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O secretário-geral do PSD

por jpt, em 13.03.18

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A casa nem é pequena, e sobram-me as divisões pois eu aqui sozinho num a caminho de solitário. Ainda assim rearrumo-a, reordenando-a em modo (até desesperado) de me reordenar. Implica isso deixar sair mobílias dos meus predecessores, progenitores, meus e deles, assim qual ecdise, e tantas loiças, estas em notório e definitivo desuso, por ausência de quem delas se saiba servir. E todo este bric-a-brac, para além da imensa tralha que as décadas fizeram acumular, tanta dela morta por desaparecidos os detentores dos segredos que lhe dava um qualquer sentido, mínimo que fosse. E, mais do que tudo, metros e metros cúbicos de papel. Há décadas Eco gozou com a ilusão, doentia, de acumular fotocópias como se isso equivalesse a adquirir o conhecimento que continham. E sofri eu dessa miragem, mania mesmo. Partidos já foram caixotes de lixo delas carregados, e de dezenas de malvados dossiers, de armações enferrujadas e capas amarrotadas. Nisso nada tendo perdido pois, ainda que descreia que voltarei a leccionar, desadequado que fiquei, tudo o que larguei fi-lo após o ter gravado na internet, naquilo do "download pdf", um talvez patético, ou nem mesmo talvez, "nunca se sabe...". E há os livros. Aos meus, do Abeles ao Zumthor, neste 18 ainda os pouparei, ainda que tantos deles também ali à merce do "clic" "download". Mas hesito nas estantes de literatura pois, ainda que Borges tenha avisado que após os 50 um tipo só deve reler, há por aqui tanta coisa que larguei sem mesmo terminar, tanto livro "imprescindível", tanta "revelação", afinal só meus erros de "casting", aliás erros de "bookcasing", que talvez esteja no momento de os fazer partir. E há os livros velhos, os dos antepassados, tantos deles apartados dos meus interesses e desta época, que fazer das estantes dos ensaios, mais ou menos apocalípticos ou regeneradores, da editorial Estampa e similares, pré e pós-25 de Abril, tiragens vultuosas a cujos remanescentes a minha geração não sabe o que fazer? Ou às divulgações científicas de quando se encetava a "cibernética"? E os mais antigos, que destino dar aos missais de XIX, às esfareladas edições também oitocentistas das obras (completas?) de Camilo, Garrett, Herculano, Dinis, e outros tão mais obscuros,  já para não falar das estantes preenchidas "preciosidades", disseram-nas em tempos idos, como as obras completas do cardeal Saraiva ou o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, e tanta outras coisas da "construção da nação" daquele então, nada disto encadernado, com letras doiradas de preferência, pois livros que foram de uso, lidos e consultados, assim nada interessantes para aqueles, já poucos, que ainda julgam produzir estatuto na posse de livros velhos adornados de antigos? Mais fácil, porventura preconceito meu, é o enfrentar as estantes e gavetas de revistas, colecções desirmanadas. Pois preservarei até à morte a minha completa do "Tintin" e o legado recebido das (incompletíssimas) "Papagaio" e "Mosquito". Mas as restantes, literárias com vultos que não vieram a ser, económicas cheias de ciclos concluídos, de relações internacionais desacontecidas, de artes obscuras ou viagens afinal nada aventureiras, a tudo isso digo adeus. Com pena, mágoa até, não pelo papel que assim parte mas pela ausência de quem as comprou. Leu e guardou. Por isso, só por isso, antes de as empilhar folheio-as. Por vezes procurando adivinhar o que terá realmente interessado. Outras atentando nos sublinhados e, até, nas de tempos mais-recentes, nos post-it afixados. 

Hoje deparo-me com alguns exemplares desta Mealibra, a qual desconhecia, revista do centro cultural do Alto Minho, publicada quando vivia eu em Moçambique. Num dos números, de 2008, um painel vasto e apetitoso de colaboradores, logo à partida Llansol (trechos inéditos) e João Barrento, e por aí adiante. Lá mais para a frente apanho uma crónica de Onésimo (Teotónio Almeida) e vou logo ler, que dele abundam pérolas, e procuro nada perder. Começa logo assim "Não "armar" deve ser a regra número um de qualquer texto na primeira pessoa. A segunda deve ser algo como "se armares, que seja em bombo da festa."". Rio-me, do certeiro que o "ó Nézimo" sempre vem, naquela sua ironia bem-disposta. Iluminadora, para não dizer iluminista. E, sabe-se lá porquê, lembro-me do novo secretário-geral do PSD (ainda o é?).

Depois arrumo as revistas. Não é desta que as deitarei fora. Pois, afinal, ainda tão actuais. 

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