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O Sequestro da Minha Mãe

por jpt, em 21.10.20

franz marc_Portrait of the Artist's Mother 1902.jpg

(A Mãe de Franz Marc, 1902)

A minha mãe Marília tem 94 anos. Há pouco mais de uma década que vive numa "residência". Foi ela e o meu pai António que nos anunciaram a sua opção de assim continuarem, suprema forma de consciência e, mais do que tudo, coragem. Alguns anos depois o meu pai morreu. Ela seguiu, continua. Cada vez mais só, desaparecida a sua geração, familiares, amigos, colegas, até alunas. Valem-lhe os bons cuidados "residenciais". E a estremosa filha, genro e noras. E tanto também o meu mano-velho, que o Atlântico apenas fisicamente aparta. Não tanto o meu angustiado descuido. E alguns lampejos de netos e bisnetos, em família carregada de emigrantes.

Desde Março que dela nos apartámos, em precauções até anteriores às normas estatais. Pois família informada e racional, e também de médicos, de gente nada negacionista dos cuidados face à gravidade disto que passamos. Depois, meses passados, já na alvorada do Verão, passámos a ter direito a visitá-la. Um visitante por semana, meia hora apenas, no exterior das instalações, no aprazível jardim. E em grupos íamos vê-la, alguns apenas à "paliçada" do jardim, saudávamos, a mostrarmo-nos, e falávamos breves minutos. Depois um de nós entrava para o breve período, conversando sob as árvores e junto ao lago onde tartarugas fazem as vezes da fauna bravia.

Há mais de dois meses surgiu um surto de Covid-19 na residência. Infecções em vários funcionários e em metade dos residentes, estes octogenários e nonagenários. Mas não na minha mãe. As visitas foram canceladas, mesmo aos residentes que não haviam sido infectados. Como é óbvio sem qualquer razão sanitária para a estes se lhes vedar as visitas, nos moldes sanitários vigentes. Mas compreendemos a angústia da instituição e a escassez de recursos humanos que adveio - e mesmo sabendo nós, até profissionalmente, que este isolamento nos idosos acelera, e muito, os síndromes demenciais.

Os residentes foram recolocados, apartando os infectados dos outros. E confinados aos aposentos. A minha mãe - pela primeira vez desde os seus tempos de estudante - passou a partilhar um quarto com uma "vizinha". Lamentou-se-me um pouco, dessa partilha de espaço e de ao quarto estar confinada. Bisneta de militar, neta e sobrinha-neta de militares, filha e sobrinha de militares - de oficiais da Flandres a cadetes do 28 de Maio, tantos depois coronéis que in illo tempore o meu pai, algo civilista, dizia que aqueles almoços de família lhe faziam pensar que estava na Grécia -, irmã de militar, mãe de militar, mãe, sogra, tia de vários mobilizados para as "guerras d'África", diante desse seu lamento, eu, o benjamim estapafúrdio apesar de já neste estado, mobilizei-a para a guerra: "Mãe, a senhora ao seu lado não é sua colega ou vizinha, é uma camarada, isso não é um quarto é uma camarata! Esta é a sua campanha, a guerra contra os Covid-19!". Numa réstia de força riu-se, de lá, num "é isso, filho, esta é a minha guerra!". Mas à minha irmã confessou-lhe, em visceral ironia, "aqui fechada no quarto estou a cumprir uma pena?".

Entretanto passaram meses, nenhum dos residentes infectados adoeceu. E cumpridas foram as sucessivas rondas de testes requeridas. E há já três semanas que não há qualquer razão para que se impeçam as visitas. A não ser as delongas burocráticas - dizem-me que as autorizações da Administração da Saúde, uma qualquer absurda "desinfecção do edifício", sei lá o que mais.  Entenda-se bem, a única razão para que não possamos visitar a minha mãe é o pânico institucional, a histeria. E a modorra burocrática. Uma mescla que é apenas crueldade. Inconsciente crueldade. E assim está a minha mãe sequestrada! Apenas isso, tudo isso. E, tão audivelmente, a definhar. Tão dolorosamente a definhar.

"Escreve", dizem-me, autorizam-me ... "escreves sobre tudo, escreve sobre isto", sobre o sequestro da minha mãe. E, decerto, o das mães e pais de tantos outros. Há semanas que o ensaio. Mas que dizer?, pois quando o começo só ouço Brel, o Brel do meu pai que me faz falta, o Brel do meu pai com a minha mãe. Porque ele cantou tudo isto, nisso dizendo o que era necessário. E cantou que fossemos homens. Sede-o, sejamo-lo. Conscientes mas sem esta absurda, disparatada, crueldade.


(Les Deux Fauteuils, original de 1953)

J'ai retrouvé deux fauteuils verts / Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père / Et le fauteuil de grand-maman // L'un est usé jusqu'à la corde / Souvent l'on dormit dans ses bras / Il est lourd de la sueur qu'il porte / C'est le fauteuil de grand-papa // L'autre presque neuf n'a de-ci de-là / Que quelques tache d'argent / Sur le dossier et sur les bras / Grand-mère y a pleuré dedans // Tout petit home de grande joie / Vous les connûtes encore amants / Se tenant tendrement les doigts / Disant les mots qu'on aime tant // J'ai retrouvé deux fauteuils verts /Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père /Et le fauteuil de grand-maman
 
 
E por isso prossigo: 
 
 
(Les Vieux, original de 1963)
 
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux / Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux / Chez eux, ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan / Que l'on vive à Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps / Est-ce d'avoir trop ri, que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier? / Et d'avoir trop pleuré, que des larmes encore leur perlent aux paupières? / Et s'ils tremblent un peu, est-ce de voir vieillir la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui dit: "Je vous attends"?
 
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit / Et s'ils sortent encore, bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide / C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide / Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", et puis qui les attend
 
Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps / Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant / Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère / Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer / Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin / Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin / Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui leur dit: "Je t'attends" / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non" et puis qui nous attend
 
E termino com o que é necessário:
 
 
 
(Le Bon Dieu, original de 1977)
 
Toi / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu f'rais valser les vieux / Aux étoiles / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu allumerais des bals / Pour les gueux // Toi / Toi, si t'étais l'Bon Dieu / Tu n's'rais pas économe / De ciel bleu / Mais / Tu n'es pas le Bon Dieu / Toi, tu es beaucoup mieux / Tu es un homme // Tu es un homme / Tu es un homme


26 comentários

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De Anónimo a 21.10.2020 às 17:01

Pois, mas apesar desta barbaridade, e da barbaridade que foi prenderem-nos a todos em nossas casas durante seis semanas, e da barbaridade que foi privarem todas as crianças de terem aulas durante seis meses, e da barbaridade que é prenderem pessoas saudáveis e potencialmente produtivas em casa durante duas semanas sempre que elas têm o azar de ser portadoras de um vírus que não lhes faz mal, apesar de todas estas barbaridades inomináveis, ainda há pessoas que continuam a gostar da Freitas, da Temido e do Costa, e que acham que eles têm gerido bem a epidemia.
https://duas-ou-tres.blogspot.com/2020/10/o-meu-direito.html
É claro, há ainda as pessoas (genericamente conotadas ou com o PSD ou com o BE) que não gostam da Freitas, da Temido e do Costa, e que acham que eles não têm gerido bem a epidemia porque não têm sido suficientemente rígidos, suficientemente inflexíveis, suficientemente duros, suficientemente ditatoriais.
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De jpt a 22.10.2020 às 10:21

obrigado pelo seu comentário
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De Anónimo a 21.10.2020 às 17:17

Boa tarde.
Cumprimento-o, respeitosamente, e como o compreendo.
Meu pai faleceu em Julho de 2011, e logo a seguir ao funeral, minha mãe negou-se a estar uns dias comigo antes de regressar à sua casa na Parede.
"Não filho, vou já para casa, a vida continua".
E assim continuou, em casa, com uma senhora uma vez por semana para limpezas e passar a ferro (hoje não se pode dizer mulher a dias), tratando da sua alimentação, de lavar a roupa na máquina nova que lhe comprei, tratando portanto da rotina caseira, visitando-a em regra uma vez por semana altura em que vamos ao supermercado, falando-nos ao telefone diariamente. Nos últimos 4 anos passou a ir sozinha ao supermercado, abriu um Continente a cerca de 40 metros de casa, pelo que me dispensou. Literalmente!
Na 2ª F a seguir à Páscoa de 2019 teve uma crise de arritmia forte, esteve 11 dias no hospital de Cascais, recuperou, e quando a fui buscar para minha casa, logo nessa noite - "Filho, já não consigo estar sozinha em casa, quero ir para o lar onde estava até há poucos dias a minha prima Lana".
E assim está num lar desde 31 de Maio de 2019, nesse que queria, em Lx, e desde 12 de Maio 2020 num melhor, a poucos metros de minha casa, visitando-a até há duas semanas na "Box das emoções", onde estamos separados por um vidro.
Completou 95 anos em 8 de Julho passado, continua felizmente muito bem de cabeça, com uma lucidez discernimento e memória extraordinárias. Mas apesar de ser uma senhora muito forte isto vai deixando mossa, devagarinho. Cumprimentos.
António Cabral
Ps: no meu blogue por mais de uma vez escrevi sobre "Lares", assunto sobre o que tenho alguma noção das realidades desde há 14 anos, por outras razões familiares.
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De jpt a 21.10.2020 às 21:02

Muitíssimo obrigado pelo seu comentário. Votos de boa saúde para a sua mãe e para todos os seus.
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De Carlos Sousa a 21.10.2020 às 17:23

Espero que um dia a contabilidade seja feita de forma séria e sem demagogias. E seja revelado o número de idosos que morreram de solidão nos lares, por causa da histeria do combate a esta pseudo pandemia.
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De Anónimo a 21.10.2020 às 17:52

Espero que a mãe tenha possibilidade de ler écrans. De ler o sentido post
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De jpt a 21.10.2020 às 21:04

Obrigado.
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De Luís Serpa a 21.10.2020 às 18:43

Isto é uma situação semelhante à do post sobre a tua filha, mutatis mutandi. Desta vez não te mando os parabéns, mando-te um abraço de empatia e deixo os comentários no saco,
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De jpt a 21.10.2020 às 21:04

Abraço
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De Vento a 21.10.2020 às 20:10

Lamento. Surpreende-me que a tal desinfecção não tivesse sido feita logo de início e durante o tempo em que permaneceram positivos os residentes e funcionários contagiados.

Decidido que o surto foi controlado, as visitas deviam ser retomadas. A não ser que na região haja focos preocupantes que tenham levado a ARS a manter a interdição de visitas. Assim as autoridades locais podem determinar esta medida, mas são as autoridades locais que determinam e não a "residência".

Votos para que tudo corra o melhor possível.
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De jpt a 21.10.2020 às 21:04

Obrigado. (Sim, o sentido do meu texto é relativamente às instâncias de um trôpego poder central e não do aquilatar do comportamento da instituição "residência", que cumpre o que há a cumprir, o melhor que lhe é possível, com dedicação e competência).
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De Pedro Correia a 21.10.2020 às 21:11

Muito bem. O teu texto, com entrada directa na futura antologia do DELITO DE OPINIÃO.

Muito mal, estas "autoridades" sanitárias que nos desgovernam, parecendo cada vez mais um bando de baratas tontas. E que vão condenando de caminho largos milhares de pessoas, já próximas do fim da vida, a uma espécie de morte antes da morte. A morte civil - longe dos afectos, longe dos olhares, longe do lenitivo da família, em reclusão sem fim à vista, cumprindo uma pena tendencialmente perpétua.
Sem terem cometido crime algum. E sem beneficiarem do apoio de "estruturas representativas" que façam barulho cá fora, dizendo o que se impõe em todos os jornais e todos os telediários: é inaceitável tratar assim os nossos mais velhos.
A menos que a idade avançada, nesta era covídica, se tornado crime. Já quase nada me admira.
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De jpt a 22.10.2020 às 08:10

Pois. Não quis nem quero utilizar esta situação (pessoal, familiar) para debater de modo abrangente a acção estatal e as práticas sociais diante desta praga. Como já várias vezes o referi aqui, a isso já me dediquei como amador, escrevendo um texto longo. O que tinha para dizer já lá está, e botei em Maio, não agora. Não mudei de opiniões - muito do que se propalou do "milagre é Portugal" foi pura campanha, demagógica. As autoridades estatais e do funcionalismo foram inicialmente trôpegas e continuam confusas - oito meses depois do surto em Itália continuam erráticas. E as pessoas continuam a louvá-las, o que é espantoso. Recordo que então dei o título de "P'ra melhor está bem, p'ra pior já basta assim" às 40 e tal páginas que escrevi. Que julgo bem denotativo do sentir geral relativamente às exigências de competência que fazemos ao Estado.

E porque face ao que botei no texto a objectividade, mitigada que sempre fosse, me falharia ao confrontar as reacções político-administrativas nesta situação familiar. Por isso não discuto temas que surgem noutros comentários (metodologias terapêuticas face ao Covid-19; políticas estatais de reserva ou de imunização generalizada; posições partidárias em Portugal; etc.).

Também por isso não me dediquei no texto - no qual quero alertar para como o funcionamento da burocracia estatal, algo lerdo, emana e subjuga as instituições de terreno com instruções erráticas e pesadas, algo irracionais - a uma descrição, etnográfica, dos passos das autoridades sanitárias. Que são de uma insuficiência clamorosa. Dou-te um exemplo: a 40 km de Lisboa, com ligação via auto-estrada, na quase cosmopolita "capital do surf", seis meses depois do surto de Covid na Europa e cinco depois do confinamento, numa instituição de cuidados à terceira idade surge um infectado num sábado. É hospitalizado numa terça-feira. Os testes às outras dezenas de colegas e residentes aconteceram no ... sábado seguinte. Os resultados na semana subsequente. Isto exclusivamente por responsabilidade das autoridades sanitárias distritais, nada a ver com a instituição cuidadora. Falta de recursos, técnicos ou humanos, decerto. Mas isto é atroz, tétrico.

Entretanto as famílias (a "sociedade civil") calam-se, temerosas pelos seus mais-velhos. Tanto pela sua saúde como pelos efeitos que os protestos podem ter no futuro. Os jornalistas distraem-se, na "tonitruência". A população em geral crê na "tv, rádio e cassete privada". E os políticos promovem discursos falsários.
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De Vento a 22.10.2020 às 10:06

"Entretanto as famílias (a "sociedade civil") calam-se, temerosas pelos seus mais-velhos. Tanto pela sua saúde como pelos efeitos que os protestos podem ter no futuro."

Fica implícito o medo nessa afirmação. O problema nesta matéria é que as instituições (estado e as da sociedade civil), neste caso as residências, em regra possuem os mesmos tiques. Isto é: criam regras por forma a não se fiscalizarem.
O estado legisla, e julga que a legislação se resolve somente quando há denúncias e negligencia a sua parte na fiscalização.
As residências pensam que sua tarefa se resume a uns cantares e proporcionar alimento, transformando-se assim em depósitos de proscritos sem que se respeite a cidadania, as características individuais do utente e o seu projecto de vida, pois elas não morrem ao entrarem para uma hospedaria. Ainda que possa haver abraços e beijinhos, muitas vezes para encapotar deficiências que são aspectos ultra-substantivos.
As famílias, vão na banguela ou porque não podem ou porque não querem cuidar de seus idosos.
E cuidar de seus idosos é também exercer a acção de fiscalização e as necessárias pressões que que os idosos nos lares sejam vistos, respeitados e cuidados não como pessoas institucionalizadas, mas como pessoas que ao seu cuidado foram confiadas para que sua vida continue e seu projecto seja respeitado, em todas as fases de sua condição, mesmo com perdas seríssimas de sua condição cognitiva.
Para que isto aconteça não menos importante é que a classe médica se oponha à intoxicação das pessoas através de drogas, agravando suas condições e impedindo suas reacções, direccionando os cuidados sanitários para aspectos científicos e objectivos: a questão psicossocial, a sua continuada integração no meio envolvente, a manutenção dos estímulos de memória e cognitivos e as caminhadas; coadjuvada pela presença dos familiares.
O aspecto motivacional para que estas medidas sejam implementadas é determinante.

Por isto o medo é uma falácia e por vezes está aí para encapotar o egoísmo, isto é, para quê chatices se o que se pretende é livrar de chatices.
A Covid não é obstáculo para que se faça este trabalho com seriedade. A sociedade está, por isto, no banco dos réus.
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De jpt a 22.10.2020 às 10:27

Vento, os problemas que levanta são absolutamente pertinentes. Eu não vou os debater agora, aqui, pois poderia dar a entender que estou a reclamar das duas instituições nas quais a minha mãe (e o meu, na primeira) esteve e está. O que de facto seria uma flagrante injustiça.

Mas sim, em termos gerais, as questões coloca (o viés para uma espécie de "instituicionalização" dos residentes, o medo dos residentes e, acima de tudo, dos familiares em exercerem os seus direitos de cidadania crítica - é uma actividade económica na qual os clientes estão imensamente dependentes, dados os custos, a exiguidade da oferta e a necessidade da "procura" -, a sobre-sedação tão comum, etc.) são assuntos gravíssimos e urgentes para serem debatidos. Não só pelo presente como também para o futuro, num país tão envelhecido. Talvez que esta crise Covid nos possa servir de trampolim para um verdadeiro debate nacional sobre o assunto - não um "debate" palavroso, mas uma inflexão societal, um encarar verdadeiro da situação.
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De Vento a 22.10.2020 às 10:39

"é uma actividade económica na qual os clientes estão imensamente dependentes, dados os custos, a exiguidade da oferta e a necessidade da "procura""

Tocou em um outro aspecto substantivo. Na realidade é uma actividade económica, mas não se pode traduzir num negócio que deliberadamente produza perdas e graves consequências aos utentes.
A lei da oferta e da procura, depois que um utente é admitido, não se pode colocar, pois as deficiências dessas actividades económicas não podem ser resolvidas pela mudança do utente para outra residência, por vezes que sérios riscos de nova readaptação, mas TÃO SIMPLESMENTE por obrigá-los a cumprir com o que deve ser feito.
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De jpt a 22.10.2020 às 12:49

tem toda a razão. Aliás neste caso a sacra "lei da oferta e da procura" é um mito.
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De Anónimo a 21.10.2020 às 23:13

"aqui fechada no quarto estou a cumprir uma pena?"

E por que não resgatá-la? Talvez você, a estremosa filha, genro e noras possam cuidar dela à vez e libertá-la do presídio?

Saúde.
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De jpt a 22.10.2020 às 08:11

Ou talvez não.

Votos de saúde. E de nome.
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De Elvimonte a 22.10.2020 às 00:48

Como filho, encontro-me em situação idêntica. Mas o meu comentário pretende ir para além de aspectos emotivos, centrando-se antes no pragmatismo e naquilo que a ciência tem para nos oferecer.

Porque se alude a militares e a campanhas militares, socorro-me de analogia que por diversas vezes já usei em conversas.

Perante invasão inimiga, admito e advogo que se cavem trincheiras e se remeta a população para abrigos seguros. No caso desta epidemia, as trincheiras serão as máscaras e o distanciamento físico, sendo os abrigos seguros o confinamento. As chamadas medidas não-farmacêuticas.

E o que devemos fazer com os nossos exércitos? Será que lhes devemos fornecer o armamento e o equipamento adequados para combater o inimigo? Nas infecções os nossos exércitos são os nossos sistemas imunitários. Sistemas que funcionam como autênticos exércitos militares, com informações, comunicações, logística, artilharia e infantaria.

Quem são os incompetentes que negam os meios, o equipamento e o armamento necessários aos nossos exércitos para que eles nos possam defender? Quem é essa gente que nos quer deixar, por omissão, à mercê do inimigo?

Não é por acaso que, em fragmento de conferência de imprensa que vi e de acordo com a Business Insider, se afirmava:

«The physician's statement said Trump "remains fatigued but is in good spirits." Conley added that the president has also been taking zinc, vitamin D, famotidine, melatonin, and a daily aspirin.»

Conley, o médico da Casa Branca, fruto da literatura científica que lê ou de que outros lhe apresentam síntese, está muito bem informado sobre o "state of the art" em matéria de medidas farmacêuticas profilácticas de combate ao SARS-Cov-2. Medidas que fornecem os meios, o equipamento e o armamento necessários, embora possam não ser suficientes, para que os nossos sistemas imunitários possam combater o vírus.

Compare-se aquilo que o presidente dos EUA andava a tomar com a parte profiláctica do protocolo de tratamento MATH+, com origem na East Virginia Medical School e que se encontra neste link:

https://www.evms.edu/media/evms_public/departments/internal_medicine/EVMS_Critical_Care_COVID-19_Protocol.pdf (MATH+)

Sim, a vitamina D, porque essencial para o bom desempenho do sistema imunitário em concentrações na gama 40 - 60 ng/ml ("for optimum immune system and cancer fighting"). Sim, o zinco, porque desempenha papel essencial na imunidade viral. Sim, a melatonina, porque é um ionóforo do zinco. Sim, a famotidina, porque inibe mecanismos de infecção.

(continua)
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De Elvimonte a 22.10.2020 às 00:49

(continuação)

Para combatermos o inimigo os nossos exércitos têm que dispor destas armas, de efeitos bem documentados na literatura científica. E eventualmente de outras, também elas baratas e de efeitos comprovados, que não pretendo ser exaustivo.

PS - A minha mãe anda a tomar algumas das substâncias referidas, nomeadamente vitamina D, porque não apanha Sol.

PPS - Dos cerca de 200 artigos científicos e jornalísticos que já li sobre assuntos relacionados com a COVID-19, deixo alguns títulos e links, muitos deles já mencionados por mim neste blogue.

"Correcting Britain's Vitamin D deficiency could save thousands of lives
A groundbreaking new study points to a cheap, safe, effective way of tackling Covid"
https://www.telegraph.co.uk/news/2020/09/26/correcting-britains-vitamin-d-deficiency-could-save-thousands/

"The Possible Role of Vitamin D in Suppressing Cytokine Storm and Associated Mortality in COVID-19 Patients"
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.08.20058578v4

"Vitamin D controls T cell antigen receptor signaling and activation of human T cells"
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20208539/

"Vitamin D Insufficiency is Prevalent in Severe COVID-19"
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.24.20075838v1

"Effect of Calcifediol Treatment and best Available Therapy versus best Available Therapy on Intensive Care Unit Admission and Mortality Among Patients Hospitalized for COVID-19: A Pilot Randomized Clinical study"
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960076020302764

"Zn2+ Inhibits Coronavirus and Arterivirus RNA Polymerase Activity In Vitro and Zinc Ionophores Block the Replication of These Viruses in Cell Culture"
https://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.1001176

"The Role of Zinc in Antiviral Immunity"
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6628855/

"Famotidine use and quantitative symptom tracking for COVID-19 in non-hospitalised patients: a case series"
https://gut.bmj.com/content/69/9/1592

"Efficacy of Famotidine for COVID-19: A Systematic Review and Meta-analysis"
https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.09.28.20203463v1
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De jpt a 22.10.2020 às 08:11

Votos de saúde para a Senhora sua mãe. E para toda a restante família. Cumprimentos.
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De Anónimo a 22.10.2020 às 09:43

Correcting Britain's Vitamin D deficiency could save thousands of lives

Os britânicos têm deficiência de vitamina D? Por quê? Não são eles bem (até demasiadamente bem) alimentados?

Pode-se argumentar que é por não apanharem muito sol. Mas, há muitos outros países em que o sol também é raro. Em todos eles há deficiência de vitamina D? Em todos eles as pessoas estão exageradamente em perigo de morrer com o vírus?
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De Elvimonte a 22.10.2020 às 11:04

"Vitamin D deficiency 2.0: an update on the current status worldwide"
https://www.nature.com/articles/s41430-020-0558-y.pdf

"Vitamin D deficiency in Ireland – implications for COVID-19. Results from the Irish Longitudinal Study on Ageing (TILDA)"
https://tilda.tcd.ie/publications/reports/pdf/Report_Covid19VitaminD.pdf

"The invisible pandemic"
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31035-7/fulltext

"Immunologic Effects of Vitamin D on Human Health and Disease"
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7400911/

"Vitamin D Status and Risk of All-Cause and Cause-Specific Mortality in a Large Cohort: Results From the UK Biobank"
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32620963/

Nos artigos referidos encontra resposta para todas as suas questões. É só ler.

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