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O sucesso é um fracasso adiado

por Pedro Correia, em 24.10.19

O que têm em comum livros como Guerra e Paz, Lolita, O Coração das Trevas, A Casa de Bernarda Alba, A Condição Humana, O Poder e a Glória, 1984, Admirável Mundo Novo, O Processo, Memórias de Adriano, Debaixo do Vulcão, Viagem ao Centro da Terra, Em Busca do Tempo Perdido, O Grande Gatsby, Servidão Humana, Música Para Camaleões, Longe da Multidão e A Oeste Nada de Novo? Foram todos escritos por autores que, podendo ter ganho o Prémio Nobel da Literatura, se viram privados deste galardão, do qual os académicos de Estocolmo não os acharam merecedores.

A lista de galardoados com o Nobel, que no campo das letras se destina a premiar anualmente “a obra que mais se distinguir, numa perspectiva idealista”, conforme Alfred Nobel deixou escrito em testamento, é – salvo raras excepções – uma antologia da ilegibilidade. Que começou aliás logo em 1901, com um poeta francês pouco menos que obscuro: Sally Proudhomme.

É uma lista que ignora a grande maioria dos gigantes da literatura do século XX, e mesmo de escritores do século XIX que ainda viviam em 1901: esquece Lev Tolstoi, Émile Zola, Joseph Conrad, Marcel Proust, Pérez Galdós e Thomas Hardy. E se até nem admira que nomes imensamente populares – como Júlio Verne, Somerset Maugham, Erich Maria Remarque, Georges Simenon e Conan Doyle – tivessem sido esquecidos pela exigentíssima Academia Nobel, outros estão ausentes da lista de premiados de forma quase escandalosa, como Henryk Ibsen, Rainer Maria Rilke, Pio Baroja e Anton Tchekov. Enquanto autores como Wladyslaw Reymont, Carl Spitteler, Karl Gjellerup, Verner von Heidenstam, Gerhart Hauptmann, Rudolf Eucken, Grazia Deledda e Giosuè Carducci integram a lista de premiados. Ninguém hoje os lê, e provavelmente ninguém nunca os leu, mas também já ninguém lhes retira a distinção que foi negada a Marguerite Yourcenar, José Lezama Lima, Malcolm Lowry, Paul Bowles, Ernst Jünger, Katherine Mansfield, Evelyn Waugh, John dos Passos, Tolkien, Italo Calvino e Norman Mailer.

 

250px-Jorge_Luis_Borges_1951,_by_Grete_Stern[1].jp

As omissões são, pelo menos, democraticamente distribuídas por diversos idiomas. A começar na língua inglesa, que não viu conferir o Nobel a autores como Henry James, Scott Fitzgerald, G. K. Chesterton, Aldous Huxley, D. H. Lawrence - ou até Jack London, de quem Lenine, no leito de morte, pedia que lhe lessem alguns dos trechos que mais admirava.

Da língua francesa estão ausentes autores como André Malraux, Marguerite Duras e Saint-Exupéry.

Entre os italianos, nenhuma menção a Cesare Pavese ou Alberto Moravia. Dos russos, nada de Vladimir Nabokov (que até escreveu principalmente em inglês), Marina Tsvetaeva ou Maiakovski.

Escandalosa também a omissão de grandes figuras da literatura de expressão espanhola, como Federico García Lorca, Unamuno, Rubén Darío, Julio Cortázar, Cabrera Infante, Antonio Machado e Juan Carlos Onetti. Ou da literatura germânica, como Franz Kafka, Robert Musil e Stefan Zweig. Ou mesmo da japonesa, como Yukio Mishima.

A língua portuguesa, que até hoje viu apenas reconhecidos os méritos de José Saramago (em 1998), é das que tem mais razões de queixa: a Academia Nobel ignorou Fernando Pessoa - o que até pode desculpar-se pelo facto de o autor de Mensagem ter sido quase nada publicado em vida. Mas também Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Clarice Lispector. Havia que premiar, em alternativa, ilustres desconhecidos, como Erik Axel Karlfeldt, Harry Martinson e Eyvind Johnson, representantes das línguas nórdicas, as mais favorecidas por Estocolmo.

 

2533[1].jpg

A lista de omissões é interminável. Inclui Virginia Woolf, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Raymond Carver, John Updike e Arthur Miller, por exemplo. Em flagrante contraste com Winston Churchill, galardoado em 1953, quando exercia pela segunda vez as funções de primeiro-ministro do Reino Unido – menos por motivos de ordem estética do que de ordem política.

Não deixa de ser irónico, já que muitos autores ficaram à margem do Nobel por motivos políticos – uns de esquerda, como Bertolt Brecht, Arthur Koestler e George Orwell, outros de direita, como Ezra Pound, Céline e Jorge Luis Borges. Embora Churchill escrevesse inegavelmente bem e até tivesse deixado um dos mais sábios conselhos de escrita aos seus leitores: «Das palavras, as mais simples; das mais simples, a menor.»

Graham Greene, uma das ausências mais imperdoáveis na lista dos premiados, encolhia os ombros em cada ano que passava sem lhe atribuírem o Nobel. E costumava afirmar: «Para um escritor, o sucesso é apenas um fracasso adiado.» De muitos que a Academia Nobel distinguiu não se pode dizer mais nada senão isto.

 

Imagens: Jorge Luis Borges e Graham Greene


30 comentários

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De Bea a 24.10.2019 às 00:12

O nobel da literatura deixou de me interessar. Os autores premiados raramente são os que prefiro, até por desconhecer a maioria.
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 10:45

Apesar de tudo, devo reconhecer, nos últimos dez anos o Nobel tem distinguido escritores com inegável qualidade. Como Orhan Pamuk, Doris Lessing, Vargas Llosa, Alice Munro e Kazuo Ishiguro. Escritores também com sucesso comercial, o que noutras épocas parecia causar fobia ao júri de Estocolmo.
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De Miguel a 24.10.2019 às 09:01

É verdade. Vou-me repetir, mas dificilmente o Kafka poderia ter sido premiado. O Processo, O Castelo, A América foram publicados postumamente. É uma enorme lista e de quase todos tenho um, dois, vários ou muitos volumes nas estantes lá em casa. É um prémio maior do que o Nobel, parece-me, ser escolhido pelos leitores. Sinto-me mesmo tentado a pensar que talvez seja uma distinção (para um grande escritor) não receber o prémio, e que, em último recurso, há o gesto de auto-defesa do Jean-Sol Partre de o recusar liminarmente. (Rubén em vez de Duben Dario).
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 10:46

Obrigado pela correcção. Por vezes as gralhas pousam nos textos e tardam a descolar. Como o seu Jean-Sol Partre bem demonstra.
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De Luís Lavoura a 24.10.2019 às 10:47

É um prémio maior do que o Nobel, parece-me, ser escolhido pelos leitores.

Casos de José Rodrigues dos Santos, Paulo Coelho, Margarida Rebelo Pinto, e outros grandes romancistas.
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De Miguel a 24.10.2019 às 12:10

Condição necessária, mas não suficiente - essa de ser escolhido pelos leitores. Condição suficiente: ser escolhido pelos bons leitores, aqueles que sabem o que é ler.

Harold B., ups, queria assinar: Miguel.
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De Luís Lavoura a 24.10.2019 às 12:43

Quem são "os bons leitores, aqueles que sabem o que é ler"?
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De Miguel a 24.10.2019 às 15:13

Os que escolhem os grandes escritores, quem mais?
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De Vorph Valknut a 24.10.2019 às 09:41

Excelente reflexão
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De Luís Lavoura a 24.10.2019 às 10:49

O sucesso nem sempre é um fracasso adiado: Thomas Mann teve grande sucesso logo com o seu primeiro romance ("Os Buddenbrook, queda de uma família"), e manteve sucesso ao longo do resto da sua carreira literária.
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 20:54

Há sempre uma excepção a confirmar a regra, como já os antigos ensinavam.
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De João a 24.10.2019 às 11:01

Parabéns, gostei muito. Uma excelente análise aos prémios Nobel da Literatura. Claro que a Vida é muito maior que os Nobel, mas ainda assim a divulgação mundial que proporcionam é importante.
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 11:35

Sem dúvida. E é salutar que estes prémios continuem a suscitar polémica. Sinal inequívoco de vitalidade da literatura, que alguns gostariam de ver como peça de museu.
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De Trigueiros a 24.10.2019 às 14:41

E ainda tantos outros autores, mas que talvez não encaixam neste universo da literatura como: Tony Judt, Eric Hobsbawm, Ian Kershaw, Hannah Arendt entre outros. Donos de obras fundamentais que dão a conhecer o mundo de um ponto de vista histórico.
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 16:13

Também, todos eles.
E filósofos como Karl Popper. E ensaístas como George Steiner.
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De Pedro Correia a 29.10.2019 às 23:36

Recordo aliás que alguns filósofos já foram premiados. Henri Bergson e Bertrand Russell, por exemplo.
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De Plinio a 24.10.2019 às 16:46

Caro Pedro Correia. Acrescento nas faltas Aquilino e Torga. E dos franceses houelebec ou como se escreve.
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 17:49

Tem razão. Aliás sobre Aquilino espero escrever muito em breve aqui no DELITO.
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De Plinio a 24.10.2019 às 18:40

Faz muito bem! Cordiais cumprimentos!
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De Pedro Correia a 24.10.2019 às 20:55

Assim não me falte o engenho e a arte (e o tempo).
Grato pelo seu incentivo.
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De Anónimo a 25.10.2019 às 14:13

Aquilino, muito esquecido. Até há pouco tempo, era impossível encontrar nas livrarias livros de Aquilino, incluindo na própria Bertrand, que o edita. lembro-me de que, em 2007, foi impossível encontrar "A Casa Grande de Romarigães", quando se completavam 50 anos sobre a sua primeira edição. Agora, parece que alguns romances estão a ser reeditados, a conta-gotas, e a "Casa Grande" até faz parte do Plano Nacional de Leitura.
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De Pedro Correia a 29.10.2019 às 23:22

Sim, mas o Plano Nacional de Leitura é uma espécie de sopa da pedra: cabe lá quase tudo. Tem 788 páginas. Mais grosso do que as listas telefónicas de antigamente.
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De Anónimo a 26.10.2019 às 14:20

A esses dois, eu juntaria Ferreira de Castro, um grande escritor injustamente esquecido, mas que chegou a ser o mais traduzido dos nossos autores.
🍁
Maria
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De Pedro Correia a 29.10.2019 às 23:23

Lembra muito bem, Maria.
Aliás tenho aqui três livros do Ferreira de Castro para ler ou reler. Até ao fim do ano.
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De Anónimo a 25.10.2019 às 12:21

E o Dino Buzatti na Itália, ou o Gore Vidal nos States...
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De Pedro Correia a 29.10.2019 às 23:23

Muito bem lembrados, ambos.
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De Anónimo a 26.10.2019 às 14:43

Pedro, eu li a Grazia Deledda e gostei muito (foi naquele tempo em que andávamos a ler os Nobel).
Nunca me esqueci do que ela escreveu quando viu o mar, pela primeira vez, aos 14 anos. Morava numa ilha (Sardenha) mas nunca tinha visto o mar; um dia partiu e nunca mais voltou a viver no interior...
Li-a numa edição brasileira que encontrei na biblioteca; recentemente descobri que a Inês Pedrosa anda a editá-la, tenho que comprar um livro dela.
Mas há tantos, tantos escritores que amei ler e não foram premiados... e o contrário também é válido.
E acontece o mesmo com os Óscares, cada vez ligo menos a isso.
🍂🍃🍂
Maria
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De Pedro Correia a 29.10.2019 às 23:35

Boa notícia me traz aqui, Maria. A ver se aumento a minha lista dos Nobeis já lidos. Ainda só inclui 51 escritores.
O primeiro terá sido Hemingway. A mais recente, Olga Tokarkzuc.

Ainda não há uma década de inteira com escritores "nobelizados" que eu tenha lido. A que anda mais próxima é a de 50: conheço Russell, Lagerkvist, Mauriac, Churchill, Hemingway, Ramon Jiménez, Camus e Pasternak. Faltam-me Laxness e Quasimodo.

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