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Delito de Opinião

O transparente-mor rendeu-se ao sistema

Sérgio de Almeida Correia, 06.03.25

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(créditos: Carlos Carneiro/Arquivo, JN)

Durante anos vimo-lo a comentar tonitruante, no seu estilo justiceiro, a falta de transparência e os conflitos de interesses de muitos políticos. Por vezes com razão, de outras nem tanto; não raro imputando factos e fazendo afirmações sem qualquer suporte, baseadas em meras convicções, suposições, rumores e falsidades. 

Ainda todos devem estar recordados do que ele disse e apontou a Adolfo Mesquita Nunes, ao tempo dirigente do CDS-PP, dizendo que este prestava assessoria jurídica directa a empresas, obrigando-o a vir defender o seu bom nome e a sua honra. 

Paulo Morais também concorreu a umas eleições presidenciais, ficando o resultado muito aquém das suas expectativas. E nesse seu combate, a dada altura, integrou a lista do partido político Nós, Cidadãos. Dizia o sujeito que era seu "entendimento que os partidos do sistema - do bloco total de interesses que se expressam no Parlamento, o PS, o PSD, O CDS, o Bloco e o PCP - já mostraram que não sabem dar conta do recado. É necessário que os cidadãos tenham uma alternativa sem terem de recorrer nem à extrema-esquerda, nem à extrema-direita. Os cidadãos sabem que têm aqui uma alternativa ao centro do espectro político e não estão a correr atrás de extremismos".

Todos os outros eram maus. Aquele é que era bom.

Depois, ainda apontou conflitos de interesses a deputados do PS, do PSD e do Chega e enviou uma carta a Ferro Rodrigues, ao tempo presidente da Assembleia da República. A Comissão da Transparência e Estatuto dos Deputados respondeu dizendo que todas a denúncias e alegadas incompatibilidades constantes da missiva que assinou estavam "devidamente registadas", haviam sido objecto de escrutínio pelo parlamento e não eram incompatíveis nem constituíam impedimento para quem não exercia o mandato em regime de exclusividade.

Pelo caminho acusou o Presidente da República de corrupção, e em Junho do ano passado, criticou a agenda anti-corrupção de Montenegro e as medidas da ministra da Justiça, continuando essa crítica em Dezembro, atacando Rita Júdice e escrevendo que "a corrupção em Portugal está em roda livre". A propósito da Lei dos Solos, já este ano, escrevia no Correio da Manhã que "vai ser um fartar, vilanagem". 

Mas esses foram outros tempos.

Agora o impoluto justiceiro e campeão da transparência, Paulo Morais, dá-se ao luxo de comentar a crise governativa.

Não vê qualquer conflito de interesses nem problema na situação do primeiro-ministro, não comenta a aquisição de imóveis no mínimo em circunstâncias estranhas, omitindo informação relevante, nem o facto daquele praticar um acto nulo de cessão de quota para disfarçar a sua posição societária, continuando essa sociedade, da qual, em rigor, nunca se afastou, a receber por interpostas pessoas, seus familiares, avenças da Solverde Casinos e de outras entidades por si angariadas, enfim, suportando as suas posições e criticando veementemente os partidos da oposição.

Só faltou dizer, com tanta transparência, que Paulo Morais se rendeu aos encantos de uma candidatura autárquica e que é o candidato escolhido pelo PSD, um dos tais partidos do sistema, do "bloco total de interesses", liderado por Luís Montenegro, à Câmara Municipal de Viana do Castelo.

O cheiro a mel e a proximidade do pote são infalíveis. Vale tudo.

Agora fui eu quem foi ao tapete. "Fiquei estarrecido" com este bípede.

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