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Delito de Opinião

O tigre de papel

Pedro Correia, 24.02.22

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A humilhante retirada do EUA e das "potências" europeias do Afeganistão só encorajou o ditador russo na sua estratégia - há muito delineada - de invadir e ocupar países soberanos que não se verguem à sua tutela, seguindo um guião que parece imitar o de Hitler na sua concepção de "espaço vital". Não a pretexto de reunir os povos germanófonos, mas russófonos. Não já de uma raça suprema, mas de um povo iluminado pela luz divina. Daí a Constituição em vigor na Rússia entoar hossanas à pátria «unida por uma história de mil anos, preservando a memória dos antepassados que [lhes] transmitiram os ideais e a fé em Deus».

Se esta concepção de relações internacionais prevalecesse, veríamos todo o nosso continente incendiar-se, com reclamações territoriais permanentes de parte a parte - de Gibraltar a Istambul, passando por Estrasburgo e Trieste. Como aqui escrevi em 1 de Setembro de 2009, ao cumprirem-se 70 anos do início da II Guerra Mundial, «a Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua» 

 

Putin ataca em larga escala a vizinha Ucrânia, despejando-lhe incontáveis mísseis de médio alcance, convicto da impunidade. Na certeza de possuir o maior arsenal atómico do planeta - exemplo supremo da razão da força, indiferente a qualquer força da razão. E tem a vantagem, relativamente ao genocida alemão, de estar sentado no chamado "Conselho de Segurança" da ONU, com direito de veto a qualquer decisão que possa lá tomar-se. Numa manifestação suprema de cinismo, aliás, invocou o artigo 51.º da Carta das Nações Unidas para ordenar a tomada da Ucrânia pelas armas. Imagine-se Hitler com idêntico poder formal de paralisar qualquer acção contra si próprio no inútil palácio de vidro em Nova Iorque...

Hoje na Ucrânia - após ter reduzido a Bielorrússia a um protectorado-fantoche, amanhã na Roménia e na Moldávia, depois de amanhã nos Estados bálticos e na Polónia. Quase numa repetição mimética do criminoso expansionismo nazi naquela terrível década de todos os perigos, há quase um século.

 

Os trágicos acontecimentos que presenciamos, vendo devorar uma nação europeia com 43 milhões de habitantes, não se esgotam nas três frentes de guerra na Ucrânia. Está em curso um sismo de máxima magnitude na geopolítica mundial, com a formação de um eixo Moscovo-Pequim, análogo ao pacto estabelecido em 1940 por Hitler e o seu fiel vassalo Mussolini (representado nos nossos dias por Lukachenko, o grotesto ditador bielorrusso) com os sinistros mandarins de Tóquio. Que mergulhou o mundo num cataclismo à escala planetária.

Poucos já se surpreenderão se o o drama ucraniano desta manhã venha a repetir-se num futuro próximo em Taiwan, com idêntica retórica imperialista e nacionalista a justificar as brutais acções de canhoneira. 

 

Num dia futuro, quando os historiadores fizerem o relato destes dias, aludirão ao prólogo. Escrito em Cabul, no Verão passado, quando os EUA bateram em retirada por ordem do patético "comandante supremo" em Washington, deixando aquele povo abandonado à sua sorte, engolido em novas trevas.

Demonstrando assim ao mundo inteiro que o autoproclamado "líder do Ocidente" mais não é do que um tigre de papel. 

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