por ser anti-euro, mas adoptou um discurso anti-imigração que, no último ano, fez triplicar as suas intenções de voto em todo o País. Em Outubro deverá entrar no Bundestag. As sondagens mostram que desde Setembro do ano passado a CDU sofre uma sangria de eleitores a favor da AfD. Isso já era motivo para críticas em voz baixa à actuação da chanceler, sobretudo em relação à imigração, mas as eleições de domingo desencadearam uma discussão mais acesa e há quem se interrogue sobre o futuro da líder alemã. As eleições federais serão em Outubro do próximo ano e Merkel ainda não anunciou se vai tentar um quarto mandato. Este é mais um dado da complexa situação das incertezas ocidentais.

 

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

O calendário político do próximo ano será no mínimo alucinante, com a ascensão das diversas rebeliões populistas. Há incógnitas em relação às eleições americanas de Novembro e espera-se turbulência nos mercados, sobretudo se Donald Trump subir nas sondagens. A incerteza estende-se aos principais países europeus: a Itália está sob ameaça de uma crise financeira e o governo de Matteo Renzi pode não resistir a um referendo dentro de semanas; a Espanha terá provavelmente a terceira eleição consecutiva em Dezembro, com a possibilidade de novo impasse; em França, aproxima-se o período eleitoral e perfilam-se várias candidaturas populistas; na Holanda, a direita anti-imigração quer referendar a Europa se vencer as eleições de 2017. Os próximos meses terão muitas oportunidades para dúvidas existenciais, nomeadamente a negociação do terceiro resgate da Grécia e o lançamento das negociações do Brexit, algures no início do próximo ano. Estes são apenas riscos políticos, pois no meio de tudo isto há bancos em dificuldades, nervosismo nas bolsas, aumento dos preços de petróleo e os imponderáveis do costume, da Turquia a Vladimir Putin, passando pelos horrores terroristas do Estado Islâmico.

 

 

Terça-feira, 6 de Setembro de 2016

Nos últimos dez dias, a candidatura de Donald Trump recuperou algum do terreno que perdera para Hillary Clinton e a eleição de Novembro nos EUA pode não ser, para os democratas, um passeio tão fácil como parecia no final de Agosto. Não há explicação convincente para esta subida de Trump (ela pode não se manter), mas o facto é que Estados que pareciam ganhos para Clinton estão de novo empatados. As grandes batalhas serão travadas no Ohio, Flórida, Carolina do Norte e Virgínia, em zonas onde mais se notam as grandes divisões da sociedade americana, mas o empate parece estar a estender-se a outros Estados que pareciam seguros para Hillary, como Pensilvânia e Geórgia. Os dois candidatos geram reacções de rejeição de partes do eleitorado, mas Hillary não consegue impedir que o seu ponto mais forte, a experiência, se transforme em acusações de elitismo e de erros. Trump tem feito uma campanha baseada na demagogia e na mentira, mas a sua mensagem de declínio da América convenceu muitos eleitores que desconfiam do Governo. Dois Estados podem ser decisivos, Flórida e Ohio, onde a desvantagem de Trump desapareceu por completo em poucos dias. Vêm aí os debates, serão momentos cruciais.

 

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

As dificuldades financeiras de Portugal têm sido discutidas nas trincheiras ideológicas, o que talvez explique o impacto desproporcionado de artigos estrangeiros que tocam no assunto. Foi o caso de um texto do Financial Times, assinado pelo editor de política europeia do influente diário, Tone Barber, que traça um retrato preocupante e admite a possibilidade de caminharmos para o segundo resgate. O autor considera que “Portugal está no centro de uma tempestade perfeita de fraco crescimento económico, queda de investimento, baixa competitividade, défices orçamentais persistentes e um sector bancário sub-capitalizado que possui muita da dívida pública do país”.

O jornal britânico afirma em letra grossa o que já antes tinha sido dito em voz mais baixa por instituições financeiras internacionais. As reformas estruturais não foram concluídas, algumas foram revertidas, e as compras de dívida portuguesa pelo BCE dependem de uma agência de notação canadiana, a DBRS, que em Outubro pode remeter para o lixo a dívida portuguesa. Se essa alteração ocorresse, Portugal seria incapaz de se financiar. Com 14% da dívida pública portuguesa, os bancos nacionais (que já estão carregados de crédito malparado) estariam em situação dificílima.

No actual clima de instabilidade política e de nervosismo nos mercados, é pouco provável que a DBRS tome uma decisão que podia provocar uma crise financeira global, mas isso não melhora a situação portuguesa, apenas adia o choque com a realidade. É evidente que o actual Governo subestimou logo no início as dificuldades que enfrentava, tomando decisões que nos aproximaram da Grécia e nos afastaram da Irlanda. A tempestade perfeita ameaça fazer a sua devastação, maior ou menor, seja agora ou depois. As cinco fraquezas citadas no artigo estão ligadas entre si, e nenhuma se resolve em meses. Recomendo igualmente a leitura deste artigo de Rui Ramos.

 

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

As presidenciais francesas estão a entrar na fase de primárias e, como sugere a sondagem publicada no Le Monde, a esquerda enfrenta um cenário sombrio. Analisadas as diversas combinações de candidatos na primeira volta, os partidos da esquerda francesa não conseguem colocar um candidato no segundo turno. François Holande chega a perder entre os simpatizantes do Partido Socialista e também parece não ter sorte se as primárias envolverem toda a esquerda. Seja Alain Juppé ou François Sarkozy, o candidato republicano deve passar à segunda volta, onde enfrentará Marine Le Pen, que na maioria dos cenários vence a primeira votação das presidenciais, sempre a rondar 30%. O único candidato da área socialista que se aproxima dos republicanos em alguns cenários analisados é Emmanuel Macron.

Ainda é cedo para perceber para onde vai a França (as eleições só na Primavera de 2017), mas começa a parecer provável que o presidente seja substituído e que o país vire à direita. Alain Juppé será provavelmente o candidato em melhor posição para chegar ao Eliseu, pois o bloco de centro-direita ronda 25% e absorve o eleitorado centrista, garantindo até apoios à esquerda, que, por sua vez, está fraccionada em três grandes tendências: socialistas moderados, PS oficial e puristas ideológicos órfãos de 68. Sem candidato único, estas várias esquerdas estarão fora da segunda volta. A sondagem não nos dá informação sobre o que se passará no segundo turno, mas é provável que o candidato republicano vença Marine Le Pen, sobretudo se esse candidato for Juppé, figura moderada e afável que teria muitos votos socialistas.

 

Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

A Coreia do Norte tem um regime totalitário mal conhecido, baseado numa dinastia comunista que dura desde o final da Segunda Guerra Mundial e que vai no terceiro déspota da mesma família. Pouco se sabe sobre este país, excepto algumas notícias que vão escapando e cuja veracidade é difícil de avaliar: Por vezes, sabe-se de purgas nos altos escalões do regime ou de dificuldades económicas na província, mas é tudo demasiado turvo. Estive na Coreia do Norte em 1989 e pude testemunhar o grau de isolamento e a forma como a população é mantida na total ignorância sobre o exterior e sobre a sua própria história. O regime de Pyongyang é parecido com o mundo de 1984, o romance de George Orwell, pelo menos na manipulação e alteração da verdade.

É difícil ter certezas sobre a natureza dos acontecimentos ou as intenções do seu jovem líder. Kim mantém domínio absoluto sobre um exército gigantesco e procurou, desde o início do seu poder, desenvolver tecnologias nucleares e de mísseis balísticos, com resultados que costumam alarmar os vizinhos, sobretudo a Coreia do Sul e o Japão, a ponto de Pyongyang conseguir extrair compensações que garantiram até hoje a longevidade do regime.

Na madrugada de sexta-feira foi ultrapassado um novo patamar: a Coreia do Norte detonou uma bomba nuclear com potência de dois terços da explosão de Hiroxima e o engenho pode ser colocado num míssil, aumentando a capacidade de chantagem para um nível muito perigoso. É improvável que Kim Jong-un pretenda usar as suas bombas (terá material para meia dúzia, talvez mais), mas esta nova capacidade militar introduz uma insuportável incerteza em qualquer cenário de colapso do regime comunista coreano. Isto é parecido com a clássica cena de filme (mil vezes imitada) onde uma personagem maléfica tem na mão uma granada à qual tirou o pino de segurança; se um dos bons disparar contra ele, a granada cai no chão, explode e mata toda a gente; o mau sabe disso, o público também; a cena prolonga-se, aumenta a tensão, nunca adivinhamos como se resolve o impasse.

 

Sábado, 10 de Setembro de 2016

O primeiro episódio de Star Trek foi emitido a 8 de Setembro de 1966, o que motivou esta semana uma vaga nostálgica de evocações dos 50 anos da mítica série de televisão. Esta semana foi também lembrada a revolução cultural chinesa, igualmente por motivos de calendário: Mao Zedong morreu a 9 de Setembro de 1976, dez anos depois de ter desencadeado uma das mais estranhas purgas políticas da História contemporânea.

A revolução cultural foi lançada em meados de Maio de 1966, mas ganhou força entre Junho e Agosto, quando Mao conseguiu lançar milhões de jovens numa orgia de destruição de símbolos do passado. O seu objectivo era recuperar a pureza ideológica do partido comunista e reforçar o poder sobre a hierarquia chinesa, mas a natureza caótica do movimento sacrificou uma geração inteira, a loucura matou mais de 1,5 milhões de pessoas, o fanatismo teve um efeito devastador na sociedade chinesa e a ignorância destruiu património impossível de substituir.

Star Trek é um fenómeno oposto. A série de televisão sobre as aventuras de uma nave espacial e da sua tripulação começou por não ter grande popularidade: os cenários eram rudimentares, as personagens algo esquemáticas, as histórias relativamente superficiais. E, no entanto, ao longo das décadas seguintes, Star Trek transformou-se num fenómeno da cultura popular, com imagens que qualquer pessoa minimamente informada reconhece de imediato, mesmo quem não goste de ficção científica ou de romances de aventura. A série deu origem a filmes e é hoje um produto da indústria cultural de Hollywood, com alcance em todo o mundo, incluindo na China.

É interessante verificar que Star Trek é contemporâneo da revolução cultural. O território da imaginação, num caso, a ideia da destruição do passado, no outro. Star Trek é sobre a liberdade, a Revolução Cultural mostra como a liberdade, mesmo a do pensamento, pode ser frágil; os guardas da revolução atacavam desvios de comportamento, tentavam sobretudo destruir quem procurasse o recolhimento. Pensar era um crime. Recomendo a leitura deste brutal texto de Ferreira Fernandes. Também vi o fantástico documentário que o autor refere e que inspirou a crónica. Em relação ao texto, é impressionante o relato na primeira pessoa: no exílio em Paris, onde militava nos meios da esquerda radical, o autor foi expulso de um partido por ter na sua estante livros trotskystas.

Talvez a revolução cultural tenha sido mais humana do que nos parece: o fanatismo ideológico está ao alcance da pessoa mais inteligente. Na nossa realidade, Star Trek pode ser frívolo, mas diverte e existe, é um produto cultural aparentemente inócuo, que não tenta convencer ninguém das suas 'verdades'. Curiosamente, já não há lugar para as revoluções culturais dos anos 60, cheias de certezas, que tentaram apagar o próprio pensamento e onde se considerava que as pessoas são o que lêem. Estas ideias foram por enquanto derrotadas. Haverá melhor símbolo do triunfo esmagador do Ocidente?

 


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